sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006

Para Que Serve Um Blogue

confesso que andava um pouco zangado. o blogger não funciona suficientemente bem, nem pouco mais ou menos. de início atribuí-me as culpas, porque, em boa verdade, não nasci na idade da informática. porém, depois de consultar outros blogues constato que esse é um problema e um queixume bastante distribuído pelos blogonautas - o que a bem dizer me retira da classe dos ineptos, pelo menos dos ineptos mais minoritários.
e hoje apetece-me fazer as pazes com o blogue. ele é uma espécie de diário falante. responde aqui e além, dá sugestões, apoia, às vezes até elogia. mas o mais importante é que transporta para lá de todas as fronteiras, irmana com gente semelhante no falar e no pensar, torna o ser humano ubíquo e etéreo, livre deste aqui e deste agora.
e guarda cogitações de longa data, a experiência de gentes e lugares, todas essas coisas guardadas algures no íntimo, sem préstimo por não estarem à disposição de quem as podia querer.

post scriptum: jolorib, soube que sofreu um apagão. recupere rápido. faz falta na blogosfera.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

Rei, Princesa e Capital

receio que este post não tenha muito que ver co'a Toponímia, mas não resisto. afinal de contas, quem sabe se um dia vem a ter. vai fazer 96 anos que Portugal se tornou uma República. visto isso, não lhe devia ser do agrado o sangue azul e respetivos títulos de rei, de príncipe ou princesa. puro engano! afinal, o problema é que todos os portugueses e suas madames gostariam de ser reis, rainhas, príncipes e princesas tamém. e está certo. só um rei é pouco. assim como só uma capital (...e inda por cima Lisboa!). temos de convir que é pouco demais. nós temos vistas largas e gostamos de conhecer as coisas por um nome mais solene. somos um pobo profundamente aristocrata e pergaminhento, que não se conforma co'a apagada e vil tristeza, como dizia um poeta - por sinal demasiado citado pr' o meu gosto.
os brasileiros, claro, em questão de reis e de princesas não nos ficam atrás.

vejam só (prometo aumentar a lista):

A Capital da Chanfana - Miranda do Corvo
A Capital da Lampreia - Penacova
A Capital da Maçã de Montanha - Armamar
A Capital do Frango do Campo - Oliveira de Frades
A Capital do Fumeiro - Vinhais
A Capital do Minho - Braga (alterna com A Cidade dos Arcebispos e A Roma Portuguesa)
A Capital do Móvel - Paços de Ferreira
A Capital do Norte - Porto (alterna com A Invicta)
A Capital do Parapente - Linhares da Beira
A Capital do Queijo da Serra - Celorico da Beira
A Capital dos Dinossauros - Lourinhã
A Capital Universal da Chanfana - Vila Nova de Poiares (veja a receita da Confraria)

A Cidade Berço - Guimarães
A Cidade dos Arcebispos - Braga
A Cidade Invicta - Porto

A Princesa do Alva - Côja
A Princesa do Cávado - Barcelos
A Princesa do Lima - Viana do Castelo
A Princesa do Lis - Leiria

A Rainha dos Cachorros - aqui "cachorro" é hot-dog
A Rainha da Fronteira - Elvas

O Rei da Fruta
O Rei da Pescada
O Rei das Bifanas
O Rei das Farturas
O Rei das Francesinhas
O Rei das Ostras (Br.)
O Rei das Peles
O Rei das Pipocas
O Rei das Sandes
O Rei da Sucata
O Rei do Cabrito
O Rei do Maracujá (Br.)
O Rei dos Azulejos
O Rei dos Blogues (o trono está vago. por enquanto)
O Rei dos Cachorros (hot dogs)
O Rei dos Catálogos (Br.)
O Rei dos Cortinados
O Rei dos Esquentadores
O Rei dos Frangos
O Rei dos Gatos (Br.)
O Rei dos Hamburgers
O Rei dos Tapetes (Br.)


