domingo, 30 de outubro de 2005

O Topónimo "Brasil"

deixem-me ser um pouco heterodoxo. na verdade, sempre ouvi contar outra estória sobre a origem da palavra Brasil... mas é que não tem piada e se calhar nem está certa.
seja como for, sempre os nomes que botaram ao lado de lá tiveram seu quê de mistério. vocês acreditam em mistérios?
o primeiro nome do Brasil foi Terra de Vera Cruz . quer dizer: "terra da verdadeira cruz". porquê verdadeira? será que havia outra cruz e que era falsa? havendo uma falsa, só podia ser a mais conhecida (*); de outro modo pra quê explicitar o óbvio?
e quanto a Brasil: não é que na Ilha Terceira, em Angra do Heroísmo, há um Monte Brasil? podem contar todas as estórias a respeito disso, que eu não vou acreditar.
o que há entre Brasil e Monte Brasil? ambos ficam além, a partir deste lado do mar. e daí?
daí, os Celtas da Irlanda, muito antes do achamento da América, acreditavam que do lado de lá do Mar Oceano havia uma grande ilha ocidental a que chamavam Bre'asil.
para remate, voltando a onde comecei, imagino que a estória do "pau brasil" esteja invertida: que é o pau que deve o nome ao Brasil e não o Brasil que deve o nome ao pau.


sei que vão dizer que escrevi esta postagem com erros. é do jeito que eu sei que leram o meu blogue.
.....................................................

(*) a cruz celta, claro...

"Além" e "Aquém" : a partir do quê, a partir de onde?

os topónimos "Além" e "Aquém", simples ou compostos (às vezes com determinativo), levantam sempre a questão de saber a partir de onde se dá o nome a esse "além" ou a esse "aquém", a esse "diante" ou a esse "trás", a "esta" ou à "outra". vejamos onde está o ponto de onde a gente se refere para dizer "aquém" ou "além", "diante" ou "trás", "esta" ou "outra":

Além
Além do Rio
Além Parte (Gz.) - graf. altern: Alemparte
Além Tâmega
Alentejo (Além-Tejo)
A Outra Banda
Cruz da Légua (légua a partir de onde?)
Dianteiro
Gafanha de Aquém
Povo de Além
Trás-os-Montes
Vale de Além

acharam? embora não pareça, "trás-os-montes" é o mais difícil.



domingo, 23 de outubro de 2005

A Palavra "Pai" na Toponímia Galego-Portuguesa

encontro na toponímia galega e portuguesa, em diferentes regiões, nomes de aldeias ou lugares como "Pai Água", "Pai Cabeça", "Pai das Donas", "Pai de Aviz", "Pai do Vento", "Pai Mogo", "Pai Penela". o Pai aqui é mais que um, vem do latim pagii, plural de pagus, e significa "aldeias". são, realmente, topónimos de pequenas aldeias ou lugares, que, pela sua estreita proximidade com o latim, devem ter estado séculos isolados do resto do mundo e da erosão linguística.

com a amável colaboração de Calidonia *(Gz.) posso elaborar a seguinte lista:

A Paioca *(Gz.)
A Paiola *(Gz.)
Aspai *(Gz.) - (?)
Casalpaio *(Gz.) (é, de certo modo, um pleonasmo, coisa frequente em toponímia)
Espai *(Gz.) - ?)
Espailde *(Gz.) - (?)
Pai Água
Paião - lugar habitado por gente oriunda de um "Pai"?
Pai Cabeça
Pai Calvo
Paicordeiro (Gz.)
Pai da Cana (Gz.)
Pai das Donas
Pai de Aviz
Pai do Vento
Paiendes *(Gz.)
Pai Espada (ver post "Espadacinta")
Paíme *(Gz.) (?)
Paínho ou Paiinho - diminut. de "Pai"
Pai Mogo
Paiões - "oriundos de Pai"?
Paiola
Paiolante *(Gz.)
Paiosaco *(Gz.)
Paipenela
Pai Penela
Paisás *(Gz.)
Paíseo *(Gz.)
Pai Torto
Paizás ou Paiçás *(Gz.)
Paizosa ou Paiçosa *(Gz.)


mais "Pais": ver Comentºs de "O".

