segunda-feira, 8 de maio de 2006

A Toponímia da Região de Aveiro


a região de Aveiro é o lugar de convivência com a água, e com o mundo através da água. "Aveiro", é um  topónimo que nos remete para a água. outros, como "Ovar", lembram-nos a presença de um porto desde longa data.
a filiação linguística dos topónimos parece acompanhar a filiação genética das populações: há um ramo que se pode chamar de "litoral", com visível presença de gente ruiva e loira, e um ramo "rural" com muito menos características "nórdicas".
em Aveiro e nas aldeias e vilas em redor, é muito notória a presença do Brasil, em primeiro lugar, e da Venezuela - por força de ligações bilaterais criadas por emigrantes. a toponímia urbana e o nome de lojas, restaurantes e cafés registam abundantemente esse facto. Aveiro, e seus arredores, é, sem exagero, a cidade mais brasileira de Portugal. está geminada com Belém do Pará para celebrar essa ligação contínua de há muitos anos


Arada -

Assilhó - diminut. de "Ossela" (Osselola - Assilhó)

Aveiro - tal como Avanca, parece conter duas vezes a noção de "água": "Av...-"+"Ar-...". ver "Hidrónimos ou Nomes de Rios"

Azurva -
Beduído -

Belasaima - é também hidrónimo. este facto e a semelhança fonética fazem pensar na divindade celta Belisama

Belazaima - o mesmo que "Belasaima"

Cesar - (pronunc. "Cesár")
Eirol -
Esmoriz -
Espairo -

Estarreja - topónimo de ressonências euskera, como "Biarritz" (F)

Gafanha - os habitantes das Gafanhas não se chamam "gafanhotos", são "gafanhões" e "gafanhoas"

Gafanha da Encarnação -
Gafanha da Nazaré -
Gafanha de Aquém -
Gelfa -

Gonde - é hidrónimo. é o nome de um pequeno regato que passa na Quinta que foi do Professor Egas Moniz, Prémio Nobel da Medicina

Ílhavo - é um topónimo seguramente pré-romano, celta ou mesmo basco.na sua composição entra o elemento "ili" (cidade?) e "abo"/"avo" (comum a "Aveiro" e "Avanca", e que significa "água")

Loure -

Macinhata - topónimo viário? pode derivar de "mansionata", referindo-se à existência de uma pousada ou mansão ("mansio").

Madaíl -
Mamodeiro -

Monsarros - ver "Vila Nova de Monsarros"

Oiã -

Óis da Ribeira - "Óis" é um topónimo muito raro e muito antigo, seguramente pré-romano. existe em Portugal e na Galiza. a sua presença em Navarra ("Oiz") e na Catalunha ("Oix") parece indicar uma origem euskera ou proto-euskera

Óis do Bairro - ver "Óis da Ribeira"

Ossela -
Ovar -

Pardilhó - ver "topónimos terminados em -ó"

Requeixo -
Salreu -
Samel -
Sangalhos -

Torreira - topónimo presente noutras zonas de Portugal e na Galiza. no caso da região de Aveiro parece querer referir-se a "costa da... torre(?)"

Ul - ver esse post. o seu significado é "ribeiro", "regato".

Vagos - é possível que se trate de um etnónimo, do nome de uma tribo anterior ao domínio romano. essa tribo teria um nome relacionado com o rio "Vouga" ("vaccua"). a variação do leito final deste rio ao longo dos séculos permite estabelecer a relação entre "Vagos" e "Vouga"

Vagueira - pronúncia: "Vàgueira". refere-se a "costa de vagos"

Verdemilho - a forma anterior de "Verdemilho" foi "Vila de Milho". ver post

Vila Nova de Monsarros - algum parentesco linguístico com "Monsaraz"? assim parece


sexta-feira, 5 de maio de 2006

De Maringá pra Vila de Rei

Portugal sofre de, pelo menos, dois grandes flagelos demográficos: uma drástica diminuição da natalidade, com um substancial aumento da esperança média de vida, e a desertificação humana do interior. isso faz com que zonas inteiras da faixa leste do país estejam reduzidas a dúzias de velhos solitários, artificialmente arrebanhados em Lares da Terceira Idade, a que se dá, por vezes, nomes que seriam cómicos se não fossem cruéis. a uma dessas casas botaram o nome de "Última Morada", a outra "Eterno Paraíso", e outras ainda afinam pela mesma espécie de bom-gosto. juntando a tudo isso, vem o verão todos os anos levar o que sobra de uma antiga floresta nacional, alargando os horizontes num sem-fim de milhares e milhares de figuras esguias e ressequidas de árvores queimadas. não é um problema especificamente português. o que será especificamente português é essa divisão do país em Litoral e Interior, essa desertificação que assola a zona mais próxima dos centros de decisão da União Europeia, a região que poderia, teoricamente, atrair população, quadros, dinheiro, investimento, a faixa do território que mais poderia beneficiar da integração de Portugal na União. mas não é assim. quanto mais longe de Bruxelas, de Estrasburgo ou de Paris, melhor é Portugal - ou pelo menos assim julgamos nós. é um Estado-Membro ao contrário. é como se na América as regiões de um Estado fossem tão mais desenvolvidas quanto mais afastadas de Washington ou de Nova Iorque. Portugal olha para a Europa, a que pertence, às curvas, através do mar e do ar. por terra, o histórico peso da Meseta impede os portugueses de ver e de entender a União em linha reta. tudo o que tenha de passar pela Meseta faz tremer o peito.
vem isto a propósito de um fenómeno singular que está atraindo as atenções para Vila de Rei.
aquela vilinha pequena do distrito de Castelo Branco, na chamada zona d' "O Pinhal", tem a particularidade de ser a povoação que fica no centro geográfico de Portugal, bem perto do Alto de Milriça - o centro geodésico do país. e padece do outro mal que desertifica o interior: a emigração, que leva os poucos jovens que a terra inda produz. vêm à ideia os versos de Rosalia:

"iste parte e aquel parte
e todos todos se ván,
Galiza sen homes quedas
que te poidan traballar"...

pois teve o município de Vila de Rei uma ideia original: chamar gente do Brasil para repovoar o concelho.
chegaram as primeiras quatro famílias inteirinhas, de Maringá, Estado do Paraná, oito adultos e seis crianças.
Portugal tem 500 000 imigrantes, na sua maioria eslavos ou africanos, que, aliás, preferem os grandes centros litorais. mas chamar gente do Brasil, e para o interior, tem um gostinho especial e refresca a língua. inverte os caminhos da História e, quem sabe, um dia refrescará também a toponímia

(...veja o que acontece......quatro meses depois...)

quarta-feira, 3 de maio de 2006

triste sina, a nossa

uma língua é um espaço de comunicabilidade. tem uma estrutura, uma organização interna, um conjunto léxico comum, uma pronúncia individual, sotaques diferentes, variantes, dialetos, mas é um espaço de parentesco e de semelhança não partilhado com mais nenhum código linguístico. de imediato percebemos se alguém usa o código linguístico português ou castelhano, inglês ou neerlandês, polaco ou russo. mesmo que a pronúncia ou variantes do léxico nos digam que, afinal, o inglês é da América ou da Austrália, o neerlandês da Bélgica ou da Holanda, o francês da França, da Bélgica ou do Quebeque, o castelhano de Espanha, de Cuba ou da Argentina, o russo da Rússia ou da Ucrânia. quanto ao sotaque, bem, o sotaque só é detetado por quem ouve, não por quem fala. e a compreensibilidade da pronúncia é, simplesmente, uma questão de tempo, de integração. mesmo o português de Portugal pode criar dificuldades a um português, se a pessoa que fala for de certas zonas da Beira Baixa ou da Ilha de S. Miguel, ou de certos lugares da Madeira. isso não faz com que a pessoa que fala fale beira-baixês, micaelense ou madeirense.
é impossível falar uma língua regular, uniforme, imutável e "sem sotaque". mesmo uma língua morta, na sua uniformidade e regularidade de defunta, é mutável e tem o sotaque e a pronúncia individual de quem a usa.
a língua não é de ninguém, sob pena de só existir na boca de quem a fala.
vem isto a propósito de um incidente ocorrido quando da visita de Saramago ao Brasil. falando num português de Portugal, o nosso escritor causou estranheza aos falantes brasileiros, pouco habituados a quem fala depressa, complicado e ainda por cima fechado. alguém lhe fez notar a dificuldade, apontando-lhe o problema do "sotaque".
ofendido - suponho - , o nobelado respondeu: "a língua é minha, o sotaque é seu"...
mas...que diabo deu a Saramago, para falar uma língua dele - e ainda por cima sem "sotaque"?



