sexta-feira, 24 de março de 2006

Topónimos Tupi-Guaranis (1)


das quatro bisavós que me couberam em sorte, uma era brasileira. não a conheci nem sei de onde veio, ou se era apenas uma ex-emigrada no Brasil, daquelas de que se ocupou o nosso escritor oitocentista Camilo Castelo Branco. sei que era "Ribeiro". na casa dos meus avós maternos, em S. Torcato, Guimarães, ouvia falar desse tronco "brasileiro" que, aliás, dava motivo de alcunha a esse filão genealógico. falava-se por lá um português muito próximo do galego, ao menos no léxico e em certas particularidades da pronúncia. mas lembro-me que havia palavras de uso comum que tinham vindo do Brasil. uma delas era o "côco", nome que se dava ao caneco de tirar a água do cântaro.
do tempo dessa bisavó e filho do Brasil tamém, tinha lá um papagaio que viu morrer e nascer várias gerações de gente. bem amestrado e bem falante, o papagaio era o garçon da loja. assim que chegava alguém, logo chamava: "- ó António, anda à loja!" e quando o cliente se aprontava para sair coa encomenda, assim o bicho lembrava: "- pagar que não esqueça..."
isto não faz tanto tempo, nem eu sou assim tão velho que tudo se passasse no tempo em que os animais falavam. mas, para o bem e para o mal, Portugal mudou tanto que é já difícil compreender como esses tempos fazem parte do mesmo país.
mas foram esses tempos o suficiente para que fizesse parte de mim a cultura comum galego-portuguesa e brasileira.
até aqui tenho ocupado a grande maior parte do blogue com as raizes comuns galego-portuguesas, visíveis na Toponímia à vista desarmada.
é a vez de falar da toponímia tupi-guarani. parecerá que nada tem que ver com a cultura e a língua de origem ibérica, indo-europeia na sua maior parte. pois não tem. mas tem uma importância fundamental na compreensão de como se forma a Toponímia de um país.
o povo nativo é o que dá o nome aos rios, às serras, às praias, aos campos, à natureza não transformada pelo homem. em grande parte do Brasil, o povo nativo fala(va) o tupi-guarani nos seus diversos dialectos. há, ainda, topónimos que não são europeus nem tupi-guarani. mas formam uma minoria que por agora não interessa.
não existe melhor forma de compreender como nasce um topónimo que a de estudar a toponímia brasileira tupi-guarani, pois que por cima da camada nativa vem apenas e logo o português. as homofonias com o léxico português, que por vezes aparecem, são curiosas. e algumas já nós vimos, como o caso dos topónimos brasileiros em "Boi".

alguns topónimos tupi-guarani (de A a C) e seu significado em português:

Aguapey ou Aguapí - de aguape (nenúfar)+y (água, rio): "rio dos nenúfares". poderia evoluir para "água-pé", formando um falso (e disparatado) topónimo português

Aiba - "matagal", "brenha". na toponímia galego-portuguesa: "Brenha"
Andaray - de andyray (morcego)+y (água, rio): "rio dos morcegos"

Anhangabaú - de anhangá+bá (malefício do diabo)+y (água, rio): "rio do(s malefícios do) diabo"

Anhangay, Anhangaí - de anhangá+y: "rio do diabo"
Apetumbu ou Apetumby - "estrada poeirenta"
Apeturibú, Apottribú - "estrada da fonte"

Apiay - "lugar úmido, alagado" (ocorre em lugares de mineração, de chumbo por exemplo)

Apiteribú, Apoteribu, Poteribú, Potribú - "fonte do meio"

Aporã - "lugar bonito no alto". o mesmo que "Belavista" ou "Boavista" em português (Cf. Belvedere)

Apuã - "monte, colina, môrro arredondado", "cabêço", "cabêça"

Apyra - "ponta, cabo, fim da terra" (Cf. Fisterra - Gz. - e Finisterre - F)

Aracajú - capital de Sergipe: "muito antiga". é um sinónimo de "Cadima"

Araçoyaba - "o que faz sombra". no caso, no Estado de São Paulo: "monte em forma de chapéu", "monte sombreiro"

Arapecum - "restinga, língua de terra"
Araraquara - "o paradeiro das araras"

Araxá - "a vista do mundo". é o mesmo que "Belo Horizonte" em português

Assaré - "o atalho, caminho alternativo". à letra: "caminho diferente"

Atibaia - "lugar saudável". o mesmo que "Belos Ares" em português e "Buenos Aires" em castelhano. o significado inverso, "maus ares", é o nome de uma doença que todos gostaríamos de ver erradicada: a malária
Avaré - "(lugar onde mora) o homem diferente" (padre), "(sítio d)o padre"
Avay ou Abaí - de Abá (homem)+y (água, rio): "rio do homem"
Baeriri, Bariri - "rio com cachoeiras", "cachoeiras do rio"
Baetimbaba - "plantação, horta, roça" (à letra: "lugar que produz muitas coisas")
Baetybeyma - "terra árida, estéril". na toponímia portuguesa de origem árabe: "Safara"
Bambuy ou Bambuí - de bambu (sujo)+y: "rio sujo" (barrento)

Bangú - "monte ou cêrro escuro". na toponímia galego-portuguesa de origem latina: "Monte Negro" ou "Montenegro"

Baruery - o mesmo significado que Baeriri e Bariri

Boquira - de mboquira: "onde a chuva nasce", "lugar de onde vêm as nuvens"

Brocotó - de mborocotó: "terreno cheio de altos e baixos"

Butantã - de mbu (lugar, terra)+ tã-tã (dura-dura, muito dura): "terra muito dura"

Butuquara - de ybytu (vento)+quara (abertura, fenda): "a porta do vento". em Portugal: "Portela do Vento"

Buturuma - de ybyty+una: "monte negro"

Bytury - de ybyty (montanha)+y: "água ou rio da montanha", "ribeira da serra"

Caçapava - "clareira, picada ou passagem na mata". se a clareira foi feita por fogo, diz-se "Caucaia"

Catanduva - e caá (mato)+dyba (duro): "mato duro". é o mesmo que "Mato Grosso" em português.

Catujy - de catu (bom)+yi (água, rio): "rio bom"

Catumbi - de caá+tumbu: "à beira da mata", "no (so)pé do monte". na toponímia portuguesa: "Pé da Serra" (Cf. "Piemonte", Itália)

Curityba, Curitiba - "pinheiral", "pinhal"


terça-feira, 21 de março de 2006

Substantivos e Adjetivos de Origem Toponímica


há palavras em português de Portugal que têm origem toponímica. sobretudo em alguns adjectivos, o povo da terra em causa nem sempre fica bem no retrato. contas e coisas da História...

aqui vão:

badalhoco (adjectivo. de "Badajoz" - Badalhouce -, Extremadura, Espanha)

boémio (adjectivo. de "Boémia", região da Europa Central, actual República Checa. aquele que leva uma vida despreocupada, divertida e vadia. essa evolução semântica deve-se aos ciganos vindos da Boémia)

braga (cueca de meia côxa. termo usado em Espanha. de "Braga")

casaco (substantivo, também conhecido no Brasil por paletó. deriva de "khasak", povo do Khazakhstan)

caxemira (substantivo. tecido fino de lã. deriva de "Caxemira", região entre a Índia e o Pasquistão, disputada por ambos os países)

cobre (substantivo, metal. de "Kypros", a Ilha de Chipre)
cretino (adjetivo. de Creta)
damasco (substantivo, fruto. de "Damasco", Síria)

enxovia (substantivo. do árab. "ax-xauía", etnónimo de populações marroquinas entre Azamor e Rabat, que os portugueses adoptaram como nome de significado geográfico. era uma região rica em cereais, que se guardavam em covas: as "covas de Enxovia". daí a evolução para "espelunca, casa insalubre")

esgroviado, esgrouviado (adjectivo. de "O greve", Galiza?)

frango (substantivo. ave de capoeira. de França)

galego (que trabalha muito e ganha pouco, labrego, rústico. no Brasil, é sinónimo de "português", com o mesmo sentido)

galinha, galo (substantivo. ave de capoeira. de "Gália", França)

gravata (substantivo. deriva de "Croácia" - Hrvatska)

laranja (substantivo, fruto. de "Orange", França)

palerma (adjectivo. de "Palermo", Sicília, Itália)

patavina (substantivo. de "Pádua", "o falar de Pádua". como era um falar estranho, difícil de entender por quem não sabe, serve de paradigma para se dizer "não percebi nada": "não percebi patavina" - ver Comentário)

persiana (substantivo, cortina para diminuir a luminosidade: "da "Pérsia")

pêssego (substantivo, fruto, de pérsico. da "Pérsia")

pulha (adjectivo, de "Puglia",Itália)

samarra (substantivo. espécie de casaco com gola de pele de raposa. de "Samara", cidade da Rússia?)

tangerina (substantivo, fruto. de "Tânger", Marrocos)

túnica (substantivo. peça de roupa comprida com corpo e mangas. de Túnis, Tunísia)

turquesa (substantivo. nome de pedra preciosa e nome de côr. de Turquia)

varina (substantivo. de O Var - "Ovar". termo lisboeta para vendedeira ambulante de peixe)


segunda-feira, 20 de março de 2006

Agora é Que a Porca Torce o Rabo



como temos visto, em Toponímia os nomes sobrevivem à língua e à civilização que lhes deu voz. por isso, uma nova camada populacional, uma nova época, uma nova língua, podem fazer com que novas gerações não tenham pelo nome da sua terra o agasalho e o mimo de outras gerações e de outros tempos.
os topónimos em "Porco", "Porca", "Porqueiro", assim criados no caldeirão de povos e línguas que nos gerou, são relativamente frequentes. como no caso do touro, a relação muito especial, sagrada, entre o homem e o porco pode ter feito convergir a evolução de palavras sem nenhum parentesco linguístico.
assim, tendo em conta uma antiquissima tradição do culto dos berrões, de que restam as porcas de Murça, de Torre de D. Chama etc., poderia pensar-se que os topónimos em causa se referissem a esse animal. mas não é assim. uma antiquíssima raiz p-r-k indica a presença de "água".