O Topónimo "Árvore"

o topónimo "Árvore" encontra-se associado ao mar ou ao curso final de um rio, situado de tal jeito que o mais difícil é não nos ocorrer que se refira a um "porto". mas, sendo assim, de onde vem a "árvore"? se nos lembrarmos de "Le Havre" e de "Harbour", a ligação entre uma coisa e outra ganha consistência.

quinta-feira, 20 de outubro de 2005

Os Galegos na Toponímia Portuguesa

a expansão do Condado Portucalense para Sul, a aniquilação progressiva do Império Árabe e a criação do Reino de Portugal originaram uma rarefação populacional importante, que foi necessário suprir com povoadores oriundos de Castela ("Castelões"), das Astúrias ("Estorãos", "Esturãos"), do País Basco ("Biscaia", "Biscainhos", "Vasconha", "Nafarros", "Navarra"), de França ("França", "France", "Francelos", "Franciscos", "Francos", "Franqueira"), de Borgonha ("Vergonha"), de Sabóia ("Sabóia") e, sobretudo, da Galiza. e a toponímia portuguesa regista abundantemente a chegada e fixação no território desses povoadores patrícios vindos da Província Norte-Atlântica.

ver também Comentº de Calidonia: Lombo dos Galegos (Md.)


conforme a época em que chegaram e o local escolhido para ficar, encontramos "Aldeia Galega", "Galegos", "Galegos da Serra", "Galiza", "Galizes", "Golegã" (de Galegana), "Limãos", "Limões" (os dois últimos referem-se ao vale galego do Rio Lima), "Ourentã" (de Ourense? "Ourentana" ou "Ourensana"?), "Vilarinho dos Galegos"...

um caso curioso é o de São Félix dos Galegos (San Felizes de los Galegos), aldeia fronteiriça da província de Salamanca. foi portuguesa de 1297 (tratado de Alcanizes) a 1476, tendo o seu castelo sido erigido por D. Dinis.

claro que não conto aqui os irmãos galegos que se estabeleceram a título individual no nosso país, sobretudo em Lisboa. embora sejam em grande número, a toponímia não se ocupa deles, se bem que algumas cidades e vilas possam registar, nas suas ruas, praças e largos, o nome de alguns galegos que nelas se distinguiram .

quarta-feira, 19 de outubro de 2005

"Coselhas" e "Portela da Cobiça"

nos arrabaldes de Coimbra, melhor dizendo, no perímetro actual da cidade, há dois topónimos curiosos que bem retratam as características dialectais do falar coimbrão, sobretudo na peculiar alternância da pronúncia de certas vogais, como "o" / "a" e "i" / "e".
assim se tranformou a pronúncia de "Caselhas" (pequenas casas, "casillas" em cast.) em "Coselhas" e "Portela da Cabeça" (Portela do Cimo) em "Portela da Cobiça".
faz sentido.


"Riba d'Ave" ou "Riba de Ave"? "Mira d'Aire" ou "Mira de Aire"? "Barca d'Alva" ou Barca de Alva"?

anda por aí uma praga de correctores de tabuletas que a pouco e pouco ainda destrói a nossa Língua. deu-lhes para corrigir o d' . e agora? se uma douta placa de cimento tem escrito "Riba de Ave", onde antes estava "Riba d'Ave", acontece o quê? que quem não é de lá, e por força do que ainda resta da lógica interna da nossa língua, leia "Riba di Ave" para escapar ao hiato impronunciável. e o mesmo acontece com "Mira di Aire" para ler "Mira de Aire". e com "Barca di Alva" para ler "Barca de Alva". se o problema é do apóstrofo, então escrevam "Ribadave", "Miradaire" e "Barcadalva". tem precedentes e não trai a Língua.



nota (1/10/2006): entretanto, alguém pensou o mesmo que eu, pois já encontro por aí escrito "Miradaire". como sou nortenho, da bacia do Ave, espero que alguém se lembre de acudir a Ribadave.

