sábado, 21 de janeiro de 2006

Os Ninhos do Açor

O topónimo Açor ocorre em lugares elevados e ponteagudos, com vales profundos, como é o caso da Serra do Açor, entre a Estrela e a Lousã. muita gente relaciona este topónimo com a existência de belos exemplares desta ave de rapina apreciadora de lebres, pombos e perdizes. em alguns casos pode suceder que os açores procurem estas paragens, dada a morfologia e a orografia destes locais. mas não é certo que seja sempre assim, pois há-de haver Açores onde esta ave não existe e há-de haver açores em lugares que não levam esse nome. já foi notado o parentesco linguístico entre "Açores" e "Astúrias". quanto ao Arquipélago dos Açores, parece que a ave em causa, afinal de contas, é o milhafre. mas merece ser dito que outra certeza não há, e que os Açores são ilhas vulcânicas com picos abruptos.
nisto da toponímia as possibilidades de cultivar a imaginação, mesmo a delirante, são tantas que até há quem veja "zorras" (zor-) ou raposas onde, coitadas, não teriam como tomar o seu cafezinho da manhã nem como apreciar uma coxa de galinha.
convirá acrescentar que os orónimos e os hidrónimos são os topónimos mais primordiais. são aqueles lugares a quem foi dado nome antes de todas as outras coisas. casas, caminhos, povoados, pontes, quintas e quitandas, tudo isso tem nome depois, à medida que o homem se organiza e se distribui pela terra. por isso, pouco admira que a maioria dos hidrónimos e dos orónimos tenha nome pré-indoeuropeu. é assim que esses lugares no Brasil são na sua larga maioria tupi-guarani, pois quem chega primeiro é que bota o nome


alguns topónimos em "Açor":

Açor
Açôr
Açoreira
Açoreiro
Açores
Açorinho
Açureira
Assoreira (graf. alternat. - errada? - de Açoreira * )
Azor ou Açor (Gz.)
Azoreira ou Açoreira (Gz.)
Azoreiros ou Açoreiros (Gz.)
Foz do Açor (aqui "Açor" é hidrónimo. cf. "Sor" e "Soure". ver post "Hidrónimos ou Nomes de Rios")
Moita do Açor
Ninho do Açor
Poio do Açor (ver Comentº)
Região Autónoma dos Açores
Riazor ou Riaçor Gz.) (?) (ver Comentºs)
Ribeira do Açor
Serra do Açor (um pleonasmo, como Poio do Açor)
Vale de Açor
Vale de Açores



* "assorear" e "assoreamento" referem-se a um processo geológico ou de engenharia pelo qual se forma um depósito ou amontoado de terras, pedras ou areias, no fundo das barragens ou na foz dos rios (neste caso, dão origem aos "Cabedêlos" e às "Barras"). há homofonias muito curiosas que, ainda por cima se achegam no significado





quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

Rans e Rãs Sim, Mas Sapos Não

desta vez são estes simpáticos bichos verdes que vêm frequentar este blogue. mas já me avisaram que não são padrinhos destas terras. estes topónimos parecem estar associados a pequenas elevações do terreno, ou pequenas mesetas. são frequentes em Portugal e na Galiza, onde têm a mesma pronúncia mas com grafias diferentes - mesmo lá... o mais certo será estes topónimos terem uma origem pré-indoeuropeia, pré-celta. o mesmo é dizer, afim do euskera. porém, neste como em muitos outros casos, são mais as teorias explicativas do que as rãs propriamente ditas.

aqui vão (alguns d') eles:

Arranhó ("A Ranhó". ver Ranhó)
Outeiro da Ranha
Rana
Raña ou Ranha (Gz.)
Ranado
Ranadoiro
Ranas
Ranha
Rañada ou Ranhada (Gz. e Pt.)
Ranhadinhos
Ranhado
Rañadoiro ou Ranhadoiro (Gz. e Pt.)
Ranhados
Ranhadouro
Ranhão
Rañas ou Ranhas (Gz. e Pt.)
Ranhó (ver post "Topónimos Terminados em 'Ó': Menino ou Menina ?")
Ranholas (diminut. plural de Ranha)
Rania
Raniados
Rao (Gz.) (?)
Rans (Gz. e Pt.)
Rãs (por Rans)
S. Domingos de Rana



terça-feira, 17 de janeiro de 2006

Frase do Ano 2005

"Isto da toponimia ten a ver co sentido común, co instinto, coa arte, coa mística, coa lóxica e coa imaxinación. É un divertimento para mentes inquietas. Pero seguro que encontraredes quen lle dea moito, moito valor".
Calidonia.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2006

