sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006

Para Que Serve Um Blogue

confesso que andava um pouco zangado. o blogger não funciona suficientemente bem, nem pouco mais ou menos. de início atribuí-me as culpas, porque, em boa verdade, não nasci na idade da informática. porém, depois de consultar outros blogues constato que esse é um problema e um queixume bastante distribuído pelos blogonautas - o que a bem dizer me retira da classe dos ineptos, pelo menos dos ineptos mais minoritários.
e hoje apetece-me fazer as pazes com o blogue. ele é uma espécie de diário falante. responde aqui e além, dá sugestões, apoia, às vezes até elogia. mas o mais importante é que transporta para lá de todas as fronteiras, irmana com gente semelhante no falar e no pensar, torna o ser humano ubíquo e etéreo, livre deste aqui e deste agora.
e guarda cogitações de longa data, a experiência de gentes e lugares, todas essas coisas guardadas algures no íntimo, sem préstimo por não estarem à disposição de quem as podia querer.

post scriptum: jolorib, soube que sofreu um apagão. recupere rápido. faz falta na blogosfera.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

Rei, Princesa e Capital

receio que este post não tenha muito que ver co'a Toponímia, mas não resisto. afinal de contas, quem sabe se um dia vem a ter. vai fazer 96 anos que Portugal se tornou uma República. visto isso, não lhe devia ser do agrado o sangue azul e respetivos títulos de rei, de príncipe ou princesa. puro engano! afinal, o problema é que todos os portugueses e suas madames gostariam de ser reis, rainhas, príncipes e princesas tamém. e está certo. só um rei é pouco. assim como só uma capital (...e inda por cima Lisboa!). temos de convir que é pouco demais. nós temos vistas largas e gostamos de conhecer as coisas por um nome mais solene. somos um pobo profundamente aristocrata e pergaminhento, que não se conforma co'a apagada e vil tristeza, como dizia um poeta - por sinal demasiado citado pr' o meu gosto.
os brasileiros, claro, em questão de reis e de princesas não nos ficam atrás.

vejam só (prometo aumentar a lista):

A Capital da Chanfana - Miranda do Corvo
A Capital da Lampreia - Penacova
A Capital da Maçã de Montanha - Armamar
A Capital do Frango do Campo - Oliveira de Frades
A Capital do Fumeiro - Vinhais
A Capital do Minho - Braga (alterna com A Cidade dos Arcebispos e A Roma Portuguesa)
A Capital do Móvel - Paços de Ferreira
A Capital do Norte - Porto (alterna com A Invicta)
A Capital do Parapente - Linhares da Beira
A Capital do Queijo da Serra - Celorico da Beira
A Capital dos Dinossauros - Lourinhã
A Capital Universal da Chanfana - Vila Nova de Poiares (veja a receita da Confraria)

A Cidade Berço - Guimarães
A Cidade dos Arcebispos - Braga
A Cidade Invicta - Porto

A Princesa do Alva - Côja
A Princesa do Cávado - Barcelos
A Princesa do Lima - Viana do Castelo
A Princesa do Lis - Leiria

A Rainha dos Cachorros - aqui "cachorro" é hot-dog
A Rainha da Fronteira - Elvas

O Rei da Fruta
O Rei da Pescada
O Rei das Bifanas
O Rei das Farturas
O Rei das Francesinhas
O Rei das Ostras (Br.)
O Rei das Peles
O Rei das Pipocas
O Rei das Sandes
O Rei da Sucata
O Rei do Cabrito
O Rei do Maracujá (Br.)
O Rei dos Azulejos
O Rei dos Blogues (o trono está vago. por enquanto)
O Rei dos Cachorros (hot dogs)
O Rei dos Catálogos (Br.)
O Rei dos Cortinados
O Rei dos Esquentadores
O Rei dos Frangos
O Rei dos Gatos (Br.)
O Rei dos Hamburgers
O Rei dos Tapetes (Br.)


bom, mas para que este post tenha algo que ver com Toponímia, aqui vos deixo alguns topónimos em Rainha, Rei e Reis:


Angra dos Reis (Br.) - aqui os "reis" são outros. significa que os portugueses chegaram à região em 6 de janeiro

Caíde de Rei
Caldas da Rainha
Caldas de Reis (Gz.)
Moreira de Rei
Palas de Rei (Gz.)
Pinhal do Rei
Praia d'El-Rei
Serra d'El-Rei
Vila de Rei
Vila Nova da Rainha
Vila Nova de Souto d'El-Rei
Vilar de Rei
Vila Real
Vila Real de Santo António

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

Pisão, Pisóm (Gz.), Pisões

estes topónimos fazem referência a aparelhos, por vezes muito complexos, destinados a pisar azeitonas para fazer azeite. constam de uma construção só aparentemente tosca, em forma de casa, uma grande roda movida pela energia de uma queda de água e um sistema de engrenagens que transmite a força hidráulica à prensa do lagar. estas construções encontram-se na margem de um rio ou ribeiro, num troço propício ao aproveitamento da energia das águas (ver Comentº).

veja-se os seguintes:

Arruda dos Pisões
Outeiro dos Pisões
Pisanito (diminut. de Pisão)
Pisão
Pisãozinhos (diminut. plur. de Pisão)
Pisões
Pisóm (Gz.) - o mesmo que Pisão


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006

Gonça, Gonçalo, Gondar, Gondomar,...

os topónimos em "Gonc-", "Gonç-", "Gond-" e "Gont-" são muito abundantes no noroeste peninsular, sobretudo no Entre-Douro-e-Minho e na Galiza. são de origem germânica, implicam uma atitude guerreira e, pelo seu significado, referem-se a alguém que mereceu distinção em "combate" (gunthi), pelo que terá sido premiado com a posse das terras homónimas. isso quererá dizer que a cada "Gondar" seu combatente, e não tanto o mesmo combatente para senhor de todos os "Gondar" - penso que seria demasiado prémio para um homem só, inda por cima "bárbaro". na Galiza há uma boa meia-dúzia de "Gondar", praticamente tantos como em Portugal a norte do Rio Douro. num deles, o de Guimarães, me tornei gente suficientemente crescida para os combates da vida.
bom, há os "combatentes" e há os "chefes dos combatentes" ou de tribo (gunde-rik): "Gondariz", "Gondoriz" - que, já se vê, são menos abundantes, embora os haja tanto na Galiza como no Norte de Portugal.
no Brasil há topónimos destes, transpostos tanto de Portugal como da Galiza

podemos arrolar os topónimos seguintes:

Gonça
Gonçala
Gonçalinha
Gonçalinho (Pt. e Br.)
Gonçalo (Pt. e Br.)
Gonçalo Bocas ("Bocas" porquê? deveria grafar-se "Gonçalbocas"?)
Gonçalo Velho
Gonçalveiros (povoação de gente oriunda de "Gonçalo"?)
Gonçalves (Pt. e Br.)
Gonçalvinho
Gonce
Gonceiro
Goncinha
Gondã
Gondães (é um genitivo. significa [villa ou quinta] de um tal "Gonta")
Gondaes (Gz.)- o mesmo que Gondães
Gondais - o mesmo que Gondães e Gondaes
Gondão
Gondar (Pt. e Gz.)
Gondarán (Gz.)
Gondarão (Br.) - transposição do "Gondarán" galego
Gondarém (Pt. e Gz.)
Gondarén (Gz.) - o mesmo que Gondarém
Gondar

Gonde - é um genitivo. significa [villa ou quinta ] de um tal "Gonto". há um ribeiro de Gonde, que significará, se não tem outra origem, "o [ribeiro da quinta] de "Gonto"

Gondeiro
Gondeixe

Gondelães - é um genitivo. significa [villa ou quinta] de um tal Gontella

Gondisalves - variante dialectal de "Gonçalves"
Gondivau - "Gundwald": pleonasmo:combate+combate

Gondomar (Pt. e Gz.) - é um genitivo de gund-maro, que deverá ser um título de guerra:
"Cavalo-Combate"


Gondoriz (Pt. e Gz.)
Gonte (Pt. e Gz.)
Gunde - o mesmo que "Gonte"


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

Mais um Apagão e Desisto

Isto de blogues tem que se lhe diga. está um home sossegado a escrever o que lhe vem à ideia e...zás! desaparece tudo! é preciso pacência... Ultimatum ao blogger: ou põe isto a funcionar como deve ser, ou... passo a escrever à moda antiga, de papel e lápis!

ponto final.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006

Cónego Arlindo Ribeiro da Cunha (1906-1976)


Fará trinta anos a 10 de abril que resolveu partir. digo "resolveu" porque podia ter resolvido seguir os conselhos da medicina. mas nisso ele era como os romanos: não tinha os filhos de Imhotep em grande conta, talvez fossem para ele um pouco menos que charlatães... passaria horas, se tivesse tempo, a contar histórias risíveis dos pobres práticos que, coitados, prescreveriam remédios piores do que as maleitas. mas não foi com isso que me demoveu de seguir a vocação. preferiria que eu fosse alguém nas letras, que tivesse jeito prá escrita e viesse a ser, sei lá, um prémio nobel. mas eu nunca tive muita queda para escrita demorada, nem fiz amigos prestáveis para aquele fim.
semeou, se calhar, uma semente melhor. ele era um manancial inesgotável de sabedoria. dominava a origem das palavras, o nome das terras e a forma de os decifrar, os nomes de família, os brasões, conhecia os caminhos velhos, as calçadas romanas, os marcos miliários, os montes onde podia esgravatar ruína antiga, os ditos e lendas populares e a maneira de os trocar em miúdos. tinha uma enorme biblioteca: era um espaço sagrado, um útero, nela bebi a cultura galega e brasileira, numa época em que a grande maioria dos patrícios desconhecia uma e outra. "airinhos, airinhos aires, airinhos da minha terra"... "minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá. as aves que cá gorjeiam não gorjeiam, como lá"...
fez-me andar em escavações arqueológicas, onde me entranhei de pó, de terra e de fascínio. gostava de mim porque eu era o filho mais velho da irmã dele - um antigo parentesco de excelência.
escreveu A Língua e a Literatura Portuguesa, manual de estudo para os alunos dos seminários e um livro muito seguido do Outro Lado do Atlântico. é também dele uma Gramática Latina que chegou à 7º edição.
além dos livros que escreveu e dos artigos que fazia publicar no Diário do Minho, participou como colaborador assíduo na Grande Enciclopédia Luso-Brasileira e na Enciclopédia Verbo.
nascido em S. Torcato , Guimarães, a 24 de fevereiro de 1906, foi professor do Seminário de Santiago (Seminário Conciliar de S. Pedro e S. Paulo) e cónego do cabido da sé de Braga. tem hoje o seu nome na toponímia urbana da Bracara Augusta. está referenciado na net, na bibliografia sobre a cidade.

(ver também este artigo e este aqui)


*In Memoriam*

Penamacor, Pena Maior, Penamaior (Gz.), Penamocor






são variantes dialectais do mesmo vocábulo composto: Penha Maior, isto é, "Penha Grande", "Penedo Grande".