"Sernache" ou "Cernache"?

ultimamente, sem fundamento que se enxergue, as placas toponímicas deram a exibir, da sua preclarissima cátedra, a grafia "Cernache" onde antes figurava "Sernache". Quem tem razão?
fomos procurar as palavras da mesma família: "Sarnadela", "Senra" (Galiza e Port.), "Serna" (Esp. e Port.), "..ernache", "Sernada", "Sernadelo", "Sernalhoso", "Sernancelhe *", "Sernelha". são topónimos com base em "Serna" ou "Senra", que significa "terreno de semeadura", "seara", com origem no vocábulo pré-romano senara. os sufixos "-ache", "-ada", "-elha", "-elhe", "-êlo", "-oso", ou indicam quantidade ou são diminutivos e, além disso, dão-nos informações sobre os hábitos linguistico-dialectais da população que estabeleceu o topónimo.
a fazer fé na nova grafia "oficial" (?), teríamos então "Ceara", "Cemeadura", "Cenra", "Cerna", "Cernache", "Cernada", "Cernadelo", "Cernancelhe", "Cernelha".
Gostam?... Moi non plus!

ver post




* "Sernancelhe" não parece fazer parte deste grupo. tem sido apontado como provindo de "Seniorzelli".


(...a continuar...)






terça-feira, 18 de outubro de 2005

onde começa e termina o Rio Minho

o Rio Minho nasce na Serra de Meira, na Província Galega de Lugo, numa charca borbulhante onde crescem nenúfares e outras plantas palustres. A essa charca lhe chamam "Fontemiña" ou Fonteminha", ou "Fonminha", que quer dizer fonte ou nascente do Minho. fazendo o caminho que lhe foi destinado, cumpre o Rio Minho a sua sina aos pés de Santa Tecla e de Caminha, que quer dizer "Bucca Minia", "a Foz do Minho". ou seja, como qualquer rio digno desse nome, o Rio Minho nasce na "fonte" e desagua na "foz". nem mais, nem menos. que mais queriam?

O Topónimo "Ponte"


sendo um elemento arquitectónico essencial para assegurar a travessia de rios e ribeiros, a ponte constituiu desde sempre um fator de libertação e de fascínio, símbolo de outras travessias do destino do Homem. Em Roma, o "pontifex", o "fazedor de pontes", o detentor das chaves que lhe davam acesso, era, tal como Pedro o apóstolo, o sacerdote dos sacerdotes, hoje em dia representado pelo Papa.
no tempo em que se pôs o nome a todas as coisas e lugares, as pontes eram por si só suficientemente importantes para designar o sítio onde as construiam.
este topónimo tem a característica de assinalar locais de passagem de antigas linhas viárias.
consoante a língua que lhes pôs o nome e as particularidades arquitectónicas, históricas ou geográficas, assim ficaram na toponímia registadas como :

Alcântara

Alcantarilha (espécie de "ponte ao contrário", é uma construção que permite o cruzamento de um canal por baixo de uma estrada)

As Pontes (Gz.)
Pontão
Ponte Barxas (Gz.)
Pontecesures (Gz.)
Ponte da Barca
Ponte da Misarela
Ponte da Mucela
Ponte das Três Entradas
Ponte de Lima
Ponte de Prado
Ponte de Serves
Ponte do Bico

Ponte do Boitaca - do nome do arquitecto francês Boitac que a terá construído e que construiu, ali ao pé, o Mosteiro de Santa Maria da Vitória ou da Batalha

Ponte dos Mouros
Pontes
Pontevedra ou Ponte Vedra (Gz.)
Pontével
Ponte Velha - o mesmo que "Ponte Vedra", mas linguisticamente mais nova
Pontinha

este tópico foi retomado posteriormente, aqui.

segunda-feira, 17 de outubro de 2005

A Senhora Mãe na Toponimia

encontramo-la por toda a parte. no Minho, nas Beiras, na Região Saloia, no Alentejo, enfim: é a nossa Mãe. chamam-lhe a manifestação de um antiquíssimo "culto da fertilidade". nome por nome, prefiro o de Senhora Mãe.
aparece sob as formas que mais bem traduzem as fases vitais da Terra e da Mulher, que ciclicamente se repetem, permitindo os rituais e as liturgias que fazem a ponte entre o irracional e a razão, dando sentido à vida, ao prazer, ao sofrimento, à doença e à morte.
"Senhora das Dores", "Senhora dos Prazeres", "Senhora do Ó", "Senhora da Hora", "Senhora do Leite", "Senhora da Saúde", "Senhora da Agonia", "Senhora da Boa Morte".
sob outras invocações, a Senhora Mãe aparece onde brota a fonte da vida, a água, ou onde a vida começa a explodir em mil e uma formas. é a "Senhora da Peneda", a "Senhora da Abadia", a "Senhora do Porto d'Ave".
ver mais aqui.