segunda-feira, 1 de maio de 2006

A Estranha Toponímia da Região de Coimbra



Coimbra, cidade de encontro entre o Norte e o Sul, o Ocidente e o Oriente, manifesta na Toponímia esse encontro secular de civilizações, línguas e etnias. são muitos os topónimos "estranhos", alguns deles sem paralelo no resto de Portugal e da Península.
Coimbra foi uma cidade "moçárabe", o que significa uma espécie de mestiçagem entre um fundo de língua e religião cristãs e um domínio político, cultural e administrativo árabe. mas o fenómeno da mestiçagem norte-sul e leste-oeste, em Coimbra, remonta a épocas muito mais antigas.
tantas são as raridades num raio de 40 km em volta desta cidade, que a todo o momento nos deparamos com a nossa incerteza e ignorância, mas também curiosidade, a respeito de Toponímia


Adémia - ao que parece, é um topónimo de meio rural e significará "uma terra que fica entre monte e várzea", "terreno cultivado", "terra de qualquer cultura". há vários locais que mereceriam esse nome, mas só conheço esta "Adémia"

Alcabideque - palavra híbrida do árabe al- e do latim caput: "a cabeça de água", "a fonte". é a nascente que abastecia de água a cidade romana de Condeixa-a-Velha, identificada como Conímbriga. mais a sul, na região saloia, existe a variante "Alcabideche" com o mesmo sentido

Alcarraques - seria uma povoação especializada no fabrico de alpergatas ou sapatos de lona, uma vez que al-qarraq, em árabe, é "o que faz alpergatas"

Almalaguês - palavra híbrida, al-malaguês, este topónimo há-de ter relação com "Málaga", ou com pessoa ou pessoas de lá

Almas de Freire - significa "as alminhas (cruzamento com "alminhas") de Freire". o problema é este "Freire"

Almegue - do árabe: "porto", "vau", "lugar de onde se atravessa (o rio)". existe em vários concelhos entre o Mondego e o Tejo

Anaguéis -

Andorinha - será um topónimo muito antigo, provavelmente de origem (proto-) euskera

Antanhol -
Antuzede -
Ardazubre  -
Arregaça
Arzila 

Assafarge - esta grafia não será a mais correta. a sua origem arábica impõe que se escreva "Açafarge". no entanto, mesmo de origem árabe, o topónimo pode ter diferentes significados, embora todos relacionados com o mundo rural

Bencanta  topónimo de possível origem árabe
Bendafé
Bom Velho de Baixo
Bom Velho de Cima
Bordalo
Brasfemes 
Buarcos - origem desconhecida.

Cadima  do árabe, significa "a velha", querendo exprimir a antiguidade da povoação para quem lhe deu esse nome. se aqui se falasse tupi-guarani, o nome seria "Aracajú"

Calhabé  nos fins do séc. XIX houve uma figura típica de Coimbra, das muitas que a cidade produziu, que tinha por alcunha "o Calhabé", célebre pela sua devoção ao divino licor de Baco. O nome é provavelmente arbitrário, criação de estudantes boémios. o pequeno lugar de subúrbio, onde havia uma taberna, é hoje uma zona nobre da cidade

Casconha  gente importante diz que "Casconha" virá de "casca". duvido. a terminação -onha,, como em "Bretonha" e "Bergonha", é uma referência étnica. pode estar por "Gasconha" ou "Vascónia": "terra de bascos"

Cioga do Campo - há quem diga que seria "Sioga", de "Sinagoga". outros dizem que é um vocábulo pré-romano, o que parece mais sensato

Cioga do Monte - se "Cioga" fosse "sinagoga", haveria uma no campo e outra no monte, o que me parece forçado e um tanto fora de sítio. ver esse post

Coiço -
Conraria -

Corujeira - este topónimo repete-se em Portugal e na Galiza (onde também aparece sob a grafia "Coruxeira"). muitos há que defendem que resulta da abundância de corujas. o certo é que há mais corujas noutros lugares que não levam esse nome, e há "Corujeiras" onde a coruja nunca piou. penso que, tal como em "Coruche", a origem estará em "cruze": "cruzamento". ver esse post

Coselhas - em documentos medievais aparecem as grafias: Cosilias, Cozelias, Cuzelias, Cozilias e Cuzelas. será variante dialetal de "Casilhas"?

Cunhedo - lugar onde há (muitos) "cunhos" ou "conhos", isto é, penedos. este lugar fica numa zona onde o Rio Mondego corre num leito escarpado e pedregoso, propício à construção de barragens

Degracias -
Ega - topónimo antigo, ainda indecifrado

Ereira - há quem diga que vem do latim, de agraria. tem um porém: fora do leito do Rio Mondego existem terras bem melhores para merecer esse nome

Fala - topónimo ainda indecifrado

Formoselha - só aparentemente é de origem latina. por isso, não creio que deva alguma coisa a "formosura". mais provável é uma origem germânica, que contenha "fruma" (primeiro) e "sindus" (caminho): "estrada principal"? é um topónimo aparentado de muitos outros em "Formose...", "Fermose...", "Fremose...", tanto em Portugal como na Galiza e em León, independentemente da beleza da paisagem

Ingote -
Liceia - este topónimo pode ter origem euskera ou celta, com óbvia diferença de significado consoante a origem. se a origem é celta, pode ser aparentado a "Leixões" e significar "rochedo". se a origem é basca, terá uma raiz "leku" que significa "lugar" (+ ...)

Lôgo de Deus -

Lordemão - de "nordman" (viking)? os vikings foram conhecidos por nordmanni, lormanes e leodomanni . ver aqui.

Orelhudo -

Porto da Raiva - último ponto até onde o Rio Mondego era navegável, antes das obras de regularização do caudal do rio e de irrigação da Região do Baixo Mondego. daí partiam e aí chegavam as barcas serranas e a apreciada lampreia, que marcou a gastronomia da região. correm várias opiniões sobre a origem do topónimo "Raiva". a origem latina, de "rapida" (fortes declives do leito do rio), peca por ser a partir da "Raiva" que deixa de haver esses declives. ouvi, em tempos, uma explicação curiosa: seria "Porto de Arraiva" e não "Porto da Raiva", e quereria dizer "porto até onde se pode chegar" (arribar), "porto de chegada". mas nem tudo o que faz sentido é necessariamente verdade. creio, aliás, tratar-se de um termo pré-romano, euskera ou proto-euskera, pois que "rabia" existe em zonas ibéricas de toponímia basca onde não houve influência do latim. exº: "Fuenterrabia", uma castelhanização de Hondarribia, que em euskera significa "Vau do Areeiro" ou "Vau do Areal"

Poutena - não sei nem encontrei quem saiba o que significa "Poutena", nem a sua origem linguística. sei que no Grego Moderno "poutenà" significa "lugar nenhum", "nenhures". mas isso é em Grego Moderno, e a pronúncia é diferente

Quiaios - tal como "Quimbres" e "Quinhendros", "Quiaios" é uma povoação junto da água, neste caso do mar, enquanto "Quimbres" e "Quinhendros" ficam junto do rio Mondego. é preciso notar que o Baixo Mondego sofreu grandes mudanças ao longo dos séculos e que há dois ou três mil anos teria um aspecto muito diferente do actual, talvez uma grande ria. a primeira parte da palavra, "Qui-", "Quin-" tem uma forte probabilidade de significar "Porto", tanto mais que outras povoações ribeirinhas do Mondego e com características idênticas se chamam "Porto da Raiva", "Porto de Meãs", "Porto Godinho", "Portunhos". (ver "Almegue"). a segunda parte da palavra qualificaria o porto. este trio, talvez pela dificuldade que apresenta, tem sido pouco estudado. será fenícia a origem? de certo sabe-se que existiu uma feitoria fenícia em Santa Ovaia, Montemor-o-Velho. "Quiaios" é uma aldeia de pescadores. a sua população tem, além disso, uma característica genética oriental: é uma zona endémica da "Doença dos Pèzinhos", "PAF" ou, agora que mandam os americanos, "Doença de Machado Joseph"