bom, mas para que este post tenha algo que ver com Toponímia, aqui vos deixo alguns topónimos em Rainha, Rei e Reis:


Angra dos Reis (Br.) - aqui os "reis" são outros. significa que os portugueses chegaram à região em 6 de janeiro

Caíde de Rei
Caldas da Rainha
Caldas de Reis (Gz.)
Moreira de Rei
Palas de Rei (Gz.)
Pinhal do Rei
Praia d'El-Rei
Serra d'El-Rei
Vila de Rei
Vila Nova da Rainha
Vila Nova de Souto d'El-Rei
Vilar de Rei
Vila Real
Vila Real de Santo António

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

Pisão, Pisóm (Gz.), Pisões

estes topónimos fazem referência a aparelhos, por vezes muito complexos, destinados a pisar azeitonas para fazer azeite. constam de uma construção só aparentemente tosca, em forma de casa, uma grande roda movida pela energia de uma queda de água e um sistema de engrenagens que transmite a força hidráulica à prensa do lagar. estas construções encontram-se na margem de um rio ou ribeiro, num troço propício ao aproveitamento da energia das águas (ver Comentº).

veja-se os seguintes:

Arruda dos Pisões
Outeiro dos Pisões
Pisanito (diminut. de Pisão)
Pisão
Pisãozinhos (diminut. plur. de Pisão)
Pisões
Pisóm (Gz.) - o mesmo que Pisão


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006

Gonça, Gonçalo, Gondar, Gondomar,...

os topónimos em "Gonc-", "Gonç-", "Gond-" e "Gont-" são muito abundantes no noroeste peninsular, sobretudo no Entre-Douro-e-Minho e na Galiza. são de origem germânica, implicam uma atitude guerreira e, pelo seu significado, referem-se a alguém que mereceu distinção em "combate" (gunthi), pelo que terá sido premiado com a posse das terras homónimas. isso quererá dizer que a cada "Gondar" seu combatente, e não tanto o mesmo combatente para senhor de todos os "Gondar" - penso que seria demasiado prémio para um homem só, inda por cima "bárbaro". na Galiza há uma boa meia-dúzia de "Gondar", praticamente tantos como em Portugal a norte do Rio Douro. num deles, o de Guimarães, me tornei gente suficientemente crescida para os combates da vida.
bom, há os "combatentes" e há os "chefes dos combatentes" ou de tribo (gunde-rik): "Gondariz", "Gondoriz" - que, já se vê, são menos abundantes, embora os haja tanto na Galiza como no Norte de Portugal.
no Brasil há topónimos destes, transpostos tanto de Portugal como da Galiza

podemos arrolar os topónimos seguintes:

Gonça
Gonçala
Gonçalinha
Gonçalinho (Pt. e Br.)
Gonçalo (Pt. e Br.)
Gonçalo Bocas ("Bocas" porquê? deveria grafar-se "Gonçalbocas"?)
Gonçalo Velho
Gonçalveiros (povoação de gente oriunda de "Gonçalo"?)
Gonçalves (Pt. e Br.)
Gonçalvinho
Gonce
Gonceiro
Goncinha
Gondã
Gondães (é um genitivo. significa [villa ou quinta] de um tal "Gonta")
Gondaes (Gz.)- o mesmo que Gondães
Gondais - o mesmo que Gondães e Gondaes
Gondão
Gondar (Pt. e Gz.)
Gondarán (Gz.)
Gondarão (Br.) - transposição do "Gondarán" galego
Gondarém (Pt. e Gz.)
Gondarén (Gz.) - o mesmo que Gondarém
Gondar

Gonde - é um genitivo. significa [villa ou quinta ] de um tal "Gonto". há um ribeiro de Gonde, que significará, se não tem outra origem, "o [ribeiro da quinta] de "Gonto"