sábado, 15 de outubro de 2005

O culto das "cruzes", encruzilhadas ou cruzamentos

no tempo em que devagar se ia longe, os caminhos da terra confundiam-se com os caminhos da alma. o mundo exterior era uma representação simbólica do mundo interior. viajar era contemplar, de uma só vez, a luz exterior e a luz interior, as sombras de fora e as sombras de dentro, os monstros da terra e os monstros da alma. e a alma em viagem tinha consigo a representação do mundo superior, o mundo do além em movimento, a companhia dos que viveram e partiram primeiro, a gritaria de deuses e demónios, das almas em transe, dos espíritos em paz ou em desgraça. por isso tinha tanta importância uma encruzilhada, um encontro ou um cruzamento.
estavam assinalados, autênticos sinais de trânsito de meditação e demora. umas "alminhas", um "cruzeiro", uma "capela", com velinhas ardendo noite e dia, um montão de pedras que crescia a cada novo passante. Eram os "Cruzes", "Encontros", "Encruzilhadas", "Entroncamentos", na estrada e na vida. levou algum tempo a perceber que as "Cruzes" se referiam ao "Cruze" (cruzamento) e não à "Cruz" que as assinala. mas é "Cruze" , "Cruce", e não "Cruz" o que encontramos no resto da Península.

a população anterior à chegada dos romanos marcava os cruzamentos com montinhos de pedra com que sinalizavam as direcções principais. esses montículos tinham tamém uma função religiosa. os romanos mantiveram essa função, dedicando, pelo menos os mais importantes "cruzes", à invocação de Mercúrio. na época cristã tiveram direito a uma cruz ou a umas "alminhas". isto parece bem representado num cruzamento perto de Coimbra, chamado "Cruz de Morouços". nesse cruzamento há uma capelinha, vestígio desse culto ancestral. e o nome "Morouços" evoca a presença desse "montinho de pedras" que assinalava o "cruze".

Vemos por aí:

Cruz,
Cruz d'Argola,
Cruz da Armada,
Cruz da Légua,
Cruz da Pedra,
Cruz das Almas (Br.) - espécie de tautologia, já que as "almas" assinalam cruzamentos
Cruz da Toita,
Cruz de Celas,
Cruz de Chão do Bispo

Cruz de Morouços - tal como "Cruz das Almas, é uma espécie de tautologia, já que os "marouços", "moroiços" ou "morouços", como acima se disse, eram a forma pagã de reverenciar os cruzamentos ou encruzilhadas, antes das "almas" ou "alminhas"

Cruz do Pau
Cruze (Gz.)
Cruzeiro,
Cruzes
Cruzinha
Encontro
Encruzilhada
Entroncamento
Entroncamento de Poiares
Santiago da Cruz

além destes, assume uma especial importância o topónimo "Coruche", fruto de um circunstancialismo fonético-dialectal específico. a palavra "Cruze", pronunciada C.ruje" (ou "Queruxe"), evoluiu facilmente para "Coruche" - que também constitui um antiquissimo cruzamento de estradas. relacionados com "Coruche" estarão os topónimos "Corucho", "Coruxeira" (Galiza) e "Corujeira".

em todos estes lugares antigos pontifica um cruzamento, uma encruzilhada ou um entroncamento de caminhos ou de estradas, ainda actuais ou já em desuso.



quinta-feira, 13 de outubro de 2005

Parece mas não é

alguns topónimos acabam, com o tempo, por tomar formas irreconhecíveis relativamente às suas origens. alguns são mesmo muito curiosos. é claro que nenhum deles significa aquilo que parece. poderei oferecer o verdadeiro significado caso a caso, se mo solicitarem...e eu souber, é claro!

aqui vai uma listinha engraçada:

A Esfolada (Gz.)
A Frangueira (Gz.)
Aldeia das Dez (Pt.)
Alto da Maria Dorme (Pt.)
Alto do Mariola (Pt.)
Ana Loura (Pt.)
Assim Chamado (Pt.)
A-Ver-O-Mar (Pt.) - mais correcto "Aver-o-Mar"
Barranco de Mata Filhos" (Pt.)
Bem-da-Fé (Pt.) - mais correcto "Bendafé"
Boa Farinha (Pt.)
Bom Velho de Baixo (Pt.)
Bom Velho de Cima (Pt.)
Cabecinha de Rei (Pt.)
Cabeço de Domingos Moiro (Pt.)
Carne Assada (Pt.)
Carvalhal da Mulher (Pt.)
Cid Almeida (Pt.)
Entre-as-Cabeças (Pt.)
Fonte da Figueira Doida (Pt.)
Fonte da Pulga (Pt.)
Jerusalém do Romeu (Pt.)
Laracha (Gz.)
Lôgo de Deus (Pt.)
Maçãs de D. Maria (Pt.)
Mata-Mouros (Pt.)
Meia Martins (Pt.)
O Brincadoiro (Gz.)
Ovelha (Pt.) - é hidrónimo
Ovelhinha (Pt.) - é hidrónimo
Pai Água(Pt.) - "pai", do lat. "pagii", plural de "pagus", aldeia
Pai das Donas (Pt.)
Pai do Vento (Pt.)
Palas de Rei (Gz.)
Pé d' Homem (Pt.)
Perna Sêca (Pt.) - aqui, "perna" é hidrónimo
Portela da Cobiça (Pt.) - "cobiça" está por "cabeça"
Rojão Grande (Pt.)
Soneira (Gz.)
S. Pedro Dias (Pt.)
Vale de Mulheres (Pt.)
Vale do Homem (Pt.)
Várzea do Homem (Pt.)
Viana do Bolo (Gz.)
Vilar de Ossos (Pt.)
Vitorino das Donas (Pt.)

terça-feira, 11 de outubro de 2005

Mouros e Mouras na toponímia do espaço linguístico galego-português

aparentemente, a palavra "mouro"/ "moura", de etimologia grega, significa "negro"/"negra". refere-se ao conjunto de grupos étnicos da África Setentrional que entraram na Península Ibérica no contexto do Império Árabe. conquistaram a simpatia dos povos autótones, ao ponto de terem passado a constituir uma referência fundacional, civilizacional e afetiva. tudo o que é antigo é dos mouros, desde a Pré-História até aos reinos suevo e visigodo, passando pelos séculos da pax romana. nada disso conta em termos de passado. a Criação do Mundo aqui é obra dos Mouros. o que antes eram "As Colunas de Hércules", e o que elas representavam, desapareceu da memória da Civilização. o mundo começa agora com Táriq, e as Colunas que eram de Hércules ganharam o nome de Djébel-al-Táriq. isto é, O Rochedo de Táriq, "Gibraltar" - que se pronunciaria Gibraltàr se não fosse a falta de jeito dos ingleses para pronunciar corretamente seja o que for e a nossa mania bacoca de os imitar.

e no que toca ao afeto, à irracionalidade, ao encantamento, estamos conversados: são as Mouras encantadas, que se perderam de encantos por estas regiões, quase sempre reféns de uma pedra, de uma penha ou de uma gruta.

mas os topónimos "Almourol" (al-Mourol), "Marão", "Mora", "Moro", "Morón" (Esp.), "Morouços", "Môrro", "Morreira", "Moura", "Moura da Serra" (um curioso pleonasmo), "Moura Morta", "Mourão", "Mouro", "Mouroal" (quantid.), "Mouronhe", "Mourosas" (adjet.?), apesar das aparências e de lendas associadas, não têm qualquer ligação com essas etnias. estes topónimos tenhem até a particularidade de surgirem em locais onde a presença continuada de mouros é improvável, como as Astúrias, Galiza e norte de Portugal. estão, antes, associados a pedras e locais montanhosos e ricos em penedia (raiz Mor-, "penedia"), que em casos como "Marão" e outros poderia traduzir-se, noutra matriz linguística, por "Penhas", "Peneda" e noutra ainda por "Canda", "Candeeiros", "Candemil", "Candosa".



sábado, 8 de outubro de 2005

As "Igrejas" no espaço geográfico, histórico e linguístico da Galiza e de Portugal