Barranco do Porco (pleonasmo: "ribeiro do ribeiro")
Chão de Porcos
Momporcão
O Rabo do Porco (Gz.)
Pocariça (?)
Ponte do Porco - como é óbvio, as pontes pedem um rio, ribeiro, regato ou regueiro que lhe passe por debaixo.

Porcalhota (a multidão de novos habitantes chegados à Porcalhota no fim do Séc. XIX já não sabia de onde diabo vinha semelhante nome, tendo pedido ao Rei que lhe desse melhor sorte. ficou então "Amadora")

Porco (Pt. e Br.)- topónimo associado a pequenas ilhas ou ilhéus, a elevações de terreno ou a ribeiros, regatos ou regueiros. talvez haja um denominador comum: a água corrente.

Porcos de Armenteiro
Porqueira (Pt. e Gz.)
Porqueiros (Pt. e Gz.)
Porquinhas
Porquinho
Ribeira do Porco (Md.) - parece um pleonasmo, coisa muito comum na Toponímia.
Serra do Porco
Torre de Porqueira (Gz.)
Venda do Porco


sábado, 18 de março de 2006

Entre Aqui e Acolá



muitos topónimos galegos, portugueses e brasileiros referem-se à particular situação do lugar entre dois ou até três rios, entre vales, entre vinhas, etc. não têm outro significado.

Entre-Ambos-os-Rios
Entre-as-Devesas
Entre-as-Serras
Entre-Caminhos
Entrecasas (Gz.) - um topónimo misterioso, sem dúvida
Entre-Devesas
Entre-Matinhas
Entre-Montes (Br.)
Entre-os-Rios
Entre Rios (Br.)
Entrerribeiras (Gz.)
Entrerribeiros (Gz.)
Entrerríos (Gz.)
Entresserras
Entrevais (por Entrevales)
Entre-Vinhas
Entrevinhas ou Entreviñas (Gz.)



quarta-feira, 15 de março de 2006

Oleiros. Olarias e Cerâmica


da saga que levou à sedentarização em povoados, com o desenvolvimento da agricultura, fez parte a produção de uma série de utensílios indispensáveis à conserva e transporte de alimentos, à cozinha, à apresentação da comida e da bebida e ao momento das refeições. enquanto era suficiente, usou-se a cana, a cabaça e a madeira como matéria prima. ainda restam, em algumas aldeias, alguns desses utensílios, seja por ainda estarem em uso, seja apenas para turista ver.
mas o que deu a alma à civilização agrícola e lhe exteriorizou os sentimentos foi a cerâmica e, dentro da cerâmica, a arte e o ofício próprios da olaria.
povos (povoados) na Galiza, em Portugal e no Brasil (ver Comentº) que se especializaram na produção de figuras de barro, com as quais se dá largas a uma tradição comum, a um tempo erótica e satírica, que se manifesta(va) também nas cantigas de escarnho e maldizer.
a importância da olaria e da cerâmica justifica que a presença de oleiros ou de lugares de produção cerâmica tenha deixado marcas na toponímia. embora houvesse olarias e oficinas muito antes, os topónimos mais antigos deste grupo são arábicos e situam-se na região moçárabe.
ainda hoje há aldeias, como Bisalhães, Molelos e Vilar de Nantes que preservaram formas e técnicas próprias de olaria, procuradas pelos apreciadores.
grande parte dos topónimos que se seguem designam lugares onde já não há vestígios do ofício, embora em alguns casos ainda esteja presente em lugares não muito afastados - provavelmente herdeiros desse saber.


Aldeia de Oleiros

Alfafar (árab.: "al-fakhar": "olaria")
Alfarela
Alfarelha
Alfarelos (árab. :"al-fakhkhar": "loiça de barro")

Molelos (ainda hoje é uma terra de produção cerâmica tradicional própria. a questão é saber se o termo "molelos" tem que ver com a roda do oleiro)

Ola (remoínho num rio, cascata). Ola, Olas, Olela, Olelas não se referem a olarias)
Olas
Oleira (Pt. e Gz.)
Oleiro
Oleirolos (diminut. de "Oleiros")
Oleiros (Pt. e Gz.)
Olela (diminut. de "Ola")
Olelas (Pt. e Gz.)



domingo, 12 de março de 2006

Paredes Meias com o Passado

alguns lugares que haviam sido abandonados pelas suas antigas populações foram depois re-ocupados pela população que lhe deu o nome actual. deles restavam apenas muros e paredes, ruínas de um tempo e de um viver sumidos na voracidade da História. só a Toponímia lhes assegura a imortalidade, ainda que sem conteúdo nem sentido. estes topónimos são frequentes na Galiza e em Portugal.


vale a pena assinalar aqui o que se passa com as chamadas aldeias serranas da Lousã, de Góis, de Arganil e Pampilhosa da Serra. estas aldeias foram quase cem por cento abandonadas pela sua população, que migrou para Lisboa, para outros Estados da União Europeia, para a Suíça, eventualmente para o Brasil. vieram pessoas do Norte da Europa, cansados da sociedade da abundância, para empreenderem um regresso à natureza, à agricultura manual de subsistência, à luz das velas. mas estas aldeias não mudaram de nome. na realidade, ainda não estavam totalmente abandonadas e o seu nome salvou-se. o mesmo não aconteceu com a sua alma. a cultura, agora, ainda que de "regresso à natureza", é totalmente outra, com o seu ar hippie démodé.


Pardelhas (Pt. e Gz.) (diminut. plur. de "Parede": paredelhas)
Pardieira
Pardieirinho
Pardieirinhos
Pardieiro (de paredeiro)
Pardilhão
Pardilhó (diminut. de pardelha)
Paredão
Parede (Pt. e Gz.)
Paredes (Pt. e Gz.)
Paredes da Beira
Paredes de Coura
Paredes do Bairro
Paredes Secas
Paredinha (diminut. mais recente)
Paredinhas



terça-feira, 7 de março de 2006

O Topónimo "Cerveira"

sempre tive uma especial curiosidade por este topónimo. diziam os mestres e as pessoas do povo que por detrás deste nome estavam veados, rebatizados de "cervos". seriam, pois, lugares onde abundariam esses nervosos e belos ruminantes, se não estivessem em perigo de extinção. além disso, tinham esses nomes o costume de se referir a lugares altos ou junto a elevações de terreno contrastantes. até que um dia descobri o Monte Cervino, nos Alpes Suiços. "Cervino"? outros pronunciavam "Cerviña". O seu nome suíço-alemão é Matterhorn, que nada tem a ver com cervos ou veados. em latim, há a cervix, ou seja, a nuca, o alto da cabeça, o pescoço e, também, o cume dos montes. a partir daqui, o topónimo abre-se em todo o seu significado óbvio: "cimeira", "cumeada", "cabeça", "mont'alto".
mas como em questão de orónimos e hidrónimos é sempre bom desconfiar da origem latina - os montes e os rios já cá estavam antes de os romanos chegarem -, é de admitir, sem medo de errar, que "Cerveira" pertença à família dos orónimos indo-europeus em "kerv-" e "karv-", como "Carvalho".
talvez haja quem prefira os cervos, mesmo que lá não estejam e nunca tenham estado. por mim, prefiro de longe a cervix que lá está.



topónimos em Cerv-:

Cerva
Cervaínhos
Cerval
Cervão (Br.) ("cervos" no Brasil?)
Cervas
Cerveira (Pt. e Gz.)
Cervelhos
Cervinho (Br.) (ver "Cervão")
Vila Nova de Cerveira



domingo, 5 de março de 2006

Esses "Touros" Por Aí...


O topónimo "Touro", e seus derivados, embora presente em várias regiões da Península Ibérica, não tem nada a ver co'a velha teomaquia que hoje se representa nas arenas de forma profana. o culto ibérico pelo poderoso animal divino, que já vem dos tempos em que pintaram as grutas de Lauscaux e de Altamira, pode ter influenciado a fonética do topónimo - mas é só. além disso, na Galiza e no norte de Portugal, não existe tradição nem cultura taurina mas os topónimos "touro", "tourinho", tourais" e derivados são frequentes. em toponímia, "touro" é um termo anterior ao latim que significa "monte", "lugar alto". noutros casos, refere-se ao termo euskera "itur", que significa "fonte", e é responsável por alguns nomes de rios e ribeiros)

aqui deixo alguns "Touros":
Chão do Touro
Corte do Touro
Monte de Tourais
Monte dos Touros
Quinta dos Touros
Reta l Toro (Mir.) - ver post "Urrieta"
Rio do Touro - ver "Tourões"
Toiral (Gz.)
Toirais
Toura
Tourago
Tourais
Toural (Pt. e Gz.)
Tourão
Tourega
Touregas
Tourel
Tourém (?)
Touril
Tourinho (Pt. e Gz.)
Touro (Pt. e Gz.)
Tourões (pelo menos em alguns casos, significará "terra povoada por gente vinda de Touro". também é hidrónimo ou nome de rio, e neste caso, virá de um fundo basco que significa "fonte")
Touróm (Gz.)
Urre l Toro (Mir.) - ver "Reta l Toro"
Vila do Touro (no sentido de "quinta do touro")


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2006

Tem Nome de Árvore Mas Não é Árvore

os topónimos com nome de animais podem não ser, na realidade, nomes de animais (ou zoónimos), mas antes evoluções convergentes de palavras com significado diferente daquele que parecem ter hoje. "boi", "carneiro","lobo" são apenas alguns desses exemplos. o mesmo se passa com topónimos que hoje parecem nomes de árvores (ou fitónimos). alguns já nós encontrámos pelo caminho, como "carvalho" e "pereira".
aparecem outros, como "amoreira", "castanheira", "figueira", "oliveira", "pereira", "sobreira".
são muito frequentes, quer em Portugal quer na Galiza.

muito boa gente tem caído na esparrela de interpretar estes por aquilo que eles parecem, sem ter em conta que muitos outros lugares mereciam o mesmo nome com muito mais propriedade, se o topónimo tivesse o significado que parece ter.