Óbidos



é outro topónimo que está praticamente intacto, como veio ao mundo. provém do lat. oppidus, que significa "cidade fortificada", "fortaleza". no estado do Pará, no Brasil, há uma Óbidos, que resulta da transposição do topónimo português. a razão do nome salta à vista.
os romanos chamaram "fortaleza" a uma cidade que já lá estava quando eles chegaram

terça-feira, 7 de fevereiro de 2006

Penedono

este topónimo parece acabadinho de inventar. ainda soa praticamente do jeito que falava quem o inventou: pene-dunu, Pena de Dono, a "penha do castelo". aquele "dono" latinizado na Idade Média deu Pennadedomno, uma inverosímil "penha do senhor".
não obstantemente a evidência fotográfica, ainda há quem acredite mais nas cousas se forem escritas em latim, de preferência o latim macarrónico medieval. é como as afirmações dos textos científicos de hoje: os truismos ditos em inglês, de preferência o dos esteites, passam por elaborações filosóficas de grande profundeza. por mim, sempre me fio mais na linguagem direta dos lugares.

nota: o castelo a que se refere o nome esteve anteriormente no lugar deste, como se compreenderá.

Itacoatiara (Br.) ou a Pedra Letreira (Pt. e Gz.)

pela sua importância, passo a post a questão que me foi colocada pelo amigo Jolorib a respeito de "Itacoatiara", também grafada "Itaquatiara". em língua tupi-guarani significa "pedra letreira", "pedra gravada" ou "pedra pintada" - coisa bem conhecida a norte como a sul do rio Minho. estas pedras, ornamentadas com petroglifos (compreendo a necessidade do termo...), situam-se em lugares outrora sagrados, onde decorriam cerimónias astro-religiosas de iniciação e rituais de passagem. o neófito ou catecúmeno, até aí criança, era instruído nas verdades da tribo e nos segredos do cosmos, do mundo e da vida, passando à categoria de ser humano e adulto depois de integrar esse conhecimento no coração e na cabeça. os rituais impediam que a verdade entrasse por um ouvido e saísse por outro, enraizando-a profundamente no centro das emoções e da afectividade.
os rituais e provas de passagem eram suficientemente difíceis e dolorosas (adolescência) para o assegurar. o neófito morria para a vida anterior, a infância (que quer dizer "a idade em que não se fala" - ou não se tem voz activa), e renascia para uma nova vida, a vida adulta - onde já se fala, porque já se é mestre ou dono de si mesmo.
que esse tesouro de sabedoria não devia ser fácil de adquirir dizem-no as lendas sobre "tesouros escondidos" e "perigos" associados.


na Galiza existe ainda "pedra dos letreiros" e "os letreiros".
aqui bem perto, em Góis, há uma Pedra Letreira à qual se associa esta quadra:



"junto da pedra letreira
há três arcas em carreira.
uma é d'oiro, outra de prata,
outra de peste que mata"






segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006

Alba, Alva

é um dos topónimos mais antigos da Europa, e daí a sua presença dispersa um pouco por todo o lado. aparece sob a forma Abla, Alava, Alba, Alba de Tormes, Alba Facência, Alba Longa, Albânia, Alba Pompeia, Albe, Albé, Albion, Alpes, Alva, Alvão, Aube, Île d'Albe, Monte Albano, Mont'Alvão. muitas cidades da Itália etrusca tinham este nome, pelo que o topónimo é forçosamente pré-romano. não faz qualquer sentido fazê-lo provir do latim alba, "branca". significa "colina", "ponto alto", e, secundariamente, "castelo", "forte".

alguns topónimos em Alva.

Alban (Gz.)
Alpes
Alvinha
Barca d'Alva
Barroca d'Alva
Marialva - monte rochoso ou castelo na rocha
Montalvão - pleonasmo: monte-monte
Monte d'Alva
Penalva - castelo da pena
Penalva do Castelo - significa "castelo da pena do castelo"
Pisões de Ribeira d'Alva
Quinta do Alvão
São Pedro d'Alva




sábado, 4 de fevereiro de 2006

Soutos, Soutinhos e Soutelos

até agora tenho dedicado atenção à morfologia, orografia, hidrografia e infraestruturas dos lugares, com um desviozinho pelos hagiónimos ou nomes de santos. é altura de falar de lugares que devam o seu nome à flora que neles medra. vou começar pelos castanheiros, árvores cujo fruto mereceu em tempos a predilecção das gentes do Norte, pelo seu sabor e pela sua ligação às festas dionisíacas do "São Martinho" - em que pontuava o quase saudoso magusto. a castanha foi substituída pela batata, coisa da América, que se fez acompanhar do seu fiel amigo escaravelho. e o castanheiro foi escasseando e recolhendo a espaços cada vez mais reduzidos.
a mata de castanheiros tinha o nome de "soito" ou "souto". daí a persistência de topónimos como esses:

Quinta dos Soutos
Regada do Soito

Santo Varão (???) - este topónimo não está decifrado. a forma anterior de "souto" era "sauto". o lugar pode ter sido um souto de culto ou uma mata sagrada, na margem esquerda do Baixo Mondego

Soito
Solteirão (povoado com gente de Solto?)
Solteiros (gente orinda de Solto?)
Solto (de salto-sauto: souto. topónimo fora de uso)
Soutelinho (Pt. e Gz.) - é duplo diminut. de Souto
Soutelinhos
Soutelino
Soutelio
Soutelo (Pt. e Gz.) - diminut. de Souto
Soutelo de Montes (Gz.)
Soutinho - diminut. de Souto. é mais recente que Soutelo
Soutinhos
Souto (Pt. e Gz.)
Soutocico (Mir.) - diminut. mirandês (asture-leonês) de Souto
Souto da Casa
Souto da Ponte
Souto de Vea (Gz.)
Soutolongo (Gz.)
Soutomaior ou Sotomaior (Gz.) - é aumentat. de Souto. significa "Souto Grande"
Souto Redondo
Soutulho (Pt. e Gz.)
Soutulhos ou Soutullos (Gz.)
Soutulio


Nota: o Souto pode designar tamém um bosque na margem de um rio



ver novo post sobre o assunto aqui

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006

Tantas Vezes o Cântaro Vai à Fonte...

...que alguma vez deixa lá ficar a asa. mas não é desses cântaros que vou agora falar. vou falar de rochedos especiais, tipo monovolume, visíveis por exemplo na Serra da Estrela. derivam do tema "cant-", "pedra", e não se ficam por Portugal e Galiza. também aparecem na Cantábria, batizando a região, e nas Astúrias. Cantuária (Canterbury), na Inglaterra, é um topónimo da mesma família. em post anterior ("Serras, Montes e Montanhas") já arrolei alguns destes topónimos na variante "cand-".

alguns exemplos:

Canda (Pt. e Gz.)
Candal (Pt. e Gz.)
Cando (Pt. e Gz.)
Candieira
Candosa
Candoso
Cantanhede
Cântara
Cantareira (Pt. e Br.)
Cantareiras
Cantarinha
Cantarinho (Pt. e Br.)
Cantarinhos
Cântaro Grande
Cântaro Magro
Cântaros
Canteira (Gz.)
Canteiras
Canteiro (Pt. e Gz.)
Santo António do Cântaro
Vale de Cântaro



terça-feira, 31 de janeiro de 2006

Achada

quem achou estas terras e lhes botou o nome de Achada, ou afim, não estava pensando no facto de as ter achado. penso até que o nome mais certo é A Chada.
é possível que este topónimo e os seus derivados provenham do latim planata ou planeta, indicando um lugar plano, achatado, sobre um terreno habitualmente elevado e rodeado de declives abruptos. aparece em ilhas vulcânicas, como na Madeira (Md.) e em Cabo Verde (Cv.).
já agora, "planeta" é um pequeno disco "plano", uma espécie de espelho, que reflecte a luz do Astro Rei. embora seja um disparatezinho astronómico nos tempos de hoje, o nome ficou para a posteridade, reunindo os agora oito principais companheiros do Sol. mas por cá, pelo planeta terra, a palavra latina designa lugares planos, em geral de pequena superfície, como aqueles que se seguem

alguns exemplos:

Achada (Pt. - Ct. e Md.)
Achada da Arruda (Md.)
Achada da Madeira (Md.)
Achada da Morena (Md.)
Achada de Santo Antão (Md.)
Achada de Santo António (Cv.)
Achada de Simão Alves (Md.)
Achada do Barro (Md.)
Achada do Castanheiro (Md.)
Achada do Castro (Md.)
Achada do Cedro Gordo (Md.)
Achada do Folhadal (Md.)
Achada do Gramacho (Md.)
Achada do Loural (Md.)
Achada do Marques (Md.)
Achada do Pau Bastião (Md.)
Achada do Pereira (Md.)
Achada do Pico (Md.)
Achada do Pinheiro (Md.)
Achada do Til (Md.)
Achada Furna (Cv.)
Achada Grande (Md.)
Achadas da Cruz (Md.)
Achadinha
Cheda (Pt., Gz. e Br.)
Chedas (Pt. e Gz.)
Chedeiros
Corte da Cheda
Eira da Achada (Md.)
Lama de Cheda
Monte da Chada
Quinta das Chedas


segunda-feira, 23 de janeiro de 2006

Baleias

É claro que não vou falar de certas senhoras nem das amigas delas. seria uma rudeza e uma falta de urbanidade tremenda. era do jeito que se tornavam anoréticas. vou mesmo falar desse cetáceo grande, grande, que tem saudade da terra. tanta, que gosta de vir à praia ou entrar rio Tamisa dentro, ou outro rio qualquer, pra morrer na frente dos cameramen ou de quem lá estiver. é um mamífero com muito mais mistério do que fazer dele o que fazem. banha de baleia e creme de cosmético é destino que nenhum desses animais merecia mesmo. o seu fascínio pessoal e de raça fez com que a gente do litoral lhe roubasse o nome para o botar em muitas terras junto do mar.
desta vez bicho é mesmo bicho, e essas terras ou tomam dele o nome ou de qualquer atividade com ele relacionada. há quem defenda que a baleia é parente próxima do hipopótamo. bom, pode ser. é. mas não existe nenhuma terra com nome de Hipopótamo.

aqui vão alguns desses topónimos:



Atouguia da Baleia
Balaia
Balea (Gz.)
Baleal
Baleo (Gz.)
Baleeiro
Casais do Baleal
Cova da Balea (Gz.) (ver Comentº)
Ilha da Baleia (Br.)
Ponta Baleia (STP)
Ponta da Baleia (Aç.)
Praia da Baleia (Br. e Pt.)
Praia da Balela
Praia do Baleal
Praia do Osso da Baleia (ainda assim, este topónimo não será tão claro quanto parece. ver Comentº)
Vale da Baleia



por estranho que seja, as Ilhas Baleares não devem pertencer a esta colecção, muito embora o frequente convívio com as baleias tenha contribuido para modelar-lhes o nome e o sentido. certos topónimos foneticamente muito próximos, como Baleira, derivam de Vale, com aquela pronúncia inconfundível da minha terra e de todo o norte da Península

sábado, 21 de janeiro de 2006

Os Ninhos do Açor

O topónimo Açor ocorre em lugares elevados e ponteagudos, com vales profundos, como é o caso da Serra do Açor, entre a Estrela e a Lousã. muita gente relaciona este topónimo com a existência de belos exemplares desta ave de rapina apreciadora de lebres, pombos e perdizes. em alguns casos pode suceder que os açores procurem estas paragens, dada a morfologia e a orografia destes locais. mas não é certo que seja sempre assim, pois há-de haver Açores onde esta ave não existe e há-de haver açores em lugares que não levam esse nome. já foi notado o parentesco linguístico entre "Açores" e "Astúrias". quanto ao Arquipélago dos Açores, parece que a ave em causa, afinal de contas, é o milhafre. mas merece ser dito que outra certeza não há, e que os Açores são ilhas vulcânicas com picos abruptos.
nisto da toponímia as possibilidades de cultivar a imaginação, mesmo a delirante, são tantas que até há quem veja "zorras" (zor-) ou raposas onde, coitadas, não teriam como tomar o seu cafezinho da manhã nem como apreciar uma coxa de galinha.
convirá acrescentar que os orónimos e os hidrónimos são os topónimos mais primordiais. são aqueles lugares a quem foi dado nome antes de todas as outras coisas. casas, caminhos, povoados, pontes, quintas e quitandas, tudo isso tem nome depois, à medida que o homem se organiza e se distribui pela terra. por isso, pouco admira que a maioria dos hidrónimos e dos orónimos tenha nome pré-indoeuropeu. é assim que esses lugares no Brasil são na sua larga maioria tupi-guarani, pois quem chega primeiro é que bota o nome


alguns topónimos em "Açor":

Açor
Açôr
Açoreira
Açoreiro
Açores
Açorinho
Açureira
Assoreira (graf. alternat. - errada? - de Açoreira * )
Azor ou Açor (Gz.)
Azoreira ou Açoreira (Gz.)
Azoreiros ou Açoreiros (Gz.)
Foz do Açor (aqui "Açor" é hidrónimo. cf. "Sor" e "Soure". ver post "Hidrónimos ou Nomes de Rios")
Moita do Açor
Ninho do Açor
Poio do Açor (ver Comentº)
Região Autónoma dos Açores
Riazor ou Riaçor Gz.) (?) (ver Comentºs)
Ribeira do Açor
Serra do Açor (um pleonasmo, como Poio do Açor)
Vale de Açor
Vale de Açores



* "assorear" e "assoreamento" referem-se a um processo geológico ou de engenharia pelo qual se forma um depósito ou amontoado de terras, pedras ou areias, no fundo das barragens ou na foz dos rios (neste caso, dão origem aos "Cabedêlos" e às "Barras"). há homofonias muito curiosas que, ainda por cima se achegam no significado





quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

Rans e Rãs Sim, Mas Sapos Não

desta vez são estes simpáticos bichos verdes que vêm frequentar este blogue. mas já me avisaram que não são padrinhos destas terras. estes topónimos parecem estar associados a pequenas elevações do terreno, ou pequenas mesetas. são frequentes em Portugal e na Galiza, onde têm a mesma pronúncia mas com grafias diferentes - mesmo lá... o mais certo será estes topónimos terem uma origem pré-indoeuropeia, pré-celta. o mesmo é dizer, afim do euskera. porém, neste como em muitos outros casos, são mais as teorias explicativas do que as rãs propriamente ditas.

aqui vão (alguns d') eles:

Arranhó ("A Ranhó". ver Ranhó)
Outeiro da Ranha
Rana
Raña ou Ranha (Gz.)
Ranado
Ranadoiro
Ranas
Ranha
Rañada ou Ranhada (Gz. e Pt.)
Ranhadinhos
Ranhado
Rañadoiro ou Ranhadoiro (Gz. e Pt.)
Ranhados
Ranhadouro
Ranhão
Rañas ou Ranhas (Gz. e Pt.)
Ranhó (ver post "Topónimos Terminados em 'Ó': Menino ou Menina ?")
Ranholas (diminut. plural de Ranha)
Rania
Raniados
Rao (Gz.) (?)
Rans (Gz. e Pt.)
Rãs (por Rans)
S. Domingos de Rana



terça-feira, 17 de janeiro de 2006

Frase do Ano 2005

"Isto da toponimia ten a ver co sentido común, co instinto, coa arte, coa mística, coa lóxica e coa imaxinación. É un divertimento para mentes inquietas. Pero seguro que encontraredes quen lle dea moito, moito valor".
Calidonia.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2006

Lobos, Lobinhos e Lobões

a toponímia galego-portuguesa é rica em "Lobos" e nomes afins ou aparentados. o simpático animal abundou outrora noutros locais também, onde, no entanto, não foi escolhido para padrinho. por outro lado, alguns topónimos dificilmente se referirão ao bicho, dado estarem em campo aberto. hoje em dia, ameaçado de extinção, o canis lupus não se vê muito por aí, nem nuns lugares nem noutros. é preciso ir procurá-lo nas reservas naturais - e já me aconteceu nem aí o topar.
não é fácil descobrir a origem destes topónimos, mas não há-de ser latina nem referir-se ao bicho dos contos de fadas. há uma Leuven (Fl.) ou Louvain (Fr.) ou Lovaina (Pt.), na Bélgica, que talvez aponte para uma origem pré-celta. é preciso notar que as lendas em volta do nome de Lobeira (Gz.) se referem à mítica Rainha Loba, e não ao lobo.



La Louvière (Wl), na Bélgica francófona, está associada à lenda de uma loba, idêntica à da fundação da Cidade de Roma. esta loba terá sido um símbolo ou totem étnico pré-ariano.






além disso, aponta-se para a maioria destes topónimos a raiz pré-indoeuropeia Lap-/Lep-/Lip-/(Lop-)/Lup-, que é responsável pela formação de palavras como "lapa", "lápis", "lava", "lupa", e significa "pedra".


aqui vão alguns desses topónimos:


Câmara de Lobos (na Madeira não haveria lobos, quando foi descoberta e povoada. ver Coment.)
Casal do Lobo
Fôjo Lobal
Labagueira
Labruge (é hidrónimo. ver post "Hidrónimos ou Nomes de Rios")
Labruja (é hidrónimo. o mesmo que Labruge)
Lapa do Lobo (é um pleonasmo dentro da mesma língua?)
Laboreiro
Laborim
Laborins
Lavadores (Gz. e Pt.) (pronunc. Lavadòres)
Leboreira (Gz.)
Leboreiro (Gz. e Pt.)
Loba
Lobal
Lobão (é hidrónimo. ver post "Hidrónimos ou Nomes de Rios")
Lobazim (?)
Lobeira (Gz.)
Lobeiro
Lobeiros
Lobel
Lobela
Lobelha
Lobelhe
Lobite
Lobios (Gz.)
Lobisomem (será "rio das pedras"?)
Lobito (Pt. e Ang.)
Lobízios
Lobo
Lobão
Lobo Joanes
Lobo Morto (será pleonasmo?)
Lobos
Lobosinho
Loivos
Lousa
Lousã (Cf. Lausanne - CH)
Lovaínho
Lovazim (o mesmo que Lobazim)
Lubazim (o mesmo que Lobazim)
Lubeira
Lubeiro (Gz.)
Lubreu
Monte de Lobos
Pedra Lobeira
Pena Lobo (será pleonasmo?)
Rio de Lobos
Rio do Lobo
Vale de Lobos


nota-1: hoje não sabemos se quando um topónimo significava "pedra" significava qualquer pedra, de qualquer tipo, ou se para cada tipo ou particularidade das pedras havia uma palavra específica. as línguas dos povos mais enraizados na Natureza eram e são muito ricas em definir esse mundo natural em pormenor. e quem diz "pedra" diz outra particularidade qualquer do meio ambiente: "monte", "rio", "plano", etc., etc. uma aparente repetição dos mesmos temas em Toponímia poderá esconder uma enorme riqueza de ínfimos detalhes.

nota-2: o grego "lobo" aplica-se a qualquer parte arredondada e saliente, sendo usado na anatomia para parte de órgãos (cérebro, rim, fígado) com essas características.



domingo, 15 de janeiro de 2006

Um Pequeno Incidente Informático



Depois de um apagão, estou recuperando o blogue devagarinho e com novo formato.
espero que seja do vosso agrado.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2006

Cabras e Cabreiras



o topónimo "Cabra" e os seus derivados são muito abundantes em Portugal, na Galiza, no resto da Península e na Europa, sobretudo a do sul mediterrânico. dão o nome a montanhas pedregosas e inóspitas e têm uma preferência especial por pequenas ilhas e ilhéus rochosos. apreciam dar o nome a ribeiros e riachos onde mais abundem as pedras do que a água.
é um conjunto de topónimos muito antigo, de origem difícil de determinar. é muito frequente em Navarra, região onde a romanização linguística foi parcial. uma origem latina em "capra" não explica que seja um hidrónimo nem a sua frequência em ilhéus inóspitos, mesmo para cabras. não se pode excluir, por uma convergência linguística determinada pela parceria cabras-pedras, que alguns destes topónimos derivem do lat. "capra" e que outros tenham uma origem pré-indoeuropeia, em karr-, kar-, "pedra". neste último caso, surgem, para além das "Cabras" e "Cabreiras", topónimos como "Cabo Carvoeiro", "Carreço" (pronunc. Carrêço), "Carregal", "Carvoeira", "Carvoeiro", "Carvalho", e hidrónimos em "Cara...", "Care...", como "Ribeira de Carenque" (ver post "Hidrónimos ou Nomes de Rios")

alguns topónimos deste grupo:

Cabra -
Cabração -
Cabra Figa -
Cabrainha -
Cabral -
Cabrália (Br.) - deriva de Pedro Álvares Cabral
Cabranca -
Cabrancã -
Cabrão - é hidrónimo. ver post "Hidrónimos ou Nomes de Rios"
Cabras - é hidrónimo: "ribeira das Cabras"
Cabreira (Gz. e Pt.) - tamém aparece como hidrónimo - Gz.
Cabreiras -
Cabreiro (Gz. e Pt.) -
Cabreiroá (Gz.) - "Águas de Cabreiroá", Verín ou Verim, Gz.
Cabrela - diminut. de Cabra
Cabrelões - topónimo que se refere a gente originária de Cabrela
Cabria (Gz. e Pt.) -
Cabrial -
Cabrida -
Cabrieira -
Cabrienca -
Cabril -
Cabris - penso que seja grafia preferível a "Cabriz"
Cabrita - diminut. de Cabra
Cabriúva -
Cabriz - ver "Cabris"
Cabroeiro -
Cabrões -
Cabrum -
Cobrão -
Costa de Cabra -
Foz do Cabrão -
Ilhéu das Cabras -
Pé de Cabrão -

topónimos deste grupo, fora do espaço galego-português e brasileiro:

Cabrera (Es.)
Capraria (It.)
Caprasia (Fr. e It.)
Caprera (It.)
Capri (It.)




sábado, 7 de janeiro de 2006

Boi Morto, Boi Posto

o topónimo "Boi" ocorre com muita frequência na Catalunha, Astúrias, Galiza e Portugal, sob diferentes formas e combinações, com sobreposição de estratos linguísticos, que por vezes originam os habituais pleonasmos da Toponímia e alguns resultados extravagantes, como Sant Boi. a sua origem é pré-indoeuropeia e significa "rochedo", terreste, costeiro ou marítimo. as inevitáveis homofonias lembram-nos o princípio de que nem tudo o que reluz é oiro e nem tudo o que é boi tem chifres.
salvo transposição de topónimos portugueses, os "Bois" do Brasil não são deste filão genético

aqui vão alguns "Bois":

Baião
Baiona (Gz.)
Boiaca
Boial
Boialvo
Boi-a-Monte - grafia correcta "Boiamonte". ver "Boimonte"
Boião
Boicornello ou Boicornelho (Gz.)