Nos primeiros séculos da cristianização peninsular, a presença de uma igreja era uma marca de tal modo importante e rara no espaço geográfico, histórico e cultural que merecia diferenciá-lo toponimicamente. Assim, os topónimos que designam igreja surgem dispersos no território português de acordo com a densidade da sua distribuição na época em que cada topónimo foi formado, com a sua dimensão arquitectónica e com a dominante linguística em cada momento histórico.
a presença de uma igreja pode estar estratificada na toponímia sob as formas arábicas:
Alcanena
Alcanizes (na Região Leonesa: "Alcañices")
Alcainça
Alcains
Alcainz (Gz.);
sob as formas românicas
Gricha,
Grixa
Grijó e
Irijó
(estas duas derivadas do diminut. lat. ecclesiola, pequena ecclesia);
ou, finalmente, sob formas linguísticas mais recentes como
Ereija
Igreja
Igrejinha.

sob a forma "Beselga", encontramos lugares onde esta(va) implantada uma basílica - étimo grego que significava, à letra, "casa do rei", mais tarde aplicado a certa categoria de igrejas.

(direitos reservados. citação obrigatória do autor e do blogue)

sexta-feira, 7 de outubro de 2005

O topónimo "aldeia" no Brasil

há pelo Nordeste topónimos que se referem à Aldeia e seus diminutivos, uns em português do Séc. XVI, outros em tupi-guarani e outros ainda mistos. é o caso de "Taba", "Tabainha", "Tabapuã" (tupi-guar.: taba, aldeia + puã, alta, elevada) e "Aldeota". traduzem o padrão de povoamento aborígene, em pequenas aldeias solidárias e auto-suficientes.
de "Taba", aldeia, deriva "Tapajós" - rio que toma seu nome da tribo Tapajós, que significa "aldeões".

O Topónimo "Ourrieta"

é um topónimo anterior ao domínio romano, de raiz linguística basca (pré-euskera), aplicável a terras de vária natureza, geralmente terras agrícolas férteis ou terrenos de pastorícia. "Ourrieta" designa um pedaço de terra. pode ser terra úmida, terra de pastos, concha ou conca arável, ou um vale. talvez a tradução mais imediata em variantes românicas seja "conca", "pequeno vale" ou "valeiro". este topónimo é muito comum na Região Leonesa e em Portugal, na zona do chamado "mirandês" - na realidade, um grupo de dialectos do asture-leonês, a vieya fala ou bable.
surge sob diversas formas, radicais ou compostas, diminutivos e aumentativos:

Cabeço da Urreta
Orreta
Orro
Orrôs
Ourrieta
Reta l Toro
Urra
Urreiro
Urrelsesto
Urreltouro
Urreta
Urreta Águia
Urreta da Caseta
Urreta da Nalha
Urreta da Raia
Urreta da Velha
Urreta das Vozes
Urreta de Dentro
Urreta do Fresno
Urreta dos Lagares
Urreta Faleto
Urreta Ferreira
Urreta Formosa
Urreta Longa
Urreta l Poço
Urretas Assenhas
Urreta Vinhó
Urretona
Urrieta (León)
Urrita
Urrita do Moinho
Urrita Égua
Urro
Urros - topónimo tido por euskera
Urrós

quinta-feira, 6 de outubro de 2005

Espadacinta

"Espadacinta" é um topónimo de um grupo que inclui "Espada", "Espadanal", "Espadanedo", "Espadaneira", "Porto da "Espada", "Freixo de Espadacinta".
"Espadacinta" fica situada na confluência dos Rios Huebra e Douro, na Região das "Arribas do Douro" ("Arribes del Duero"), Parque Natural ibérico conhecido pelas gargantas abissais que constituem a fronteira entre o Distrito de Bragança, em Portugal, e a Província de Salamanca, em Espanha. É de supor que essas gargantas profundas e estreitas justifiquem a segunda parte do topónimo ("cinta": "apertada").
Quanto a "Espada", o seu significado ainda não é claro, embora se possa admitir que esteja relacionado com um terreno bravio e úmido.
"Espadanal", topónimo associado, significa um lugar onde abunda "espadana", tal como "Espadaneira". E, por sua vez, espadana ("a que cresce na espada"?) é uma planta herbácea palustre. Mas "espadana" também pode significar "veio de água" - onde se desenvolvem as plantas palustres. Pode ainda dar algum contributo para deslindar o significado de "espada" a estirpe de vinha conhecida por "espadeira" (pronunc. "espàdeira").
A ligação de "Espadacinta" a Portugal faz-se por "Freixo de Espadacinta", antigamente chamada apenas "Freixo", mais tarde "Freixo de Espadacinta" e, mais recentemente, "Freixo-de-Espada-à-Cinta".
Não há fundamento para a grafia "Espada-à-Cinta" nem, consequentemente, para as historietas com ela relacionadas. Mas que são cavalheirescas e patuscas lá isso são.

