segunda-feira, 23 de outubro de 2006

Pondelgada, Ponferrada


Ponta Delgada deve o seu nome ao facto de ter sido fundada junto a uma ponta rochosa muito estreita, onde mais tarde seria edificada a ermida de Santa Clara. entre esta Ponta e a Ponta da Galé forma-se uma enseada, comprida de três léguas.
ouve-se frequentemente os seus habitantes chamar-lhe Pondelgada - o que tem a ver com as particulardades dos falares micaelenses.
o povoamento da Ilha de São Miguel, iniciado nos anos quatrocentos, fez deslocar para lá sobretudo gente do Alto Alentejo, da região de Nisa - coisa bem aparente ainda hoje, não só no falar como tamém na quantidade de casas alentejanas que encontramos na ilha.
quem conheça os falares da Beira Baixa e do Alto Alentejo, como os da Sertã, Abrantes, Nisa e Mação, certamente encontrará de imediato notáveis semelhanças: a começar pelo chamado "u francês".
outra característica dos falares de S. Miguel é o relevo da tónica, que faz silenciar ou desaparecer o resto da palavra. assim, pelo menos na boca de alguns falantes, "Ponta Delgada" fica reduzida a "Pondelgada".
mas não penso que seja um exclusivo dos Açores. o nosso património linguístico prevê que isto suceda. na comarca de O Berço (ou El Bierzo), província de León, de influência linguistica galego-portuguesa, encontramos Ponferrada, cidade templária do Caminho de Compostela.
"Ponferrada" evoluiu de "Ponte Ferrada", latim ponte ferrata, isto é, "ponte (feita, segura, reforçada) com ferro(s)" - mas não "ponte de ferro".

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nota desnecessária: "Ponferrada" é grafia oficial, "Pondelgada" não

terça-feira, 10 de outubro de 2006

domingo, 8 de outubro de 2006

A Língua de M.

M. é jornalista de peso. presumo que o seu cachê reflectirá o peso que tem. dou isso de barato.
mas os seus horizontes linguísticos é que são demasiado curtos.
a propósito dos desafios que a China representa para muitos países potenciais concorrentes, ele soube que o Brasil está atento. que estuda a China. que se prepara. que faz o que tem a fazer. e M. mostra um livro publicado no Brasil sobre isso mesmo: o desafio da China. e explica que o livro está em brasileiro.
quero crer que sim. não seria de supor que estivesse em argentino, mexicano, americano, quebequense, australiano, sei lá.

mas...por quê a necessidade daquela "precisão"?
é que, se está em "brasileiro" é porque - suponho - não estará em português. e então imagino que M. entenderá por português uma língua a que não possa acrescentar-se nenhum qualificativo mais. uma língua minoritária ao quadrado. saloia. um dialecto europeu da região de Sintra e arredores. onde cabe Lisboa e M. e nada mais.





M. de míope?
e que culpa temos nós?

sexta-feira, 6 de outubro de 2006

A Granja



"Granja" é uma propriedade ou casal rústico com todos os vivos, safras e apetrechos. no Alentejo será "o Monte". para os romanos seria a "villa".

exemplos de Granja:

A Granja (Gz.)- graf. altern: "A Granxa"
Granja (Pt., Gz. e Br.)
Granja de Meanho (Gz.) - graf. altern. "Granxa de Meaño"
Granja do Gesto (Gz.) - graf. altern: "Granxa do Xesto"
Granja do Ulmeiro
Granjinha - diminutivo de Granja
Granjola (Pt. e Gz.) - diminutivo de Granja
Granja Viana (Br.)


quinta-feira, 5 de outubro de 2006

A Gândara


"Gândara" e suas variantes e diminutivos constituem um grupo de topónimos muito difundido em Portugal, na Galiza e nas Astúrias. tem o seu quê de desconcertante, na medida em que existe consenso no seu significado: "charneca", "terreno inculto e árido", "terreno arenoso e estéril", "zona baixa da montanha, rasa e pedregosa onde crescem torgas e giestas", "planície inculta, rasa, terreno pedregoso", "terreno alagado, arenoso, pantanal". terá origem no pré-indoeuropeu gand /kant, que se relaciona com o sentido de "pedra", "rocha" - como Canda e Cando (Gz.), Candeeiros, Candosa, Cantanhede, etc.
conheço, pelo menos, duas Gândaras a que esta explicação se pode aplicar com propriedade: a Gândara de Montedor (Pt., Viana do Castelo) e Gándaras de Budinho (Gz., Porrinho)
o problema é que, na sua imensa maioria, estes topónimos estão relacionados com uma frutuosa atividade agrícola e agropecuária - o que parece um contra-senso.
no Centro de Portugal, espalhada pelos concelhos de Mira, Tocha, Cantanhede, Montemor-o-Velho e Figueira da Foz, existe a Região Gandaresa, ou da Gândara, de intensa atividade agropecuária.
a verdade é que esta região, tal como as Gafanhas vizinhas, resulta da vontade do homem de transformar a natureza de acordo com as suas necessidades. nem sempre com os maus resultados de que por aí se fala...

exemplos:

A Gándara (Gz.)
A Gándara de Guilharei (Gz.)
Fonte da Gándara (Gz.)
Gândara
Gândara de Montedor
Gândara dos Olivais
Gandarela
Gandarela de Basto
Gandarinhas (Pt. e Gz.)

Gandra (Pt. e Gz.) - é uma variante dialetal e não uma corrupção de "Gândara", como por aí se lê

Granda (Pt., Gz. e Ast.) - variante dialectal de "Gândara", "Gandra"
Grandela (Gz.) - diminutivo de "Granda"
Moínhos da Gândara
Salvador de Gandarela
S. Martinho da Gândara

Serra da Gandarela (Br.) - em Minas Gerais. desconheço o porquê da transposição deste nome



terça-feira, 3 de outubro de 2006

As Gafanhas


Ílhavo é um município que confina com o mar. o seu nome, de ressonâncias pré-romanas, parece remeter-nos para as águas: a do mar, a do Vouga e a da ria. a primeira parte do nome, Illi-, encontra-se hoje nos topónimos bascos com o significado de "cidade"; a segunda metade do topónimo, - avu, está na composição de um sem número de hidrónimos portugueses e galegos - ver post.

sendo assim, ter-lhe-ão chamado então o nome que ainda hoje merece: "A Cidade do Rio" ou "A Cidade da Água".

está hoje separada do mar pela Costa Nova - nome que ilustra bem as transformações que o desenho desse litoral vem sofrendo em séculos recentes.




a vizinha cidade de Aveiro, linguística e semanticamente aparentada, usurpou o nome do porto, pois que o porto é pertença do município de Ílhavo; e o da "ria", que, embora tenha por nome "Ria de Aveiro", se expande pelos municípios de Ovar, Estarreja, Murtosa, Aveiro, Ílhavo, Vagos e Mira.