Quimbres - ver "Quiaios"
Quinhendros - ver "Quiaios"
Raiva - ver "Porto da Raiva"
Reveles -

Souselas - topónimo de difícil interpretação. ver post

Tentúgal - topónimo pré-latino. a terminação -gal sugere uma origem celta

Trevim -

Trouxemil - será topónimo de origem germânica (sueva). Coimbra, e a sua Região, fez parte da Galiza Sueva

Verride - provável origem pré-romana
Zorro -

Zouparria - topónimo intraduzível, de momento, embora a terminação -ia pareça árabe

Zouparria do Monte -

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sexta-feira, 21 de abril de 2006

será que vem de lavar?



estes topónimos têm a particularidade de fazer apelo a um certo segundo sentido, de conotações corporais íntimas. a fazer fé na aparência, nesses locais seria uso fazer-se um determinado tipo de higiene, corporal ou espiritual. mas será?
certo é que também têm em comum o facto de estarem junto a linhas de água e serem locais de travessia ou terrenos ribeirinhos com alguma caraterística especial em comum (veigas? prados? lugares de pastagem?).

Lavacolla (Gz.)
Lavacolhos (Pt.)

Lavacunas - na margem direita do rio Minho

Lavadores (Pt. e Gz.) - este topónimo não parece ter relação com os restantes. pronuncia-se "lavadòres". estará relacionado com a presença de escolhos e arrecifes junto ao mar. rever aqui

Lavadorinhos - diminut. de "Lavadores"
Lava Mãos
Lavariz - (?)

Lavarrabos - na margem direita do rio Mondego. topónimo abandonado em favor de um mais "apresentável" - o atual "S. João do Campo", nos arredores de Coimbra. porém, não seria exatamente "lavarrabos", mas sim "rabarrabos"

Lavatodos (Pt.) - na margem esquerda da ribeira de Lorvão
Lava Seixos



sábado, 15 de abril de 2006

Senhoras e Senhores


vestígios de uma antiga mundivisão pagã submersa no cristianismo oficial, estas "Senhoras" e estes "Senhores" sobrevivem ainda no imaginário vivido de muitas aldeias, montes, rios e caminhos. não são santos nem deuses propriamente ditos. falta-lhes o Nosso ou a Nossa antes de
Senhor ou Senhora. não tenhem nome próprio, não se chamam João, Pedro, Maria, sei lá. mas fazem milagres, curam e salvam dos mil e um poréns e imprevistos da existência humana. as suas festas são ainda essencialmente pagãs. nelas se come e bebe e dança. e se cumpre a promessa.
no interior ou no adro das capelas, muito destes locais exibem telas, madeiras ou quadros de azulejo com o "Milagre Que Fez " (Pt. e Br.) o Senhor ou a Senhora do lugar.


Senhora-a-Branca
Senhora Aparecida (Pt. e Br.)
Senhora Armada (Gz.) - advogada das dores de cabeça. porquê?
Senhora da Agonia
Senhora da Ajuda (Pt. e Br.)
Senhora da Azenha

Senhora (ou Virgem) da Barca (Gz.)- ver enlace de "Senhora do Caminho"

Senhora da Barca do Lago

Senhora da Boa Viagem - invocação própria de gente embarcadiça, por exº., pescadores

Senhora da Cabeça

Senhora da Estrela - na Redinha, Pombal, é um culto extremamente arcaico. em serra calcária, uma gruta muito profunda está obstruída por uma capela, que ocupa a parte esquerda do saguão da gruta. os ex-votos de sempre estão ainda vivos em pleno séc. XXI: "f..., de Poios, mandou fazer à Senhora da Estrela". faz lembrar uma gruta "neolítica" das Astúrias: a gruta de Covadonga (em latim, Cova Dominica : "a Gruta da Senhora"). mas tirando a capela - que já é muito -, tudo está como dantes: ao natural e longe dos curiosos

Senhora da Graça (Pt. e Br.)
Senhora da Guia (Pt. e Br.)
Senhora da Hora
Senhora da Lapa
Senhora da Lapinha
Senhora da Luz - ver Comentº

Senhora da Menina - curiosa invocação, que nos remete para as "matrioscas" (avó-mãe-filha-neta). é um culto pagão evidente

Senhora da Nazaré
Senhora da Ó ou Virgem da Ó (Gz.)
Senhora da Oliveira
Senhora da Peneda
Senhora da Penha
Senhora da Póvoa
Senhora da Ribeira
Senhora da Rocha

Senhora da Saúde - uma sobrevivência da Salus romana, ou um culto anterior romanizado?

Senhora das Areias - pode ser precedida do possessivo "Nossa"
Senhora da Serra
Senhora das Candeias
Senhora das Mercês
Senhora das Necessidades
Senhora das Neves
Senhora das Preces
Senhora das Virtudes (Pt. e Gz.)
Senhora das Vitórias (ver Senhora da Vitória)

Senhora da Vida - embora possa levar o possessivo "Nossa", não deixa de ser uma Senhora pagã

Senhora da Vitória - uma sobrevivência da Victoria romana
Senhora de Cadeiras (Gz.)
Senhora de Entre Águas

Senhora de Guadalupe (Gz., Pt. e Br.)- é motivo da célebre canção popular galega "A Rianxeira": "A Virxen de Guadalupe/ cando vai pola Ribeira/ descalciña pola areia/ parece umha rianxeira/..."

Senhora de Porto d'Ave
Senhora do Alba (Gz.)
Senhora do Além
Senhora do Almurtão
Senhora do Amparo
Senhora do Bom Juízo

Senhora do Cabo - pode levar o possessivo "Nossa", mas não deixa de ser uma Senhora pagã

Senhora do Caminho (Gz.)
Senhora do Cardal
Senhora do Carril
Senhora do Castelo
Senhora do Círculo

Senhora do Faro (Pt. e Gz.)- ver "Virgem do Faro" ou "Virxen do Faro"

Senhora do Gozo (Gz.)

Senhora do Lago - ver "Senhora da Barca do Lago"

Senhora do Leite - invocação extremamente arcaica da mater nutrix. os romanos identificaram-na a Ísis. ver nota a "Virgem dos Olhos Grandes"

Senhora do Monte -

Senhora do Ó (Pt. e Br.)- ver "Senhora da Ó"

Senhora do Pilar -
Senhora dos Aflitos -
Senhora dos Esquecidos -
Senhora dos Milagres (Pt., Gz. e Br.) -
Senhora dos Navegantes (Br.) -

Senhora dos Olhos Grandes (Gz.) - invocação notável pelo seu arcaísmo. remete-nos para "Atena", "Minerva" e, ainda mais para trás, à "Deusa-Coruja". é a padroeira da cidade de Lugo e também protege as vindimas e os emigrantes. note-se que Palas Atena era chamada "a dos olhos grandes" ou "olhos de coruja" ou, ainda, "a dos olhos verdes". isto não significa uma influência grega ou romana (no caso de Minerva) na Galiza, mas sim uma origem comum do culto da "deusa"-coruja. e tal como em Braga em relação à Senhora do Leite/Ísis, tamém em Lugo a Virgem dos Olhos Grandes foi transformada em Santa Maria. mas, ao contrário de Braga em que a Senhora do Leite foi remetida para um nicho no exterior da cabeceira da Sé, em Lugo a Virxen dos Ollos Grandes convive com os outros santos no interior da Sé, e em lugar de destaque.

Senhora dos Remédios (Pt., Gz. e Br.)

Senhora do Vencimento (Pt. e Br.) - conheço esta invocação em São João da Pesqueira, na Ribeira Grande (Aç.) e na Bahia (Br.)