Lobos, Lobinhos e Lobões

a toponímia galego-portuguesa é rica em "Lobos" e nomes afins ou aparentados. o simpático animal abundou outrora noutros locais também, onde, no entanto, não foi escolhido para padrinho. por outro lado, alguns topónimos dificilmente se referirão ao bicho, dado estarem em campo aberto. hoje em dia, ameaçado de extinção, o canis lupus não se vê muito por aí, nem nuns lugares nem noutros. é preciso ir procurá-lo nas reservas naturais - e já me aconteceu nem aí o topar.
não é fácil descobrir a origem destes topónimos, mas não há-de ser latina nem referir-se ao bicho dos contos de fadas. há uma Leuven (Fl.) ou Louvain (Fr.) ou Lovaina (Pt.), na Bélgica, que talvez aponte para uma origem pré-celta. é preciso notar que as lendas em volta do nome de Lobeira (Gz.) se referem à mítica Rainha Loba, e não ao lobo.



La Louvière (Wl), na Bélgica francófona, está associada à lenda de uma loba, idêntica à da fundação da Cidade de Roma. esta loba terá sido um símbolo ou totem étnico pré-ariano.






além disso, aponta-se para a maioria destes topónimos a raiz pré-indoeuropeia Lap-/Lep-/Lip-/(Lop-)/Lup-, que é responsável pela formação de palavras como "lapa", "lápis", "lava", "lupa", e significa "pedra".


aqui vão alguns desses topónimos:


Câmara de Lobos (na Madeira não haveria lobos, quando foi descoberta e povoada. ver Coment.)
Casal do Lobo
Fôjo Lobal
Labagueira
Labruge (é hidrónimo. ver post "Hidrónimos ou Nomes de Rios")
Labruja (é hidrónimo. o mesmo que Labruge)
Lapa do Lobo (é um pleonasmo dentro da mesma língua?)
Laboreiro
Laborim
Laborins
Lavadores (Gz. e Pt.) (pronunc. Lavadòres)
Leboreira (Gz.)
Leboreiro (Gz. e Pt.)
Loba
Lobal
Lobão (é hidrónimo. ver post "Hidrónimos ou Nomes de Rios")
Lobazim (?)
Lobeira (Gz.)
Lobeiro
Lobeiros
Lobel
Lobela
Lobelha
Lobelhe
Lobite
Lobios (Gz.)
Lobisomem (será "rio das pedras"?)
Lobito (Pt. e Ang.)
Lobízios
Lobo
Lobão
Lobo Joanes
Lobo Morto (será pleonasmo?)
Lobos
Lobosinho
Loivos
Lousa
Lousã (Cf. Lausanne - CH)
Lovaínho
Lovazim (o mesmo que Lobazim)
Lubazim (o mesmo que Lobazim)
Lubeira
Lubeiro (Gz.)
Lubreu
Monte de Lobos
Pedra Lobeira
Pena Lobo (será pleonasmo?)
Rio de Lobos
Rio do Lobo
Vale de Lobos


nota-1: hoje não sabemos se quando um topónimo significava "pedra" significava qualquer pedra, de qualquer tipo, ou se para cada tipo ou particularidade das pedras havia uma palavra específica. as línguas dos povos mais enraizados na Natureza eram e são muito ricas em definir esse mundo natural em pormenor. e quem diz "pedra" diz outra particularidade qualquer do meio ambiente: "monte", "rio", "plano", etc., etc. uma aparente repetição dos mesmos temas em Toponímia poderá esconder uma enorme riqueza de ínfimos detalhes.

nota-2: o grego "lobo" aplica-se a qualquer parte arredondada e saliente, sendo usado na anatomia para parte de órgãos (cérebro, rim, fígado) com essas características.



domingo, 15 de janeiro de 2006

Um Pequeno Incidente Informático



Depois de um apagão, estou recuperando o blogue devagarinho e com novo formato.
espero que seja do vosso agrado.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2006