Aboboreira (topónimo associado a elevações, dá nome a várias serras)
Amoreira (por "A Moreira". ver "Moreira")
A Nogueira (Gz.) (ver "Nogueira")
As Moreiras (Gz.)
As Nogueiras (Gz.)
As Nogueirinhas (Gz.) - graf. altern.: "As Nogueiriñas"
Aveleira (topónimo associado a elevações, dá nome a várias serras)
Carvalho (topónimo associado a elevações, dá nome a várias serras)

Castanheira (o nome da árvore é "castanheiro" e não "castanheira". a localização das "Castanheiras" que eu conheço é no início de encostas, com um rio ou ribeiro ao fundo. existe o topónimo "Costaneira", frequente em Portugal e na Galiza, com significado semelhante. são duas formas da mesma palavra. na toponímia castelhana há "La Castaña", por "la costaña", isto é, "uma terra que fica na encosta")

Castanheira de Pera
Castanheira do Ribatejo
Castanheira do Vouga
Castanheiro
Costaneira (Pt. e Gz.) - ver "Castanheira"
Costaneiras
Estrada da Castanheira

Figueira (?) (Pt., Gz. e Br.) (em francês, o nome da árvore é "figuier" e o topónimo é "figuière". no entanto, existe um consenso esmagador em todos os países de língua românica sobre o significado deste topónimo: árvore dos figos. as "figueiras" que eu conheço são lugares planos, habitualmente em cima de elevações. na falta de figueiras a sério, estes lugares estão associados a figueiras lendárias, o que é próprio de etimologias ditas "populares", elaborações a posteriori mais ou menos imaginárias. por outro lado, a tese segundo a qual "Figueira da Foz" será um pleonasmo - "abertura da boca" - tem um porém: a "abertura" - fagaria - só seria aplicável a essa Figueira e sabe Deus com que esforço. mas tem um mérito: procura o significado fora da botânica).
na Catalunha, ao lado dos topónimos "Figueres" existe o topónimo "Figa".
creio que a decifração deste topónimo poderá passar pelo tronco comum aos verbos "ficar" e "fixar"- no sentido de "assentar", "estabelecer morada permanente" (lat. figo, figere, fixi, fictum). teria, pois, um significado equivalente ao de "Póvoa". e seria um topónimo parente dos que contêm o vocábulo "fita", como "Perafita". voltarei a este assunto.

Figueira da Azóia
Figueira da Foz
Figueira de Castelo Rodrigo
Figueira de Cavaleiros
Figueira de Lorvão
Figueira do Guincho
Figueira do Mato
Figueira Redonda
Figueiras de Cima
Figueiró (diminuit. de "Figueira")
Figueiroa (Gz.)
Figueiroá (Gz.)
Figueiró dos Vinhos
Figueiros (Gz.)

Ladeira do Pinheiro (topónimo esclarecedor: é necessário uma "ladeira" para trepar ao "pinheiro")

Macieira (este topónimo costuma ser decifrado como "árvore das maçãs". o que resta explicar é por que razão foram assim designadas estas localidades e não outras possivelmente mais ricas nesse tipo de fruta. tendo em conta o topónimo "Mação", que tem mais a ver com "casas" do que com "maçãs", o mais provável é que "Macieira" signifique "casario")

Macieira de Alcoba
Macieira de Cambra
Macieira da Lixa
Macieira da Maia
Macieira de Sarnes
Montes de Piñeiro (Gz.) - grafia integrada: "Montes de Pinheiro". é um pleonasmo. ver "Pinheiro".

Moreira (lugar onde há casas ou moradias; moraria)

Moreira de Cónegos ( dos cónegos da Colegiada de Stª Maria da Oliveira, Guimarães)

Moreiras
Moreiró (diminut. de "Moreira")

Nogueira (é um topónimo associado a elevações. dá o nome a serras). em Itália, na Calábria, há uma Nocara, a 865m de altitude

Nogueira da Maia
Nogueira da Montanha (é um pleonasmo: "monte da montanha")
Nogueira da Regedoura
Nogueira de Ramuín (Gz.)
Nogueira do Cravo

Nogueiró (diminut. de "Nogueira", está associado a elevações de menor altitude)

O Eido da Nogueira (Gz.)
Oliveira (de "ulveira": lugar úmido, empapado, pantanoso)
Oliveira de Azeméis
Oliveira do Conde

Oliveira do Hospital ("Hospital": Ordem dos Cavaleiros do Hospital ou de S. João de Jerusalém, actual Ordem de Malta)

Oliveira do Mondego
Oliveirinha

O Pereiro (Gz.)
O Piñeiro (Gz.)

Pereira (topónimo associado à existência de pedras ou pedreiras no local)

Pereiro
Pereiró (diminut. de "Pereira")

Pinheirinho

Pinheiro (lugar alto e pedregoso, com "penhascos" ou "penhas". há situações muito particulares em que "pinheiro" é árvore: se se refere às suas características ou ao seu número, como em "Pinheiro Manso" ou em "Três Pinheiros")

Pinheiro da Bemposta - é um lugar elevado, de onde se avista(va) paisagem a perder de vista. apesar da tradição popular, o "pinheiro" é o "pino" (sítio elevado) e não o pinus (árvore)

Pinheiro de Ázere
Pinheiro de Côja
Piñeiriño (Gz.) - grafia integrada: "Pinheirinho"
Piñeiro (Gz.) - grafia integrada: "Pinheiro"

Praia das Maçãs (aqui a praia é "do casario", já que não há maçãs sem macieiras)
Punta Sobreira (Gz.)

Sobreira (como em "Castanheira", há aqui uma subtil mudança de género, já que a árvore é o "sobreiro" e não a "sobreira". assim, o topónimo não deriva de suber - "sôbro", "sobreiro" - , mas sim de supra - "sôbre"). é uma povoação que fica "sôbre" qualquer coisa, uma elevação por exemplo. é equivalente ao topónimo "Sobreposta". no entanto, há quem tenha outras opiniões. que decida a topografia do local!

Sobreira Formosa
Sobreposta (o mesmo que "Sobreira")
Vale de Figueira
Venda do Pinheiro
Vila Nogueira de Azeitão
Vila Nova de Oliveirinha


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006

Marcos, Malhões e Fronteiras

alguns topónimos imortalizaram limites territoriais, administrativos ou de propriedades, que hoje em dia já não vigoram. mas o nome ficou. o topónimo "Fronteira" refere-se a lugares que confinaram com alguma estabilidade com o império árabe, sendo muito mais frequente na Extremadura e Andaluzia espanholas

Alto do Malhão
Casal do Marco
Casal dos Marcos
Devesa (Pt. e Gz.)
Estremadoiro (Gz.)
Estremadouro
Estremão
Estremo
Extremadoiro (Gz)
Extremo (Pt. e Br.)
Fronteira
Malhanito - diminut. de "Malhão"
Malhão - limite de propriedade rústica
Malhões - plural de "Malhão"
Malhóm (Gz.)- ver "Malhão"
Malhonito - diminuit. de "Malhão"
Marca
Marcão
Marcóm (Gz.)
Marcas
Marco (Pt. e GZ.) - local onde há ou houve um padrão indicativo de limite
Marco de Canavezes (ou Canaveses)
Marco do Distrito
Marcos (Pt. e Gz.)
Marquinha
Marquinho
Mogo (marco de delimitação de propriedade)
Moinho do Malhão
Pedra da Estrema
Pedra do Extremo
Pena Trevinca (Gz.) - ver Comentº de Capeloso
Portela dos Marcos
Praia do Malhão
Quatro Marcos
Salvaterra do Extremo
Três Bispos (Gz.) - ver Comentº de Capeloso
Trevim (do lat. trifini: "três" con-"fins", local onde confluem três limites ou fronteiras... tribais?)

Trevinca (Gz.) - ver Comentº de Capeloso

Vila Verde do Extremo (aqui, "verde" significa "velha")



sobre este assunto pode consultar-se ainda o post "Raias e Fronteiras"


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006

O Padrão

este topónimo, e seus diminutivos, é frequente no Norte de Portugal e na Galiza. refere-se à presença, actual ou no passado, de um ou vários "padrões": pedra erguida, habitualmente de forma cilíndrica regular, com inscrições. em alguns casos serão marcos miliários romanos, marcos cilíndricos de pedra com que eram assinaladas as milhas ao longo do traçado de uma estrada.
(é interessante verificar como em certas regiões, sobretudo na actual fronteira galego-portuguesa do Gerês/Xurés, esses marcos representavam a figura do imperador. assim, naquela zona, sempre que um novo imperador era entronizado colocava-se novo marco ao lado dos anteriores, pelo que em alguns lugares há uma autêntica floresta de marcos miliários na mesma milha).

no Brasil, os topónimos em "Padrão" referem-se aos padrões que eram colocados pelos navegadores portugueses, na época das descobertas.

O Padróm (Gz.) - é a antiga Iria Flavia e terra onde a grande poetisa galega Rosalía de Castro viveu os últimos anos da sua vida, na Casa da Matanza.