Senhora do Viso (Gz.)

Senhoras do Monte - uma curiosa invocação múltipla. no caso do concelho de Guimarães, as "Senhoras do Monte" são três

Senhor das Almas

Senhor da Pedra - uma capela sobre um penedo ("a pedra") da Praia de Miramar, onde o paganismo inicial se mantém vivo. a própria capela diz que no seu lugar estava antes um culto pagão. foto www.canalfoto.org.

Senhor da Serra -
Senhor da Vida -
Senhor de Matosinhos -
Senhor do Além -
Senhor do Bonfim (Pt. e Br.) -


Senhor dos Aflitos -
Senhor dos Navegantes -
Senhor dos Perdões
Virgem do Faro -

Virgem dos Olhos Grandes - ver "Senhora dos Olhos Grandes"
Virxen do Faro - o mesmo que "Virgem do Faro"
Virxen dos Ollos Grandes - ver "Virgem dos Olhos Grandes"



quarta-feira, 12 de abril de 2006

Brejos e Brenhas

alguns topónimos referem-se às características bravias da vegetação. são ou foram, em geral, matas ou matagais de onde o ser humano se afastava. aí só cresce ou crescia vegetação silvestre, mais ou menos densa, mais ou menos emaranhada. estes topónimos e seus derivados são muito frequentes em toda a Península, embora mais no norte, e, por isso, também em Portugal e na Galiza:


Boiça - terreno bravio, de mato
Boicinha
Bouça - o mesmo que "Boiça"
Bouças
Boucela - diminut. de "Bouça". o mesmo que "Boucinha" e "Boicinha"
Boucelha
Boucinha
Bouza ou Bouça (Gz.)
Branha ou Braña (Gz.)- o mesmo que "Brenha"? ver comentário de Miguel. provém do latim veranea: "(pasto) de verão".
Breijo (Gz.)
Brejão - é aumentativo de "Brejo"
Brejo (Pt. e Gz)

Brejo das Almas (Br.)- ver Comentário de Jolorib.
desde 1938 "Brejo das Almas" passou a chamar-se "Francisco Sá". que me perdoem os que acham melhor assim, mas "Brejo das Almas" era um achado...

Brejoeira
Brejões
Brejones (Gz.) - o mesmo que "Brejões"
Brejos
Brenha
Brenhas - no Alentejo é hidrónimo
Conceição do Mato Dentro (Br.)
Mata (Pt. e Gz.)
Matadussos - talvez signifique "Mata de Ussos ou Ursos"
Matagal
Matamá
Mata Mourisca (ver também "Mourisca")
Matança (Pt.)- ver "Matanza" (Gz.)
Matancinha - diminut. de "Matança", indicando que Matança vem de "Mata" e não de "matar". ver "Matança" e "Matanza"
Matanza (Gz.) - a casa onde a grande Rosalia de Castro viveu os últimos anos da sua vida, hoje sua Casa-Museu, é a "Casa da Matanza"
Mato Grosso (Br.)
Moita (Gz., Pt. e Br.)
Moita Bonita (Br.)
Moita da Serra
Moitalonga
Moitedo
Moitinha
Moitinhal
Moitinhas
Moitinho
Mouta (Pt. e Gz.)
Moutadas
Moutados
Silva
Silva Escura
Silvao (Gz.)
Silvão
Silvarelhos
Silvares (Pt. e Gz.)
Silvarosa (Pt. e Gz.)
Silveira (Pt. e Gz.)
Silveiras (Pt. e Br.)
Silveirinha
Silveirinho
Silveiro


Nota: sobre "Bouça e Touça" ver o post
ainda sobre "Matas" ver o post

terça-feira, 11 de abril de 2006

Água, Águas




os topónimos em "Água", "Águas", e seus compostos e derivados, são topónimos "primordiais", que ocorrem em todas as línguas e em todos os tempos. já o vimos a propósito dos topónimos tupi-guaranis, mas podemos vê-lo em euskera, em asture-leonês, em catalão, em castelhano, em provençal, em francês, e assim por diante. como o seu nome indica, são, antes do mais, hidrónimos. mas podem, a partir daí, designar povoações. são topónimos frequentes em Portugal, na Galiza (sob a forma nortenha "Auga", "Augas") e no Brasil.



aqui ficam alguns topónimos em "Água", "Águas":

Água Branca (Br.)
Aguada (Pt. e Gz.)
Aguada de Baixo
Aguada de Cima
Água de Madeiros
Água de Meninos (Br.)
Água Levada
Agualva
Aguamá ou Água Má
Água Preta (Br.)
Água Quente (Br.)
Águas de Moura
Águas do Rio Doce (Br.)
Águas Férreas
Águas Livres
Águas Mornas (Br.)
Águas Radium - parece nome erudito de termas radioactivas, na Beira Baixa
Águas Santas
Águas Vivas
Agueiro, Agüeiro (Pt., Gz.)
Aguela, Agüela (Pt., Gz.) - diminut. de "Água"
Aguim - não tem que ver com "água". significa "villa aquilini": a quinta de Aquilino
Auga Enterrada (Gz.)
Augas Santas (Gz.)
Barranco de Água Velha
Foz de Égua - ver "Vale d' Éguas"
Mãe d'Água
Mortágua - Cf. provençal "Aigues Mortes", ant. "Auguas Mortas"
Olho d'Água das Flores (Br.)
Olho d'Água do Casado (Br.)
Olho d'Água Grande (Br.)
Olhos d'Água
Vale d'Éguas - aqui "Éguas" está por "Águas". variante dialectal?

sábado, 8 de abril de 2006

Judiarias, Mouriscas e Mourarias

Ibéria, Espanha, Sepharad ("terras do ocidente), Al-Gharb-al-Andalûs ("o oeste vândalo"), a Grande Espanha dos Pirinéus ao Atlântico, foi sempre, ao longo da História, uma pátria de povos, de línguas, de deuses e de civilizações. quem não viveu nesta terra que a não tenha cantado ou chorado por ela?

duas comunidades tiveram um importante papel na história da Península: os judeus e os mouros. conviveram pacificamente durante séculos com as populações autóctones, sem quaisquer sinais de crispação ou intolerância. mas, subitamente, com a chegada do Renascimento e das doutrinas de O Príncipe, de Maquiavel, a Península Ibérica deixaria de ser para eles uma boa pátria. ao princípio da convivência e da tolerância sobrepôs-se o princípio da uniformidade cultural, sob a bandeira da unidade religiosa. não foram apenas os judeus e os mouros as vítimas, mas também o povo do campo, que teimava nas suas tradições e hábitos pagãos.

tanto os judeus como os mouros após a Reconquista viviam em ruas ou bairros próprios, com direitos e obrigações específicas, diferentes da população principal - ruas ou bairros esses que tomavam, respetivamente, o nome de "judiaria" e de "mouraria".
em meados do séc. XVI, os ventos de Aragão, contaminados de intolerância para com as diferenças culturais e religiosas, ditariam o destino destas comunidades: converter-se ou fugir. e aqueles, judeus e mouros, que aceitaram converter-se nem imaginavam que mais lhes valia ter fugido. ser "cristão-novo" passou a ser mais motivo de suspeita do que ser o que eram dantes.

as "Judiarias" encontram-se em cidades e vilas, enquanto as "Mourarias" ocorrem em núcleos urbanos mas também em aldeias.
"Mourisca" e "Mouriscas" só ocorrem em aldeias (*).
por outro lado, as "Judiarias" surgem mais nas vilas e cidades fronteiriças de Trás-os-Montes, Beiras e Alentejo, enquanto as "Mourarias" aparecem em núcleos urbanos do sul.
"Mourisca" e "Mouriscas" são topónimos que aparecem mais dispersos, e em geral referem-se a aldeias povoadas por mouros "cristãos-novos".
em alguns casos o termo "Mourisca" refere-se a um troço de estrada remodelado ou construído na época mourisca.