um terceiro município, o de Vagos, ajuda a fazer o cerco da "ria" pelo sul. o seu nome não esconde o parentesco com o hidrónimo Vouga, o rio cujos aluviões transformaram, ao longo dos séculos o desenho da costa. este nome pré-romano Vacus, depois Vagos, pode referir-se ao rio Vouga ou à tribo ou tribos que povoavam a margem esquerda da sua foz.
é como se quisesse dizer "os do Vouga".
hoje afastada da costa pela ria e pelas dunas, Vagos foi, em tempos, um porto de mar - do qual restam vestígios arqueológicos. e o Vouga, que foi mudando de foz com o decorrer dos tempos, tempos houve em que desaguava por aí.

a costa arenosa que a separa do mar tem o nome de Costa Vagueira (pronúncia: "vàgueira") ou simplesmente Vagueira: a costa "de Vagos".




na verdade, a Ria de Aveiro é uma laguna. não é como as verdadeiras Rias galegas, formadas por um braço de mar que penetra terra dentro. é, antes, o resultado de um arrastamento milenar de sedimentos trazidos pelo Vouga e por rios e ribeiros como o Águeda, o Antuã, o Cértoma, o Levira e outros, que vão fazendo com que o mar recue visivelmente de século para século.

do equilíbrio dinâmico entre mar, "ria" e rio Vouga, e do colossal labor dos homens, surgiram as "gafanhas": terras áridas fertilizadas pelo moliço da "Ria".

o moliço é o nome que se dá ao adubo natural feito de plantas subaquáticas que vivem na Ria de Aveiro. constituído sobretudo por erva-do-mar e vários tipos de algas, a sua composição varia consoante o grau de salinidade da água e o tipo de sedimentos. o mais procurado é o moliço da metade norte da Ria.
as plantas que compõem o moliço servem de refúgio e alimento aos peixes jovens, contribuem para a produção de detritos nutritivos, fazem acumular matéria orgânica e energia e estabilizam os sedimentos do fundo. as populações locais aprenderam a ver nele um poderoso fertilizante natural capaz de transformar terrenos arenosos e áridos em terrenos de grande fertilidade: as "gafanhas".


a apanha do moliço faz-se com barcos moliceiros, embora também possa fazer-se com bateiras. mas o moliceiro é o barco por excelência adaptado a essa função, tendo uma capacidade de carga de cerca de 3 toneladas, ou mesmo mais (até 5 ton.), em águas pouco profundas. a forma peculiar do moliceiro tem sido atribuída a uma influência viking (*), tal como a pele branca e sardenta e os cabelos ruivos de alguns tipos populacionais da região.

a recolha e distribuição do moliço constituiam há cem anos atrás uma poderosa actividade económica. as alterações políticas, sociais e económicas, a chegada dos adubos químicos e os condicionalismos da política agrícola da União Europeia levaram ao declíneo desta actividade.
além disso, o impacto ambiental das obras do porto fez com que a produção de moliço baixasse drasticamente no último meio século.

as Gafanhas começaram a ser povoadas em finais do séc. XVII, com gente de Vagos - município a que estiveram ligadas até 1856. já no séc. XX, deu-se um forte repovoamento com gente oriunda de várias partes do país, constituindo um acervo populacional diferente do que existia na região. isso criou uma certa animosidade e rivalidade mútuas, talvez mais folclórica que real. embora povoadas há cerca de 350 anos - o que é manifestamente muito pouco tempo em termos europeus - , não há certezas sobre a origem da palavra "gafanha". é um termo praticamente exclusivo da região (ver Comentº).

e apesar do esforço bem sucedido de fertilização dos terrenos arenosos, as Gafanhas nem sempre conseguiram assegurar o sustento de seus filhos. ondas migratórias fizeram espalhar gente da sua gente pelo Brasil, Venezuela, Estados Unidos e Canadá.

as Gafanhas:

Gafanha da Boa-Hora (município de Vagos)
Gafanha da Boavista (município de Ílhavo)
Gafanha da Mota (município de Ílhavo)
Gafanha das Fidalgas (município de Ílhavo)
Gafanha da Vagueira (município de Vagos)
Gafanha de Aquém (município de Ílhavo)
Gafanha da Encarnação (município de Ílhavo)
Gafanha da Nazaré (município de Ílhavo)
Gafanha do Areão (município de Vagos)
Gafanha do Carmo (município de Ílhavo)

os habitantes das Gafanhas chamam-se "gafanhões", mas tamém há quem lhes chame "gafanheiros".
o desenvolvimento e a semelhança histórica, cultural, social e económica deste conjunto regional conduziu à proposta de criação do município da Gafanha - o que não se concretizou até agora.


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(*) há quem veja no moliceiro uma reminiscência do drakkar ("dragão") viking:





segunda-feira, 2 de outubro de 2006

Um Ano de Vida

completam-se 12 meses sobre o início de Toponímia Galego-Portuguesa e Brasileira. o que começou por ser um despretencioso blogue de apontamentos, com a finalidade única de reunir em suporte virtual as ideias que o tempo foi formando, revelou-se, afinal, algo mais ambicioso. a "rede" começou a interagir. do Brasil, da Galiza e de Portugal criou-se um grupo de frequentadores assíduos, cuja intervenção ditou, muitas vezes, o rumo do blogue. não posso esconder o encorajamento recebido de Jolorib (Br.), Calidonia (Gz.), Imprompto (Pt.), D'Noronha (Br.), Rua da Judiaria (Pt.), Homedareia (Gz.), Quitanda do Chaves (Br.), Da Condição Humana (Pt.), A Tola do Monte (Gz.), por esta ordem de chegada. sendo que a minha actividade principal não é esta, devo à Frota Honorária (e a mais algumas barquinhas de estimação) a energia afectiva necessária para manter o blogue activo até aqui.
muito obrigado a todos.





sexta-feira, 29 de setembro de 2006

Raias e Fronteiras


o topónimo "Fronteira", simples ou composto, é mais frequente em Espanha (Andaluzia - An.) que em Portugal - e não se refere à linha divisória entre os dois países. é a cristalização de um período de relativa estabilidade na linha divisória entre o mundo cristão e o mundo muçulmano, sendo que, pela sua localização bastante a sul, corresponde a uma época já tardia do domínio muçulmano na Península (o Reino de Granada).
o topónimo Fronteira não o conheço na Galiza, nem junto a León nem perto de Portugal.
a fronteira luso-espanhola é conhecida por "Raia", que pode ser "sêca" se não for formada por um rio. em Goa, na antiga Índia Portuguesa, também existe o topónimo "Raia".
fronteira mais velha é a designada pela palavra "Extremadura" (Es.) ou "Estremadura" (Pt.), que significa, genericamente "o território que extrema", ou faz fronteira. no caso, com os reinos mouros tamém. mas, parafraseando a lápide da catedral de Zamora, esta é uma fronteira milenar que separa o Norte do Sul, que põe em contacto a Europa do norte com as sucessivas culturas das margens mediterrânicas.

sobre este assunto pode consultar-se ainda o post "Marcos, Malhões e Fronteiras"

exemplos:

Aguilar de la Frontera (An.)
Arcos de la Frontera (An.)
Castellar de la Frontera (An.)
Cerrado da Raia (Pt.)
Chiclana de la Frontera (An.)
Conil de la Frontera (An.)
Cortes de la Frontera (An.)
Extrema (Br.) - ver Comentº
Estremadura (Pt.)
Extremadura (Pt.)
Fronteira (Br.)
Fronteira (Pt.) - vila do distrito de Portalegre
Fronteira dos Vales (Br.)
Fronteiras (Br.)
Jerez de la Frontera (An.)
Jimena de la Frontera (An.)
Morón de la Frontera (An.)