Gondeiro
Gondeixe

Gondelães - é um genitivo. significa [villa ou quinta] de um tal Gontella

Gondisalves - variante dialectal de "Gonçalves"
Gondivau - "Gundwald": pleonasmo:combate+combate

Gondomar (Pt. e Gz.) - é um genitivo de gund-maro, que deverá ser um título de guerra:
"Cavalo-Combate"


Gondoriz (Pt. e Gz.)
Gonte (Pt. e Gz.)
Gunde - o mesmo que "Gonte"


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

Mais um Apagão e Desisto

Isto de blogues tem que se lhe diga. está um home sossegado a escrever o que lhe vem à ideia e...zás! desaparece tudo! é preciso pacência... Ultimatum ao blogger: ou põe isto a funcionar como deve ser, ou... passo a escrever à moda antiga, de papel e lápis!

ponto final.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006

Cónego Arlindo Ribeiro da Cunha (1906-1976)


Fará trinta anos a 10 de abril que resolveu partir. digo "resolveu" porque podia ter resolvido seguir os conselhos da medicina. mas nisso ele era como os romanos: não tinha os filhos de Imhotep em grande conta, talvez fossem para ele um pouco menos que charlatães... passaria horas, se tivesse tempo, a contar histórias risíveis dos pobres práticos que, coitados, prescreveriam remédios piores do que as maleitas. mas não foi com isso que me demoveu de seguir a vocação. preferiria que eu fosse alguém nas letras, que tivesse jeito prá escrita e viesse a ser, sei lá, um prémio nobel. mas eu nunca tive muita queda para escrita demorada, nem fiz amigos prestáveis para aquele fim.
semeou, se calhar, uma semente melhor. ele era um manancial inesgotável de sabedoria. dominava a origem das palavras, o nome das terras e a forma de os decifrar, os nomes de família, os brasões, conhecia os caminhos velhos, as calçadas romanas, os marcos miliários, os montes onde podia esgravatar ruína antiga, os ditos e lendas populares e a maneira de os trocar em miúdos. tinha uma enorme biblioteca: era um espaço sagrado, um útero, nela bebi a cultura galega e brasileira, numa época em que a grande maioria dos patrícios desconhecia uma e outra. "airinhos, airinhos aires, airinhos da minha terra"... "minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá. as aves que cá gorjeiam não gorjeiam, como lá"...
fez-me andar em escavações arqueológicas, onde me entranhei de pó, de terra e de fascínio. gostava de mim porque eu era o filho mais velho da irmã dele - um antigo parentesco de excelência.
escreveu A Língua e a Literatura Portuguesa, manual de estudo para os alunos dos seminários e um livro muito seguido do Outro Lado do Atlântico. é também dele uma Gramática Latina que chegou à 7º edição.
além dos livros que escreveu e dos artigos que fazia publicar no Diário do Minho, participou como colaborador assíduo na Grande Enciclopédia Luso-Brasileira e na Enciclopédia Verbo.
nascido em S. Torcato , Guimarães, a 24 de fevereiro de 1906, foi professor do Seminário de Santiago (Seminário Conciliar de S. Pedro e S. Paulo) e cónego do cabido da sé de Braga. tem hoje o seu nome na toponímia urbana da Bracara Augusta. está referenciado na net, na bibliografia sobre a cidade.

(ver também este artigo e este aqui)


*In Memoriam*

Penamacor, Pena Maior, Penamaior (Gz.), Penamocor






são variantes dialectais do mesmo vocábulo composto: Penha Maior, isto é, "Penha Grande", "Penedo Grande".