Padornelo (Pt. e Gz.) - diminut. de "Padrão"
Padrão da Légua
Padrão de Moreira
Padrãozinho - diminut. de "Padrão". mais recente que "Padornelo" e "Padronelo"

Padrões
Padronelo
Padrones (Gz.)
Padrós - será o caso dos marcos miliários romanos (?)



terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

Pedra, Pedrinha, Pedrosa

os topónimos derivados de "pedra" são muito frequentes na Galiza e em Portugal e também aparecem no Brasil. em posts anteriores já encontrámos uma série de topónimos que se reportam à pedra ou às pedras ou ao carácter pedregoso do lugar. simplesmente esses topónimos são anteriores ao latim. estes aqui ou são linguisticamente latinos ou são pós-latinos (românicos ou medievais, ou já galego-portugueses e portugueses). são pois muito mais recentes que os anteriormente referidos - cuja origem e antiguidade se perdem no tempo.
as formas mais antigas, românicas ou romances, sâo habitualmente em "pera" ou "peras", enquanto que a forma mais recente surge em "pedra" ou "pedras".

vejamos os exemplos que seguem:

Armação de Pera
Castanheira de Pera
Eira Pedraça
Eira Pedrinha
Padrela - está por "Pedrela". também é nome de serra
Padrosinho - diminut. de "Padroso"
Padroso (Pt. e Gz.) - está por "Pedroso"
Paralta (ver Peralta)
Pedernais
Pederneira
Pé Dorido - ver Comentº de José Manuel Mota
Pedourido - ver Pedorido
Pedra (Pt.,Gz.e Br.)
Pedraçal
Pedrafita (Pt. e Gz.)- ver "Perafita"
Pedragal
Pedra Letreira
Pedralhos
Pedralva
Pedralvo

Pedra Maria (em Felgueiras, é um vestígio evidente de um ancestral culto das pedras)

Pedrancha ("pedra larga"?)
Pedrão (Pt. e Gz., sob a forma Pedróm)
Pedraria
Pedrarias
Pedrario
Pedras
Pedras Rubras
Pedras Salgadas (pedras de onde emanam águas termais ricas em carbonato de sódio*)
Pedreçal - o mesmo que "Pedraçal"
Pedreda (Pt. e Gz.)
Pedrega
Pedregal (Pt. e Gz.)
Pedrego
Pedregosa
Pedregosinha
Pedregoso
Pedreira
Pedreirinha
Pedrel
Pedricosa
Pedrido - de "pedra", ou variante de Pedorido? ver Comentº de José Manuel Mota
Pedrógão
Pedrogo
Pedrogos
Pedrosa (Pt. e Gz.)
Pedrulha
Pera Boa
Perachão

Pera do Moço (este "Moço" é o mesmo que o "Mouzo" ou "Mouço" galego. parece um pleonasmo)

Peradussa

Perafita ("pedra levantada". o mesmo que "menir" e "anta" ou "arca"?)
Pera Longa ("pedra comprida")
Peralta ("pedra alta". o mesmo que "menir"?)
Pera Velha
Perdiz (Pt. e Gz.) (por "Pedriz")
Perdizes (por "Pedrizes")
Pereira do Campo (pereira = pedreira)
Pereiro

Pereiró - pertence aos topónimos terminados em "ó" [

Peruscalho (Gz.) - um pleonasmo? perus (pedra)+calho (calhau)?
Piedrafita (Gz.) - está por "Pedrafita"?

S. Bento das Peras (monte sobranceiro a Vizela, onde persistem vestígios de um ancestral culto das pedras)

Vilar de Perdizes - ver "Perdizes"


*salgado



domingo, 19 de fevereiro de 2006

O Meu IBSN



para que a publicação electrónica venha um dia a ser equiparada às outras publicações, acabo de aderir tamém ao registo IBSN.
o registo IBSN (Internet Blog Serial Number) surgiu em 2 de janeiro de 2006, em Espanha, como resposta à recusa em atribuir um ISSN (International Standard Serial Number) às publicações na Internet.



adesões conhecidas:


A Tola do Monte
Calidonia
Engalego
Jolorib
NamberGUÁN


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006

Açude, Engenho, Levada, Nora, Presa, Represa


quando alguns homens foram colocados em lugares da terra onde a caça, a pesca ou a simples colheita de frutos e raizes não era suficiente para os alimentar, tiveram que reproduzir, no local onde passaram a viver, as condições ecológicas, animais e vegetais propícias à vida humana. de certo modo, abandonar um mundo de caça, pesca e colheita ao estender da mão, sem outro cuidado nem canseira, para um mundo onde tudo tem de ser feito e criado de raiz e pelo esforço e inteligência do homem, constituíu uma alteração quase tão drástica, senão mais, como aquela que hoje estamos preparando com a possibilidade de alguns seres humanos habitarem temporária ou definitivamente um outro planeta. não sei se a preparação do homem para a aventura agrícola não terá sido alvo de iguais delongas e preparativos. há quem diga que foi a "evolução", sem nos explicar o que isso significa. será o mesmo que dizer que o homem foi à lua ou vai a marte por via da evolução. ficamos na mesma.
houve a necessidade de criar um vestuário. naquelas condições, passar da nudez natural para andar vestido é o mesmo que passar de andar vestido para o uso do escafandro espacial. já nem falo da técnica que foi preciso desenvolver para transformar a lã ou o linho em coisa que se vista.
e a criação de condições ecológicas não se ficou por aí. de simples abrigos naturais ou de pouco esforço de imaginação e confecção foi necessário construir uma cápsula de materias diversos a que se convencionou chamar de "casa". casa essa a que não bastaria ser "casa", pois que teve que ser aquecida ou refrigerada, munida de cozinha, de sítio onde comer e onde dormir, onde alojar o núcleo social mínimo, onde criar os filhos, sei lá.
foi preciso mudar as regras de vida, já que viver em meio hostil não é o mesmo que viver no paraíso.
e houve que mudar o próprio eco-sistema. transplantar animais e plantas do seu mundo livre (selvagem) para um espaço controlado pelo homem (domesticado). tornar fértil o que é árido, tornar familiar o que é bravio. dominar terras, rios, ribeiros e fontes.
a água não nasce onde queremos, não chega onde precisamos dela, não tem sempre o mesmo caudal e a mesma quantidade. é preciso represá-la, guardá-la, distribuí-la, fazer com que o elemento úmido chegue aonde, quando e como for preciso.
foi, sem dúvida, uma grande e contínua revolução tecnológica, mental, cultural, e religiosa tamém. os espíritos cederam o seu lugar aos deuses e depois aos santos.
esta saída do mundo natural para um mundo feito pelo homem haveria, no fim de contas, que multiplicar a raça humana para além do que seria imaginável, levá-la aos lugares mais inóspitos do mundo. tornar o homem o senhor da natureza.
e assim nasceram da imaginação do homem os poços, as cisternas, os fontanários, os açudes, presas ou represas, os caneiros, as levadas, sei lá que mais. quem conhece a ilha da Madeira sabe o esforço que foi necessário para levar para a vertente árida do sul a água que sobrava na vertente norte. foi o mesmo que criar de novo a ilha da Madeira.
evidentemente, uma criação dessa natureza haveria que dar identidade e nome aos lugares. e por isso a toponímia os regista mesmo onde eventualmente já lá não estão.

alguns exemplos:

Açude - palavra de origem árabe (aç-çudd : "represa"), aparece onde chegou a influência deste império. em Portugal, vê-se no centro e no sul. no Norte e na Galiza aparece "Represa" com igual significado.
Azenha - palavra de origem árabe (aç-çania): moinho de roda movido a água
Águas Levadas
Azenha do Pisão
Azenha do Rio
Azenhas do Mar
Caneiro - tem um significado próximo de "levada"
Engenho (no Brasil refere-se habitualmente ao aparelho do açúcar)
Fontão
Fonte
Fontela (Pt. e Gz.) - diminut. de "Fonte". do lat. "fontanela"
Fontenla (Gz.) - o mesmo que Fontela. representa um estadio anterior da passagem do lat. "fontanela" a "fontela"
Lagar
Lagar de Pessegueiro
Lagar de Vara
Lagares da Beira
Levada (Pt., Pt.-Md., Gz.)
Levadinha
Moinho
Moinho d'Água
Moinho de Vento
Moinhos
Muiños (Gz.) (grafia muito discutível)
Nora (os árabes trouxeram do Egito este complexo engenho. o nome, como não podia deixar de ser, é de origem egípcia veiculado pelo árabe. no Norte de Portugal e na Galiza prefere-se o termo Engenho)
Noras
Pisão (ver Post "Pisão, Pisóm, Pisões")
Ponte do Açude
Presa (Pt. e Gz.) - reservatório ou poça onde se retém e guarda a água para rega. o termo árabe correspondente é "albufeira"
Rega
Regadas Novas
Represa - o termo de origem latina para "açude". corresponde ao holandês Dam, como em Amsterdam e Rotterdam.
Sítio da Nora do Velho

nota: sobre "águas de rega" podem consultar esse sítio. sobre as "levadas" da Madeira vejam esse aí







Para Que Serve Um Blogue

confesso que andava um pouco zangado. o blogger não funciona suficientemente bem, nem pouco mais ou menos. de início atribuí-me as culpas, porque, em boa verdade, não nasci na idade da informática. porém, depois de consultar outros blogues constato que esse é um problema e um queixume bastante distribuído pelos blogonautas - o que a bem dizer me retira da classe dos ineptos, pelo menos dos ineptos mais minoritários.
e hoje apetece-me fazer as pazes com o blogue. ele é uma espécie de diário falante. responde aqui e além, dá sugestões, apoia, às vezes até elogia. mas o mais importante é que transporta para lá de todas as fronteiras, irmana com gente semelhante no falar e no pensar, torna o ser humano ubíquo e etéreo, livre deste aqui e deste agora.
e guarda cogitações de longa data, a experiência de gentes e lugares, todas essas coisas guardadas algures no íntimo, sem préstimo por não estarem à disposição de quem as podia querer.

post scriptum: jolorib, soube que sofreu um apagão. recupere rápido. faz falta na blogosfera.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

Rei, Princesa e Capital

receio que este post não tenha muito que ver co'a Toponímia, mas não resisto. afinal de contas, quem sabe se um dia vem a ter. vai fazer 96 anos que Portugal se tornou uma República. visto isso, não lhe devia ser do agrado o sangue azul e respetivos títulos de rei, de príncipe ou princesa. puro engano! afinal, o problema é que todos os portugueses e suas madames gostariam de ser reis, rainhas, príncipes e princesas tamém. e está certo. só um rei é pouco. assim como só uma capital (...e inda por cima Lisboa!). temos de convir que é pouco demais. nós temos vistas largas e gostamos de conhecer as coisas por um nome mais solene. somos um pobo profundamente aristocrata e pergaminhento, que não se conforma co'a apagada e vil tristeza, como dizia um poeta - por sinal demasiado citado pr' o meu gosto.
os brasileiros, claro, em questão de reis e de princesas não nos ficam atrás.