(*) o caso especial da vila de Mourisca do Vouga deve-se à elevação da aldeia a vila em período recente

terça-feira, 4 de abril de 2006

Topónimos Relacionados com Migrações

a migração de populações está representada nas toponímias galega, portuguesa e brasileira. no caso galego-português, a maioria destas migrações deu-se no século XII e XIII, mercê de políticas de repovoamento em resposta a uma rarefação populacional de causas diversas. já vimos, a propósito dos galegos e dos britos na toponímia portuguesa, alguns topónimos que se referem à migração de gente vinda de outras bandas da Península Ibérica, de outras zonas da Europa e mesmo de outras regiões do país. no caso brasileiro, a maioria destes topónimos refere-se à migração de portugueses, mas também há muitos topónimos de origem alemã, sobretudo no sul.
em qualquer dos casos, a criação destes novos topónimos deve-se ao fa(c)to dessas terras não terem ainda nome, ou ter sido esquecido o nome anterior.
vemos que as aldeias serranas da Beira, hoje lugar de refúgio para gente do norte da Europa, não mudaram de nome pelo facto de abrigarem holandeses ou alemães. é que ou os derradeiros habitantes originais dessas aldeias ainda estavam vivos ou o nome das aldeias ainda era conhecido.



A-dos-Francos
Algarvios - aldeia de gente oriunda do Algarve. topónimo a norte do Algarve
Astureses (Gz.) - ver "Estorãos".

Almalaguês - ver postagem

Barrancões - aldeia de gente oriunda de Barrancos (?)
Bascos (Gz.) - aldeia de bascos
Beirã - talvez por "aldeia povoada por gente vinda da Beira". topónimo a sul da Beira (Alto Alentejo)

Beirão - talvez esteja por "lugar povoado por gente vinda da Beira". topónimo a sul da Beira

Bergonha - oriundos da Borgonha. por sua vez, a "Borgonha", região da França, refere-se a um povo germânico oriundo de Borgundarholm, uma ilha escandinava da costa dinamarquesa

Biscaia - aldeia de gente oriunda da Vizkaya (País Basco)
Biscainha - o mesmo que "Biscaia"
Biscainhos - o mesmo que "Biscaia"

Brasileira - não conheço, mas está referenciado. deverá referir-se a gente que esteve no Brasil

Brasileiro - não conheço, mas está referenciado. ver "Brasileira"
Brasileiros - não conheço, mas está referenciado. ver "Brasileira"

Bretonha - oriundos da "Britânia". trata-se de celtas em fuga, em consequência da invasão dos anglo-saxões

Briteiros - oriundos da "Britânia". ver "Bretonha"
Brito -
Britos - ver "Briteiros
Casconha - de Gasconha ("Vascónia"), País Basco (?)
Castelães - gente oriunda de Castela
Castelão - povoado ou lugar povoado por gente vinda de Castela
Castelãos - gente oriunda de Castela
Castelãs - o mesmo que (aldeias) castelhanas
Castelhana - (aldeia de) gente oriunda de Castela
Castelhanas - ver "Castelhana"
Castelhano - o mesmo que "Castelão"
Castelões - oriundos de Castela
Coenços - gente oriunda de Coence (Gz.)?
Coimbrão
Coimbrões - oriundos da região de Coimbra
Cumbraos (Gz.) - o mesmo que "Coimbrões
Estorãos - asturianos
França
Franciscas
Francos
Franqueira
Galegos - oriundos da Galiza
Galizes - o mesmo que Galegos
Golegã - (aldeia galegana ou galegã): "(aldeia) galega"
Germanha (Gz.) - gente oriunda da Germânia
Guilhadeses - gente oriunda de Guilhade (Gz.)

Guimarantinhos - pela sua localização (Mangualde), será "gente de Guimarães de Tavares"?

Limãos - oriundos do Vale do Lima (galego)
Limões - ver "Limãos"
Lombardos - oriundos da Lombardia (Itália)
Malga - forma sincopada de Málaga. ver postagem
Margato - gente oriunda da Maragatería, León
Medeiros - gente oriunda de Meda
Meridãos - gente oriunda de Mérida
Merideses - o mesmo que "Meridãos", mas com terminação leonesa
Mesiões - oriundos de Mesio
Nafarros - oriundos de Nafarroa (Navarra)
Panóias (Pt. e Gz.) - oriundos da Panónia (actual Hungria)
Penicheiras - aldeias de gente oriunda de Peniche
Porvença (Gz.) - ver Proença
Proença a Velha - gente oriunda da Provença
Proença a Nova
Ribeira das Castelhanas

Sardão, Cabo - refere-se aos "sardos", "povo do mar", que também deu nome à Sardenha (I)

Sardinheiro (Gz.) - ver "Sardão". graf. altern. Sardiñeiro
Seidões - aldeia de gente oriunda de Seide (?)
Sevilhão - lugar povoado com gente oriunda de Sevilha
Sourões - lugar povoado com gente oriunda de Soure
Suevos (Gz.) -
Toscanha (Gz.) - gente oriunda da Toscânia
Vascões - aldeia de gente oriunda do País Basco

Vergonha - ver "Bergonha". aqui pode ver-se como um topónimo "nobre" pode evoluir para uma forma desagradável (mais, talvez, por efeito da escrita do que, propriamente, pela fala)

sábado, 1 de abril de 2006

Uma (cómica) Versão deste Blogue em Inglês

encontrei esta versão em inglês de Toponímia Galego-Portuguesa e Brasileira. duvido que algum falante daquela língua, seja em que variante for, entenda patavina. mas é um esforço e, quem sabe até, um reconhecimento [ :-) ]. achei uma gracinha.

traduzir o topónimo "Mora" por "deferred payment" (pagamento em atraso) e "Pena" por "penalty" (castigo) é uma possibilidade, mas bem patusca... coisas da tradução automática...

quinta-feira, 30 de março de 2006

Topónimos Tupi-Guaranis (5)

conclui-se agora a viagem pela toponimia tupi-guarani. só foram aqui chamados os principais topónimos que podem encontrar paralelo na toponímia galego-portuguesa e brasileira de língua portuguesa e, assim, ajudar a compreender as lógicas ou as motivações que estão por detrás dos nomes dos rios, das serras, das aldeias, das planícies, enfim, da toponímia em geral, que numa estratificação histórica, civilizacional e linguística, como aquela que ocorreu no espaço galego-português, deu origem a designações já difíceis de decifrar e a homofonias e convergências enganosas em que muita gente se perde e faz perder os outros.
há muitos outros topónimos tupi-guaranis, mas, na sua maior parte, dizem respeito a especificidades locais da fauna e da flora que seria fastidioso e de pouca utilidade enumerar. por outro lado, também não esgotariam a proveniência linguística da toponímia nativa brasileira, porque deixariam sempre de fora os topónimos criados por tribos que não são de fala tupi-guarani, como os tapuias e os caribes.

alguns topónimos tupi-guaranis (de U a Z) e seu significado em português:

Ubatuba - de ybá (canoa)+tyba (muito, colecção): "sítio das canoas", "porto das barcas (canoas)"

Umuarama - outra criação de erudito, neste caso Silveira Bueno, a partir do tupi-guarani. foi forjada de embu (lugar)+ara (cheio de luz, soalheiro)+ ama (muitos, reunião): "lugar soalheiro e bom para juntar pessoas (amigas)". é nome de uma cidade do Paraná

Upamoroti - de ypá +moroty: "lagoa clara"
Utinga - de y (água, rio)+tinga (branco): "rio branco"

Vupabussú - de upabussú: "lagoa branca". nota: não há o som "v" em tupi-guarani

Ybatuba: "muita fruta": "pomar"
Ybitiguassú: "serra grande"
Ybytimirim: "serra pequena"