Boiçucanga (Br.) (nome de ilha. do tupi-guarani: "cabeça de cobra grande". "M'boi"+"Guassu"+"Canga")

Boidecanto (Gz.)
Boi de Gures (Gz.)

Boidobra (?) - a terminação -bra aponta para uma -briga celta, como Coimbra, Oimbra -Gz., Sesimbra)

Boieira
Boi Formoso
Boi Grande (Gz.)
Boimonte (Gz.) (uma espécie de pleonasmo)

Boimorto (Gz.) (Cf. topónimos, também pleonasmos, "Mouromorto" - Gz. e "Moura Morta" - Pt.: "Mor": penedo, penedia)

Boi Morto
Boi Pequeno (Gz.)
Boiro (Gz. e Pt.) (?)

Boituva (Br.) (topónimo recebido de Jolorib - ver comentº. tupi-guarani: "sítio onde há muitas cobras")

Boivão (??)
Boi Vivo
Boizão
Bouro (?)
Castro de Bois
Chã do Boi (ver post "Mais Terras Planas")

M'Boi Mirim (Br.) (topónimo recebido de Jolorib - ver comentº. tupi-guarani: "cobra pequena". o contrário de M'Boi Guassu: "cobra grande". ver "Boiçucanga")

Monte de Boi
Monte de Bois
Monte do Boi
O Corno do Boi (Gz.) (um pleonasmo)
Olho do Boi
Pé de Boi
Pedra de Boi
Pena do Boi (Gz.) (outro pleonasmo)
Perboi Baixo (atenção a este topónimo!)
Rego do Boi
Serra do Boi
Vilar de Boi

sexta-feira, 6 de janeiro de 2006

(Intervalo)

certa vez passava eu numa das minhas andanças pela terra galega quando resolvi parar em Fonteminha, para ver nascer o Rio Minho. um cartaz, um pouco desbotado já, dizia assim: Festa do Nacemento do Rio. Aproximei-me de um café, pedi já não sei o quê para justificar a minha entrada ali, e perguntei ao home que me atendeu: "vi ali um cartaz da festa do nascimento do rio. que santo é que festejam aqui?" o home olhou para mim com um ar condescendente, e explicou: "nom tem santo nenhum. a gente aqui festeja o rio!"(*)

o quê? - pensei - fazem a festança e nem padre nem santa? senti-me recuar uns dois mil anos, sem novas nem mandados do reino de Cristo.

depois, em Lugo entrei na Sé. difícil não topar de imediato a imagem grande da padroeira da cidade - a cidade do deus Lug, o divino Sol. e quem é essa padroeira, ou patrona ou "patroa"? a Virxe dos Ollos Grandes. a Virgem dos Olhos Grandes, ídolo vivo, deusa-coruja, nem "Santa" nem "Nossa Senhora de..." é um avatar, como Atena e Proserpina, de uma qualidade divinizada no feminino, a qualidade de ver de noite, no escuro, para lá do que se vê à luz o dia. a qualidade de dominar as profundezas da intuição e dos destinos. uma sabedoria maior que o saber das bibliotecas todas. qualidade compartilhada a seu modo, no masculino, por mochos, gatos e cães, que, por via disso mesmo, são animais sagrados noutras regiões do planeta
santa cidade esta, que se entrega com a mesma devoção à luz do Dia e aos mistérios da Noite...



(*) mais tarde, viria a encontrar, já mais cristianizada pela tona, "A Festa da Fonte de Ançã", na nascente da Ribeira de Ançã (um pleonasmo toponímico - ver post "Hidrónimos, ou Nomes de Rios") na freguesia de Ançã, aqui bem perto de Coimbra

terça-feira, 3 de janeiro de 2006

Janeiro de Cima e Janeiro de Baixo

a conversa é como as cerejas, mas é desta vez que me vão zurzir forte e feio. oiço falar há muitos anos destas duas aldeias milenares do vale do rio Zêzere, conheço muito boa gente de lá. sempre perguntei a mim mesmo o que está ali a fazer o "janeiro", mas a resposta à pergunta é que não havia jeito de aparecer. então, perguntei-me: - e se "janeiro" fosse...?

antes disso, vejam esse sítio. ...não é uma gracinha?
e esse aqui? ...lindo!

agora, pensem comigo: - e se "janeiro" fosse...?

...se fosse chaneiro não me admiraria nada. seria um masculino de "Chaneira" (ver post "Mais Terras Planas"). porém, se assim for, o nome atual será muito posterior ao povoamento dos lugares, o que significará que tiveram outro nome antes dos romanos - quem sabe se com o mesmo significado. mas o nome que têm, se significar o que eu julgo que significa, condiz com a orografia do lugar em ambos os casos. a confusão de chaneiro com janeiro não será fácil no português da Galiza, que distingue bem o "ch" do "x"/"j", mas é possível no português daqui. além do mais, se "chaneiro" evoluisse normalmente, poderia desembocar em "Cheiro", masculino de "Cheira", o que, como é bom de ver, ficando "Cheiro de Cima" e "Cheiro de Baixo", não é nome que se ponha à nossa terra.
..."Janeiro" é muito mais bonito...

agora, aí vão alguns topónimos relacionados com "Janeiro":

Janeirinha (Chaneirinha, diminut. de Chaneira? ver post "Mais Terras Planas")
Janeirinho (Chaneirinho?)
Janeiro (sem o determinativo "de cima" ou "de baixo")
Janela (Chanela, diminut. de Chana? ver post "Mais Terras Planas")
Janelas Verdes
Janelo (Gz.) (?)
Janes (?)

pois, e agora vão dizer: toponímia é só terras planas? não será "terra plana" a mais?
pois é assim: a conversa é como as cerejas, palavra puxa palavra, associação puxa associação e, além disso, em terreno montanhoso o que se distingue de tudo o mais é a "terra plana".


segunda-feira, 2 de janeiro de 2006

Feliz Ano Novo!

vou começar o novo ano com a Ilha de Ano Bom (Annobón). O nome é português e por isso cabe aqui muito bem. ao grafar "Annobón" os espanhóis não fizeram mais ao português de Portugal do que aquilo que fazem ao da Galiza...:-)
a Ilha de Annobón faz parte da Guiné Equatorial, antiga colónia espanhola. essa ilha descobriram-na João de Santarém e Pedro Escobar no dia 1 de Janeiro de 1471, quer dizer, no "ano bom" ou "ano novo". em português, no séc. xix era grafada "Anno Bom". pertence a um grupo de topónimos de que faz parte o "Natal", o "Rio de Janeiro" (Br.), a "Baía de Todos os Santos" (Br.) e a "Ilha da Páscoa" (embora este não seja um topónimo português).
mas...nem tudo o que é Janeiro vem à frente de Fevereiro. há duas aldeias da Beira Baixa, ribeirinhas do rio Zêzere, que têm por nome Janeiro: "Janeiro de Cima" e "Janeiro de Baixo". voltarei a este assunto




sábado, 31 de dezembro de 2005

É Tábua Mas Não É Pau

os topónimos com base em "Tábua" são muito frequentes na Galiza e em Portugal, e também aparecem no Brasil. podia pensar-se que tivessem origem latina, mas por essa safra linguística não vamos muito longe nem muito acertadamente. há quem diga, para dar que fazer ao latim, que estes topónimos teriam origem em antigas pontes de pau para atravessar o rio - onde o houvesse. porém, se assim fosse, diz o costume que a terra se chamaria "Ponte", "Pontão", talvez até "Barca", mas não "Tábua". e que todas as "Tábuas" e seus derivados teriam que ter um rio, o que não estou muito certo de ser verdade. quando cá chegaram os romanos já havia muita gente por aqui e não consta que as terras estivessem à espera que os romanos lhes botassem nome, especialmente se o já tinham.
por isso, vou pela hipótese de "Tábua" e seus derivados já existirem antes do latim e terem o significado de "Chão", Chã", "Terra Chã", terreno plano ou planáltico - o que parece condizer com uma boa dúzia desses topónimos que eu conheço.
e como a toponímia é o lugar geométrico de todas as coincidências linguísticas, pode até suceder que tábua signifique mesa: plano alto, pequeno planalto (Cf. "Meseta", Es.)
não visitei pessoalmente todas as terras com topónimos como estes que se seguem, mas se o que eu digo for verdade haverão que ter em comum o serem planas ou quase planas, em contraste com a orografia envolvente:

Taboaças ou Taboazas (Gz.)
Taboada (Gz.)
Taboadela (Gz.)
Taboadelo (Gz. e Pt.)
Taboado (Gz.)
Taboao da Serra (Br.) (obrigado, João Lopes Ribeiro!)
Táboas (Gz.)
Taboeira (Gz. e Pt.)
Tabosa (?)
Tábua
Tabuaça
Tabuaças


Tabuaço (foto)


Tabuadelo
Tabuado
Tabual
Tabuão (Br.)
Tábuas
Tabuínho
Tabuladelo
Tabulado
Tabulados
Tabuleiro (Pt. e Br.)
Tabulosa


nota: a grafia tabu... em lugar de tabo... não está autorizada pelos antecedentes linguísticos destes topónimos




sexta-feira, 30 de dezembro de 2005

Britos, Briteiros e Bretonhas

naquele tempo em que o Império Romano rompia pelas costuras, os povos Escoto e Picto da Escócia resolveram aproveitar-se do vazio da Pax e passar a dominar toda a Britannia. os Bretões ou Britos, vendo a casa a arder por dentro, chamaram em seu auxílio a gente de fora. como é bom de ver, a ajuda de fora é mais fácil de chamar que de aturar. em consequência desse acto pouco reflectido, a Britannia foi infestada de gente que nunca lá devia ter entrado: os Anglos, Frísios, Jutos e Saxões, que bem souberam valer o preço dessa ajuda. e os Britos, não tendo remédio melhor, fizeram-se ao mar, para o sul, às Gálias e Galécias, em busca de sossego e segurança. onde assentaram deixaram na toponímia a sua marca étnica, afinal a mesma que predominava nestas regiões celtas irmãs do Continente. e trouxeram a gaita com eles. onde haja Bretagne (Fr.), Bretanha (Pt.), Bretonha (Gz.), Briteiros, Britiande (?), Britelo, Brito, é uma terra-irmã, armórica, galega ou portuguesa, que eles adoptaram como nova pátria.
...e mais ano menos ano, chegaram por essa hora os Suevos, que tamém abancaram por aqui - chamando a si o governo da Xunta da Grande Galiza, com a bênção dos Godos da Meseta.


quinta-feira, 29 de dezembro de 2005

Topónimos Terminados em "ô"

são topónimos diminutivos masculinos de outros topónimos. provêm do diminutivo latino tardio em -olo. em trás-os-montes há formas arcaicas em -oulo / -uolo, como "Palaçoulo"/"Palaçuolo" (Mir.), em lugar de "Paçô".
são menos frequentes do que os topónimos terminados em "ó".