Óbidos



é outro topónimo que está praticamente intacto, como veio ao mundo. provém do lat. oppidus, que significa "cidade fortificada", "fortaleza". no estado do Pará, no Brasil, há uma Óbidos, que resulta da transposição do topónimo português. a razão do nome salta à vista.
os romanos chamaram "fortaleza" a uma cidade que já lá estava quando eles chegaram

terça-feira, 7 de fevereiro de 2006

Penedono

este topónimo parece acabadinho de inventar. ainda soa praticamente do jeito que falava quem o inventou: pene-dunu, Pena de Dono, a "penha do castelo". aquele "dono" latinizado na Idade Média deu Pennadedomno, uma inverosímil "penha do senhor".
não obstantemente a evidência fotográfica, ainda há quem acredite mais nas cousas se forem escritas em latim, de preferência o latim macarrónico medieval. é como as afirmações dos textos científicos de hoje: os truismos ditos em inglês, de preferência o dos esteites, passam por elaborações filosóficas de grande profundeza. por mim, sempre me fio mais na linguagem direta dos lugares.

nota: o castelo a que se refere o nome esteve anteriormente no lugar deste, como se compreenderá.

Itacoatiara (Br.) ou a Pedra Letreira (Pt. e Gz.)

pela sua importância, passo a post a questão que me foi colocada pelo amigo Jolorib a respeito de "Itacoatiara", também grafada "Itaquatiara". em língua tupi-guarani significa "pedra letreira", "pedra gravada" ou "pedra pintada" - coisa bem conhecida a norte como a sul do rio Minho. estas pedras, ornamentadas com petroglifos (compreendo a necessidade do termo...), situam-se em lugares outrora sagrados, onde decorriam cerimónias astro-religiosas de iniciação e rituais de passagem. o neófito ou catecúmeno, até aí criança, era instruído nas verdades da tribo e nos segredos do cosmos, do mundo e da vida, passando à categoria de ser humano e adulto depois de integrar esse conhecimento no coração e na cabeça. os rituais impediam que a verdade entrasse por um ouvido e saísse por outro, enraizando-a profundamente no centro das emoções e da afectividade.
os rituais e provas de passagem eram suficientemente difíceis e dolorosas (adolescência) para o assegurar. o neófito morria para a vida anterior, a infância (que quer dizer "a idade em que não se fala" - ou não se tem voz activa), e renascia para uma nova vida, a vida adulta - onde já se fala, porque já se é mestre ou dono de si mesmo.
que esse tesouro de sabedoria não devia ser fácil de adquirir dizem-no as lendas sobre "tesouros escondidos" e "perigos" associados.


na Galiza existe ainda "pedra dos letreiros" e "os letreiros".
aqui bem perto, em Góis, há uma Pedra Letreira à qual se associa esta quadra:



"junto da pedra letreira
há três arcas em carreira.
uma é d'oiro, outra de prata,
outra de peste que mata"






segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006

Alba, Alva

é um dos topónimos mais antigos da Europa, e daí a sua presença dispersa um pouco por todo o lado. aparece sob a forma Abla, Alava, Alba, Alba de Tormes, Alba Facência, Alba Longa, Albânia, Alba Pompeia, Albe, Albé, Albion, Alpes, Alva, Alvão, Aube, Île d'Albe, Monte Albano, Mont'Alvão. muitas cidades da Itália etrusca tinham este nome, pelo que o topónimo é forçosamente pré-romano. não faz qualquer sentido fazê-lo provir do latim alba, "branca". significa "colina", "ponto alto", e, secundariamente, "castelo", "forte".

alguns topónimos em Alva.

Alban (Gz.)
Alpes
Alvinha
Barca d'Alva
Barroca d'Alva
Marialva - monte rochoso ou castelo na rocha
Montalvão - pleonasmo: monte-monte
Monte d'Alva
Penalva - castelo da pena
Penalva do Castelo - significa "castelo da pena do castelo"
Pisões de Ribeira d'Alva
Quinta do Alvão
São Pedro d'Alva