quarta-feira, 5 de outubro de 2005

O que é a Toponimia

a Toponímia constitui uma disciplina fascinante. implica conhecimentos linguísticos muito vastos e uma bem sustentada erudição histórica. em muitos aspetos, assemelha-se à Arqueologia, pela sobreposição de estratos linguísticos que implica. os nomes de Serras e de Rios são bons exemplos de uma estratificação de nomes nas sucessivas línguas que lhes deram a designação. cada Povo lá deixou a sua marca, forma de, como diz a Bíblia, os conhecer e deles tomar posse. além disso, os próprios Povos e Tribos se deixam entrever e identificar pelo nome das terras que ocuparam.

a toponímia parece-se muito com um jogo: palavras, raízes, prefixos ou sufixos aparentemente iguais, significam coisas muito diferentes em função da língua de onde provêm. com o tempo, as palavras toponímicas adquirem semelhanças perturbadoras e mesmo desconcertantes para a língua atualmente em uso, o que leva, por vezes, a rever a designação toponímica de determinada aldeia: é o caso de “Porcalhota” (atual “Amadora”), “São Paio de Farinha Pôdre (actual “São Pedro d' Alva”), “Punhete” (actual “Constância”). ou, então, a construir elaboradas confabulações e histórias mais ou menos bizarras para explicar o topónimo: é o caso de “Freixo-de-Espada-à-Cinta” (melhor, Freixo de Espadacinta) ou de “A-Ver-O-Mar” (melhor, Aver-o-Mar), “Maçãs de Dona Maria” e outros. há o costume de chamar “lendas” a essas confabulações, mas, ao contrário das verdadeiras lendas, não têm qualquer fundo de verdade, nem são desafios ao Saber. o que não quer dizer que não haja verdadeiras lendas, que ajudam a compreender o nome e a história de uma dada povoação.

neste jogo é mais fácil perder do que ganhar e, não raramente, perdemo-nos nele. é um labirinto repleto de indicações confusas, ambíguas, por vezes iguais mas de diferente significado. ainda assim temos alguma ajuda no facto de o nome dos lugares se referirem a aspetos da geografia ou da orografia do lugar, a pormenores arquitetónicos, religiosos ou de outro tipo que favorecem o aparecimento de pistas semânticas. é o caso dos rios, das serras, das planuras, dos pontos de travessia de rios ou de obstáculos naturais. mas “antever” o significado não é o mesmo que identificar a língua que o transmite. não surpreendem os múltiplos significados que os diversos estudiosos dão ao mesmo topónimo e o facto de o significado de um dado topónimo não ser pacífico nem seguro para o mesmo investigador.

um dos obstáculos com que o estudioso se defronta é a excessiva “latinofilia” dos seus antecessores. o latim foi apenas uma das línguas que tiveram influência na toponímia e muitos dos topónimos atribuídos ao latim são meras transposições latiniformes de topónimos muito anteriores à presença romana. além disso, o nome das cidades e dos oppidae que constam dos itinerarii carecem dos mapas que os localizem. esses itinerários apenas indicam as distâncias entre localidades, sem menção do por onde. isso tem dado lugar às mais desencontradas opiniões sobre que nome tinha uma dada localidade durante o domínio romano. algumas dessas localizações feitas pelos eruditos desde o séc. XIX são meras especulações.

estudar toponímia é seguir o Passado da frente para trás, até às suas primeiras manifestações humanas. um só topónimo pode conter estratos de várias línguas, como, por exemplo, “Rio/Guadi/Ana”: “Rio/Rio/Rio”, de acordo com três estratos étnicos que lhe deram o nome. a toponímia é a fiel depositária das antigas formas linguísticas. o caso da toponímia brasileira constitui um excelente laboratório desta disciplina. praticamente, só lá existem topónimos tupi-guaranis e portugueses. ainda assim, alguns topónimos pré-europeus não são tupi-guaranis, o que pressupõe a presença de, pelo menos, uma terceira língua, provavelmente anterior.