Cabras e Cabreiras



o topónimo "Cabra" e os seus derivados são muito abundantes em Portugal, na Galiza, no resto da Península e na Europa, sobretudo a do sul mediterrânico. dão o nome a montanhas pedregosas e inóspitas e têm uma preferência especial por pequenas ilhas e ilhéus rochosos. apreciam dar o nome a ribeiros e riachos onde mais abundem as pedras do que a água.
é um conjunto de topónimos muito antigo, de origem difícil de determinar. é muito frequente em Navarra, região onde a romanização linguística foi parcial. uma origem latina em "capra" não explica que seja um hidrónimo nem a sua frequência em ilhéus inóspitos, mesmo para cabras. não se pode excluir, por uma convergência linguística determinada pela parceria cabras-pedras, que alguns destes topónimos derivem do lat. "capra" e que outros tenham uma origem pré-indoeuropeia, em karr-, kar-, "pedra". neste último caso, surgem, para além das "Cabras" e "Cabreiras", topónimos como "Cabo Carvoeiro", "Carreço" (pronunc. Carrêço), "Carregal", "Carvoeira", "Carvoeiro", "Carvalho", e hidrónimos em "Cara...", "Care...", como "Ribeira de Carenque" (ver post "Hidrónimos ou Nomes de Rios")

alguns topónimos deste grupo:

Cabra -
Cabração -
Cabra Figa -
Cabrainha -
Cabral -
Cabrália (Br.) - deriva de Pedro Álvares Cabral
Cabranca -
Cabrancã -
Cabrão - é hidrónimo. ver post "Hidrónimos ou Nomes de Rios"
Cabras - é hidrónimo: "ribeira das Cabras"
Cabreira (Gz. e Pt.) - tamém aparece como hidrónimo - Gz.
Cabreiras -
Cabreiro (Gz. e Pt.) -
Cabreiroá (Gz.) - "Águas de Cabreiroá", Verín ou Verim, Gz.
Cabrela - diminut. de Cabra
Cabrelões - topónimo que se refere a gente originária de Cabrela
Cabria (Gz. e Pt.) -
Cabrial -
Cabrida -
Cabrieira -
Cabrienca -
Cabril -
Cabris - penso que seja grafia preferível a "Cabriz"
Cabrita - diminut. de Cabra
Cabriúva -
Cabriz - ver "Cabris"
Cabroeiro -
Cabrões -
Cabrum -
Cobrão -
Costa de Cabra -
Foz do Cabrão -
Ilhéu das Cabras -
Pé de Cabrão -

topónimos deste grupo, fora do espaço galego-português e brasileiro:

Cabrera (Es.)
Capraria (It.)
Caprasia (Fr. e It.)
Caprera (It.)
Capri (It.)




sábado, 7 de janeiro de 2006

Boi Morto, Boi Posto

o topónimo "Boi" ocorre com muita frequência na Catalunha, Astúrias, Galiza e Portugal, sob diferentes formas e combinações, com sobreposição de estratos linguísticos, que por vezes originam os habituais pleonasmos da Toponímia e alguns resultados extravagantes, como Sant Boi. a sua origem é pré-indoeuropeia e significa "rochedo", terreste, costeiro ou marítimo. as inevitáveis homofonias lembram-nos o princípio de que nem tudo o que reluz é oiro e nem tudo o que é boi tem chifres.
salvo transposição de topónimos portugueses, os "Bois" do Brasil não são deste filão genético

aqui vão alguns "Bois":

Baião
Baiona (Gz.)
Boiaca
Boial
Boialvo
Boi-a-Monte - grafia correcta "Boiamonte". ver "Boimonte"
Boião
Boicornello ou Boicornelho (Gz.)

Boiçucanga (Br.) (nome de ilha. do tupi-guarani: "cabeça de cobra grande". "M'boi"+"Guassu"+"Canga")

Boidecanto (Gz.)
Boi de Gures (Gz.)

Boidobra (?) - a terminação -bra aponta para uma -briga celta, como Coimbra, Oimbra -Gz., Sesimbra)

Boieira
Boi Formoso
Boi Grande (Gz.)
Boimonte (Gz.) (uma espécie de pleonasmo)

Boimorto (Gz.) (Cf. topónimos, também pleonasmos, "Mouromorto" - Gz. e "Moura Morta" - Pt.: "Mor": penedo, penedia)

Boi Morto
Boi Pequeno (Gz.)
Boiro (Gz. e Pt.) (?)