Oliva de la Frontera (Est.) - esta localidade estremenha, junto à fronteira com Portugal, deverá constituir um dos poucos exemplos em que o termo "fronteira" se refere aos dois estados ibéricos

Palos de la Frontera (An.)
Raia (Goa)
Raia dos Vales (Pt.)
Raia Seca (Pt. e Gz.)
Salvaterra do Extremo (Pt.)
S. João da Fronteira (Br.)
Três Fronteiras (Br.)
Vila Verde da Raia (Pt.)


quarta-feira, 27 de setembro de 2006

Os Templos dos Castrejos

apresentado por Jolorib, depressa o blogue de Manuel Anastácio se me tornou de leitura regular. e dou hoje de caras com esta postada especial: "Pormenores: Suásticas Castrejas da Citânia de Briteiros". onde se fala tamém dessas construções enigmáticas como a que a foto nos mostra.
tema que me movimenta os miolos há uns anitos bons, levou a fazer-lhe um comentário em primeira mão.
reproduzo-o aqui, com algumas revisões e correções. a foto é do blogue d'A Condição Humana.


















tenho reparado, aqui e ali, na presença dessas construções castrejas, de que a de Briteiros, por força das minhas origens, é necessariamente a primeira.
porém está descontextualizada, por falta de continuidade histórica até hoje. e, sendo assim, fica à mercê da imaginação dos arqueólogos.
sem mencionar mais, lembro a pequena capela que existe nas Termas de S. Pedro do Sul, junto ao complexo balneo-religioso romano.
é uma capelinha minúscula feita sobre ruínas de pequenos templos anteriores - garantia de uma continuidade no tempo, no lugar e na função.

a construção mais antiga está representada por várias pedras, uma delas embutida naquilo que agora constitui a cabeceira exterior(*) da capela. à qual não há como roubar-lhe a sua proveniência castreja nem lhe negar o paralelo com Briteiros.
a questão é esta: os castros são povoados, vivia neles gente, famílias, clãs, talvez uma tribo inteira. a que corresponde uma religião, um culto, uma crença, uma cosmogonia, uma visão do mundo. os trísceles e suásticas são um aspecto simbólico dessa religião ou dessa cosmogonia. a minha escolha do tríscele como emblema do blogue tem que ver com isso.
mas onde tinham os castrejos os seus rituais, os seus marca-passos sezonais, as suas cerimonias que os re-ligasse, a sua relação formal com o divino? onde estão, simplesmente, os templos castrejos?

a mim nunca ninguém me falou neles, nem de boca nem de livro.
mas eu penso que estão precisamente aí, nessas capelinhas minúsculas, ao fundo dos povoados castrejos, perto de linhas de água.




fogo, fumo, fuligem, tochas, velas nos templos, queima de incenso? em quais é que não há? serão, só por isso, fornos crematórios?
lugar de cerimónias de iniciação e de outros rituais? que templos o não são?
são pequenos? não são ainda mais pequenos os sacrários e os nichos das religiões de hoje?

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(*)
existe uma tendência regular para que a parte exterior das cabeceiras das igrejas e capelas cristãs exiba a forma de culto, ou de invocação religiosa, mais antiga do local. quem quiser comprová-lo vá, por exemplo, ao exterior da cabeceira da sé de Braga. aí se depara com o nicho da Senhora do Leite, a invocação da Mãe Terra por excelência (depois Ísis, depois Santa Maria) .
e querem saber? nas escavações levadas a cabo na Sé apareceu a imagem de Ísis, culto equivalente trazido por soldados orientais integrados no exército de Roma. e a invocação actual da sé: Santa Maria!

terça-feira, 26 de setembro de 2006

Mesquitas e Mesquitelas a norte do rio Douro



é muito estranha a existência de "Mesquitas" e "Mesquitelas" na toponímia galego-portuguesa a norte do rio Douro ou mesmo a norte do Mondego, em lugares onde é quase seguro que não pararam os mouros tempo que chegasse para as construir, quanto mais para as frequentar à sexta-feira - como é de preceito.

e se há no norte de Portugal e na Galiza a possibilidade de seguirmos os templos pagãos e suevo-visigóticos, por que não haveríamos de saber onde ficavam situadas as almasjid?

há topónimos de origem árabe cujo significado é "a mesquita " (islâmica), como "Almoçageme".

e mais: o sobrenome "dá Mesquita" é uma anomalia de peso. parece pedir um "a", antes de "mesquita", ou seja "da Amesquita". é caso único nos sobrenomes de origem toponímica, o que torna praticamente irrefutável a sua origem num topónimo Amesquita (*). e, a ser assim, lá estará, uma vez mais, a escrita traindo a oralidade.

na Galiza, existe uma Mesquita, tamém há quem escreva ou escrevesse A Mezquita e La Mezquita (onde este z dá que pensar) - a qual, pela sua localização tão a norte, dificilmente terá sido alguma vez "o lugar de prostração"(al-masjid) dos muçulmanos. a existência do diminutivo Mesquitela põe-me tamém na retranca.
constato, porém, que os mestres acreditam na tese da mesquita islâmica.

fazendo uma incursão por todo o norte da Península, encontro o topónimo euskera "Amezketa", o mesmo que "azinhal" ou "carrascal", na Província de Guipúzkoa, País Basco.
ainda em Euskadi, encontramos "Amezaga" (Província de Araba ou Alava), de ametz+aga, com significado muito próximo do primeiro.
e "Amezkoa", Alta e Baixa (Província de Nafarroa ou Navarra), em que "-koa" tem carácter genitivo, como se disséssemos "A do Azinho" ou "A da Azinheira".
uma característica curiosa destes locais é a sua tendência para os vales e encostas abruptas.


e pode bem ser que esteja aqui o segredo bem guardado das Mesquitas a norte do rio Douro - ou mesmo a norte do Mondego.


o topónimo guipuscoano "Amezketa" situa-se em terreno abrupto, na encosta de um monte e tem um rio que corre lá embaixo. a palavra resulta de "ametz" (azinho, carrasco) e "k-eta" (sufixo abundancial e colectivo). este padrão paisagístico é comum em várias povoações do norte peninsular e mesmo em regiões das Beiras, em Portugal.