exemplos:

Avô - do grupo "Ave"
Barrô (pronunc. "Bàrrô")

Gestaçô
Mosteirô
Paçô (pronunc. "Pàçô") (diminut. de "Paço", Paaço, Palácio)
Sequeirô
Travassô
Urrô



segunda-feira, 26 de dezembro de 2005

Là Sù, Là Giù

"Jusão" e "Jusã" provêm do lat. tardio e significam "o/a de baixo". "Susão", "Susana" e "Susã" vêm do lat. da mesma época e significam "o/a de cima". estão muito representados na Galiza e em Portugal, com variantes.

podemos apontar aqui os seguintes topónimos:

Aldeia de Juso (o mesmo que Aldeia de Baixo)
Arcas de Susãs (o mesmo que Arcas de Cima. Arcas=Antas?)
Outeiro Jusão (o mesmo que Outeiro de Baixo)
Paço de Jus (o mesmo que Paço de Baixo. Paço=Palácio)
Pereira Jusã (o mesmo que Pereira de Baixo)
Portela de Jusão (o mesmo que Portela de Baixo)
Portela Susã (o mesmo que Portela de Cima)
Susá (Gz.)
Susã
Susana (Gz. e Pt.)
Susao (Gz.)
Susão
Susaus (Gz.)
Viladesuso ou Vila de Suso (Gz.)
Vila Jusã (o mesmo que Vila de Baixo ou Quinta de Baixo)
Vilasusá ou Vila Susá (Gal.) (o mesmo que Vila de Cima ou Quinta de Cima)
Vilasusán (Gz.) ou Vila Susan ou Vila Susã (o mesmo que Vila de Cima ou Quinta de Cima)



Mais Terras Planas

além de "Chã", "Chá" (Gz.), "Chão", "Chelo", "Chenlo" (Gz.) e "Chelinho", encontramos por aí (Gz. e Pt.) topónimos que realçam o caráter plano de uma povoação ou de um terreno em contraste com a orografia envolvente. É o caso dos derivados femininos de planarium, planaria, como "Chaira" (Gz. e Pt.), "Cheira" (Gz. e Pt.) e "Cheirinha". na região de Miranda do Douro surgem topónimos mais arcaicos, como "Chana", "Chanas" e "Chaneira".
"Chelas", feminino plural de "Chelo", poderá significar "pequenas chãs" dispostas ao longo de um vale, como é o caso da "Cheira" e do "Chelo", de Penacova.
há que dizer aqui que o que diferencia "Chão" de "Chelo" e de "Chelinho", "Chã" de "Chelas" e "Cheira" de "Cheirinha" não é a dimensão absoluta do terreno, mas sim o termo de comparação utilizado pela população que lhe deu o nome.

poderemos , então, elencar uma série de topónimos que se referem a um terreno plano, independentemente da sua dimensão:

A Chaira das Corças ou A Chaira das Corzas (Gz.)
Alter do Chão
As Chairas (Gz.)
Campos de Cheira
Casais das Cheiras
Casal da Cheira
Chã da Ilha
Chã da Lama
Chã do Boi
Chaela - informação de Carlos Durão
Chaila - informação de Carlos Durão
Chainça (Pt. e Gz.) (ver comentº)
Chainza (Gz.) o mesmo que Chainça
Chaira (Gz. e Pt.)
Chana (Mir.) o mesmo que "Chã"
Chanas (Mir.) o mesmo que "Chãs"
Chandrexa (Gz.) (?)

Chandrexa de Queixa (Gz.) (?) - segundo o meu amigo Carlos Durão, Chandrexa pode significar Chã de Eireja ou Ereija, ou Igreja. seria, pois, "chã da igreja".

Chaneira (Mir.) o mesmo que "Cheira"
Chanos (Mir.) o mesmo que "Chãos"
Chão da Capela
Chão d'Ave
Chão da Feira
Chão da Vã
Chão da Velha
Chão de Casados
Chão de Couce
Chão de Espinho
Chão do Ancinho ("Ancinho" é hidrónimo?)
Chão do Bispo
Chão dos Santos
Chãs d'Égua ("Égua" é hidrónimo?)
Chãs de Tavares
Chãs de Viseu
Chãs Grandes
Chaveã ou Chavean (Gz.) (?)
Cheela - informação de Carlos Durão
Cheira (Gz. e Pt.)
Cheiras
Cheirinha
Cheirinho
Cheirinhos
Chelas
Chelo (Gz. e Pt.)
Chenlo (Gz)
Fonte da Cheira
Foro da Cheira
Maçal do Chão
O Chao (Gz.)
Outeiro da Cheira
Quinta da Cheira
Rebordochão
rua da Fonte da Cheira
Terra Cha (Gz.)
Vila Chã
Vila Chã da Beira
Vila Chã de Barceosa
Vila Chã de Sá




quinta-feira, 22 de dezembro de 2005

O Topónimo Chelo

presente na toponímia galega e portuguesa, é o diminutivo planellum de planum: "plano", "chão". é, pois, um topónimo diminutivo de um outro topónimo, "Chão".
encontra-se onde um pequeno plano, suficiente para albergar um povoado, contrasta com um terreno irregular, de montes e vales. existe a forma "Chelo", "Chenlo" (Gal.) e o duplo diminutivo "Chelinho" (pronunc. "Chèlo", "Chèlinho"). experimentem passar por este interessante lugar , com o cuidado de não tropeçar nas vírgulas nem na ortografia

quarta-feira, 21 de dezembro de 2005

Esta Quadra de Natal, Essa Festa do Sol

no hemisfério norte, e quanto mais a norte mais assim, esta época do ano é fria, as noites são grandes, o sol é fraco. a natureza está adormecida. cada dia que passa a noite é mais comprida e o dia quase nada. o sol está doente. parece que em breve sucumbirá e tudo vai ficar escuro e frio. a neve estende o seu manto branco por toda a terra, ferindo a vista com seu brilho penetrante, imenso, gelado. a morte deve ser assim, gelada, imensa, sem ontem nem hoje.
mas eis que tudo vai mudar. parece que a noite começa a encolher, dia para dia uns minutos, meia hora, uma hora inteira. o sol invencível já não morre, ganha força de novo, renasce.
vamos festejar, porque este ano, afinal, é como o ano passado e o ano anterior e ainda o outro que se foi. a natureza precisa de passar por aqui, como precisa da primavera, do verão e do outono. aqui, no hemisfério norte. porque a terra não tem uma verdade igual para todos. do pólo norte ao sul, do equador aos trópicos, cada terra tem sua verdade e cada verdade seu ciclo.
o natal é a festa do natalis solis invictus - o nascimento do sol invencido, no dizer dos romanos. assim também a cidade de Natal, quente, ensolarada, passeando na praia e a tremer de insolação na noite de natal: é "a cidade do sol"

sábado, 17 de dezembro de 2005

"O Deus da Fonte Pelo Qual Se Jura"

a crer na tradução arrevesada que J. Leite de Vasconcelos fez da inscrição da Fonte do Ídolo, em Braga, Tongoe Nabiago seria um deus: "o deus da fonte pelo qual se jura". e, sendo um deus, o seu nome em língua celta teria aquele significado abstruso. alá é grande: não há deuses, divindades ou manifestações divinas com semelhantes nomes. e nem é certo que Tongoe Nabiago seja o nome de um deus.
vou por outro lado.
o monumento mandado fazer por Celico Fronto Abimogido Arcobrigense, na fonte da Rua do Raio, naquela época de celtas sob domínio romano, parece a representação de um baptismo ritual, que só não se refere a João Batista e ao baptismo de Cristo porque nenhum deles tinha ainda pensado vir ao mundo. de resto, nada lá falta: a água, a pomba, o delta, aquele que baptiza, aquele que é baptizado, eu sei lá.
que sentido faz isto em Braga? Braga é a cidade do "S. João", da festa do solstício de junho, a festa das fontes, das juras de amor. uma festa tão antiga como a chuva, o sol, o vento, a noite e o dia. uma festa que corre paralela ao regato que nasce na Fonte do Ídolo e se dirige para o Rio Este, um pouco mais abaixo.
então, o que poderá significar Tongoe Nabiago? o raciocínio linguístico de Leite de Vasconcelos está certo. Tongoe está relacionado com "jurar", e Nabia-go está relacionado com "fonte". só não há nada que diga que estejam relacionados com um deus.
não é normal que as inscrições nas fontes se refiram à própria fonte? fonte do amial, fonte de santo antónio, fonte da cheira, fonte da pulga, fonte disto, fonte daquilo? teremos, então, tongoe nabiago: fonte das juras? (ao senhor da) fonte das juras? o mesmo é dizer: fonte de s. joão? (ao) s. joão da fonte? claro que ainda não havia S. João, mas o culto associado ao nome de S. João existe muito antes, antes mesmo de Celico Fronto ter mandado fazer, em cumprimento de um voto, aquele arranjo na fonte que já era santa. culto tão profundo e duradouro que os bisnetos Celico e Lucio daquele ilustre celta se sentiram obrigados a mandar restaurar o monumento. tão profundo e duradouro que cavalgando a fonte e o regato pagãos chegou até hoje em cada 24 de junho.
embora transparente, é apenas uma hipótese...
...mas tem a vantagem de fazer sentido e de trazer de novo a fonte à vida de uma cidade que não sabe muito bem o que fazer com ela.
para mim, que a visitei vezes sem conto, a Fonte do Ídolo está na origem do São João de Braga, mesmo que os linguistas traduzam de outra forma o que lá está escrito.
e merece a distinção que lhe compete, já que faz parte da história e do espírito mais profundo da cidade, por muito que a queiram esconder e ocultar.



quinta-feira, 15 de dezembro de 2005

Maceió

revendo os topónimos terminados em "ó", ocorreu-me o nome da capital do Estado de Alagoas.
Maceió é um topónimo nativo, mas não será tupi-guarani. o seu significado andará à volta de "terreno alagadiço", "lagoas", "charcas". afinal de contas, o mesmo que "Alagoas" pretende significar. os portugueses traduziram, ou cada povo por si deu um nome igual à mesma realidade?
se quer saber um pouco mais de Maceió, e até fazer uma visita um dia, vá por aqui. tem tudo o que precisa de saber. mas cuidado com as decifrações inverosímeis. tradução arrevesada é tradução rejeitada

quarta-feira, 14 de dezembro de 2005

Topónimo Terminado em "ó": menino ou menina?

os topónimos que se seguem são diminutivos femininos de outros topónimos conhecidos. têm o diminutivo latino tardio em -ola. na Galiza costumavam terminar em "óo", mas a norma reintegracionista recomenda a forma portuguesa em "ó". alguns são duplos diminutivos, como Assilhó (Osselola: Ossa, Ossela, Osselola). o diminutivo -ola mantém-se íntegro em alguns topónimos, como Sarrazola/Serrazola, Mariola

vejamos:

Alijó (de A Lixa?) ver Lijó

Anissó (já foi chamada Nizola, pelo que deverá ser o diminut. de "Niza": A Nizola. e deveria, pois, escrever-se "Aniçó")

Arranhó (A Ranha, A Ranhola)

Assilhó (Ossa, Ossela, Osselola) - quem tenha bom ouvido há de reparar que as pessoas da terra dizem "eu vou "à" Assilhó).