Boituva (Br.) (topónimo recebido de Jolorib - ver comentº. tupi-guarani: "sítio onde há muitas cobras")

Boivão (??)
Boi Vivo
Boizão
Bouro (?)
Castro de Bois
Chã do Boi (ver post "Mais Terras Planas")

M'Boi Mirim (Br.) (topónimo recebido de Jolorib - ver comentº. tupi-guarani: "cobra pequena". o contrário de M'Boi Guassu: "cobra grande". ver "Boiçucanga")

Monte de Boi
Monte de Bois
Monte do Boi
O Corno do Boi (Gz.) (um pleonasmo)
Olho do Boi
Pé de Boi
Pedra de Boi
Pena do Boi (Gz.) (outro pleonasmo)
Perboi Baixo (atenção a este topónimo!)
Rego do Boi
Serra do Boi
Vilar de Boi

sexta-feira, 6 de janeiro de 2006

(Intervalo)

certa vez passava eu numa das minhas andanças pela terra galega quando resolvi parar em Fonteminha, para ver nascer o Rio Minho. um cartaz, um pouco desbotado já, dizia assim: Festa do Nacemento do Rio. Aproximei-me de um café, pedi já não sei o quê para justificar a minha entrada ali, e perguntei ao home que me atendeu: "vi ali um cartaz da festa do nascimento do rio. que santo é que festejam aqui?" o home olhou para mim com um ar condescendente, e explicou: "nom tem santo nenhum. a gente aqui festeja o rio!"(*)

o quê? - pensei - fazem a festança e nem padre nem santa? senti-me recuar uns dois mil anos, sem novas nem mandados do reino de Cristo.

depois, em Lugo entrei na Sé. difícil não topar de imediato a imagem grande da padroeira da cidade - a cidade do deus Lug, o divino Sol. e quem é essa padroeira, ou patrona ou "patroa"? a Virxe dos Ollos Grandes. a Virgem dos Olhos Grandes, ídolo vivo, deusa-coruja, nem "Santa" nem "Nossa Senhora de..." é um avatar, como Atena e Proserpina, de uma qualidade divinizada no feminino, a qualidade de ver de noite, no escuro, para lá do que se vê à luz o dia. a qualidade de dominar as profundezas da intuição e dos destinos. uma sabedoria maior que o saber das bibliotecas todas. qualidade compartilhada a seu modo, no masculino, por mochos, gatos e cães, que, por via disso mesmo, são animais sagrados noutras regiões do planeta
santa cidade esta, que se entrega com a mesma devoção à luz do Dia e aos mistérios da Noite...



(*) mais tarde, viria a encontrar, já mais cristianizada pela tona, "A Festa da Fonte de Ançã", na nascente da Ribeira de Ançã (um pleonasmo toponímico - ver post "Hidrónimos, ou Nomes de Rios") na freguesia de Ançã, aqui bem perto de Coimbra

terça-feira, 3 de janeiro de 2006

Janeiro de Cima e Janeiro de Baixo

a conversa é como as cerejas, mas é desta vez que me vão zurzir forte e feio. oiço falar há muitos anos destas duas aldeias milenares do vale do rio Zêzere, conheço muito boa gente de lá. sempre perguntei a mim mesmo o que está ali a fazer o "janeiro", mas a resposta à pergunta é que não havia jeito de aparecer. então, perguntei-me: - e se "janeiro" fosse...?

antes disso, vejam esse sítio. ...não é uma gracinha?
e esse aqui? ...lindo!

agora, pensem comigo: - e se "janeiro" fosse...?

...se fosse chaneiro não me admiraria nada. seria um masculino de "Chaneira" (ver post "Mais Terras Planas"). porém, se assim for, o nome atual será muito posterior ao povoamento dos lugares, o que significará que tiveram outro nome antes dos romanos - quem sabe se com o mesmo significado. mas o nome que têm, se significar o que eu julgo que significa, condiz com a orografia do lugar em ambos os casos. a confusão de chaneiro com janeiro não será fácil no português da Galiza, que distingue bem o "ch" do "x"/"j", mas é possível no português daqui. além do mais, se "chaneiro" evoluisse normalmente, poderia desembocar em "Cheiro", masculino de "Cheira", o que, como é bom de ver, ficando "Cheiro de Cima" e "Cheiro de Baixo", não é nome que se ponha à nossa terra.
..."Janeiro" é muito mais bonito...

agora, aí vão alguns topónimos relacionados com "Janeiro":

Janeirinha (Chaneirinha, diminut. de Chaneira? ver post "Mais Terras Planas")
Janeirinho (Chaneirinho?)
Janeiro (sem o determinativo "de cima" ou "de baixo")
Janela (Chanela, diminut. de Chana? ver post "Mais Terras Planas")
Janelas Verdes
Janelo (Gz.) (?)
Janes (?)

pois, e agora vão dizer: toponímia é só terras planas? não será "terra plana" a mais?
pois é assim: a conversa é como as cerejas, palavra puxa palavra, associação puxa associação e, além disso, em terreno montanhoso o que se distingue de tudo o mais é a "terra plana".


segunda-feira, 2 de janeiro de 2006

Feliz Ano Novo!