a sul do rio Douro, também há topónimos em "Mesquita", simples e compostos. mas a palavra "Mesquita" pode aqui ter proveniências diferentes, cuja evolução fonética acabou por convergir: "amezketa" (azinhal, carrascal) e "al-masjid" (a casa de oração). distinguir uma origem da outra irá começar pelo aspecto do local e pelo tipo de história da ocupação mourisca.

no Brasil, a "Mesquita" tem uma de duas origens: ou é transposição de toponimo português ou resulta de homenagem a alguém com esse sobrenome. o mesmo se existir "Mesquitela".

quanto à origem do sobrenome Mesquita, é basicamente lendária e brumosa, tal como a dos topónimos correspondentes, tentando casar "al-masjid" com "amezketa". na realidade, consegue-se extrair da lenda alguns elementos com que é possível trabalhar: 1- quatro cidades, Braga, Miranda, Lamego e Viseu - que seguram a mão de "amezketa"; 2-uma actividade militar no norte de África, com passagem por mesquitas - que segura a mão de "almasjid". o casamento é perfeito.
o problema é Mesquitela...

alguns exemplos de "Mesquitas":

A Mezquita (Gz.)

Mesquita (Pt., Gz. e Br.) - nem tudo se resume a almasjid e amezketa. alguns topónimos compostos resultam de um sobrenome, do proprietário por exemplo

Mesquitas - este plural é esquisito. já uma masjid é muito, que fará mais que uma...pode tratar-se, no entanto, do sobrenome de família dos (primeiros) proprietários

Mesquitela - os diminutivos, indicam, em geral, uma povoação derivada de outra. neste caso, seriam derivadas de uma povoação com nome de "Mesquita". ou podem indicar uma povoação que comparada com outra era menor na época em que foi assim chamada. esta hipótese convém a amezketa, mas não a almasjid

San Vitoiro da Mezquita (Gz.)



espero que tenham gostado desta nota. se não servir para mais, já que se trata apenas de uma pista, servirá de tópico a que não se dê importância apenas às componentes exóticas da língua, o latim, o árabe, etc. a componente nativa aborígene ainda se pode reconhecer. é preciso saber procurá-la. o euskera, ou basco, é uma excelente carta de navegação para encontrá-la.

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(*) o caso não é de somenos. em lugar de andarmos à procura de um significado "convincente" para "A Mesquita", seja ele qual for, parece-me mais prometedor caminho procurar o significado de "Amesquita". foi o que fiz.



segunda-feira, 25 de setembro de 2006

O Fracasso de Vila de Rei



de acordo com notícia do Sol (p. 40 e 41, pdf), dói-me ter de informar frequentadores e amigos deste blogue que o primeiro rebento do projecto de Vila de Rei sofreu abortamento espontâneo, por má qualidade da matriz. não sobra nada, só desadaptação, tristeza, fantasias perdidas e lágrimas que cheguem. não sei que novos filhos vão querer nascer de um projeto assim.

quando a esmola é muita ou a banana é muita, pobre sabido desconfia e macaco avisado também.
amigos, venham do jeito que costumam vir, não embarquem em navio iluminado que apareça por aí. pode ser pirata. pode ser negreiro. talvez a nave dos loucos... pode ser... sei lá o que pode ser!

...mas eu também acreditei...




quinta-feira, 21 de setembro de 2006

Casas e Casinhas

a toponímia é um discurso sobre a oralidade. a passagem de um topónimo à escrita é fonte de imensos equívocos, hoje como ontem. as diferenças de pronúncia, por vezes subtis, tornam-se diferenças maiores quando passadas a escrito. veja-se o caso de "Caselhas" e "Coselhas". ainda mais perturbadora é a escrita do mesmo fonema em norma linguística diferente. escrever Casinhas ou Casiñas, assim como escrever Olivença ou Olivenza é exactamente o mesmo, mas não parece. a questão é que optar por uma grafia ou por outra significa uma escolha política prévia. se se está do lado da Meseta optar-se-á pelo ñ em lugar do nh, pelo z em lugar do ç e pelo ll em lugar do lh. e fica identificada a espécie de pessoa que escreve e o que pensa do mundo e de si mesma


Barracão (Pt. e Br.)
Cabana
Cabana de Bergantinhos (Gz.)
Cabanas (Pt. e Gz.)
Cabanas de Viriato
Cabanelas (Pt. e Gz.)
Cabaninha
Cabaninhas
Casa Branca (Pt. e Br.)
Casa do Sal
Casa Grande (Br.)
Casaínho
Casais (Pt. e Gz.)
Casal
Casalinho (Pt. e Gz.)
Casalta

Casa Nova (Pt., Gz. e Br.) - em basco ou euskera há o topónimo e sobrenome "Etcheberria", "Etcheverria", "Echeverria", "Etxebarria", que quer dizer, também, "casa nova". deste resultou
o topónimo navarro "Javier" (Xavier), origem deste nome e sobrenome, bem como do hagiónimo S. Francisco Xavier

Casas (Pt. e Gz.)
Casas Novas
Casas Velhas
Casa Telhada
Casebres
Casegas
Caselas
Casinhas

Catraia - pode fazer uma certa confusão a portugueses do norte, para quem "catraia" é o mesmo que "menina", "miúda", "moça muito jovem". mas aqui é o mesmo que "casinhota"

Catraia Cimeira
Catraia de S. Paio
Catraia de S. Romão
Catraia dos Poços
Catraias

Coselhas - uma das variante dos diminutivos de Casas : Casinhas; Casegas, Casicas; Caselas, Caselhas, Casillas (Cast.), Coselhas.

Mesão - em francês: "maison"
Mesão Frio - pronúncia "mesonfrio".
Mesonfrío (Gz.)
Palhaça
Palhais
Palheira
Palheiro
Palheiros
Palhoça (Br.)
Pousa (Pt. e Gz.)
Pousada (Pt. e Gz.)
Pousada de Saramagos
Pousadinha
Sá (Pt. e Gz.) - do germânico "Sala", passando por "Saa". em francês, "Salle"
Saa (Gz.)
Saavedra (Gz.)
Sala - ver Sá e Saa
Salas (Gz.)
Sás (Gz.)
Salzeda de Caselas (Gz.)