Bilhó
Bouçó
Bruçó
Campanhó
Celeiró (também existe o feminino plural Celeirós)
Cerdeiró
Coimbró - diminut. de
Cujó
Eiró
Feijó
Ferreiró
Figueiró (Figueira, Figueirola. é o mesmo que Figueiroa)
Grijó (Ecclesia, Ecclesiola: igreja, igrejinha)
Irijó (o mesmo que Grijó)
Labrujó (é um hidrónimo. diminutivo de Labruja. os rios eram femininos)
Leijó
Lijó (o mesmo que Alijó. tem uma forma anterior: Alyjoo)
Linhó (Linea, Lineola)
Moreiró (Moreira, Moreirola)
Nogueiró
Pardilhó (diminut. de Pardelha)
Pereiró
Pó (?)
Ranhó (diminut. de Ranha. ver Arranhó)
Requeijó (diminut. de Requeija ou Requeixa)
Ribó (Gz.) - (diminut. de Riba)
Sicó (?)
Sobreiró (diminut. de Sobreira)
Teixeiró
Tó (?)

Touguinhó - este topónimo é um duplo diminutivo de "Touga". curiosamente, e pertinho uns dos outros, existem as três formas: "Touga", "Touguinha" (diminutivo de Touga) e "Touguinhó" (diminutivo de Touguinha).

Vinhó

sendo todos esses diminutivos femininos, será muito pouco correto dizer ou escrever, como por aí se ouve e lê, "o Linhó", "o Feijó", "o Grijó", e assim por diante.

sábado, 10 de dezembro de 2005

Os Santos Têm Escolha

Na toponímia é muito frequente encontrar santos, alguns bem estranhos para os nossos hábitos religiosos. é mesmo difícil dizer se é o santo que dá o nome à terra, ou se é a terra que dá o nome ao santo. seja como for, o nome do santo não é indiferente e em certos casos é mesmo possível prever que santo tem a terra ou que tipo de terra tem o santo. Santa Iria só aparece em certos sítios, São João noutros, São Mamede noutros ainda, São Pedro ainda noutros, enfim, a cada um seu brasão e morgadio.

Vamos então descobrir:


Sanfins - ver "São Félix" e "S. Fiz". exº: "Sanfins do Douro"

Santa Eulália, Santa Olaia, Santalla ou Santalha (Gal.), Santa Olalla ou Olalha (Gal.), Santa Ovaia, Santa Vaia:
há pelo menos a Eulália de Barcelona, a de Braga e a de Mérida (três polos da Península Ibérica) embora os três cultos juntos não sejam de grande vulto. estas santas, pelo que era crime de serem cristãs, foram decapitadas. por isso, alguns pequenos "montes, cabeços ou cabeças santas" pagãs adoptaram o seu nome em honra da cabeça perdida. a lenda não inclui o brote de uma fonte, ao contrário de Santa Quitéria

Santa Iria:
esta santa não goza de grande culto popular, mas é frequente encontrá-la na toponímia. associada à ideia de cidade, é um topónimo de origem euskera ou proto-euskera, como Irun, Iruña. a freguesia de Tomar onde se situava o primeiro assentamento populacional chama-se Santa Iria. é provável que este termo esteja presente também em Santarém e em Leiria e que a santidade (sacralidade) provenha do lugar. a antiga Iria Flávia prescindia da santidade, apesar de estar intimamente ligada à lenda de Santiago

Santa Maria:
está onde estava Ísis e, antes dela, a senhora do Leite. é um avatar da Mãe que nutre, a Mãe Natureza. é mais a Nossa Mãe do que propriamente a Mãe de Deus. um excelente exemplo é a Igreja de Santa Maria, em Braga - a famosa Sé, em cujo exterior da cabeceira figura a Senhora do Leite (e a Rua da Senhora do Leite) e em cujas escavações arqueológicas se encontrou a imagem de Ísis

Santa Quitéria (Port. e Bras.):
é uma cristianização muito superficial do culto dos montes, cabeças e cabeços.
a "santa da cabeça" foi decapitada por seu pai, que odiava mais os cristãos do que amaria a filha. está aqui no lugar da "cabeça santa" pagã (o monte, cabeço ou cabeça). para satisfazer o mito ou a lenda da santa, deverá existir uma fonte no local. o hábito de associar a santa a este tipo de lugares passou ao Brasil e à América Latina em geral

Santo Amaro:
a sua festa é a 15 de janeiro. é ou era o padroeiro dos galegos migrados em Portugal. tem sido referenciado como um avatar de uma divindade do panteão celta. há topónimos que dispensam o "santo", ficando apenas "Amaro" ou os seus diminutivos "Amarela" (Pt. e Gz.), "Amareleja" (duplo diminut.?), "Amarelinha" (duplo diminut.), "Amarelo" e "Amarelos"

Santo Tirso:
os seus atributos, a vara de hera e pâmpanos, ligam-no a Baco-Dionisos. é provavelmente um avatar de uma qualidade divina equivalente, a que a população galaica autóctone prestava culto

São Brissos:
este quase desconhecido filho de Deus teria sido discípulo de S. Martinho, e por isso é visto em lugares onde há antas transformadas em estranhas capelas, como em Montemor-o-Novo

São Cristóvão (Gal., Port. e Bras.):
Christophoros é "o que transporta Cristo". porque o Cristo Menino que levou aos ombros (noutras versões da lenda, na barca) pesava tanto como o mundo inteiro, Cristóvão é um avatar de Hércules. e porque levou o Menino de uma margem para a outra do rio, costuma ser padroeiro de lugares onde a travessia do rio, de barca ou a vau, fosse necessária mas difícil. mais difícil ainda é haver "S. Cristóvão" sem um rio de seu. é um santo muito frequente na toponímia brasileira

São Félix (Pt. e Br.) - há vários santos com este nome. mas como este topónimo está associado quase sempre a montes, em Portugal e na Galiza, é possível que se refira a S. Félix eremita, discípulo de S. Frutuoso. a evolução fonética do topónimo tendeu para "S. Fiz" e "Sanfins". porém, no Brasil e em alguns casos portugueses, deu-se uma recuperação erudita do nome inicial. exº: "S. Félix da Marinha"

São Fiz - ver "São Félix" e "Sanfins"

São Galo:
entra em topónimos como "Sangalhos" (Pt.) e "Saint Gallen (CH.). o nome "galo" quer dizer "celta", pelo que, provavelmente será uma forma de cristianizar costumes celtas.

São Gens, S. Gés (Gal.), S. Ginês, Sanxenxo ou Sanjenjo (Gal.):
aqui o caso é mais complicado, porque, podendo arrolar-se uns obscuros Sancti Genesii para oragos destas terras, o mais provável é que a santidade ou sacralidade esteja na gens ou tribo de antepassados que habitavam o respectivo território ou castro

São Gonçalo (de Amarante):
nascido nos meus eidos, é, curiosamente, um santo que nunca foi canonizado (? *). está associado ao casamento das velhas, mas, dadas as particularidades do seu culto, estas velhas devem ser traduzidas por antigas. a sexualidade pagã antiga é o pasto do seu rebanho. está, pois, em lugares onde essa sexualidade tântrica se celebrava, em dias de renascimento da vida, pouco depois, se não dentro, da quadra de Natal, tomando o nome carinhoso de S. Gonçalinho. construiu pontes, a principal das quais terá sido a ponte do diabo entre esse paganismo indo-europeu de base e o cristianismo de cúpula. tem fiéis por exemplo em Amarante, em Aveiro, no Porto e no Brasil, onde o seu culto perdura bem fresco e uma cidade merece o nome de S. Gonçalo de Amarante (RN)

São João:
este santo aparece ligado à água: fontes, pontes, rios. no entanto, há dois S. João, o Baptista e o Evangelista, cada um ligado a seu solstício


São Luís (Br.):
este santo é Luis IX, rei de França, instigador da sétima Cruzada. é muito usado na toponímia ultramarina de origem francesa, como nos Estados Unidos (St. Louis, Louisiana) e no Brasil (exº: S. Luís do Maranhão)


São Macário:
este santo de longas barbas e tanga de folhas convém a lugares altos, ermos, inóspitos, muito afastados das banais preocupações terrenas, onde nem o diabo lá vai

São Mamede:
é um hagiónimo (nome de santo) tomado de empréstimo ao islão (Muhâmmad, O Profeta). aparece em lugares sagrados do paganismo tradicional em território preferencialmente moçárabe. aparece sobretudo ligado a serras ou lugares elevados (o tema Maomé e a Montanha ?)

São Manços:
figura quase mítica, refere-se a um romano, Mãncio, "um dos setenta discípulos e da idade de Cristo" (in Fr. Bernardo de Brito e outros, 1597, "Da Monarchia Lusitana"). trata-se do primeiro bispo de Évora, martirizado por se opor à adoração dos ídolos de pedra.

São Martinho:
há dois S. Martinho, o de Tours (França) e o de Dume (Portugal). são ambos naturais da Panónia, actual Hungria, e estão ambos ligados à cristianização da Gália (França. mas: galos=celtas). S. Martinho de Dume, mais novo dois séculos, está particularmente ligado também à conversão dos suevos, que ocuparam a Galécia (Galiza e Norte de Portugal). estão, pois, associados à cristianização do paganismo ariano, celta e germânico, e da chamada civilização megalítica. S. Martinho de Tours tem como campo de intervenção próprio as antas e os menires. tem discípulos como S. Brissos, a quem coube dar o nome aos locais megalíticos de cristianização mais superficial (ver S. Brissos)

São Miguel:
vê-se em lugares onde sempre se prestou culto a numens alados, a emanações telúricas. líquidas e gasosas. é frequente em termas, rios, mananciais e nascentes. em lugares castrejos, onde tenha havido um culto a uma entidade divina com asas, não é raro aparecer como S. Miguel-O-Anjo.

São Pedro ou S. Pero:
aparece ligado à pedra ou a pedras com uma função iniciática. é particularmente visto em lugares com as chamadas sepulturas antropomórficas, que nem são sepulturas nem antropomórficas. um belissimo exemplo é S. Pedro de Lourosa. também aparece em aldeias de pescadores, como S. Pedro da Afurada. Para ver um exemplo siga o link, que mostra "sepulturas antropomórficas" já sem tampa.

São Romão:
Romão quer dizer "romano". há pelo menos três santos com este nome. São Romão está relacionado com cultos pagãos, alguns dos quais em vigor durante o império romano. como um dos "Romão" foi discípulo de São Martinho, aplica-se o que está dito em "São Brissos" e em "São Martinho".