vou começar o novo ano com a Ilha de Ano Bom (Annobón). O nome é português e por isso cabe aqui muito bem. ao grafar "Annobón" os espanhóis não fizeram mais ao português de Portugal do que aquilo que fazem ao da Galiza...:-)
a Ilha de Annobón faz parte da Guiné Equatorial, antiga colónia espanhola. essa ilha descobriram-na João de Santarém e Pedro Escobar no dia 1 de Janeiro de 1471, quer dizer, no "ano bom" ou "ano novo". em português, no séc. xix era grafada "Anno Bom". pertence a um grupo de topónimos de que faz parte o "Natal", o "Rio de Janeiro" (Br.), a "Baía de Todos os Santos" (Br.) e a "Ilha da Páscoa" (embora este não seja um topónimo português).
mas...nem tudo o que é Janeiro vem à frente de Fevereiro. há duas aldeias da Beira Baixa, ribeirinhas do rio Zêzere, que têm por nome Janeiro: "Janeiro de Cima" e "Janeiro de Baixo". voltarei a este assunto




sábado, 31 de dezembro de 2005

É Tábua Mas Não É Pau

os topónimos com base em "Tábua" são muito frequentes na Galiza e em Portugal, e também aparecem no Brasil. podia pensar-se que tivessem origem latina, mas por essa safra linguística não vamos muito longe nem muito acertadamente. há quem diga, para dar que fazer ao latim, que estes topónimos teriam origem em antigas pontes de pau para atravessar o rio - onde o houvesse. porém, se assim fosse, diz o costume que a terra se chamaria "Ponte", "Pontão", talvez até "Barca", mas não "Tábua". e que todas as "Tábuas" e seus derivados teriam que ter um rio, o que não estou muito certo de ser verdade. quando cá chegaram os romanos já havia muita gente por aqui e não consta que as terras estivessem à espera que os romanos lhes botassem nome, especialmente se o já tinham.
por isso, vou pela hipótese de "Tábua" e seus derivados já existirem antes do latim e terem o significado de "Chão", Chã", "Terra Chã", terreno plano ou planáltico - o que parece condizer com uma boa dúzia desses topónimos que eu conheço.
e como a toponímia é o lugar geométrico de todas as coincidências linguísticas, pode até suceder que tábua signifique mesa: plano alto, pequeno planalto (Cf. "Meseta", Es.)
não visitei pessoalmente todas as terras com topónimos como estes que se seguem, mas se o que eu digo for verdade haverão que ter em comum o serem planas ou quase planas, em contraste com a orografia envolvente:

Taboaças ou Taboazas (Gz.)
Taboada (Gz.)
Taboadela (Gz.)
Taboadelo (Gz. e Pt.)
Taboado (Gz.)
Taboao da Serra (Br.) (obrigado, João Lopes Ribeiro!)
Táboas (Gz.)
Taboeira (Gz. e Pt.)
Tabosa (?)
Tábua
Tabuaça
Tabuaças


Tabuaço (foto)


Tabuadelo
Tabuado
Tabual
Tabuão (Br.)
Tábuas
Tabuínho
Tabuladelo
Tabulado
Tabulados
Tabuleiro (Pt. e Br.)
Tabulosa


nota: a grafia tabu... em lugar de tabo... não está autorizada pelos antecedentes linguísticos destes topónimos




sexta-feira, 30 de dezembro de 2005

Britos, Briteiros e Bretonhas

naquele tempo em que o Império Romano rompia pelas costuras, os povos Escoto e Picto da Escócia resolveram aproveitar-se do vazio da Pax e passar a dominar toda a Britannia. os Bretões ou Britos, vendo a casa a arder por dentro, chamaram em seu auxílio a gente de fora. como é bom de ver, a ajuda de fora é mais fácil de chamar que de aturar. em consequência desse acto pouco reflectido, a Britannia foi infestada de gente que nunca lá devia ter entrado: os Anglos, Frísios, Jutos e Saxões, que bem souberam valer o preço dessa ajuda. e os Britos, não tendo remédio melhor, fizeram-se ao mar, para o sul, às Gálias e Galécias, em busca de sossego e segurança. onde assentaram deixaram na toponímia a sua marca étnica, afinal a mesma que predominava nestas regiões celtas irmãs do Continente. e trouxeram a gaita com eles. onde haja Bretagne (Fr.), Bretanha (Pt.), Bretonha (Gz.), Briteiros, Britiande (?), Britelo, Brito, é uma terra-irmã, armórica, galega ou portuguesa, que eles adoptaram como nova pátria.
...e mais ano menos ano, chegaram por essa hora os Suevos, que tamém abancaram por aqui - chamando a si o governo da Xunta da Grande Galiza, com a bênção dos Godos da Meseta.