terça-feira, 19 de setembro de 2006

As Fontes




... pois começaria por perguntar o que vem a ser uma fonte. ...e a resposta é... boa pergunta!
pedindo ajuda à sinonímia, encontramos falsos sinónimos, tais como "emanação", "manancial", "nascente", "bica", que mais são variedades do que a mesma coisa. a água nasce como lhe calha melhor. e isso é uma fonte. mas a água não nasce toda igual: uma é fria, outra quente, outra nem fria nem quente, uma nasce numa charca, outra em bica, outra em sete, outra em mil. uma traz ferro outra não traz, uma é muita e outra é pouca. uma é santa e outra é mais. uma é boa e outra mata. e assim, consoantemente, vai tendo o nome que merece...ou nem por isso.
não faz muito tempo, ouvi contar que a inspeção sanitária se lembrou de fazer análises à qualidade da água milagreira de certa fonte santa. e encontrou o que ninguém quis: não sei quantas bactérias e venenos que, tudo somado, fazia uma poção bem perigosa. vai de selar a fonte e proibir a sua utilização. foi o bom e o bonito. o povo levantou-se, tirou a selagem, montou piquete, enfim, fez gato-sapato da inspeção sanitária e análises correlativas. a fonte santa continuou santa e o povo devoto da fonte. porque santidade é santidade, não se mede com análises nem de bata branca


Alcabideche - variante fónica de Alcabideque

Alcabideque - em árabe:"manacial", fonte. é uma charca onde borbulha a água que nasce, tal como em "Fonteminha" e tamém em "Ançã"

Bica

Chiqueda - é a nascente do rio Alcoa, em Alcobaça. tem longa fama de fonte sagrada. penso que "chiqueda" será equivalente de "charca"

Fonfría (Gz.) - ver "Fonte Fria"
Fonsagrada (Gz.)
Fonseca
Fontaínha (Pt., Gz. e Br.)
Fontaínhas (Pt., Gz. e Br.)
Fontaínho (Pt. e Gz.)
Fontanheira
Fontão
Fonte Arcada
Fontarcada
Fonte Boa (Pt., Gz. e Br.)
Fonte da Cheira
Fonte da Pulga

Fonte da Urina - não é o que parece. pronúncia popular: "fonte da ourina" (ou será "fonte dourina"?). alguém alvitrou ser uma confusão com "fonte taurina", hipótese académica pouco provável tendo em conta a fonética. merecia que lhe fosse corrigido o nome escrito

Fonte de Ançã - é um pleonasmo: "fonte da fonte". ver foto
Fonte de Martel

Fonte do Bispo
Fonte do Castanheiro
Fonte do Ídolo
Fonte do Ramilo
Fonte dos Clérigos
Fonte dos Olhos - aqui, "olhos" está por olhos-d'água
Fonte do Vale

Fonte Errada - trata-se de um equívoco de transcrição da fonética para a escrita, pelo que ficou errada duas vezes

Fonte Fria

Fonte Histórica - em Chelo, Penacova. é "histórica" porque está referenciada desde o século XII. fora isso, é uma "fonte santa" - motivo por que mereceu essa referência e por que continua a ser procurada

Fonteira
Fonteita - o mesmo que "fonte telhada"?
Fontela (Pt. e Gz.) - do latim "fontanella": fontinha
Fontelo (Pt. e Gz.) - pronúncia: "Fontêlo"

Fonteminha ou Fontemiña (Gz.) - à letra e na realidade: "nascente do Minho"

Fontenla (Gz.) - é a forma evolutiva imediatamente anterior a "Fontela"

Fonte Nova

Fonterma - será o contrário de "fonte fria"? ou é "fonte erma"? aqui decide a fonética, que desconheço: "fontèrma" ou "fontêrma"?

Fonte Santa
Fonte Seca (Pt. e Gz.)
Fonteseca (Gz.)
Fontiela
Fontinha (Pt. e Gz.)
Fontoura (Pt. e Gz.)
Milfontes
Sete Fontes

Torre - em certos casos, a "torre" está pelo euskera "iturri" (fonte). e pode bem suceder que "torre" e "iturri" coincidam, já que algumas nascentes estão defendidas por torres militares, dado o carácter estratégico de que se revestem ou revestiram. é o caso de "Alcabideque" (Condeixa)


domingo, 17 de setembro de 2006

Cidades Portuguesas e Brasileiras Homónimas (* )


os topónimos que se seguem são transposições para o Brasil de topónimos portugueses, em geral de cidades ou vilas de certa importância. significam, na maioria dos casos, que os seus fundadores seriam originários da localidade portuguesa homónima.
entre parêntesis o Estado ou Estados onde ocorrem os topónimos brasileiros

Alcobaça (Bahia)
Alenquer (Pará)
Alhandra (Paraíba)
Almeida (Minas Gerais)
Almeirim (Pará)
Alvarenga (Minas Gerais) - sobre Alvarenga portuguesa ver aqui
Amarante (Piauí)
Anadia (Alagoas)
Aveiro (Pará)
Baião (Pará)
Barcarena (Pará)
Barcelos (Amazonas)
Batalha (Alagoas) (Piauí)
Belmonte (Bahia) (Santa Catarina)
Borba (Amazonas)
Bragança (Pará)

Bragança Paulista (São Paulo) - é "Paulista" para se distinguir de "Bragança" (Pará). parece dever o seu nome à Casa Real Portuguesa e não à cidade homónima de Trás-os-Montes (Pt.)

Campo Maior (Piauí)
Cantanhede (Maranhão)
Carvalhos (Minas Gerais)
Caxias (Maranhão)
Chaves (Pará)
Coimbra (Minas Gerais)
Colares (Pará)
Crato (Ceará)
Espinho (Minas Gerais)

Extremoz (Rio Grande do Norte) - a grafia actual da cidade portuguesa é Estremoz

Faro (Pará)
Fátima (Bahia) (Tocantins)
Fundão (Espírito Santo)
Gouveia (Minas Gerais)
Granja (Ceará)
Guimarães (Maranhão)

Jerumenha (Piauí) - a grafia actual do topónimo em Portugal é Juromenha

Jurumenha (Ceará) - ver Jerumenha
Lages (Santa Catarina)
Lajes (Rio Grande do Norte)
Linhares (Espírito Santo)
Mafra (Santa Catarina)
Marialva (Paraná)
Marvão (Piauí) - actual Castelo do Piauí
Melgaço (Pará)
Miranda (Mato Grosso do Sul)
Monção (Maranhão)
Nazaré (Bahia) (Tocantins)
Óbidos (Pará)
Oeiras (Piauí) - antiga vila de Mocha
Oeiras do Pará (Pará)

Olivença (Alagoas) - Olivença, cidade portuguesa do Alentejo, encontra-se, com todo o seu concelho, sob administração espanhola desde a chamada "guerra das laranjas" (1801). a actual pressão para que o Reino Unido devolva Gibraltar a Espanha poderá ter como resultado paralelo, e de igual legitimidade histórica, a devolução de Olivença, e seu município, a Portugal. a construção da nova ponte sobre o rio Guadiana, que vem substituir, finalmente, a velha ponte arruinada de Nossa Senhora da Ajuda, será o princípio dessa (desejada?) reaproximação.