por sua vez, a toponímia galega, além das óbvias coincidências com a portuguesa, tem a particularidade de preservar o artigo definido “A” ou “O” nos casos em que o topónimo é um substantivo, seja ele ainda atual na fala comum ou muito arcaico, o que nos permite extrapolar para os topónimos portugueses e descobrir esse “A” ou esse “O” onde ele está oculto, como em “A-marante” (?), “A-furada”, “O-var”, etc., e compreender por que razão certos topónimos portugueses não podem ser tratados como substantivos, masculinos ou femininos: é o caso de “Feijó”, “Lorvão” e muitos outros.

este artigo não pode ser confundido com o “A” indicativo de certos topónimos portugueses como “A-dos-Cunhados”, muito frequentes na região saloia. aqui assim surgem alguns topónimos já simplificados pelo uso e pelo desconhecimento do seu significado original, como em "Dagorda" (já corrigido para "A-da-Gorda") e em "Damaia" (antes chamada "A-da-Maia").

neste estudo optei por alinhar os topónimos portugueses, galegos e brasileiros por ordem alfabética, independentemente da sua atual importância económica, político-administrativa ou populacional, dado que é em topónimos aparentemente sem qualquer expressão desse tipo (os chamados “microtopónimos”) que se encontra a verdadeira antiguidade e as autênticas raízes e, quem sabe, a localização perdida de antigos povoados referenciados nos itinerarii. na verdade, os microtopónimos de hoje podem ter sido, e são, muitas vezes, topónimos fundamentais do passado. aliás, não é nenhuma raridade suceder que o topónimo diminutivo seja hoje maior e mais importante que aquele que lhe deu origem, como é o caso de "Tonda"/"Tondela", "Quintã"/ "Quintanilha". e o mesmo sucede com as "novas" povoações, como "Proença-a-Velha"/"Proença-a-Nova", "Condeixa-a-Velha"/"Condeixa-a-Nova", "Albergaria-a-Velha"/"Albergaria-a-Nova".
assim, nesta recolha, os topónimos aparecerão em pé de igualdade, indiferentes às vicissitudes histórico-demográficas que tornaram uns micro e outros macro-topónimos na atualidade.

além da aturada pesquisa bibliográfica, linguística e histórica que um trabalho deste tipo exige, nele se repercutem as muitas viagens por montes e vales que vou fazendo e a privilegiada circunstância de, sendo eu médico, poder compilar os lugares de nascimento e residência dos meus pacientes e com muitos deles saber ainda muito mais sobre pormenores da sua terra, dos seus arredores e da sua Região.

o estudo da toponímia carece de um método eficaz, o qual, em meu entender, deve incluir um razoável conhecimento linguístico e histórico, um indispensável conhecimento topográfico, orográfico e minucioso dos locais, um senso crítico fora do comum e o recurso permanente à toponímia comparada. o estudo dos topónimos de pequenos lugares ou povoações, por vezes até de ruas, vielas e caminhos, pode dar-nos a chave para a decifração de topónimos que ao longo das alterações históricas adquiriram maior importância demográfica e administrativa. é o caso de topónimos como “Espada”, “Espadanal”, “Freixo de Espada à Cinta”, “Mora”, “Moura”, “Mourão”, “Senra”, “Sernache”, “Sernadas”, “Sernancelhe”, “Chenlo”, “Chelo”, “Chaira”, “Cheira”. o mero conhecimento erudito das línguas clássicas tem induzido em erro muitos estudiosos, os quais tendem a ver latim, grego, árabe, línguas celtas e germânicas onde tais línguas não existem ou não deram o seu contributo para um dado topónimo. infelizmente, a erudição e o academismo têm prestado fracos serviços à toponímia. os disparates produzidos pela investigação toponímica são imensos e tendem a reproduzir-se como todos os disparates. para complicar a situação, as homofonias são tantas de língua para língua que só o bom senso nos pode conduzir na decifração de um topónimo. só quando nos perguntamos “isto é significado que se aceite?” e o bom senso nos diz que “sim” é que teremos encontrado, com alguma probabilidade o significado autêntico do topónimo.

mas a Toponímia merece ser tratada como uma disciplina científica. mereceria, neste caso, ser chamada “Toponimologia”. os nomes de lugares estão longe de ser casuais. obedecem a leis e apresentam padrões e ocorrências regulares. um determinado nome de lugar pode ocorrer em várias línguas com o mesmo significado. é, apenas como exemplo, o caso de “O Redondo” e “Almodôvar”.