Ymirim: de y(água, rio)+mirim (pequeno): "rio pequeno", "riacho", "arroio", "ribeiro", "regato"


segunda-feira, 27 de março de 2006

Topónimos Tupi-Guaranis (4)

quando os romanos chegaram à Península Ibérica e à região ocidental galego-portuguesa, as serras, os rios, as planícies, planaltos, cabeços e cumeadas, fontes, veigas, lagos e lagoas tinham já de seu um nome cada. aos romanos coube-lhes arremedar na sua língua própria - o latim - os nomes dos lugares de que iam tomando posse. não deixaram na Toponímia uma assim tão augusta marca, para além das cidades por eles fundadas, como Emmerita Augusta (Mérida), Caesarea Augusta (Saragoça), Pax Julia (Beja) e Aequae Flavis (Chaves). muitas outras cidades tiveram o seu nome latinizado, mas não latino, como Asturica Augusta (Astorga), Bracara Augusta (Braga), Brigantia (Bragança), Lucus Augusta (Lugo), Igaeditania (Idanha). a marca dos romanos não é essa. é terem deixado a sua influência civilizacional e linguística.
o mesmo se passou com os portugueses em África e na Ásia do Sul. Bissau, Guiné, Cabinda, Luanda, Angola, Zaire, Huíge, Huambo, Bié, Zambeze, Rovuma, Moçambique, Goa, Damão, Diu, Macau, Timor e assim por diante, são nomes aportuguesados de topónimos nativos. a nossa influência nessa parte do Mundo foi outra.
assim também no Brasil. o que em si mesmo é natureza, sem a mão do homem, é linguisticamente nativo.

alguns topónimos tupi-guarani (de P a T) e o seu significado em português:

Papuã - "monte redondo". na toponímia portuguesa: "Monte Redondo"
Pará - "mar" (rio muito grande)

Pavuna - de ypab (lagoa + una (preta): "lagoa preta". na toponímia portuguesa: "Lagoa Escura"

Perituba - de piri (junco)+tyba (muito, colecção): "juncal". na toponímia portuguesa: "Juncal"

Pindorama - seria "o país das palmeiras" ou Brasil. mas é um topónimo daqueles de que falava Jolorib. não foi "postado" por índio, mas por um tal de Magalhães. dá o nome a uma cidade do Estado de S. Paulo

Ponta Porã - palavra "cabocla": portug. "ponta"+ tupi "porã" (bonita): "ponta bonita"

Potiguar - "comedor de camarão", "marisqueiro". era o nome depreciativo com que as tribos do interior chamavam as tribos do litoral nordestino, por não terem oferecido resistência aos europeus (portugueses). nesse contexto, tem o significado de "frouxo". no entanto, a população de Natal e do Rio Grande do Norte faz gosto no epíteto

Potinji - de potim (camarão)+yi (água, rio): "rio dos camarões"
Reritiba - de reri (concha)+tyba (muito, colecção): "concheira"

Taba - a aldeia, o povoado. na toponímia galego-portuguesa: "Pai" (palavra plural de pagus), "Vigo", Alcaria", "Caria", "Aldeia"

Tabaínha - palavra "cabocla". de taba (aldeia)+sufixo diminut. português inha: Aldeota, que também é topónimo brasileiro e português

Tabapuã - de taba (aldeia)+puã (alta): "aldeia alta". como "Tábua" e "Taboão"

Taboaté, Taubaté - de taba (aldeia)+eté: a taba a sério, a cidade
Tanhenga - de itá (pedra)+ nheenga (que fala): "pedra falante"
Tijuca, Tijuco - "pântano, paúl"

domingo, 26 de março de 2006

Topónimos Tupi-Guaranis (3)


quando em 1500 chegaram os primeiros portugueses, calcula-se que no Brasil houvesse cinco milhões de nativos. o contacto com os homens europeus, o seu trato, os seus hábitos e as suas doenças estranhas, dizimaram essa gente da qual resta hoje menos de dez por cento, ou seja, aproximadamente umas 400 000 almas (ver Comentº). destes sobreviventes, muitos perderam a língua e o essencial da sua religião e cultura. os padres jesuitas destacaram-se no esforço de aculturação dos índios, mas foram eles também os que primeiro estudaram e compreenderam a língua tupi-guarani, falada pelos nativos do imenso litoral brasileiro. no nosso tempo é ainda uma das línguas oficiais do Paraguay ("rio dos papagaios")


alguns topónimos tupi-guaranis (de J a O) e seu significado em português:

Jericoacoara - de yurucuá+cuara: "a toca das tartarugas" ou "o síto onde as tartarugas vão (pôr os ovos)"

Jucunem - de y (água)+ucúnem (malcheiroso): "lagoa malcheirosa"

Jupi - de yu+py: "espinheiro", nome de serra. em português: "Espinheiro"

Juruá - de yurá (boca)+ á (aberta): "boca larga", foz aberta de um rio

Jurumirim - de yurá (boca)+ mirim (pequeno): "embocadura ou foz apertada"

Lopo - de ropo (com r brando): serra que leva o nome da tribo que a habita
Manhuassú - de amana (chuva)+ (gu)assú (grande): "onde chove muito"
Manhumirim -de amana (chuva)+ mirim (pequena): "onde chove pouco"
Marajó - de mbara+yó: o anteparo ou "barreira do mar". nome de uma ilha

Maranhão - embora pareça convergente com topónimos portugueses, tem significado diferente: de mbara (mar)+nhã (agitado)

Miracatá - de mira (gente)+catú (bom): "gente boa"

Mondim - convergente com topónimos iguais galegos e portugueses, mas com significado diferente: de mundé: armadilha pequena. nome de rio. "rio das pequenas armadilhas". tal como o caso de "Maranhão" e outros, estas homofonias lembram as dificuldades com que nos deparamos na interpretação de topónimos antigos

Narandiba - de narã (do português "laranja")+tyba (muito, colecção): "laranjal"

Ocarussu - "terreiro grande"


sábado, 25 de março de 2006

Topónimos Tupi-Guaranis (2)

a internet tece a sua teia a uma velocidade realmente astronómica. reparem que só a Technorati gaba-se de coligir 31,3 milhões de sítios e 2,2 mil milhões (bilhões) de enlaces. a coisa pode ser multiplicada pelos milhões e bilhões (milhares de milhões) de outros buscadores. é um número tão incrível como os milhões de anos-luz traduzidos em quilómetros. ser visto e ser lido neste universo imenso é um milagre. e, porque é um milagre, é tamém uma responsabilidade de respeito. nenhum livro, nem o mais vendido dos livros mais vendidos alcança tamanha difusão, nem fica exposto a tão grande, tão sincera e tão íntima crítica - seja ela favorável, desfavorável ou simplesmente crítica.
é assim que Toponímia Galego-Portuguesa e Brasileira passa de uma (quase) brincadeira inicial a um caso sério. entenda-se: sério para quem se meteu neste caminho, fará por esses dias seis meses.
e nesta viagem chegámos ao Brasil, à Toponímia Nativa, aquela que dá nome à natureza tal como o ser humano a encontrou.

alguns topónimos tupi-guaranis (de D a I) e o seu significado em português:

Emboaçaba - equivalente aos topónimos portugueses em "Vau"
Engaguassú - de yguá (baía)+guassú (grande): "baía grande"

Garapava - de igara (canoa)+paba (porto): lugar onde estacionam as canoas. "porto das canoas"

Grupiara - de curu-piara: sítio onde há muito cascalho. na toponímia portuguesa: "Seixal"

Guanabara - de goanã-pará: goá (baía)+nã (que parece)+pará (mar): "baía-mar", "baía muito grande"

Guayrá, Guaíra - à letra: "daí não passas!". é nome de uma queda de água (intransponível), "Sete Quedas"

Iapeyú, Ipojuca - "brejo", "pantanal"

Iaquã - "cotovelo do rio", "volta do rio". no toponimia portuguesa: "Volta do Rio"

Ibiapaba - "terra alta plana", "planalto". na toponímia portuguesa de origem árabe: "Almeida"

Ibiaçua - "encosta". como "castanheira", em português.