quinta-feira, 29 de dezembro de 2005

Topónimos Terminados em "ô"

são topónimos diminutivos masculinos de outros topónimos. provêm do diminutivo latino tardio em -olo. em trás-os-montes há formas arcaicas em -oulo / -uolo, como "Palaçoulo"/"Palaçuolo" (Mir.), em lugar de "Paçô".
são menos frequentes do que os topónimos terminados em "ó".

exemplos:

Avô - do grupo "Ave"
Barrô (pronunc. "Bàrrô")

Gestaçô
Mosteirô
Paçô (pronunc. "Pàçô") (diminut. de "Paço", Paaço, Palácio)
Sequeirô
Travassô
Urrô



segunda-feira, 26 de dezembro de 2005

Là Sù, Là Giù

"Jusão" e "Jusã" provêm do lat. tardio e significam "o/a de baixo". "Susão", "Susana" e "Susã" vêm do lat. da mesma época e significam "o/a de cima". estão muito representados na Galiza e em Portugal, com variantes.

podemos apontar aqui os seguintes topónimos:

Aldeia de Juso (o mesmo que Aldeia de Baixo)
Arcas de Susãs (o mesmo que Arcas de Cima. Arcas=Antas?)
Outeiro Jusão (o mesmo que Outeiro de Baixo)
Paço de Jus (o mesmo que Paço de Baixo. Paço=Palácio)
Pereira Jusã (o mesmo que Pereira de Baixo)
Portela de Jusão (o mesmo que Portela de Baixo)
Portela Susã (o mesmo que Portela de Cima)
Susá (Gz.)
Susã
Susana (Gz. e Pt.)
Susao (Gz.)
Susão
Susaus (Gz.)
Viladesuso ou Vila de Suso (Gz.)
Vila Jusã (o mesmo que Vila de Baixo ou Quinta de Baixo)
Vilasusá ou Vila Susá (Gal.) (o mesmo que Vila de Cima ou Quinta de Cima)
Vilasusán (Gz.) ou Vila Susan ou Vila Susã (o mesmo que Vila de Cima ou Quinta de Cima)



Mais Terras Planas

além de "Chã", "Chá" (Gz.), "Chão", "Chelo", "Chenlo" (Gz.) e "Chelinho", encontramos por aí (Gz. e Pt.) topónimos que realçam o caráter plano de uma povoação ou de um terreno em contraste com a orografia envolvente. É o caso dos derivados femininos de planarium, planaria, como "Chaira" (Gz. e Pt.), "Cheira" (Gz. e Pt.) e "Cheirinha". na região de Miranda do Douro surgem topónimos mais arcaicos, como "Chana", "Chanas" e "Chaneira".
"Chelas", feminino plural de "Chelo", poderá significar "pequenas chãs" dispostas ao longo de um vale, como é o caso da "Cheira" e do "Chelo", de Penacova.
há que dizer aqui que o que diferencia "Chão" de "Chelo" e de "Chelinho", "Chã" de "Chelas" e "Cheira" de "Cheirinha" não é a dimensão absoluta do terreno, mas sim o termo de comparação utilizado pela população que lhe deu o nome.

poderemos , então, elencar uma série de topónimos que se referem a um terreno plano, independentemente da sua dimensão:

A Chaira das Corças ou A Chaira das Corzas (Gz.)
Alter do Chão
As Chairas (Gz.)
Campos de Cheira
Casais das Cheiras
Casal da Cheira
Chã da Ilha
Chã da Lama
Chã do Boi
Chaela - informação de Carlos Durão
Chaila - informação de Carlos Durão
Chainça (Pt. e Gz.) (ver comentº)
Chainza (Gz.) o mesmo que Chainça
Chaira (Gz. e Pt.)
Chana (Mir.) o mesmo que "Chã"
Chanas (Mir.) o mesmo que "Chãs"
Chandrexa (Gz.) (?)

Chandrexa de Queixa (Gz.) (?) - segundo o meu amigo Carlos Durão, Chandrexa pode significar Chã de Eireja ou Ereija, ou Igreja. seria, pois, "chã da igreja".