vejam só (prometo aumentar a lista):

A Capital da Chanfana - Miranda do Corvo
A Capital da Lampreia - Penacova
A Capital da Maçã de Montanha - Armamar
A Capital do Frango do Campo - Oliveira de Frades
A Capital do Fumeiro - Vinhais
A Capital do Minho - Braga (alterna com A Cidade dos Arcebispos e A Roma Portuguesa)
A Capital do Móvel - Paços de Ferreira
A Capital do Norte - Porto (alterna com A Invicta)
A Capital do Parapente - Linhares da Beira
A Capital do Queijo da Serra - Celorico da Beira
A Capital dos Dinossauros - Lourinhã
A Capital Universal da Chanfana - Vila Nova de Poiares (veja a receita da Confraria)

A Cidade Berço - Guimarães
A Cidade dos Arcebispos - Braga
A Cidade Invicta - Porto

A Princesa do Alva - Côja
A Princesa do Cávado - Barcelos
A Princesa do Lima - Viana do Castelo
A Princesa do Lis - Leiria

A Rainha dos Cachorros - aqui "cachorro" é hot-dog
A Rainha da Fronteira - Elvas

O Rei da Fruta
O Rei da Pescada
O Rei das Bifanas
O Rei das Farturas
O Rei das Francesinhas
O Rei das Ostras (Br.)
O Rei das Peles
O Rei das Pipocas
O Rei das Sandes
O Rei da Sucata
O Rei do Cabrito
O Rei do Maracujá (Br.)
O Rei dos Azulejos
O Rei dos Blogues (o trono está vago. por enquanto)
O Rei dos Cachorros (hot dogs)
O Rei dos Catálogos (Br.)
O Rei dos Cortinados
O Rei dos Esquentadores
O Rei dos Frangos
O Rei dos Gatos (Br.)
O Rei dos Hamburgers
O Rei dos Tapetes (Br.)


bom, mas para que este post tenha algo que ver com Toponímia, aqui vos deixo alguns topónimos em Rainha, Rei e Reis:


Angra dos Reis (Br.) - aqui os "reis" são outros. significa que os portugueses chegaram à região em 6 de janeiro

Caíde de Rei
Caldas da Rainha
Caldas de Reis (Gz.)
Moreira de Rei
Palas de Rei (Gz.)
Pinhal do Rei
Praia d'El-Rei
Serra d'El-Rei
Vila de Rei
Vila Nova da Rainha
Vila Nova de Souto d'El-Rei
Vilar de Rei
Vila Real
Vila Real de Santo António

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

Pisão, Pisóm (Gz.), Pisões

estes topónimos fazem referência a aparelhos, por vezes muito complexos, destinados a pisar azeitonas para fazer azeite. constam de uma construção só aparentemente tosca, em forma de casa, uma grande roda movida pela energia de uma queda de água e um sistema de engrenagens que transmite a força hidráulica à prensa do lagar. estas construções encontram-se na margem de um rio ou ribeiro, num troço propício ao aproveitamento da energia das águas (ver Comentº).

veja-se os seguintes:

Arruda dos Pisões
Outeiro dos Pisões
Pisanito (diminut. de Pisão)
Pisão
Pisãozinhos (diminut. plur. de Pisão)
Pisões
Pisóm (Gz.) - o mesmo que Pisão


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006

Gonça, Gonçalo, Gondar, Gondomar,...

os topónimos em "Gonc-", "Gonç-", "Gond-" e "Gont-" são muito abundantes no noroeste peninsular, sobretudo no Entre-Douro-e-Minho e na Galiza. são de origem germânica, implicam uma atitude guerreira e, pelo seu significado, referem-se a alguém que mereceu distinção em "combate" (gunthi), pelo que terá sido premiado com a posse das terras homónimas. isso quererá dizer que a cada "Gondar" seu combatente, e não tanto o mesmo combatente para senhor de todos os "Gondar" - penso que seria demasiado prémio para um homem só, inda por cima "bárbaro". na Galiza há uma boa meia-dúzia de "Gondar", praticamente tantos como em Portugal a norte do Rio Douro. num deles, o de Guimarães, me tornei gente suficientemente crescida para os combates da vida.
bom, há os "combatentes" e há os "chefes dos combatentes" ou de tribo (gunde-rik): "Gondariz", "Gondoriz" - que, já se vê, são menos abundantes, embora os haja tanto na Galiza como no Norte de Portugal.
no Brasil há topónimos destes, transpostos tanto de Portugal como da Galiza

podemos arrolar os topónimos seguintes:

Gonça
Gonçala
Gonçalinha
Gonçalinho (Pt. e Br.)
Gonçalo (Pt. e Br.)
Gonçalo Bocas ("Bocas" porquê? deveria grafar-se "Gonçalbocas"?)
Gonçalo Velho
Gonçalveiros (povoação de gente oriunda de "Gonçalo"?)
Gonçalves (Pt. e Br.)
Gonçalvinho
Gonce
Gonceiro
Goncinha
Gondã
Gondães (é um genitivo. significa [villa ou quinta] de um tal "Gonta")
Gondaes (Gz.)- o mesmo que Gondães
Gondais - o mesmo que Gondães e Gondaes
Gondão
Gondar (Pt. e Gz.)
Gondarán (Gz.)
Gondarão (Br.) - transposição do "Gondarán" galego
Gondarém (Pt. e Gz.)
Gondarén (Gz.) - o mesmo que Gondarém
Gondar

Gonde - é um genitivo. significa [villa ou quinta ] de um tal "Gonto". há um ribeiro de Gonde, que significará, se não tem outra origem, "o [ribeiro da quinta] de "Gonto"

Gondeiro
Gondeixe

Gondelães - é um genitivo. significa [villa ou quinta] de um tal Gontella

Gondisalves - variante dialectal de "Gonçalves"
Gondivau - "Gundwald": pleonasmo:combate+combate

Gondomar (Pt. e Gz.) - é um genitivo de gund-maro, que deverá ser um título de guerra:
"Cavalo-Combate"


Gondoriz (Pt. e Gz.)
Gonte (Pt. e Gz.)
Gunde - o mesmo que "Gonte"


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

Mais um Apagão e Desisto

Isto de blogues tem que se lhe diga. está um home sossegado a escrever o que lhe vem à ideia e...zás! desaparece tudo! é preciso pacência... Ultimatum ao blogger: ou põe isto a funcionar como deve ser, ou... passo a escrever à moda antiga, de papel e lápis!

ponto final.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006

Cónego Arlindo Ribeiro da Cunha (1906-1976)


Fará trinta anos a 10 de abril que resolveu partir. digo "resolveu" porque podia ter resolvido seguir os conselhos da medicina. mas nisso ele era como os romanos: não tinha os filhos de Imhotep em grande conta, talvez fossem para ele um pouco menos que charlatães... passaria horas, se tivesse tempo, a contar histórias risíveis dos pobres práticos que, coitados, prescreveriam remédios piores do que as maleitas. mas não foi com isso que me demoveu de seguir a vocação. preferiria que eu fosse alguém nas letras, que tivesse jeito prá escrita e viesse a ser, sei lá, um prémio nobel. mas eu nunca tive muita queda para escrita demorada, nem fiz amigos prestáveis para aquele fim.
semeou, se calhar, uma semente melhor. ele era um manancial inesgotável de sabedoria. dominava a origem das palavras, o nome das terras e a forma de os decifrar, os nomes de família, os brasões, conhecia os caminhos velhos, as calçadas romanas, os marcos miliários, os montes onde podia esgravatar ruína antiga, os ditos e lendas populares e a maneira de os trocar em miúdos. tinha uma enorme biblioteca: era um espaço sagrado, um útero, nela bebi a cultura galega e brasileira, numa época em que a grande maioria dos patrícios desconhecia uma e outra. "airinhos, airinhos aires, airinhos da minha terra"... "minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá. as aves que cá gorjeiam não gorjeiam, como lá"...
fez-me andar em escavações arqueológicas, onde me entranhei de pó, de terra e de fascínio. gostava de mim porque eu era o filho mais velho da irmã dele - um antigo parentesco de excelência.
escreveu A Língua e a Literatura Portuguesa, manual de estudo para os alunos dos seminários e um livro muito seguido do Outro Lado do Atlântico. é também dele uma Gramática Latina que chegou à 7º edição.
além dos livros que escreveu e dos artigos que fazia publicar no Diário do Minho, participou como colaborador assíduo na Grande Enciclopédia Luso-Brasileira e na Enciclopédia Verbo.
nascido em S. Torcato , Guimarães, a 24 de fevereiro de 1906, foi professor do Seminário de Santiago (Seminário Conciliar de S. Pedro e S. Paulo) e cónego do cabido da sé de Braga. tem hoje o seu nome na toponímia urbana da Bracara Augusta. está referenciado na net, na bibliografia sobre a cidade.

(ver também este artigo e este aqui)


*In Memoriam*

Penamacor, Pena Maior, Penamaior (Gz.), Penamocor






são variantes dialectais do mesmo vocábulo composto: Penha Maior, isto é, "Penha Grande", "Penedo Grande".

Óbidos



é outro topónimo que está praticamente intacto, como veio ao mundo. provém do lat. oppidus, que significa "cidade fortificada", "fortaleza". no estado do Pará, no Brasil, há uma Óbidos, que resulta da transposição do topónimo português. a razão do nome salta à vista.
os romanos chamaram "fortaleza" a uma cidade que já lá estava quando eles chegaram

terça-feira, 7 de fevereiro de 2006

Penedono

este topónimo parece acabadinho de inventar. ainda soa praticamente do jeito que falava quem o inventou: pene-dunu, Pena de Dono, a "penha do castelo". aquele "dono" latinizado na Idade Média deu Pennadedomno, uma inverosímil "penha do senhor".
não obstantemente a evidência fotográfica, ainda há quem acredite mais nas cousas se forem escritas em latim, de preferência o latim macarrónico medieval. é como as afirmações dos textos científicos de hoje: os truismos ditos em inglês, de preferência o dos esteites, passam por elaborações filosóficas de grande profundeza. por mim, sempre me fio mais na linguagem direta dos lugares.

nota: o castelo a que se refere o nome esteve anteriormente no lugar deste, como se compreenderá.