Ourém (Pará)
Paranhos (Mato Grosso do Sul)
Penalva (Maranhão)
Pinhão (Paraná) (Tocantins)
Pombal (Paraíba)
Portalegre (Rio Grande do Norte)
Portel (Pará) (Paraná)
Porto (Piauí)

Porto de Moz (Pará) - a grafia actual do topónimo português é Porto de Mós

Queluz (São Paulo)
Raposa (Maranhão)
Resende (Rio de Janeiro)
Rio Tinto (Paraíba)
Sagres (São Paulo)
Santarém (Pará) (Paraíba)

Santo António de Lisboa (Piauí) - muita gente diz "Santo António do Lisboa". mais do que apontar o erro, importa indagar a sua origem - que desconheço

São Gonçalo de Amarante (Ceará) (Rio Grande do Norte) - muita gente diz "São Gonçalo do Amarante". ver "Santo António de Lisboa"

São Paulo de Olivença (Amazonas) - ver "Olivença"

Sarzedo (Minas Gerais)
Silves (Amazonas)
Soure (Pará)
Tomar do Geru (Sergipe)
Valença (Bahia) (Piauí) (Rio de Janeiro)
Viana (Espírito Santo) (Maranhão)
Vila Flor (Rio Grande do Norte)
Viseu (Pará)

além destes casos, surgem cidades com nome antecedido de "Nova", como "Nova Fátima", por exemplo. outras vezes segue-se um qualificativo, como "Tomar do Geru"

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(*) o termo "cidade" tem conotação diferente em Portugal e no Brasil. pelo seu caráter mais genérico, utilizo aqui a acepção corrente no Brasil
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sábado, 2 de setembro de 2006

Portugal e Galiza: a Razão dos Nomes

até que se escreva coisa melhor sobre o assunto, remeto os frequentadores e amigos deste blogue para o Portal Galego da Língua (agal-gz.org), ano V, época 2006/2007, e o notável artigo de Luís Magarinhos Igrejas.
porque o saber ocupa menos lugar do que as certezas.




nota: podem também dar uma espiada no blogue gémeo, posts de 17/03/2006.

quinta-feira, 31 de agosto de 2006

Castelos e Castros Mil



em geral estes topónimos testemunham uma presença humana muito antiga, anterior aos romanos e aos celtas. são o indício dos primeiros povoados ou castros formados por habitações resistentes ao passo dos milénios. do ponto de vista tecnológico, esses povoados pertenciam ao que se convencionou chamar a Idade do Ferro. localizados em pontos altos e cercados por uma ou mais linhas de muralha, criaram imensas dificuldades aos sucessivos invasores.


Castelimo
Castelinho

Castelo da Maia (pronúncia: "Castêlo da Maia")

Castelo Velho

Castendo
Castragosa

Castrelo - diminutivo de Castro
Castrelos (Pt.) - (procure "freguesias")

Castrilhão
Castro da Cidá (Gz.)
Castro d'Aire
Castro da Ponte
Castro de Avelãs (Pt.)

Castro de Rei (Gz.) - segundo julgo saber, a maneira de dizer do povo é "Castro do Rei", com utilização do artigo definido.

Castromao (Gz.) - ver Castro Mau
Castro Marim
Castromaior (Gz.)
Castro Mau

Castromil - parece mas não é. pertence aos topónimos germânicos terminados em "-mil". parece uma forma alternativa de Crestomil e Creixomil. a evolução fonética para "Castro" e "Crasto" pode ter sido influenciada pela vizinhança de topónimos em "Castro".

Castrovães
Castro (Pt., Gz. e Br.)
Castro Verde (Pt. e Gz.) - verde= velho
Crasto
Crastomil - ver Castromil
Crestuma - de "Castrumia": "castro do Umia ou Uima" ("Uima": o ribeiro que lá passa)
Monte Castêlo


terça-feira, 22 de agosto de 2006

Topónimos Terminados em "-eses" ou "-ezes"



os topónimos terminados em "-eses" ou "-ezes" referem-se, regra geral, à proveniência geográfica da população que lhe deu o nome. a terminação "-eses", de origem leonesa (como "portugueses", "franceses", "ingleses") indica que o topónimo - bem como a migração populacional a que se refere - é da época medieval tardia. a terminação "-ense", hoje mais usada, embora linguisticamente menos evoluída, é de origem recente e foi introduzida pelos eruditos. de tal jeito que toda a gente que se preza é alguidarense, parvalheirense e assim por diante.
"-eses" é a evolução galego-portuguesa e leonesa para a terminação latina "-ensis". assim sendo, a grafia correcta será "-eses". no entanto, até não há muito tempo, escrevia-se "portuguezes", "francezes", "inglezes", "chinezes", sem que daí viesse mal de maior à segurança pública - e sem que esta nota constitua um incentivo a que se escreva à vontade dos fregueses.
estou para saber como se auto-denominam os habitantes de "Abraveses", "Astureses", "Cambeses". e assim por diante. será "abravesenses", "asturesenses", "cambesenses"? se assim for, é um curioso pleonasmo.

exemplo de topónimos em "-eses":

Abraveses ou Abravezes (Pt.) - como a terra em si tem uma longa História, o topónimo corresponde a um re-povoamento, por gente oriunda de "Abrav..."

Astureses (Gz.) - gente oriunda das Astúrias. com o mesmo significado existe "Estorãos" (Pt.)

Cambeses (Pt. e Gz.) - gente oriunda de "Camb..." como há vários topónimos em "Cambas" (Cambas, Ribeira de Cambas, Santana de Cambas, Vilarinho de Cambas,...) e existe "Cambás" (Gz.), todos muito antigos, é difícil saber a qual deles se refere o termo "Cambeses", embora a origem mais nortenha seja a provável. com o mesmo significado existem os topónimos Cambões (Pt.) e Cambeiros (Pt. e Gz.) - palavras que, retiradas do seu contexto toponímico, significam outra coisa.

Canaveses -

Gemeses ou Gemezes (Pt.) - gente oriunda de Gemes (Pt.) ? este topónimo está ainda longe de ser pacífico.

Guilhadeses (Pt) - gente oriunda de Guilhade, na Galiza

Lanheses (Pt.) - gente oriunda de Lanhas. há Lanhas em Portugal e na Galiza. a proveniência galega é a provável. ou será gente oriunda de Lanha (Gz.)?

Marco de Canaveses (Pt.) - ver Canaveses

Meneses ou Menezes (Pt.) - gente oriunda de Mena (Astúrias, Es.)

Merideses ou Meridezes (Pt.) - gente oriunda de Mérida (Extremadura, Es.). com o mesmo significado existe "Meridãos" (Pt.).