São Telmo:
na realidade, o nome do padroeiro de Tui é Sant' Elmo ou Erasmo. a sua lenda criou-lhe o perfil adequado para protector de marinheiros, pois que os salvará, sempre que puder, das tempestades do mar. Fica bem como topónimo de antigas comunidades de marujos


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(*) no link indicado diz-se que S. Gonçalo terá sido canonizado por Pio IV. outras fontes dizem que não

sexta-feira, 9 de dezembro de 2005

Serras, Montes e Montanhas


tal como acontece com os rios, as serras, montes, cordilheiras, montanhas e serranias devem muito frequentemente o nome que têm a um processo de estratificação linguística, ao longo do qual se repete, em línguas diferentes, o significado de "serra", "montanha", "monte", "penha", "peneda", "penedia". as montanhas, lugar onde nascem os rios e onde brotam fontes termais, são o centro de cultos ancestrais ligados à vida, à saúde e à cura de doenças. são manifestações do sagrado por excelência, mas não são divindades autónomas, no sentido grego tardio do termo. quer dizer, são theos adjetivo (divino), mas não são theos substantivo (deus).

Aboboreira -
Alvão - tema em Alba

Amarela - A Marela? grupo Marão/Marofa/Meira. ver post Mouros e Mouras... ver post Muitas Marias...

Agrela - diminut. de "Arga"?
Arga -
Aveleira - de "A Veleira"?
Barroso -
Bornes -
Bussaco - e não Buçaco. Cf. Bussac (F.)
Cabreira (Pt. e Gz.) - ver post "Cabras e Cabreiras"
Canda (Gz.) - o mesmo que Peneda
Candeeiros - o mesmo que Penedas, Penhas, Penedias
Caramulo - Kar.+Mulo: monte pedregoso. espinhaço?
Carneiro - Karn. monte pedregoso. Cf. Kern, Cornwall, UK
Carvalho - tema em Kar.: pedra. Penha, Peneda?
Cerveira -
Chão da Mulher - "plano do monte"
Espinhaço de Cão -
Espinheira -
Espinheiro -
Espinho -

Estrela - orónimo que se repete um pouco por todo o lado, especialmente em Euskadi (sob a forma "Lizarra" e derivados) e em França ("Esteille", "Esterelle", etc.)

Freita -
Gerês/Jurés/Xurés - Cf. Jura, (F. e CH)

Lapa - a existência da Senhora da Lapa indica que se trata de um monte santo, sagrado

Larouco - como apareceram inscrições dedicadas a uma "divindade" com este nome, é de supor que fosse um monte santo. então, poderemos arriscar que esse "deus" Larouco seria o mesmo que Senhor da Serra, invocação frequente noutras paragens serranas

Marão - ver post Mouros e Mouras...
Marofa -
Meira (Gz.) - ver post Há Muitas Marias...
Miro -
Monchique -
Monsanto - "Monte Santo"
Monsaraz - híbrido lat. Mons + ...? : monte-monte?
Mont'alto

Monte Figo/ Montefigo - é um pleonasmo: "monte-monte". atenção aos topónimos "Figueira" e "Figueiró"

Montejunto -
Montemor - de "Monte Maior": "monte grande"
Montemuro - Monte+Muro/ Mulo: monte-monte
Montesinho -
Mu -
Mula -
Mulher -
Mulher Boa -
Mullerboa ou Mulherboa (Gz.) -
Mulher Morta -
Mulo -
Muro -
Muros -
Nogueira
Ossa -
Padrela -

Peneda - a existência da Senhora da Peneda indica que se trata de um monte santo, sagrado

Penha - a existência da Senhora da Penha indica que se trata de um monte santo, sagrado
São Mamede (Gz.) - serra galega onde nascem o Rio Lima e o Rio Tâmega
São Mamee (Pt.)

Serra - algumas serras, quase sempre de pequena altitude, têm simplesmente este nome

Sicó -
Soajo -


terça-feira, 6 de dezembro de 2005

Barcas, Barcos e Barquinhas

este grupo de topónimos encontra-se largamente representado em Portugal e na Galiza, sendo também vulgar noutras regiões da Península Ibérica (veja-se Barcelona, antiga Barcino).
aparece em lugares ribeirinhos, propícios à travessia a vau ou através de pontes. o facto de não ter uma raiz indo-europeia, seja latina ou germânica, e parecer muito mais um grupo de topónimos proto-euskera, com um significado próximo de "veiga", "ribeira", "lugar ribeirinho", aponta para uma longa antiguidade desses povoados. em muitos desses lugares há uma zona de acostagem para pequenas embarcações.
de certo modo, pode tratar-se do correspondente ao inglês "Ford".
este topónimo, com a série de homofonias entre várias línguas e a sua localização presta-se a lendas sobre barcas que cruzavam o rio no tempo em que os animais falavam.

A Barca (Gz.)
Albarquel
Barca
Barca da Esteveira
Barca d'Alva
Barcadas
Barca da Trofa
Barca do Concelho
Barca do Lago
Barca do Loureiro
Barca do Mondego
Barca do Pêgo
Barcaia
Barca Nova
Barcarena
Barcaria
Barcegueiras
Barceiro
Barcel
Barcela
Barcelinhos (diminut. de Barcelos)
Barcelos (em analogia com outros topónimos em -celos: gente vinda de A Barca ou de O Barco?)
Barceosa
Barco
Barcoa
Barconha (terra de gente vinda de O Barco?)
Barcouço (?)
Barcoula
Barqueiro
Barqueiros (gente vinda de A Barca, ou de O Barco de Valdeorras?)
O Barco de Valdeorras (Gz.)
Ponte da Barca (aqui a Barca é anterior à Ponte)
Rua da Barca
Vila Nova da Barca
Vila Nova da Barquinha


Nota: os topónimos brasileiros Barcarena e Barcelos são transposições dos topónimos portugueses por gente possivelmente oriunda desses locais


terça-feira, 29 de novembro de 2005

Há Muitas Marias na Terra...

...mas nem tudo o que tem nome de Maria é simplesmente mulher.


O topónimo Maria pertence ao grupo de topónimos em "Almourol" (ver postagem "Mouros e Mouras...."), "Marão", "Mariola", "Meira", "Mora", "Morouços", "Moura", "Mouro", "Mouronho", e relaciona-se com a ideia de "pedra", "pena", "penedia", "penha", "penhasco":


Alto de Maria Dorme

Alto do Mariola - ver Mariola. poderá traduzir-se por Alto da Penina. na Comunitat Valenciana, Província de Alicante (Alacant), há uma "Serra Mariola"

Maçãs de Dona Maria - este "Dona" é o euskera "dona", que quer dizer "Santa"? nesse caso, traduzir-se-ia por "casais da penha-penedia-pedra santa"? ou, simplesmente, por "Casais de Santa Maria"? sobre "Dona" ver post. NB: no entanto, há quem veja nesta "D. Maria" a D. Maria Pais Ribeira, amante do segundo rei de Portugal, D. Sancho I, a qual ficou conhecida como a Ribeirinha. "Maçãs" seria o nome de uma ribeira. ver "Hidrónimos ou Nomes de Rios". o problema é a presença, nas proximidades de Maçãs de D. Maria, dos topónimos "Maçãs de Caminho" (mais próprio de "Maçãs"="mansões", "casas de repousar") e de "Vendas de Maria" (em que a senhora passa de "Dona" a uma mulher qualquer...).

Maria Gomes

Marialva - junta os temas Maria e Alva/Alba. o mesmo que Penalva: monte rochoso

Marianaia
Maria Pires
Maria Queimada
Maria Santinhos
Maria Vinagre
Mariola - diminut. de Maria: "peninha", "penina"
Pedra Maria - pleonasmo: "pedra-pedra"
Venda de Maria - muito perto de Maçãs de Dona Maria


do mesmo grupo:

Almeirim (?)
Amarela
Amareleja
Amarelo
Amarelos
Meira (Gal.)

(...a continuar...)

sexta-feira, 25 de novembro de 2005

Hidrónimos, ou Nomes de Rios

os nomes de rios (assim como o nome das serras), obedecem muito frequentemente a uma regra simples de estratificação, que consiste em sobrepor a palavra "rio" nas sucessivas línguas dos povos que ocuparam o território ao longo dos tempos. um bom exemplo disso é o Rio Guadiana: "rio guadiana"; isto é, "rio-rio-rio". Calidónia*(Gz.) fez o favor de contribuir para este post, com alguns dos nomes apontados adiante. estudar esses nomes é um interessante exercicio de arqueologia linguística, já que todos os nomes de rios que se seguem querem dizer "rio", "corrente" ou "manancial" na respetiva língua original:


Abad (Gz.) (o mesmo que Abade)

Abade - tem as variantes dialetais Ba*, Bade* e Vade , sendo que o "Vade" português deverá ser uma hipercorreção de origem erudita em lugar de "Bade". pode, porém, haver contributos linguísticos muito diversos para resultados idênticos. no atual euskera "ibai" significa "ribeira". tem origem num anterior "bai", não sei se o mesmo que o "Bad". há quem veja esta raiz nos topónimos "Baião" e "Baiona".

Abade de Neiva -
Abadia - está em lugar de A Badia
Abadim *(Gz.)
Adão
Adinho
Águeda
Alcabrichel
Alcoa - híbrido árabe Al + "Côa": "O Côa"
Alcórrego - híbrido árabe Al + "Córrego": "O Córrego"
Alenquer - híbrido árabe Al + "ank": "O Rio"
Alfusqueiro
Almonda - híbrido árabe Al + "Monda": "O Rio". ver "Mondego"
Alva

Alviela - diminut. de Alva ? ou Al+"Venella": "pequeno veio de água"?

Alvôco - diminut. de "Alva"
Ançã
Ancão
Âncora
Anços
Anlhom (Gz.) - graf. altern. "Anllón"
Ansião
Antanhol
Antuã
Ar (Gz.) (*)
Arade (*) - rio arade: rio-rio-rio?
Arante (Gz.) (*)
Arenteiro (Gz.) (*)
Arão (*)
Arapouco (*) - ribeira de Arapouco: ribeira-ribeira-ribeira?
Aravil (*)
Arda
Ardela - diminut. de Arda (*) Arelho - diminut. de Aro (*)
Ares *(Gz.) (*)
Arnego (Gz.) (*) - repare-se na terminação "-ego", como "Mondego"
Arnóia
Arouca (*)
Arouce (*)

Arraiolos (*) - não é hidrónimo mas refere-se a pequenos rios ou riachos: diminut. plur. de Arroio: Arroio+ olo+s

Arróio (*)
Arunca (*) - "aro"+"ank": rio-rio?
Asnes
Asnela (diminut. de Asnes ?)
Asnos
Avanca - "av-"+"ank": rio-rio
Ave (*)
Avia (Gz.) (*)
Avô - de "Avolo", diminut de "Ave": "Avoo" - Avô
Ba ou Baa (Gz.)
Baça
Baçal- do grupo Baça, Beça, Rabaçal
Badaguas (Gz.)
Bade (Gz.) - ver "Vade"
Baião
Baiona (Gz.)
Bálsamo
Balsemão
Beça
Beijames
Beijós
Bessa - ver "Beça"
Bestança
Cabrão - ver post "Cabras e Cabreiras"
Cabrum
Cádabo (Gz.) - variante de "Cávado"
Cadavaio - de "Cádavo"+ "Aio": rio-rio?
Caima
Canadinho
Caneiro
Cão

Caralho - raiz "karr-". tal como Cabrão e Carenque, este hidrónimo deve referir-se ao carácter pedregoso do leito do rio ou ribeiro e não à presença de água corrente

Carenque - refere-se ao carácter pedregoso do leito: Karr- + Enk: "rio das pedras"