Chaneira (Mir.) o mesmo que "Cheira"
Chanos (Mir.) o mesmo que "Chãos"
Chão da Capela
Chão d'Ave
Chão da Feira
Chão da Vã
Chão da Velha
Chão de Casados
Chão de Couce
Chão de Espinho
Chão do Ancinho ("Ancinho" é hidrónimo?)
Chão do Bispo
Chão dos Santos
Chãs d'Égua ("Égua" é hidrónimo?)
Chãs de Tavares
Chãs de Viseu
Chãs Grandes
Chaveã ou Chavean (Gz.) (?)
Cheela - informação de Carlos Durão
Cheira (Gz. e Pt.)
Cheiras
Cheirinha
Cheirinho
Cheirinhos
Chelas
Chelo (Gz. e Pt.)
Chenlo (Gz)
Fonte da Cheira
Foro da Cheira
Maçal do Chão
O Chao (Gz.)
Outeiro da Cheira
Quinta da Cheira
Rebordochão
rua da Fonte da Cheira
Terra Cha (Gz.)
Vila Chã
Vila Chã da Beira
Vila Chã de Barceosa
Vila Chã de Sá




quinta-feira, 22 de dezembro de 2005

O Topónimo Chelo

presente na toponímia galega e portuguesa, é o diminutivo planellum de planum: "plano", "chão". é, pois, um topónimo diminutivo de um outro topónimo, "Chão".
encontra-se onde um pequeno plano, suficiente para albergar um povoado, contrasta com um terreno irregular, de montes e vales. existe a forma "Chelo", "Chenlo" (Gal.) e o duplo diminutivo "Chelinho" (pronunc. "Chèlo", "Chèlinho"). experimentem passar por este interessante lugar , com o cuidado de não tropeçar nas vírgulas nem na ortografia

quarta-feira, 21 de dezembro de 2005

Esta Quadra de Natal, Essa Festa do Sol

no hemisfério norte, e quanto mais a norte mais assim, esta época do ano é fria, as noites são grandes, o sol é fraco. a natureza está adormecida. cada dia que passa a noite é mais comprida e o dia quase nada. o sol está doente. parece que em breve sucumbirá e tudo vai ficar escuro e frio. a neve estende o seu manto branco por toda a terra, ferindo a vista com seu brilho penetrante, imenso, gelado. a morte deve ser assim, gelada, imensa, sem ontem nem hoje.
mas eis que tudo vai mudar. parece que a noite começa a encolher, dia para dia uns minutos, meia hora, uma hora inteira. o sol invencível já não morre, ganha força de novo, renasce.
vamos festejar, porque este ano, afinal, é como o ano passado e o ano anterior e ainda o outro que se foi. a natureza precisa de passar por aqui, como precisa da primavera, do verão e do outono. aqui, no hemisfério norte. porque a terra não tem uma verdade igual para todos. do pólo norte ao sul, do equador aos trópicos, cada terra tem sua verdade e cada verdade seu ciclo.
o natal é a festa do natalis solis invictus - o nascimento do sol invencido, no dizer dos romanos. assim também a cidade de Natal, quente, ensolarada, passeando na praia e a tremer de insolação na noite de natal: é "a cidade do sol"

sábado, 17 de dezembro de 2005

"O Deus da Fonte Pelo Qual Se Jura"

a crer na tradução arrevesada que J. Leite de Vasconcelos fez da inscrição da Fonte do Ídolo, em Braga, Tongoe Nabiago seria um deus: "o deus da fonte pelo qual se jura". e, sendo um deus, o seu nome em língua celta teria aquele significado abstruso. alá é grande: não há deuses, divindades ou manifestações divinas com semelhantes nomes. e nem é certo que Tongoe Nabiago seja o nome de um deus.
vou por outro lado.
o monumento mandado fazer por Celico Fronto Abimogido Arcobrigense, na fonte da Rua do Raio, naquela época de celtas sob domínio romano, parece a representação de um baptismo ritual, que só não se refere a João Batista e ao baptismo de Cristo porque nenhum deles tinha ainda pensado vir ao mundo. de resto, nada lá falta: a água, a pomba, o delta, aquele que baptiza, aquele que é baptizado, eu sei lá.
que sentido faz isto em Braga? Braga é a cidade do "S. João", da festa do solstício de junho, a festa das fontes, das juras de amor. uma festa tão antiga como a chuva, o sol, o vento, a noite e o dia. uma festa que corre paralela ao regato que nasce na Fonte do Ídolo e se dirige para o Rio Este, um pouco mais abaixo.
então, o que poderá significar Tongoe Nabiago? o raciocínio linguístico de Leite de Vasconcelos está certo. Tongoe está relacionado com "jurar", e Nabia-go está relacionado com "fonte". só não há nada que diga que estejam relacionados com um deus.
não é normal que as inscrições nas fontes se refiram à própria fonte? fonte do amial, fonte de santo antónio, fonte da cheira, fonte da pulga, fonte disto, fonte daquilo? teremos, então, tongoe nabiago: fonte das juras? (ao senhor da) fonte das juras? o mesmo é dizer: fonte de s. joão? (ao) s. joão da fonte? claro que ainda não havia S. João, mas o culto associado ao nome de S. João existe muito antes, antes mesmo de Celico Fronto ter mandado fazer, em cumprimento de um voto, aquele arranjo na fonte que já era santa. culto tão profundo e duradouro que os bisnetos Celico e Lucio daquele ilustre celta se sentiram obrigados a mandar restaurar o monumento. tão profundo e duradouro que cavalgando a fonte e o regato pagãos chegou até hoje em cada 24 de junho.
embora transparente, é apenas uma hipótese...
...mas tem a vantagem de fazer sentido e de trazer de novo a fonte à vida de uma cidade que não sabe muito bem o que fazer com ela.
para mim, que a visitei vezes sem conto, a Fonte do Ídolo está na origem do São João de Braga, mesmo que os linguistas traduzam de outra forma o que lá está escrito.
e merece a distinção que lhe compete, já que faz parte da história e do espírito mais profundo da cidade, por muito que a queiram esconder e ocultar.