Repeses ou Repezes
Urgeses ou Urgezes (Pt.) - ver Comentº.

segunda-feira, 21 de agosto de 2006

A Ilha das Três Indústrias

é uma ilha muito, muito antiga, povoada ininterruptamente desde a Idade da Pedra. a sua toponímia revela vestígios das línguas mais antigas do planeta e os seus campos ainda mostram antas e menires, inúmeras grutas e desfiladeiros escondem antigos rituais, pinturas rupestres, desenhos misteriosos. gente de um fino humor povoa a ilha.
sempre o povo utilizou armas, tomou chás, bebeu cerveja, sidra e vinho, fumou ervas, soube usar o fogo. tudo isso na exata medida do necessário, a contenção devida, a noção do perigo associado. porque os acidentes sempre podem aparecer quando se usa uma arma, quando se usa uma droga, quando se usa o fogo.
mas eis que,de repente, a ilha foi invadida por gente sem nome nem rosto. o povo sabe que "eles" chegaram, mas não sabe quem são, como são, onde moram. apenas que estudaram os três costumes da ilha e com eles montaram três indústrias. que, aliás, ninguém sabe aonde funcionam.
ninguém os vê fabricar o que fabricam nem vender o que vendem. mas o negócio parece próspero.
começaram a surgir armas na ilha. é claro que armas sempre houve, mas não como aquelas, tão modernas e mortíferas. a gente, até aí cordata e de fino trato, começou a resolver questões recorrendo às novas armas. o número de efetivos policiais aumentou, para tentar travar a onda de crimes. a população prisional cresceu também, por via da criminalidade, e o recrutamento de guardas de cadeia aumentou em flecha. e isso foi achado bom. aumentou o emprego e fez desenvolver a economia da ilha. os agentes policiais e guardas de cadeia tinham agora geladeira, televisão e um carrinho em bom estado. as autoridades pensaram que seria melhor legalizar as armas. haveria mais crimes, mais prevenção, mais repressão, mais o que fazer com gente presidiária. haveria mais emprego e mais pessoas poderiam comprar televisão, carro em bom estado e, talvez, um telefone portátil.
a droga também começou a aparecer pela ilha. drogas sempre a ilha tinha conhecido, mas não tão modernas, de efeito tão forte ou de uso tão à descrição. isso tornou-se evidente pelo comportamento estranho de muita gente, sobretudo jovens. andavam doentes, macilentos, delirantes, sem rumo, necessitados de um cuidado qualquer. e isso foi achado bom. surgiram clínicas, com médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, profissionais de secretaria, telefonistas, professores de ginástica, terapeutas ocupacionais, diretores-gerais, chefes de divisão, pregadores e mesmo charlatães. nunca na ilha tinha havido tanto emprego nem de tanta qualidade. as pessoas agora já tinham computador, televisões plasma, carros novos e telefones portáteis de terceira geração. nunca tal ilha tinha atingido um tão faustoso bem-estar.
as autoridades pensaram que seria melhor legalizar as drogas. haveria mais consumo, mais doentes, mais gente perdida. haveria mais clínicas, mais salas de pregação, mais prevenção, mais reabilitação e, por via disso, mais emprego. e mais pessoas poderiam comprar carro novo, aparelhagem de televisão tipo cinema em casa, telefones de terceira geração e acções na Bolsa.
finalmente, chegaram os incêndios. é claro que fogos sempre tinha havido naquela ilha, por aqueles motivos vulgares, artesanais, que todo o mundo sabe. mas nunca desses fogos científicos, de elevada tecnologia e dimensão de catástrofe. cidades inteiras foram rodeados de chamas, de fumo e de vento assustador. e isso foi achado bom. surgiram aviões enormes, helicópteros, carros de combate ao fogo, escadas magirus de último modelo. nunca na ilha se vira uma coisa assim. pessoas houve que tiveram emprego como simples vigilantes de floresta, outras como bombeiros, outras ainda como pilotos, motoristas, sapadores. a ilha foi filmada de lés a lés por várias cadeias de televisão e as fotografias por satélite mostravam as cidades e aldeias rodeadas de manchas escuras de desolação. alguns compravam agora terrenos devastados por um quarto do preço para depois vender por dez vezes mais. e assim compravam vivendas de luxo e um iate para movimentar os portos. e tudo isso foi achado bom.
as autoridades pensaram legalizar os fogos. haveria mais incêndios, mais movimento de aviões e de helicópteros, mais carros de combate aos incêndios, mais prejuízos, mais seguros, mais vigilantes da floresta, mais polícias e guardas no terreno. e as pessoas poderiam sonhar com vir a ter uma vivenda, um mercedes, um barco num dos portos.
talvez legalizando tudo isso se pudesse saber quem faz o quê. e se pudesse cobrar uma receita fiscal nunca imaginada. e com essa riqueza se pudesse levantar uma Civilização nova e faustosa, que ofuscasse todas as obras e monumentos do passado. seria mais tarde - pensavam - conhecida como a Gloriosa Civilização da Ilha das Três Indústrias.
e quando a ilha estava atingindo o topo de sua fulgurante economia, eis que um não previsto fenómeno ocorreu. os seus habitantes desapareceram, passados pelas armas, sumidos pelas drogas, queimados pelas chamas. e o fogo rasou a terra e tudo o que nela havia: não ficou de pé nem geladeira nem carro em bom estado, nem telefone de terceira geração, nem iate no porto. todos os empregos ficaram vagos. o dinheiro já não teve mais ninguém que o usasse. ninguém chegava na ilha por porto ou aeroporto, pois já não valia a pena chegar em nenhum sítio.

quinta-feira, 10 de agosto de 2006

Fornos



a maior parte dos topónimos "Fornos" e derivados refere-se à produção de cal. em alguns deles há uma continuidade evolutiva histórica e tecnológica que manteve a atividade extratora e transformadora até aos dias de hoje.



Alfornelos
Fornaria
Fornelos (Pt. e Gz.)
Fornelos de Montes (Gz.)
Forninhos
Fornos
Fornos de Algodres
Fornos de Maceira d'Ão

alguns "fornos" tenhem outra origem. ver Comentº de Capeloso e resposta

terça-feira, 8 de agosto de 2006

Águas, Banhos, Caldas e Termas


desde a mais remota antiguidade que os seres humanos estabelecem uma relação particular com estas emanações da terra. a estas águas, com caraterísticas físicas e químicas fora do padrão comum, foi atribuída uma proveniência divina, com propriedades terapêuticas que reportam ao reino do sagrado. o qualificativo de "santa" ou o padroado de uma divindade pagã, de um anjo, de um santo ou de uma santa são muito frequentes no mundo termal. um reino ambíguo e ambivalente, em que o que hoje cura pode matar amanhã. neste processo tem a palavra o psiquismo mais profundo, que pode determinar o apogeu e a queda de uma estância termal. as mesmas termas podem hoje curar doenças difíceis de tratar, como podem amanhã constituir um perigo para a saúde. o exemplo de Águas Radium, em Caria, é apenas um entre muitos. ali, a descoberta dos malefícios da radioatividade instilou o medo que fez passar para plano inferior os benefícios terapêuticos da mesma radioatividade. noutros casos, a perda da crença, ou o desaparecimento dos crentes, fez perder a virtude curativa. noutros casos ainda, dá-se um súbito renascer do potencial de cura de uma certa fonte.
de início, todas as caldas, termas e fontes eram gratuitas e ao ar livre. mas os Impérios e os Estados sempre procuraram controlar esses lugares de culto e de cura, acrescentando-lhes uma envolvência de lazer e de prazer do espírito e do corpo (*). os Gregos, os Romanos, os Árabes, os Reis e as Repúblicas construiram edifícios e parques em redor dos quais nasceram cidades importantes ou se arrumaram povoações que, de outro modo , não teriam surgido. a toponímia ainda nos revela, aqui e além, a intervenção dos poderosos no reino das águas: Caldas da Rainha, Caldas de Reis, Caldas do Bispo, Chaves, Termas da Imperatriz...