Cávado -
Ceira -
Ceiroco - diminut. de "Ceira"
Ceiroquinho - duplo diminut. de "Ceira"
Ceras
Cértima
Cértoma
Cesta
Côa
Codes
Coina
Côja - o mesmo que Côa?
Corgo - pronunc. Córgo. variante de Córrego
Corregacho - pleonasmo: Córrego+Riacho?
Corregato - pleonasmo: Córrego+Regato?
Córrego
Corregozinho (Br.)
Correguinho (Br.)
Corrigatos (Gz.) - plur. de "Corregato"
Corvo - o mesmo que "Corgo" (?)
Coura -
Couros -
Criz -
Cua *(Gz.) - do grupo "Côa" (Cuda)
Dão - ver postagem sobre Rio Homem e Rio Dão
Deça (Gz.) - Cf. "Dueça". graf. altern.: "Deza"
Degebe - Ode+Gebe. rio degebe: rio-rio-rio)
Deva (Gz.)
Divor - do céltico "dur": água. a mesma origem de "Douro"
Diz (Gz. e Pt.)
Douro - "rio"
Dubra (Gz.) -
Dueça (Gz.) -
Égua -
Eita -
Eo / Eu (Gz.) -
Erges -
Este -

Eume *(Gz.) - cf. Pontedeume ou Ponte d' Eume (Gz). cf. com "Uima" e "Umia"

Gebre
Gromau
Guadiana - "wadi"+"ana": rio-rio. Rio Guadiana: rio-rio-rio
Homem - ver postagem "Rio Homem, Rio Dão"
Ilha (Gz. e Pt.) *(Gz.)
Inha
Labiados

Labruge - refere-se ao carácter pedregoso do leito do rio. ver Lobão

Ladra (Gz.)
Lama (Gz.)
Landro (Gz.)
Leça
Lena
Lever
Levira
Lila
Lilela - diminut. de Lila
Lima (Cf. Limat em Zurique, CH)
Lis - ver também "Lisandro"

Lisandro - rio Lisandro: rio-rio-rio? do grupo "lis-" , como "rio Lis", e do grupo "-andro", como "rio Sisandro"

Lobão - ver post "Lobos, Lobinhos e Lobões". deve significar "rio de pedras": "lob-" ou "lop-" + "ão"

Lonha ou Loña (Gz.)
Lor (Gz.) - ver "Loura", "Louro"

Loura (Gz.) - mesma origem linguística de "Loire", rio de França. significa "rio"


Louro (ver "Loura")
Maçãs - Cf. com "Rio Manzanares" (Madrid, Espanha)

Marnel - afluente do rio Águeda. Cf ."Marne", rio francês, afluente da margem direita do Sena. Marnel é diminutivo de Marne ("marnelo") com influência da fonética moçárabe.

Massueime -
Minho (Pt. e Gz.)
Minhor ou Miñor (Gz.)
Mondego - de "monda": rio
Nabão
Nava
Navea *(Gz.)
Navia (Gz.)
Neira (Gz.)
Neiva - o mesmo que Navia
Ocreza
Odelouca (árabe "ode"/"wady"+ "louca": rio-rio-rio?)
Ôlo - do grupo Olho, Ul, Ulha, Ulho
Olho - do grupo Ôlo, Ul, Ulha, Ulho
Ota - linguisticamente semelhante ao árabe "odi"/ "wady"
Ouvelha (Gz.) - o mesmo que Ovelha
Ovelha
Ovelhinha - diminut. de Ovelha
Paiva - o mesmo que Pavia
Parga (Gz.)
Pavia
Pei - hidrónimo equivalente a "Pele"
Pele - do grupo Pei, Peio, Pele, Pelhe
Ponsul - ver Sul. rio-rio-rio?)
Rabaçal - ver "Rabagão". de raba+baçal

Rabagão - o mesmo radical "raba-.-" presente em "Rabaçal": raba-g-ão

Riacho das Almas (Br.)

Ribeira das Donas - um pleonasmo: "ribeira da ribeira". aqui "Dona" e "Donas" é parente de "Don" e "Duna" (Danúbio)

Ribeira da Torre - há uma no Algarve, afluente do rio Alvor. e existe também uma em Cabo Verde, na ilha de Santo Antão, a qual pode dever o seu nome a uma transposição do nome algarvio. etimologicamente, o hidrónimo Ribeira da Torre é, com muita probabilidade, um pleonasmo (Ribeira da Ribeira),  em euskera, ribeira é "itur", o que confere grande antiguidade a este hidrónimo.

Ribeira de Abade - um pleonasmo: "ribeira de ribeiro"
Ribeira de Pão Quente - seguramente um equívoco fonético
Ribeiro de Além
Ribeira de Verdelhos
Rio Grande (Gz. e Br.)

Ródão - topónimo frequente, não parece nome de rio em Pt. mas refere-se à presença de um rio. Cf. Rhein, Rhin, Rhône, Ródano

Sabor - pronunc. Sàbôr
Sado - a mesma origem de "Sátão": Sádão; Sado
Sambro
Sar (Gz)
Sarela (Gz.) - diminutivo de "Sar"
Sarnes
Sarria (Gz.)
Sarrazola - do grupo "Sar" / "Sarria" / "Ser" / "Sor"
Sátão - ver "Sado"
Seia - Cf. "Seine" (Fr.)
Selga
Selho - o mesmo que "Sil"
Ser *(Gz)
Serol
Sever - do grupo "Sabor" / "Xévora" / "Távora"
Sil (Gz.)- Cf. "Sihl", em Zurique (CH)
Sionlha (Gz.)
Sirol
Sisandro
Sonoso - em "Ribeiro Sonoso"
Sôr
Sorraia - Rio Sorraia: rio-rio-rio?
Sótão - o mesmo que "Sátão"?
Soure
Sousa
Sul - do grupo "Sil" / "Selho"
Tambre (Gz.)
Tâmega - Cf. "Tambre", "Thames", "Támoga"
Támoga (Gz.) - Cf. "Tâmega"
Tamuge (Gz.) - Cf. "Tâmega"
Távora
Tea (Gz.)
Tedo
Teixeira
Teja - ribeira Teja
Tejo
Telha ou Tella (Gz.)
Torno
Trofa
Trovela - diminut. de "Trofa"?
Tua
Tuela - diminut. de "Tua"
Uima - Cf. "Umia"

Ul - do grupo "Ôlo" / "Olho" / "Ulha" ou "Ulla" (Gz.) / "Ulho" ou "Ullo" (Gz.)

Ulha ou Ulla (Gz.)
Ulho ou Ullo (Gz.)
Umia (Gz.)
Vade - Cf. "Abade"
Varosa - do grupo "Var" / "Ver"
Ver
Verdelhos - ver "Ribeira de Verdelhos"
Vez
Vizela - diminut. de Ave. lat.: "avicella"
Vouga
Xévora - do grupo Távora?

Zêzere - nome muito antigo, significa "rio". há uma Santa Marinha do Zêzere no norte de Portugal, concelho de Baião, muito longe do Rio Zêzere afluente do Tejo. ver Comentº de Liliana Pinto.


nota: (*) hidrónimos em "ar-" e "av-": formam o nome da cidade de Aveiro (Av-+Ar-: rio-rio), assente num território de rios e esteiros. na mesma região, há o topónimo "Avanca", formado por "av-" e "ank-": rio-rio.


sábado, 19 de novembro de 2005

Topónimos Militares









desde sempre as instalações militares, sobretudo as de vigia e defesa, deixaram marcas na toponímia, significando isso a importância que os respectivos povos e civilizações atribuíam à sua própria segurança.

podemos elencar:

A Guarda (Gz.)
Alfarelos -do árabe, As Vigias
Alvorge - o árabe, A Torre
Atalaia
Baluarte
Batalha
Belver (?)
Castelejo
Castelo
Castêlo
Castelo Branco
Castêlo da Maia
Castelo de Alferce
Castelo de Paiva
Castelo de Vide
Castelo Novo
Castelo Rodrigo
Castelo Ventoso
Castrelo
Castrelo do Val (Gz.)
Castro

Castro da Cola - Cola", do árab. Qua' la: "forte", "fortificação". é um pleonasmo

Castro d'Aire
Castromil (Pt. e Gz.)
Castro Roupal

Castro Verde (Pt. e Gz.) - neste caso, às vezes grafado Castroverde

Cerca Velha
Circunvalação
Fortaleza (Pt. e Br.)
Forte
Guarda (Pt. e Gz.)
Guarda Inglesa
Guarda Nova
Guardizela - diminut. de "Guarda"
Mira (?)
Mira d'Aire
Miranda (?)
Mirandela (?)
Monforte (Pt. e Gz.)
Monfortinho
O Castelo (Gz.)

Pêro Viseu - de "Pêro" (pedra, penedo, lajedo) + "Viseu" (guarda, vigia, atalaia). e por que não "Peroviseu"?

Santiago da Guarda
S. Pedro da Torre
Sargento-Mor
Sentinela
Torralva (?)

Torre (Pt. e Gz.) - algumas "torres" são derivadas do basco iturri e significam "fonte"

Torre da Medronheira
Torre da Silva
Torre das Vargens
Torre de Bera - ver aqui
Torre de D. Chama
Torredeita (?)
Torre de Moncorvo
Torre de Vilela
Torrejão (?)
Torres
Torres do Mondego
Torres Novas
Torres Vedras
Torres Velhas - o mesmo que Torres Vedras, mas linguisticamente mais recente
Torre Vã
Torrinha
Torronha (Gz.) (?)
Torrozelas (?)
Valença
Valença do Douro
Valença do Minho
Vela
Vigia

Viso - lugar alto onde está ou esteve uma vigia ou atalaia


sexta-feira, 11 de novembro de 2005

Rio Homem, Rio Dão

certos rios podem ter destas coisas. podem ter nomes que os faz parecer estranhos entre si, mas um exame mais atento mostra que, afinal, são rios da mesma criação. é o caso do Homem e do Dão .
"Om" é o nome de origem de ambos os rios, que apenas estão separados pela pronúncia. o segundo nasalou e ficou "Ão". o primeiro não e ficou "Ome". e agora entra em cena uma outra operação: ao "Ome" botaram-lhe um h no começo e um m no fim, porque parecia mal dizer "home" em vez de "homem". o "Ão" levou um D no início porque se esqueceram do apóstrofo e não soa bem dizer "...de Ão". por exemplo, Santa Comba d'Ão que era, ficou Santa Comba Dão. a pronúncia é igual, a escrita é que mudou.
bem perto de Santa Comba d'Ão existe uma Várzea do Homem, testemunha fiel da existência do tal "Om" - que quer simplesmente dizer, na sua antiquíssima língua, "fonte", "manancial", "água corrente". ou seja, rio.

estes hidrónimos multiplicam-se por toda a Galiza e em Portugal. as muitas teorias em que a Toponímia se deleita e compraz não afastam o parentesco "Ão"/"Home" - nem poderiam.

e um outro rio, aliás parceiro do Homem na bacia do Cávado, tem no seu nome a palavra "Ão": o rio Rabagão, de "raba-g-ão".que entra tamém para a família dos hidrónimos em "raba-", como Rabaçal.