sábado, 4 de fevereiro de 2006

Soutos, Soutinhos e Soutelos

até agora tenho dedicado atenção à morfologia, orografia, hidrografia e infraestruturas dos lugares, com um desviozinho pelos hagiónimos ou nomes de santos. é altura de falar de lugares que devam o seu nome à flora que neles medra. vou começar pelos castanheiros, árvores cujo fruto mereceu em tempos a predilecção das gentes do Norte, pelo seu sabor e pela sua ligação às festas dionisíacas do "São Martinho" - em que pontuava o quase saudoso magusto. a castanha foi substituída pela batata, coisa da América, que se fez acompanhar do seu fiel amigo escaravelho. e o castanheiro foi escasseando e recolhendo a espaços cada vez mais reduzidos.
a mata de castanheiros tinha o nome de "soito" ou "souto". daí a persistência de topónimos como esses:

Quinta dos Soutos
Regada do Soito

Santo Varão (???) - este topónimo não está decifrado. a forma anterior de "souto" era "sauto". o lugar pode ter sido um souto de culto ou uma mata sagrada, na margem esquerda do Baixo Mondego

Soito
Solteirão (povoado com gente de Solto?)
Solteiros (gente orinda de Solto?)
Solto (de salto-sauto: souto. topónimo fora de uso)
Soutelinho (Pt. e Gz.) - é duplo diminut. de Souto
Soutelinhos
Soutelino
Soutelio
Soutelo (Pt. e Gz.) - diminut. de Souto
Soutelo de Montes (Gz.)
Soutinho - diminut. de Souto. é mais recente que Soutelo
Soutinhos
Souto (Pt. e Gz.)
Soutocico (Mir.) - diminut. mirandês (asture-leonês) de Souto
Souto da Casa
Souto da Ponte
Souto de Vea (Gz.)
Soutolongo (Gz.)
Soutomaior ou Sotomaior (Gz.) - é aumentat. de Souto. significa "Souto Grande"
Souto Redondo
Soutulho (Pt. e Gz.)
Soutulhos ou Soutullos (Gz.)
Soutulio


Nota: o Souto pode designar tamém um bosque na margem de um rio



ver novo post sobre o assunto aqui

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006

Tantas Vezes o Cântaro Vai à Fonte...

...que alguma vez deixa lá ficar a asa. mas não é desses cântaros que vou agora falar. vou falar de rochedos especiais, tipo monovolume, visíveis por exemplo na Serra da Estrela. derivam do tema "cant-", "pedra", e não se ficam por Portugal e Galiza. também aparecem na Cantábria, batizando a região, e nas Astúrias. Cantuária (Canterbury), na Inglaterra, é um topónimo da mesma família. em post anterior ("Serras, Montes e Montanhas") já arrolei alguns destes topónimos na variante "cand-".

alguns exemplos:

Canda (Pt. e Gz.)
Candal (Pt. e Gz.)
Cando (Pt. e Gz.)
Candieira
Candosa
Candoso
Cantanhede
Cântara
Cantareira (Pt. e Br.)
Cantareiras
Cantarinha
Cantarinho (Pt. e Br.)
Cantarinhos
Cântaro Grande
Cântaro Magro
Cântaros
Canteira (Gz.)
Canteiras
Canteiro (Pt. e Gz.)
Santo António do Cântaro
Vale de Cântaro



terça-feira, 31 de janeiro de 2006

Achada

quem achou estas terras e lhes botou o nome de Achada, ou afim, não estava pensando no facto de as ter achado. penso até que o nome mais certo é A Chada.
é possível que este topónimo e os seus derivados provenham do latim planata ou planeta, indicando um lugar plano, achatado, sobre um terreno habitualmente elevado e rodeado de declives abruptos. aparece em ilhas vulcânicas, como na Madeira (Md.) e em Cabo Verde (Cv.).
já agora, "planeta" é um pequeno disco "plano", uma espécie de espelho, que reflecte a luz do Astro Rei. embora seja um disparatezinho astronómico nos tempos de hoje, o nome ficou para a posteridade, reunindo os agora oito principais companheiros do Sol. mas por cá, pelo planeta terra, a palavra latina designa lugares planos, em geral de pequena superfície, como aqueles que se seguem

alguns exemplos:

Achada (Pt. - Ct. e Md.)
Achada da Arruda (Md.)
Achada da Madeira (Md.)
Achada da Morena (Md.)
Achada de Santo Antão (Md.)
Achada de Santo António (Cv.)
Achada de Simão Alves (Md.)
Achada do Barro (Md.)
Achada do Castanheiro (Md.)
Achada do Castro (Md.)
Achada do Cedro Gordo (Md.)
Achada do Folhadal (Md.)
Achada do Gramacho (Md.)
Achada do Loural (Md.)
Achada do Marques (Md.)
Achada do Pau Bastião (Md.)
Achada do Pereira (Md.)
Achada do Pico (Md.)
Achada do Pinheiro (Md.)
Achada do Til (Md.)
Achada Furna (Cv.)
Achada Grande (Md.)
Achadas da Cruz (Md.)
Achadinha
Cheda (Pt., Gz. e Br.)
Chedas (Pt. e Gz.)
Chedeiros
Corte da Cheda
Eira da Achada (Md.)
Lama de Cheda
Monte da Chada
Quinta das Chedas


segunda-feira, 23 de janeiro de 2006

Baleias

É claro que não vou falar de certas senhoras nem das amigas delas. seria uma rudeza e uma falta de urbanidade tremenda. era do jeito que se tornavam anoréticas. vou mesmo falar desse cetáceo grande, grande, que tem saudade da terra. tanta, que gosta de vir à praia ou entrar rio Tamisa dentro, ou outro rio qualquer, pra morrer na frente dos cameramen ou de quem lá estiver. é um mamífero com muito mais mistério do que fazer dele o que fazem. banha de baleia e creme de cosmético é destino que nenhum desses animais merecia mesmo. o seu fascínio pessoal e de raça fez com que a gente do litoral lhe roubasse o nome para o botar em muitas terras junto do mar.
desta vez bicho é mesmo bicho, e essas terras ou tomam dele o nome ou de qualquer atividade com ele relacionada. há quem defenda que a baleia é parente próxima do hipopótamo. bom, pode ser. é. mas não existe nenhuma terra com nome de Hipopótamo.

aqui vão alguns desses topónimos:



Atouguia da Baleia
Balaia
Balea (Gz.)
Baleal
Baleo (Gz.)
Baleeiro
Casais do Baleal
Cova da Balea (Gz.) (ver Comentº)
Ilha da Baleia (Br.)
Ponta Baleia (STP)
Ponta da Baleia (Aç.)
Praia da Baleia (Br. e Pt.)
Praia da Balela
Praia do Baleal
Praia do Osso da Baleia (ainda assim, este topónimo não será tão claro quanto parece. ver Comentº)
Vale da Baleia



por estranho que seja, as Ilhas Baleares não devem pertencer a esta colecção, muito embora o frequente convívio com as baleias tenha contribuido para modelar-lhes o nome e o sentido. certos topónimos foneticamente muito próximos, como Baleira, derivam de Vale, com aquela pronúncia inconfundível da minha terra e de todo o norte da Península