"Termas" (do grego) e "Caldas" (do latim) são sinónimos. significam "(águas) quentes".
hoje em dia as termas tornaram-se um destino interessante para gente urbana a contas com o stress e maleitas associadas.


uma tentativa de listagem das termas galegas, portuguesas e brasileiras deverá incluir:

Águas de Chapecó (Br.) - Chapecó pronuncia-se à maneira galego-minhota: "tchapecó". parece significar "carreiro", "trilha", "sendeiro", caminho no mato

Águas de Lindóia (Br.)
Águas do Alardo
Águas Mornas (Br.)

Águas Radium (Pt.)- abandonadas pela sua excessiva radioatividade. nota: onde no link se diz "Curia", deve querer dizer-se "Caria" - freguesia a que pertence a aldeia de "Quarta-Feira" em que se situam as termas

Alcafache (Pt.)
Arnoia (Gz.)
Arteixo (Gz.)
A Sulfúrea (Pt.)
A Toxa (Gz.)
Banho (Pt.)

Baños (ou Banhos - g.i.) de Bande (Gz.) - estão desativadas estas termas, que foram importantes na época romana sob o nome de "Aquis Querquennis", isto é, "as termas dos Kwerkenoi", nome de uma tribo galaica. estavam no trajeto da estrada romana de Braga a Astorga. a divindade tutelar local, Bandua, perpetua-se no topónimo atual.

Baños (ou Banhos - g.i.) de Molgas (Gz.)
Brión (Gz.)
Burga do Muiño (Gz.) - grátis, ao ar livre
Burgas (Gz.)
Caldas da Cavaca
Caldas da Rainha (Pt.)
Caldas da Saúde (Pt.)
Caldas das Taipas

Caldas de Aregos (Pt.) - povoado pré-romano, com o nome da tribo que o habitava ("Arecos")

Caldas de Barbalho (Br.)
Caldas de Moledo
Caldas de Reis (Gz.)
Caldas de S. Jorge (Pt.)

Caldas de Vizela (Pt.) - (ver no enlace a homepage de Sara Abreu). sobre "Vizela" ver post "Hidrónimos ou Nomes de Rios"

Caldas do Bamburral (Br.)
Caldas do Bispo (Gz.) - ver "Chavasqueira"
Caldas Novas (Br.)
Caldelas - é diminutivo de "Caldas"
Caldelas de Tui (Gz.)

Cambuquira (Br.) - de "caá" (planta, folha) + "ambyquyra" (grelo, rebento). é palavra tupi-guarani que significa "grelo, rebento ou broto de planta rasteira, nesse caso "abóbora". lugar (úmido) onde há abóboras. tamém pode significar "(lugar onde há) mato rasteiro"

Carballo (ou Carbalho - g. i.) (Gz.)
Carvalhal
Carvalhelhos (Pt.) - ou "Caldas Santas de Carvalhelhos"
Castelo de Vide

Caxambu (Br.) - ver Comentº. "Cachambú" não é tupi-guarani, mas sim de uma língua africana (?)

Chavasqueira (Gz.)- tamém chamadas "Caldas do Bispo"

Chaves (Pt.) - cidade fundada em 78, deve o seu nome às "águas" e ao imperador romano da gens "Flavia", Tito Vespasiano, que a fundou. seu nome latino: "Aquis Flavis". como Aquis Querquernis (Banhos de Bande), estavam situadas no trajeto da estrada romana de Braga a Astorga.

Curia (Pt.) - as antigas Acquae Curiva
Entre-os-Rios -
Fadagosa (Pt.) -
Felgueira (Pt.) -
Fervença(Pt.) -
Guitiriz (Gz.)  -
Laias (Gz.)  -

Lambari (Br.) - do tupi-guarani "arambaré": "o longe brumoso", "a distância enevoada". em tupi-guarani não existem os sons "l" nem "lh"

Lobios (Gz.)

Longroiva (Pt.) - "Longroiva" parece derivar de "Lango Briga", palavra híbrida com "lango" pré-céltico e "briga" ("monte fortificado", "monte forte" ou "monforte") de origem celta

Lugo (Gz.) - os primeiros edifícios públicos datam do Império Romano - séc. I

Luso (Pt.) - "Luso" parece uma palavra pré-céltica, que significa "lugar alto"

Manteigas  -
Melgaço  -
Monção  -
Monchique  -
Mondariz (Gz.)  -
Monte Real (Pt.) -
Niza (Fadagosa)  -

Ourense (Gz.) - ver "Burgas". merecem ser vistas as fontes do Fervedoiro, ao ar livre (Burga de Abaixo)

Outariz (Gz.) - em recuperação. ao ar livre
Pedras Salgadas
Piratuba (Br.)- de "pira" (peixe) + "tyba" (muito): "lugar onde há muito peixe"
Poços de Caldas (Br.)
Quilombo (Br.)
Rio do Pouso (Br.)
Sangemil (Pt.) - ver post "Topónimos Terminados em "-mil"

S. Gemil - designação equívoca, já que não existe nenhum santo chamado "Gemil". ver "Sangemil"

S. João do Sul (Br.)
S. Pedro do Sul
Termas da Imperatriz (Br.)
Termas da Ladeira de Envendos (Pt.)
Termas da Piedade - ver "Fervença"

Termas de Araxá (Br.) - à letra, "araxá" significa "a vista do mundo", equivalente a "bela vista"

Termas de Cró (Pt.) - abandonadas. é possível que "Cró" tenha origem celta, como "Cro-Magnon" (Fr.), e signifique "mina", "gruta". dizer ou escrever "Termas do Cró" é totalmete arbitrário

Termas de Monfortinho (Pt.) - tem a "Fonte Santa"

Termas do Gravatal (Br.)
Tinteiro (Gz.)
Touca - águas sulfúreas

Treze Tílias (Br.) - no Estado de Santa Catarina, em ambiente do Tirol austríaco

Verin (ou Verim - g.i.) (Gz.)
Vidago
Vimeiro

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(*) uma nota a quem procure Termas no Brasil: além das estâncias termais de que estamos falando, pode encontrar outra coisa (sauna, relax, diversão erótica, massagem, enfim, todo um mundo de oportunidades para vários gostos e feitios).