Ibiãgui - à letra: "o sopé da terra alta": "o sopé da serra". na toponímia portuguesa: "Pé da Serra"

Ibiapina - de ybyã (terra alta)+pina (careca, sem árvores): "serra calva"

Ibipeba - de yby (terra)+peba (baixa): "planície"

Ibirapuera - de ybirá (árvore, mata)+puera (que já não é):"antiga mata"

Ibicuityba, Ibicuitiba, Ibiciritaba - de iby (terra)+cui (areia)+tyba (muito): "areal"

Icaray, Icaraí - de y (água, rio)+caray (santa, santo):"água santa". na toponímia galego-portuguesa: "Águas Santas", "Augas Santas"

Igarapaba - variante de "Garapava"
Igaraé - de igara (canoa)+apé (caminho): "caminho das canoas". um braço de rio

Iguassú, Iguaçú - de y (água, rio)+guassu (grande): "rio grande". na toponímia espanhola de origem árabe: "Guadalquibir"

Iguatemi - de yguá (baía)+timbi (verde escuro): "(foz de ?) rio verde escuro"

Indayatuba, Indaiatuba - de indayá (palmeira indayá)+tyba (muita, colecção): "palmeiral", "palmar"

Inhuã - de nhu (campo)+ã (elevado, alto): "campo alto"

Inhumirim - de nhu (campo)+mirim (pequeno): "campo pequeno". em Lisboa: "Campo Pequeno"

Inussu - de nhu (campo)+ussu (grande): "campo grande". em Lisboa: "Campo Grande"

Ipanema - de y (água, rio)+panema (má, mau): "rio mau". em Portugal: "Rio Mau"

Ipiranga - de y (água, rio)+piranga (vermelho): "rio vermelho". em Portugal e Espanha: "Rio Tinto"

Iporanga - de y (água, rio)+poranga (bonito): "rio lindo", "rio bonito"
Itaituba - de itá (pedra)+tyba (muitas, colecção): "pedregal"
Itamarati - de itá (pedra)+morati (muito brancas): "pedras (muito) alvas"

Itapira - de itá (pedra)+ apira (elevada, empinada): pedra empinada. não pode traduzir-se por "Perafita" porque aqui a pedra está empinada pela mão do homem

Itacoatiara - ver post

sexta-feira, 24 de março de 2006

Topónimos Tupi-Guaranis (1)


das quatro bisavós que me couberam em sorte, uma era brasileira. não a conheci nem sei de onde veio, ou se era apenas uma ex-emigrada no Brasil, daquelas de que se ocupou o nosso escritor oitocentista Camilo Castelo Branco. sei que era "Ribeiro". na casa dos meus avós maternos, em S. Torcato, Guimarães, ouvia falar desse tronco "brasileiro" que, aliás, dava motivo de alcunha a esse filão genealógico. falava-se por lá um português muito próximo do galego, ao menos no léxico e em certas particularidades da pronúncia. mas lembro-me que havia palavras de uso comum que tinham vindo do Brasil. uma delas era o "côco", nome que se dava ao caneco de tirar a água do cântaro.
do tempo dessa bisavó e filho do Brasil tamém, tinha lá um papagaio que viu morrer e nascer várias gerações de gente. bem amestrado e bem falante, o papagaio era o garçon da loja. assim que chegava alguém, logo chamava: "- ó António, anda à loja!" e quando o cliente se aprontava para sair coa encomenda, assim o bicho lembrava: "- pagar que não esqueça..."
isto não faz tanto tempo, nem eu sou assim tão velho que tudo se passasse no tempo em que os animais falavam. mas, para o bem e para o mal, Portugal mudou tanto que é já difícil compreender como esses tempos fazem parte do mesmo país.
mas foram esses tempos o suficiente para que fizesse parte de mim a cultura comum galego-portuguesa e brasileira.
até aqui tenho ocupado a grande maior parte do blogue com as raizes comuns galego-portuguesas, visíveis na Toponímia à vista desarmada.
é a vez de falar da toponímia tupi-guarani. parecerá que nada tem que ver com a cultura e a língua de origem ibérica, indo-europeia na sua maior parte. pois não tem. mas tem uma importância fundamental na compreensão de como se forma a Toponímia de um país.
o povo nativo é o que dá o nome aos rios, às serras, às praias, aos campos, à natureza não transformada pelo homem. em grande parte do Brasil, o povo nativo fala(va) o tupi-guarani nos seus diversos dialectos. há, ainda, topónimos que não são europeus nem tupi-guarani. mas formam uma minoria que por agora não interessa.
não existe melhor forma de compreender como nasce um topónimo que a de estudar a toponímia brasileira tupi-guarani, pois que por cima da camada nativa vem apenas e logo o português. as homofonias com o léxico português, que por vezes aparecem, são curiosas. e algumas já nós vimos, como o caso dos topónimos brasileiros em "Boi".

alguns topónimos tupi-guarani (de A a C) e seu significado em português:

Aguapey ou Aguapí - de aguape (nenúfar)+y (água, rio): "rio dos nenúfares". poderia evoluir para "água-pé", formando um falso (e disparatado) topónimo português

Aiba - "matagal", "brenha". na toponímia galego-portuguesa: "Brenha"
Andaray - de andyray (morcego)+y (água, rio): "rio dos morcegos"

Anhangabaú - de anhangá+bá (malefício do diabo)+y (água, rio): "rio do(s malefícios do) diabo"

Anhangay, Anhangaí - de anhangá+y: "rio do diabo"
Apetumbu ou Apetumby - "estrada poeirenta"
Apeturibú, Apottribú - "estrada da fonte"

Apiay - "lugar úmido, alagado" (ocorre em lugares de mineração, de chumbo por exemplo)

Apiteribú, Apoteribu, Poteribú, Potribú - "fonte do meio"

Aporã - "lugar bonito no alto". o mesmo que "Belavista" ou "Boavista" em português (Cf. Belvedere)

Apuã - "monte, colina, môrro arredondado", "cabêço", "cabêça"

Apyra - "ponta, cabo, fim da terra" (Cf. Fisterra - Gz. - e Finisterre - F)

Aracajú - capital de Sergipe: "muito antiga". é um sinónimo de "Cadima"

Araçoyaba - "o que faz sombra". no caso, no Estado de São Paulo: "monte em forma de chapéu", "monte sombreiro"

Arapecum - "restinga, língua de terra"
Araraquara - "o paradeiro das araras"

Araxá - "a vista do mundo". é o mesmo que "Belo Horizonte" em português

Assaré - "o atalho, caminho alternativo". à letra: "caminho diferente"

Atibaia - "lugar saudável". o mesmo que "Belos Ares" em português e "Buenos Aires" em castelhano. o significado inverso, "maus ares", é o nome de uma doença que todos gostaríamos de ver erradicada: a malária
Avaré - "(lugar onde mora) o homem diferente" (padre), "(sítio d)o padre"
Avay ou Abaí - de Abá (homem)+y (água, rio): "rio do homem"
Baeriri, Bariri - "rio com cachoeiras", "cachoeiras do rio"
Baetimbaba - "plantação, horta, roça" (à letra: "lugar que produz muitas coisas")
Baetybeyma - "terra árida, estéril". na toponímia portuguesa de origem árabe: "Safara"
Bambuy ou Bambuí - de bambu (sujo)+y: "rio sujo" (barrento)

Bangú - "monte ou cêrro escuro". na toponímia galego-portuguesa de origem latina: "Monte Negro" ou "Montenegro"

Baruery - o mesmo significado que Baeriri e Bariri

Boquira - de mboquira: "onde a chuva nasce", "lugar de onde vêm as nuvens"

Brocotó - de mborocotó: "terreno cheio de altos e baixos"

Butantã - de mbu (lugar, terra)+ tã-tã (dura-dura, muito dura): "terra muito dura"

Butuquara - de ybytu (vento)+quara (abertura, fenda): "a porta do vento". em Portugal: "Portela do Vento"

Buturuma - de ybyty+una: "monte negro"

Bytury - de ybyty (montanha)+y: "água ou rio da montanha", "ribeira da serra"

Caçapava - "clareira, picada ou passagem na mata". se a clareira foi feita por fogo, diz-se "Caucaia"

Catanduva - e caá (mato)+dyba (duro): "mato duro". é o mesmo que "Mato Grosso" em português.