sábado, 21 de janeiro de 2006

Os Ninhos do Açor

O topónimo Açor ocorre em lugares elevados e ponteagudos, com vales profundos, como é o caso da Serra do Açor, entre a Estrela e a Lousã. muita gente relaciona este topónimo com a existência de belos exemplares desta ave de rapina apreciadora de lebres, pombos e perdizes. em alguns casos pode suceder que os açores procurem estas paragens, dada a morfologia e a orografia destes locais. mas não é certo que seja sempre assim, pois há-de haver Açores onde esta ave não existe e há-de haver açores em lugares que não levam esse nome. já foi notado o parentesco linguístico entre "Açores" e "Astúrias". quanto ao Arquipélago dos Açores, parece que a ave em causa, afinal de contas, é o milhafre. mas merece ser dito que outra certeza não há, e que os Açores são ilhas vulcânicas com picos abruptos.
nisto da toponímia as possibilidades de cultivar a imaginação, mesmo a delirante, são tantas que até há quem veja "zorras" (zor-) ou raposas onde, coitadas, não teriam como tomar o seu cafezinho da manhã nem como apreciar uma coxa de galinha.
convirá acrescentar que os orónimos e os hidrónimos são os topónimos mais primordiais. são aqueles lugares a quem foi dado nome antes de todas as outras coisas. casas, caminhos, povoados, pontes, quintas e quitandas, tudo isso tem nome depois, à medida que o homem se organiza e se distribui pela terra. por isso, pouco admira que a maioria dos hidrónimos e dos orónimos tenha nome pré-indoeuropeu. é assim que esses lugares no Brasil são na sua larga maioria tupi-guarani, pois quem chega primeiro é que bota o nome


alguns topónimos em "Açor":

Açor
Açôr
Açoreira
Açoreiro
Açores
Açorinho
Açureira
Assoreira (graf. alternat. - errada? - de Açoreira * )
Azor ou Açor (Gz.)
Azoreira ou Açoreira (Gz.)
Azoreiros ou Açoreiros (Gz.)
Foz do Açor (aqui "Açor" é hidrónimo. cf. "Sor" e "Soure". ver post "Hidrónimos ou Nomes de Rios")
Moita do Açor
Ninho do Açor
Poio do Açor (ver Comentº)
Região Autónoma dos Açores
Riazor ou Riaçor Gz.) (?) (ver Comentºs)
Ribeira do Açor
Serra do Açor (um pleonasmo, como Poio do Açor)
Vale de Açor
Vale de Açores



* "assorear" e "assoreamento" referem-se a um processo geológico ou de engenharia pelo qual se forma um depósito ou amontoado de terras, pedras ou areias, no fundo das barragens ou na foz dos rios (neste caso, dão origem aos "Cabedêlos" e às "Barras"). há homofonias muito curiosas que, ainda por cima se achegam no significado





quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

Rans e Rãs Sim, Mas Sapos Não

desta vez são estes simpáticos bichos verdes que vêm frequentar este blogue. mas já me avisaram que não são padrinhos destas terras. estes topónimos parecem estar associados a pequenas elevações do terreno, ou pequenas mesetas. são frequentes em Portugal e na Galiza, onde têm a mesma pronúncia mas com grafias diferentes - mesmo lá... o mais certo será estes topónimos terem uma origem pré-indoeuropeia, pré-celta. o mesmo é dizer, afim do euskera. porém, neste como em muitos outros casos, são mais as teorias explicativas do que as rãs propriamente ditas.

aqui vão (alguns d') eles:

Arranhó ("A Ranhó". ver Ranhó)
Outeiro da Ranha
Rana
Raña ou Ranha (Gz.)
Ranado
Ranadoiro
Ranas
Ranha
Rañada ou Ranhada (Gz. e Pt.)
Ranhadinhos
Ranhado
Rañadoiro ou Ranhadoiro (Gz. e Pt.)
Ranhados
Ranhadouro
Ranhão
Rañas ou Ranhas (Gz. e Pt.)
Ranhó (ver post "Topónimos Terminados em 'Ó': Menino ou Menina ?")
Ranholas (diminut. plural de Ranha)
Rania
Raniados
Rao (Gz.) (?)
Rans (Gz. e Pt.)
Rãs (por Rans)
S. Domingos de Rana



terça-feira, 17 de janeiro de 2006

Frase do Ano 2005

"Isto da toponimia ten a ver co sentido común, co instinto, coa arte, coa mística, coa lóxica e coa imaxinación. É un divertimento para mentes inquietas. Pero seguro que encontraredes quen lle dea moito, moito valor".
Calidonia.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2006