quinta-feira, 15 de dezembro de 2005

Maceió

revendo os topónimos terminados em "ó", ocorreu-me o nome da capital do Estado de Alagoas.
Maceió é um topónimo nativo, mas não será tupi-guarani. o seu significado andará à volta de "terreno alagadiço", "lagoas", "charcas". afinal de contas, o mesmo que "Alagoas" pretende significar. os portugueses traduziram, ou cada povo por si deu um nome igual à mesma realidade?
se quer saber um pouco mais de Maceió, e até fazer uma visita um dia, vá por aqui. tem tudo o que precisa de saber. mas cuidado com as decifrações inverosímeis. tradução arrevesada é tradução rejeitada

quarta-feira, 14 de dezembro de 2005

Topónimo Terminado em "ó": menino ou menina?

os topónimos que se seguem são diminutivos femininos de outros topónimos conhecidos. têm o diminutivo latino tardio em -ola. na Galiza costumavam terminar em "óo", mas a norma reintegracionista recomenda a forma portuguesa em "ó". alguns são duplos diminutivos, como Assilhó (Osselola: Ossa, Ossela, Osselola). o diminutivo -ola mantém-se íntegro em alguns topónimos, como Sarrazola/Serrazola, Mariola

vejamos:

Alijó (de A Lixa?) ver Lijó

Anissó (já foi chamada Nizola, pelo que deverá ser o diminut. de "Niza": A Nizola. e deveria, pois, escrever-se "Aniçó")

Arranhó (A Ranha, A Ranhola)

Assilhó (Ossa, Ossela, Osselola) - quem tenha bom ouvido há de reparar que as pessoas da terra dizem "eu vou "à" Assilhó).

Bilhó
Bouçó
Bruçó
Campanhó
Celeiró (também existe o feminino plural Celeirós)
Cerdeiró
Coimbró - diminut. de
Cujó
Eiró
Feijó
Ferreiró
Figueiró (Figueira, Figueirola. é o mesmo que Figueiroa)
Grijó (Ecclesia, Ecclesiola: igreja, igrejinha)
Irijó (o mesmo que Grijó)
Labrujó (é um hidrónimo. diminutivo de Labruja. os rios eram femininos)
Leijó
Lijó (o mesmo que Alijó. tem uma forma anterior: Alyjoo)
Linhó (Linea, Lineola)
Moreiró (Moreira, Moreirola)
Nogueiró
Pardilhó (diminut. de Pardelha)
Pereiró
Pó (?)
Ranhó (diminut. de Ranha. ver Arranhó)
Requeijó (diminut. de Requeija ou Requeixa)
Ribó (Gz.) - (diminut. de Riba)
Sicó (?)
Sobreiró (diminut. de Sobreira)
Teixeiró
Tó (?)

Touguinhó - este topónimo é um duplo diminutivo de "Touga". curiosamente, e pertinho uns dos outros, existem as três formas: "Touga", "Touguinha" (diminutivo de Touga) e "Touguinhó" (diminutivo de Touguinha).

Vinhó

sendo todos esses diminutivos femininos, será muito pouco correto dizer ou escrever, como por aí se ouve e lê, "o Linhó", "o Feijó", "o Grijó", e assim por diante.