Catujy - de catu (bom)+yi (água, rio): "rio bom"

Catumbi - de caá+tumbu: "à beira da mata", "no (so)pé do monte". na toponímia portuguesa: "Pé da Serra" (Cf. "Piemonte", Itália)

Curityba, Curitiba - "pinheiral", "pinhal"


terça-feira, 21 de março de 2006

Substantivos e Adjetivos de Origem Toponímica


há palavras em português de Portugal que têm origem toponímica. sobretudo em alguns adjectivos, o povo da terra em causa nem sempre fica bem no retrato. contas e coisas da História...

aqui vão:

badalhoco (adjectivo. de "Badajoz" - Badalhouce -, Extremadura, Espanha)

boémio (adjectivo. de "Boémia", região da Europa Central, actual República Checa. aquele que leva uma vida despreocupada, divertida e vadia. essa evolução semântica deve-se aos ciganos vindos da Boémia)

braga (cueca de meia côxa. termo usado em Espanha. de "Braga")

casaco (substantivo, também conhecido no Brasil por paletó. deriva de "khasak", povo do Khazakhstan)

caxemira (substantivo. tecido fino de lã. deriva de "Caxemira", região entre a Índia e o Pasquistão, disputada por ambos os países)

cobre (substantivo, metal. de "Kypros", a Ilha de Chipre)
cretino (adjetivo. de Creta)
damasco (substantivo, fruto. de "Damasco", Síria)

enxovia (substantivo. do árab. "ax-xauía", etnónimo de populações marroquinas entre Azamor e Rabat, que os portugueses adoptaram como nome de significado geográfico. era uma região rica em cereais, que se guardavam em covas: as "covas de Enxovia". daí a evolução para "espelunca, casa insalubre")

esgroviado, esgrouviado (adjectivo. de "O greve", Galiza?)

frango (substantivo. ave de capoeira. de França)

galego (que trabalha muito e ganha pouco, labrego, rústico. no Brasil, é sinónimo de "português", com o mesmo sentido)

galinha, galo (substantivo. ave de capoeira. de "Gália", França)

gravata (substantivo. deriva de "Croácia" - Hrvatska)

laranja (substantivo, fruto. de "Orange", França)

palerma (adjectivo. de "Palermo", Sicília, Itália)

patavina (substantivo. de "Pádua", "o falar de Pádua". como era um falar estranho, difícil de entender por quem não sabe, serve de paradigma para se dizer "não percebi nada": "não percebi patavina" - ver Comentário)

persiana (substantivo, cortina para diminuir a luminosidade: "da "Pérsia")

pêssego (substantivo, fruto, de pérsico. da "Pérsia")

pulha (adjectivo, de "Puglia",Itália)

samarra (substantivo. espécie de casaco com gola de pele de raposa. de "Samara", cidade da Rússia?)

tangerina (substantivo, fruto. de "Tânger", Marrocos)

túnica (substantivo. peça de roupa comprida com corpo e mangas. de Túnis, Tunísia)

turquesa (substantivo. nome de pedra preciosa e nome de côr. de Turquia)

varina (substantivo. de O Var - "Ovar". termo lisboeta para vendedeira ambulante de peixe)


segunda-feira, 20 de março de 2006

Agora é Que a Porca Torce o Rabo



como temos visto, em Toponímia os nomes sobrevivem à língua e à civilização que lhes deu voz. por isso, uma nova camada populacional, uma nova época, uma nova língua, podem fazer com que novas gerações não tenham pelo nome da sua terra o agasalho e o mimo de outras gerações e de outros tempos.
os topónimos em "Porco", "Porca", "Porqueiro", assim criados no caldeirão de povos e línguas que nos gerou, são relativamente frequentes. como no caso do touro, a relação muito especial, sagrada, entre o homem e o porco pode ter feito convergir a evolução de palavras sem nenhum parentesco linguístico.
assim, tendo em conta uma antiquissima tradição do culto dos berrões, de que restam as porcas de Murça, de Torre de D. Chama etc., poderia pensar-se que os topónimos em causa se referissem a esse animal. mas não é assim. uma antiquíssima raiz p-r-k indica a presença de "água".


Barranco do Porco (pleonasmo: "ribeiro do ribeiro")
Chão de Porcos
Momporcão
O Rabo do Porco (Gz.)
Pocariça (?)
Ponte do Porco - como é óbvio, as pontes pedem um rio, ribeiro, regato ou regueiro que lhe passe por debaixo.

Porcalhota (a multidão de novos habitantes chegados à Porcalhota no fim do Séc. XIX já não sabia de onde diabo vinha semelhante nome, tendo pedido ao Rei que lhe desse melhor sorte. ficou então "Amadora")

Porco (Pt. e Br.)- topónimo associado a pequenas ilhas ou ilhéus, a elevações de terreno ou a ribeiros, regatos ou regueiros. talvez haja um denominador comum: a água corrente.

Porcos de Armenteiro
Porqueira (Pt. e Gz.)
Porqueiros (Pt. e Gz.)
Porquinhas
Porquinho
Ribeira do Porco (Md.) - parece um pleonasmo, coisa muito comum na Toponímia.
Serra do Porco
Torre de Porqueira (Gz.)
Venda do Porco


sábado, 18 de março de 2006

Entre Aqui e Acolá



muitos topónimos galegos, portugueses e brasileiros referem-se à particular situação do lugar entre dois ou até três rios, entre vales, entre vinhas, etc. não têm outro significado.

Entre-Ambos-os-Rios
Entre-as-Devesas
Entre-as-Serras
Entre-Caminhos
Entrecasas (Gz.) - um topónimo misterioso, sem dúvida
Entre-Devesas
Entre-Matinhas
Entre-Montes (Br.)
Entre-os-Rios
Entre Rios (Br.)
Entrerribeiras (Gz.)
Entrerribeiros (Gz.)
Entrerríos (Gz.)
Entresserras
Entrevais (por Entrevales)
Entre-Vinhas
Entrevinhas ou Entreviñas (Gz.)



quarta-feira, 15 de março de 2006

Oleiros. Olarias e Cerâmica


da saga que levou à sedentarização em povoados, com o desenvolvimento da agricultura, fez parte a produção de uma série de utensílios indispensáveis à conserva e transporte de alimentos, à cozinha, à apresentação da comida e da bebida e ao momento das refeições. enquanto era suficiente, usou-se a cana, a cabaça e a madeira como matéria prima. ainda restam, em algumas aldeias, alguns desses utensílios, seja por ainda estarem em uso, seja apenas para turista ver.
mas o que deu a alma à civilização agrícola e lhe exteriorizou os sentimentos foi a cerâmica e, dentro da cerâmica, a arte e o ofício próprios da olaria.
povos (povoados) na Galiza, em Portugal e no Brasil (ver Comentº) que se especializaram na produção de figuras de barro, com as quais se dá largas a uma tradição comum, a um tempo erótica e satírica, que se manifesta(va) também nas cantigas de escarnho e maldizer.
a importância da olaria e da cerâmica justifica que a presença de oleiros ou de lugares de produção cerâmica tenha deixado marcas na toponímia. embora houvesse olarias e oficinas muito antes, os topónimos mais antigos deste grupo são arábicos e situam-se na região moçárabe.
ainda hoje há aldeias, como Bisalhães, Molelos e Vilar de Nantes que preservaram formas e técnicas próprias de olaria, procuradas pelos apreciadores.
grande parte dos topónimos que se seguem designam lugares onde já não há vestígios do ofício, embora em alguns casos ainda esteja presente em lugares não muito afastados - provavelmente herdeiros desse saber.


Aldeia de Oleiros

Alfafar (árab.: "al-fakhar": "olaria")
Alfarela
Alfarelha
Alfarelos (árab. :"al-fakhkhar": "loiça de barro")

Molelos (ainda hoje é uma terra de produção cerâmica tradicional própria. a questão é saber se o termo "molelos" tem que ver com a roda do oleiro)

Ola (remoínho num rio, cascata). Ola, Olas, Olela, Olelas não se referem a olarias)
Olas
Oleira (Pt. e Gz.)
Oleiro
Oleirolos (diminut. de "Oleiros")
Oleiros (Pt. e Gz.)
Olela (diminut. de "Ola")
Olelas (Pt. e Gz.)