Lobos, Lobinhos e Lobões

a toponímia galego-portuguesa é rica em "Lobos" e nomes afins ou aparentados. o simpático animal abundou outrora noutros locais também, onde, no entanto, não foi escolhido para padrinho. por outro lado, alguns topónimos dificilmente se referirão ao bicho, dado estarem em campo aberto. hoje em dia, ameaçado de extinção, o canis lupus não se vê muito por aí, nem nuns lugares nem noutros. é preciso ir procurá-lo nas reservas naturais - e já me aconteceu nem aí o topar.
não é fácil descobrir a origem destes topónimos, mas não há-de ser latina nem referir-se ao bicho dos contos de fadas. há uma Leuven (Fl.) ou Louvain (Fr.) ou Lovaina (Pt.), na Bélgica, que talvez aponte para uma origem pré-celta. é preciso notar que as lendas em volta do nome de Lobeira (Gz.) se referem à mítica Rainha Loba, e não ao lobo.



La Louvière (Wl), na Bélgica francófona, está associada à lenda de uma loba, idêntica à da fundação da Cidade de Roma. esta loba terá sido um símbolo ou totem étnico pré-ariano.






além disso, aponta-se para a maioria destes topónimos a raiz pré-indoeuropeia Lap-/Lep-/Lip-/(Lop-)/Lup-, que é responsável pela formação de palavras como "lapa", "lápis", "lava", "lupa", e significa "pedra".


aqui vão alguns desses topónimos:


Câmara de Lobos (na Madeira não haveria lobos, quando foi descoberta e povoada. ver Coment.)
Casal do Lobo
Fôjo Lobal
Labagueira
Labruge (é hidrónimo. ver post "Hidrónimos ou Nomes de Rios")
Labruja (é hidrónimo. o mesmo que Labruge)
Lapa do Lobo (é um pleonasmo dentro da mesma língua?)
Laboreiro
Laborim
Laborins
Lavadores (Gz. e Pt.) (pronunc. Lavadòres)
Leboreira (Gz.)
Leboreiro (Gz. e Pt.)
Loba
Lobal
Lobão (é hidrónimo. ver post "Hidrónimos ou Nomes de Rios")
Lobazim (?)
Lobeira (Gz.)
Lobeiro
Lobeiros
Lobel
Lobela
Lobelha
Lobelhe
Lobite
Lobios (Gz.)
Lobisomem (será "rio das pedras"?)
Lobito (Pt. e Ang.)
Lobízios
Lobo
Lobão
Lobo Joanes
Lobo Morto (será pleonasmo?)
Lobos
Lobosinho
Loivos
Lousa
Lousã (Cf. Lausanne - CH)
Lovaínho
Lovazim (o mesmo que Lobazim)
Lubazim (o mesmo que Lobazim)
Lubeira
Lubeiro (Gz.)
Lubreu
Monte de Lobos
Pedra Lobeira
Pena Lobo (será pleonasmo?)
Rio de Lobos
Rio do Lobo
Vale de Lobos


nota-1: hoje não sabemos se quando um topónimo significava "pedra" significava qualquer pedra, de qualquer tipo, ou se para cada tipo ou particularidade das pedras havia uma palavra específica. as línguas dos povos mais enraizados na Natureza eram e são muito ricas em definir esse mundo natural em pormenor. e quem diz "pedra" diz outra particularidade qualquer do meio ambiente: "monte", "rio", "plano", etc., etc. uma aparente repetição dos mesmos temas em Toponímia poderá esconder uma enorme riqueza de ínfimos detalhes.

nota-2: o grego "lobo" aplica-se a qualquer parte arredondada e saliente, sendo usado na anatomia para parte de órgãos (cérebro, rim, fígado) com essas características.



domingo, 15 de janeiro de 2006

Um Pequeno Incidente Informático



Depois de um apagão, estou recuperando o blogue devagarinho e com novo formato.
espero que seja do vosso agrado.