Itacoatiara (Br.) ou a Pedra Letreira (Pt. e Gz.)

pela sua importância, passo a post a questão que me foi colocada pelo amigo Jolorib a respeito de "Itacoatiara", também grafada "Itaquatiara". em língua tupi-guarani significa "pedra letreira", "pedra gravada" ou "pedra pintada" - coisa bem conhecida a norte como a sul do rio Minho. estas pedras, ornamentadas com petroglifos (compreendo a necessidade do termo...), situam-se em lugares outrora sagrados, onde decorriam cerimónias astro-religiosas de iniciação e rituais de passagem. o neófito ou catecúmeno, até aí criança, era instruído nas verdades da tribo e nos segredos do cosmos, do mundo e da vida, passando à categoria de ser humano e adulto depois de integrar esse conhecimento no coração e na cabeça. os rituais impediam que a verdade entrasse por um ouvido e saísse por outro, enraizando-a profundamente no centro das emoções e da afectividade.
os rituais e provas de passagem eram suficientemente difíceis e dolorosas (adolescência) para o assegurar. o neófito morria para a vida anterior, a infância (que quer dizer "a idade em que não se fala" - ou não se tem voz activa), e renascia para uma nova vida, a vida adulta - onde já se fala, porque já se é mestre ou dono de si mesmo.
que esse tesouro de sabedoria não devia ser fácil de adquirir dizem-no as lendas sobre "tesouros escondidos" e "perigos" associados.


na Galiza existe ainda "pedra dos letreiros" e "os letreiros".
aqui bem perto, em Góis, há uma Pedra Letreira à qual se associa esta quadra:



"junto da pedra letreira
há três arcas em carreira.
uma é d'oiro, outra de prata,
outra de peste que mata"






segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006

Alba, Alva

é um dos topónimos mais antigos da Europa, e daí a sua presença dispersa um pouco por todo o lado. aparece sob a forma Abla, Alava, Alba, Alba de Tormes, Alba Facência, Alba Longa, Albânia, Alba Pompeia, Albe, Albé, Albion, Alpes, Alva, Alvão, Aube, Île d'Albe, Monte Albano, Mont'Alvão. muitas cidades da Itália etrusca tinham este nome, pelo que o topónimo é forçosamente pré-romano. não faz qualquer sentido fazê-lo provir do latim alba, "branca". significa "colina", "ponto alto", e, secundariamente, "castelo", "forte".

alguns topónimos em Alva.

Alban (Gz.)
Alpes
Alvinha
Barca d'Alva
Barroca d'Alva
Marialva - monte rochoso ou castelo na rocha
Montalvão - pleonasmo: monte-monte
Monte d'Alva
Penalva - castelo da pena
Penalva do Castelo - significa "castelo da pena do castelo"
Pisões de Ribeira d'Alva
Quinta do Alvão
São Pedro d'Alva




sábado, 4 de fevereiro de 2006

Soutos, Soutinhos e Soutelos

até agora tenho dedicado atenção à morfologia, orografia, hidrografia e infraestruturas dos lugares, com um desviozinho pelos hagiónimos ou nomes de santos. é altura de falar de lugares que devam o seu nome à flora que neles medra. vou começar pelos castanheiros, árvores cujo fruto mereceu em tempos a predilecção das gentes do Norte, pelo seu sabor e pela sua ligação às festas dionisíacas do "São Martinho" - em que pontuava o quase saudoso magusto. a castanha foi substituída pela batata, coisa da América, que se fez acompanhar do seu fiel amigo escaravelho. e o castanheiro foi escasseando e recolhendo a espaços cada vez mais reduzidos.
a mata de castanheiros tinha o nome de "soito" ou "souto". daí a persistência de topónimos como esses:

Quinta dos Soutos
Regada do Soito

Santo Varão (???) - este topónimo não está decifrado. a forma anterior de "souto" era "sauto". o lugar pode ter sido um souto de culto ou uma mata sagrada, na margem esquerda do Baixo Mondego

Soito
Solteirão (povoado com gente de Solto?)
Solteiros (gente orinda de Solto?)
Solto (de salto-sauto: souto. topónimo fora de uso)
Soutelinho (Pt. e Gz.) - é duplo diminut. de Souto
Soutelinhos
Soutelino
Soutelio
Soutelo (Pt. e Gz.) - diminut. de Souto
Soutelo de Montes (Gz.)
Soutinho - diminut. de Souto. é mais recente que Soutelo
Soutinhos
Souto (Pt. e Gz.)
Soutocico (Mir.) - diminut. mirandês (asture-leonês) de Souto
Souto da Casa
Souto da Ponte
Souto de Vea (Gz.)
Soutolongo (Gz.)
Soutomaior ou Sotomaior (Gz.) - é aumentat. de Souto. significa "Souto Grande"
Souto Redondo
Soutulho (Pt. e Gz.)
Soutulhos ou Soutullos (Gz.)
Soutulio


Nota: o Souto pode designar tamém um bosque na margem de um rio



ver novo post sobre o assunto aqui

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006

Tantas Vezes o Cântaro Vai à Fonte...

...que alguma vez deixa lá ficar a asa. mas não é desses cântaros que vou agora falar. vou falar de rochedos especiais, tipo monovolume, visíveis por exemplo na Serra da Estrela. derivam do tema "cant-", "pedra", e não se ficam por Portugal e Galiza. também aparecem na Cantábria, batizando a região, e nas Astúrias. Cantuária (Canterbury), na Inglaterra, é um topónimo da mesma família. em post anterior ("Serras, Montes e Montanhas") já arrolei alguns destes topónimos na variante "cand-".

alguns exemplos:

Canda (Pt. e Gz.)
Candal (Pt. e Gz.)
Cando (Pt. e Gz.)
Candieira
Candosa
Candoso
Cantanhede
Cântara
Cantareira (Pt. e Br.)
Cantareiras
Cantarinha
Cantarinho (Pt. e Br.)
Cantarinhos
Cântaro Grande
Cântaro Magro
Cântaros
Canteira (Gz.)
Canteiras
Canteiro (Pt. e Gz.)
Santo António do Cântaro
Vale de Cântaro



terça-feira, 31 de janeiro de 2006

Achada

quem achou estas terras e lhes botou o nome de Achada, ou afim, não estava pensando no facto de as ter achado. penso até que o nome mais certo é A Chada.
é possível que este topónimo e os seus derivados provenham do latim planata ou planeta, indicando um lugar plano, achatado, sobre um terreno habitualmente elevado e rodeado de declives abruptos. aparece em ilhas vulcânicas, como na Madeira (Md.) e em Cabo Verde (Cv.).
já agora, "planeta" é um pequeno disco "plano", uma espécie de espelho, que reflecte a luz do Astro Rei. embora seja um disparatezinho astronómico nos tempos de hoje, o nome ficou para a posteridade, reunindo os agora oito principais companheiros do Sol. mas por cá, pelo planeta terra, a palavra latina designa lugares planos, em geral de pequena superfície, como aqueles que se seguem

alguns exemplos:

Achada (Pt. - Ct. e Md.)
Achada da Arruda (Md.)
Achada da Madeira (Md.)
Achada da Morena (Md.)
Achada de Santo Antão (Md.)
Achada de Santo António (Cv.)
Achada de Simão Alves (Md.)
Achada do Barro (Md.)
Achada do Castanheiro (Md.)
Achada do Castro (Md.)
Achada do Cedro Gordo (Md.)
Achada do Folhadal (Md.)
Achada do Gramacho (Md.)
Achada do Loural (Md.)
Achada do Marques (Md.)
Achada do Pau Bastião (Md.)
Achada do Pereira (Md.)
Achada do Pico (Md.)
Achada do Pinheiro (Md.)
Achada do Til (Md.)
Achada Furna (Cv.)
Achada Grande (Md.)
Achadas da Cruz (Md.)
Achadinha
Cheda (Pt., Gz. e Br.)
Chedas (Pt. e Gz.)
Chedeiros
Corte da Cheda
Eira da Achada (Md.)
Lama de Cheda
Monte da Chada
Quinta das Chedas


segunda-feira, 23 de janeiro de 2006

Baleias

É claro que não vou falar de certas senhoras nem das amigas delas. seria uma rudeza e uma falta de urbanidade tremenda. era do jeito que se tornavam anoréticas. vou mesmo falar desse cetáceo grande, grande, que tem saudade da terra. tanta, que gosta de vir à praia ou entrar rio Tamisa dentro, ou outro rio qualquer, pra morrer na frente dos cameramen ou de quem lá estiver. é um mamífero com muito mais mistério do que fazer dele o que fazem. banha de baleia e creme de cosmético é destino que nenhum desses animais merecia mesmo. o seu fascínio pessoal e de raça fez com que a gente do litoral lhe roubasse o nome para o botar em muitas terras junto do mar.
desta vez bicho é mesmo bicho, e essas terras ou tomam dele o nome ou de qualquer atividade com ele relacionada. há quem defenda que a baleia é parente próxima do hipopótamo. bom, pode ser. é. mas não existe nenhuma terra com nome de Hipopótamo.

aqui vão alguns desses topónimos:



Atouguia da Baleia
Balaia
Balea (Gz.)
Baleal
Baleo (Gz.)
Baleeiro
Casais do Baleal
Cova da Balea (Gz.) (ver Comentº)
Ilha da Baleia (Br.)
Ponta Baleia (STP)
Ponta da Baleia (Aç.)
Praia da Baleia (Br. e Pt.)
Praia da Balela
Praia do Baleal
Praia do Osso da Baleia (ainda assim, este topónimo não será tão claro quanto parece. ver Comentº)
Vale da Baleia



por estranho que seja, as Ilhas Baleares não devem pertencer a esta colecção, muito embora o frequente convívio com as baleias tenha contribuido para modelar-lhes o nome e o sentido. certos topónimos foneticamente muito próximos, como Baleira, derivam de Vale, com aquela pronúncia inconfundível da minha terra e de todo o norte da Península

sábado, 21 de janeiro de 2006

Os Ninhos do Açor

O topónimo Açor ocorre em lugares elevados e ponteagudos, com vales profundos, como é o caso da Serra do Açor, entre a Estrela e a Lousã. muita gente relaciona este topónimo com a existência de belos exemplares desta ave de rapina apreciadora de lebres, pombos e perdizes. em alguns casos pode suceder que os açores procurem estas paragens, dada a morfologia e a orografia destes locais. mas não é certo que seja sempre assim, pois há-de haver Açores onde esta ave não existe e há-de haver açores em lugares que não levam esse nome. já foi notado o parentesco linguístico entre "Açores" e "Astúrias". quanto ao Arquipélago dos Açores, parece que a ave em causa, afinal de contas, é o milhafre. mas merece ser dito que outra certeza não há, e que os Açores são ilhas vulcânicas com picos abruptos.
nisto da toponímia as possibilidades de cultivar a imaginação, mesmo a delirante, são tantas que até há quem veja "zorras" (zor-) ou raposas onde, coitadas, não teriam como tomar o seu cafezinho da manhã nem como apreciar uma coxa de galinha.
convirá acrescentar que os orónimos e os hidrónimos são os topónimos mais primordiais. são aqueles lugares a quem foi dado nome antes de todas as outras coisas. casas, caminhos, povoados, pontes, quintas e quitandas, tudo isso tem nome depois, à medida que o homem se organiza e se distribui pela terra. por isso, pouco admira que a maioria dos hidrónimos e dos orónimos tenha nome pré-indoeuropeu. é assim que esses lugares no Brasil são na sua larga maioria tupi-guarani, pois quem chega primeiro é que bota o nome


alguns topónimos em "Açor":

Açor
Açôr
Açoreira
Açoreiro
Açores
Açorinho
Açureira
Assoreira (graf. alternat. - errada? - de Açoreira * )
Azor ou Açor (Gz.)
Azoreira ou Açoreira (Gz.)
Azoreiros ou Açoreiros (Gz.)
Foz do Açor (aqui "Açor" é hidrónimo. cf. "Sor" e "Soure". ver post "Hidrónimos ou Nomes de Rios")
Moita do Açor
Ninho do Açor
Poio do Açor (ver Comentº)
Região Autónoma dos Açores
Riazor ou Riaçor Gz.) (?) (ver Comentºs)
Ribeira do Açor
Serra do Açor (um pleonasmo, como Poio do Açor)
Vale de Açor
Vale de Açores



* "assorear" e "assoreamento" referem-se a um processo geológico ou de engenharia pelo qual se forma um depósito ou amontoado de terras, pedras ou areias, no fundo das barragens ou na foz dos rios (neste caso, dão origem aos "Cabedêlos" e às "Barras"). há homofonias muito curiosas que, ainda por cima se achegam no significado





quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

Rans e Rãs Sim, Mas Sapos Não

desta vez são estes simpáticos bichos verdes que vêm frequentar este blogue. mas já me avisaram que não são padrinhos destas terras. estes topónimos parecem estar associados a pequenas elevações do terreno, ou pequenas mesetas. são frequentes em Portugal e na Galiza, onde têm a mesma pronúncia mas com grafias diferentes - mesmo lá... o mais certo será estes topónimos terem uma origem pré-indoeuropeia, pré-celta. o mesmo é dizer, afim do euskera. porém, neste como em muitos outros casos, são mais as teorias explicativas do que as rãs propriamente ditas.

aqui vão (alguns d') eles:

Arranhó ("A Ranhó". ver Ranhó)
Outeiro da Ranha
Rana
Raña ou Ranha (Gz.)
Ranado
Ranadoiro
Ranas
Ranha
Rañada ou Ranhada (Gz. e Pt.)
Ranhadinhos
Ranhado
Rañadoiro ou Ranhadoiro (Gz. e Pt.)
Ranhados
Ranhadouro
Ranhão
Rañas ou Ranhas (Gz. e Pt.)
Ranhó (ver post "Topónimos Terminados em 'Ó': Menino ou Menina ?")
Ranholas (diminut. plural de Ranha)
Rania
Raniados
Rao (Gz.) (?)
Rans (Gz. e Pt.)
Rãs (por Rans)
S. Domingos de Rana



terça-feira, 17 de janeiro de 2006

Frase do Ano 2005

"Isto da toponimia ten a ver co sentido común, co instinto, coa arte, coa mística, coa lóxica e coa imaxinación. É un divertimento para mentes inquietas. Pero seguro que encontraredes quen lle dea moito, moito valor".
Calidonia.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2006

Lobos, Lobinhos e Lobões

a toponímia galego-portuguesa é rica em "Lobos" e nomes afins ou aparentados. o simpático animal abundou outrora noutros locais também, onde, no entanto, não foi escolhido para padrinho. por outro lado, alguns topónimos dificilmente se referirão ao bicho, dado estarem em campo aberto. hoje em dia, ameaçado de extinção, o canis lupus não se vê muito por aí, nem nuns lugares nem noutros. é preciso ir procurá-lo nas reservas naturais - e já me aconteceu nem aí o topar.
não é fácil descobrir a origem destes topónimos, mas não há-de ser latina nem referir-se ao bicho dos contos de fadas. há uma Leuven (Fl.) ou Louvain (Fr.) ou Lovaina (Pt.), na Bélgica, que talvez aponte para uma origem pré-celta. é preciso notar que as lendas em volta do nome de Lobeira (Gz.) se referem à mítica Rainha Loba, e não ao lobo.



La Louvière (Wl), na Bélgica francófona, está associada à lenda de uma loba, idêntica à da fundação da Cidade de Roma. esta loba terá sido um símbolo ou totem étnico pré-ariano.






além disso, aponta-se para a maioria destes topónimos a raiz pré-indoeuropeia Lap-/Lep-/Lip-/(Lop-)/Lup-, que é responsável pela formação de palavras como "lapa", "lápis", "lava", "lupa", e significa "pedra".


aqui vão alguns desses topónimos:


Câmara de Lobos (na Madeira não haveria lobos, quando foi descoberta e povoada. ver Coment.)
Casal do Lobo
Fôjo Lobal
Labagueira
Labruge (é hidrónimo. ver post "Hidrónimos ou Nomes de Rios")
Labruja (é hidrónimo. o mesmo que Labruge)
Lapa do Lobo (é um pleonasmo dentro da mesma língua?)
Laboreiro
Laborim
Laborins
Lavadores (Gz. e Pt.) (pronunc. Lavadòres)
Leboreira (Gz.)
Leboreiro (Gz. e Pt.)
Loba
Lobal
Lobão (é hidrónimo. ver post "Hidrónimos ou Nomes de Rios")
Lobazim (?)
Lobeira (Gz.)
Lobeiro
Lobeiros
Lobel
Lobela
Lobelha
Lobelhe
Lobite
Lobios (Gz.)
Lobisomem (será "rio das pedras"?)
Lobito (Pt. e Ang.)
Lobízios
Lobo
Lobão
Lobo Joanes
Lobo Morto (será pleonasmo?)
Lobos
Lobosinho
Loivos
Lousa
Lousã (Cf. Lausanne - CH)
Lovaínho
Lovazim (o mesmo que Lobazim)
Lubazim (o mesmo que Lobazim)
Lubeira
Lubeiro (Gz.)
Lubreu
Monte de Lobos
Pedra Lobeira
Pena Lobo (será pleonasmo?)
Rio de Lobos
Rio do Lobo
Vale de Lobos


nota-1: hoje não sabemos se quando um topónimo significava "pedra" significava qualquer pedra, de qualquer tipo, ou se para cada tipo ou particularidade das pedras havia uma palavra específica. as línguas dos povos mais enraizados na Natureza eram e são muito ricas em definir esse mundo natural em pormenor. e quem diz "pedra" diz outra particularidade qualquer do meio ambiente: "monte", "rio", "plano", etc., etc. uma aparente repetição dos mesmos temas em Toponímia poderá esconder uma enorme riqueza de ínfimos detalhes.

nota-2: o grego "lobo" aplica-se a qualquer parte arredondada e saliente, sendo usado na anatomia para parte de órgãos (cérebro, rim, fígado) com essas características.



domingo, 15 de janeiro de 2006

Um Pequeno Incidente Informático



Depois de um apagão, estou recuperando o blogue devagarinho e com novo formato.
espero que seja do vosso agrado.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2006

Cabras e Cabreiras



o topónimo "Cabra" e os seus derivados são muito abundantes em Portugal, na Galiza, no resto da Península e na Europa, sobretudo a do sul mediterrânico. dão o nome a montanhas pedregosas e inóspitas e têm uma preferência especial por pequenas ilhas e ilhéus rochosos. apreciam dar o nome a ribeiros e riachos onde mais abundem as pedras do que a água.
é um conjunto de topónimos muito antigo, de origem difícil de determinar. é muito frequente em Navarra, região onde a romanização linguística foi parcial. uma origem latina em "capra" não explica que seja um hidrónimo nem a sua frequência em ilhéus inóspitos, mesmo para cabras. não se pode excluir, por uma convergência linguística determinada pela parceria cabras-pedras, que alguns destes topónimos derivem do lat. "capra" e que outros tenham uma origem pré-indoeuropeia, em karr-, kar-, "pedra". neste último caso, surgem, para além das "Cabras" e "Cabreiras", topónimos como "Cabo Carvoeiro", "Carreço" (pronunc. Carrêço), "Carregal", "Carvoeira", "Carvoeiro", "Carvalho", e hidrónimos em "Cara...", "Care...", como "Ribeira de Carenque" (ver post "Hidrónimos ou Nomes de Rios")

alguns topónimos deste grupo:

Cabra -
Cabração -
Cabra Figa -
Cabrainha -
Cabral -
Cabrália (Br.) - deriva de Pedro Álvares Cabral
Cabranca -
Cabrancã -
Cabrão - é hidrónimo. ver post "Hidrónimos ou Nomes de Rios"
Cabras - é hidrónimo: "ribeira das Cabras"
Cabreira (Gz. e Pt.) - tamém aparece como hidrónimo - Gz.
Cabreiras -
Cabreiro (Gz. e Pt.) -
Cabreiroá (Gz.) - "Águas de Cabreiroá", Verín ou Verim, Gz.
Cabrela - diminut. de Cabra
Cabrelões - topónimo que se refere a gente originária de Cabrela
Cabria (Gz. e Pt.) -
Cabrial -
Cabrida -
Cabrieira -
Cabrienca -
Cabril -
Cabris - penso que seja grafia preferível a "Cabriz"
Cabrita - diminut. de Cabra
Cabriúva -
Cabriz - ver "Cabris"
Cabroeiro -
Cabrões -
Cabrum -
Cobrão -
Costa de Cabra -
Foz do Cabrão -
Ilhéu das Cabras -
Pé de Cabrão -

topónimos deste grupo, fora do espaço galego-português e brasileiro:

Cabrera (Es.)
Capraria (It.)
Caprasia (Fr. e It.)
Caprera (It.)
Capri (It.)




sábado, 7 de janeiro de 2006

Boi Morto, Boi Posto

o topónimo "Boi" ocorre com muita frequência na Catalunha, Astúrias, Galiza e Portugal, sob diferentes formas e combinações, com sobreposição de estratos linguísticos, que por vezes originam os habituais pleonasmos da Toponímia e alguns resultados extravagantes, como Sant Boi. a sua origem é pré-indoeuropeia e significa "rochedo", terreste, costeiro ou marítimo. as inevitáveis homofonias lembram-nos o princípio de que nem tudo o que reluz é oiro e nem tudo o que é boi tem chifres.
salvo transposição de topónimos portugueses, os "Bois" do Brasil não são deste filão genético

aqui vão alguns "Bois":

Baião
Baiona (Gz.)
Boiaca
Boial
Boialvo
Boi-a-Monte - grafia correcta "Boiamonte". ver "Boimonte"
Boião
Boicornello ou Boicornelho (Gz.)

Boiçucanga (Br.) (nome de ilha. do tupi-guarani: "cabeça de cobra grande". "M'boi"+"Guassu"+"Canga")

Boidecanto (Gz.)
Boi de Gures (Gz.)

Boidobra (?) - a terminação -bra aponta para uma -briga celta, como Coimbra, Oimbra -Gz., Sesimbra)

Boieira
Boi Formoso
Boi Grande (Gz.)
Boimonte (Gz.) (uma espécie de pleonasmo)

Boimorto (Gz.) (Cf. topónimos, também pleonasmos, "Mouromorto" - Gz. e "Moura Morta" - Pt.: "Mor": penedo, penedia)

Boi Morto
Boi Pequeno (Gz.)
Boiro (Gz. e Pt.) (?)

Boituva (Br.) (topónimo recebido de Jolorib - ver comentº. tupi-guarani: "sítio onde há muitas cobras")

Boivão (??)
Boi Vivo
Boizão
Bouro (?)
Castro de Bois
Chã do Boi (ver post "Mais Terras Planas")

M'Boi Mirim (Br.) (topónimo recebido de Jolorib - ver comentº. tupi-guarani: "cobra pequena". o contrário de M'Boi Guassu: "cobra grande". ver "Boiçucanga")

Monte de Boi
Monte de Bois
Monte do Boi
O Corno do Boi (Gz.) (um pleonasmo)
Olho do Boi
Pé de Boi
Pedra de Boi
Pena do Boi (Gz.) (outro pleonasmo)
Perboi Baixo (atenção a este topónimo!)
Rego do Boi
Serra do Boi
Vilar de Boi

sexta-feira, 6 de janeiro de 2006

(Intervalo)

certa vez passava eu numa das minhas andanças pela terra galega quando resolvi parar em Fonteminha, para ver nascer o Rio Minho. um cartaz, um pouco desbotado já, dizia assim: Festa do Nacemento do Rio. Aproximei-me de um café, pedi já não sei o quê para justificar a minha entrada ali, e perguntei ao home que me atendeu: "vi ali um cartaz da festa do nascimento do rio. que santo é que festejam aqui?" o home olhou para mim com um ar condescendente, e explicou: "nom tem santo nenhum. a gente aqui festeja o rio!"(*)

o quê? - pensei - fazem a festança e nem padre nem santa? senti-me recuar uns dois mil anos, sem novas nem mandados do reino de Cristo.

depois, em Lugo entrei na Sé. difícil não topar de imediato a imagem grande da padroeira da cidade - a cidade do deus Lug, o divino Sol. e quem é essa padroeira, ou patrona ou "patroa"? a Virxe dos Ollos Grandes. a Virgem dos Olhos Grandes, ídolo vivo, deusa-coruja, nem "Santa" nem "Nossa Senhora de..." é um avatar, como Atena e Proserpina, de uma qualidade divinizada no feminino, a qualidade de ver de noite, no escuro, para lá do que se vê à luz o dia. a qualidade de dominar as profundezas da intuição e dos destinos. uma sabedoria maior que o saber das bibliotecas todas. qualidade compartilhada a seu modo, no masculino, por mochos, gatos e cães, que, por via disso mesmo, são animais sagrados noutras regiões do planeta
santa cidade esta, que se entrega com a mesma devoção à luz do Dia e aos mistérios da Noite...



(*) mais tarde, viria a encontrar, já mais cristianizada pela tona, "A Festa da Fonte de Ançã", na nascente da Ribeira de Ançã (um pleonasmo toponímico - ver post "Hidrónimos, ou Nomes de Rios") na freguesia de Ançã, aqui bem perto de Coimbra

terça-feira, 3 de janeiro de 2006

Janeiro de Cima e Janeiro de Baixo

a conversa é como as cerejas, mas é desta vez que me vão zurzir forte e feio. oiço falar há muitos anos destas duas aldeias milenares do vale do rio Zêzere, conheço muito boa gente de lá. sempre perguntei a mim mesmo o que está ali a fazer o "janeiro", mas a resposta à pergunta é que não havia jeito de aparecer. então, perguntei-me: - e se "janeiro" fosse...?

antes disso, vejam esse sítio. ...não é uma gracinha?
e esse aqui? ...lindo!

agora, pensem comigo: - e se "janeiro" fosse...?

...se fosse chaneiro não me admiraria nada. seria um masculino de "Chaneira" (ver post "Mais Terras Planas"). porém, se assim for, o nome atual será muito posterior ao povoamento dos lugares, o que significará que tiveram outro nome antes dos romanos - quem sabe se com o mesmo significado. mas o nome que têm, se significar o que eu julgo que significa, condiz com a orografia do lugar em ambos os casos. a confusão de chaneiro com janeiro não será fácil no português da Galiza, que distingue bem o "ch" do "x"/"j", mas é possível no português daqui. além do mais, se "chaneiro" evoluisse normalmente, poderia desembocar em "Cheiro", masculino de "Cheira", o que, como é bom de ver, ficando "Cheiro de Cima" e "Cheiro de Baixo", não é nome que se ponha à nossa terra.
..."Janeiro" é muito mais bonito...

agora, aí vão alguns topónimos relacionados com "Janeiro":

Janeirinha (Chaneirinha, diminut. de Chaneira? ver post "Mais Terras Planas")
Janeirinho (Chaneirinho?)
Janeiro (sem o determinativo "de cima" ou "de baixo")
Janela (Chanela, diminut. de Chana? ver post "Mais Terras Planas")
Janelas Verdes
Janelo (Gz.) (?)
Janes (?)

pois, e agora vão dizer: toponímia é só terras planas? não será "terra plana" a mais?
pois é assim: a conversa é como as cerejas, palavra puxa palavra, associação puxa associação e, além disso, em terreno montanhoso o que se distingue de tudo o mais é a "terra plana".


segunda-feira, 2 de janeiro de 2006

Feliz Ano Novo!

vou começar o novo ano com a Ilha de Ano Bom (Annobón). O nome é português e por isso cabe aqui muito bem. ao grafar "Annobón" os espanhóis não fizeram mais ao português de Portugal do que aquilo que fazem ao da Galiza...:-)
a Ilha de Annobón faz parte da Guiné Equatorial, antiga colónia espanhola. essa ilha descobriram-na João de Santarém e Pedro Escobar no dia 1 de Janeiro de 1471, quer dizer, no "ano bom" ou "ano novo". em português, no séc. xix era grafada "Anno Bom". pertence a um grupo de topónimos de que faz parte o "Natal", o "Rio de Janeiro" (Br.), a "Baía de Todos os Santos" (Br.) e a "Ilha da Páscoa" (embora este não seja um topónimo português).
mas...nem tudo o que é Janeiro vem à frente de Fevereiro. há duas aldeias da Beira Baixa, ribeirinhas do rio Zêzere, que têm por nome Janeiro: "Janeiro de Cima" e "Janeiro de Baixo". voltarei a este assunto




sábado, 31 de dezembro de 2005

É Tábua Mas Não É Pau

os topónimos com base em "Tábua" são muito frequentes na Galiza e em Portugal, e também aparecem no Brasil. podia pensar-se que tivessem origem latina, mas por essa safra linguística não vamos muito longe nem muito acertadamente. há quem diga, para dar que fazer ao latim, que estes topónimos teriam origem em antigas pontes de pau para atravessar o rio - onde o houvesse. porém, se assim fosse, diz o costume que a terra se chamaria "Ponte", "Pontão", talvez até "Barca", mas não "Tábua". e que todas as "Tábuas" e seus derivados teriam que ter um rio, o que não estou muito certo de ser verdade. quando cá chegaram os romanos já havia muita gente por aqui e não consta que as terras estivessem à espera que os romanos lhes botassem nome, especialmente se o já tinham.
por isso, vou pela hipótese de "Tábua" e seus derivados já existirem antes do latim e terem o significado de "Chão", Chã", "Terra Chã", terreno plano ou planáltico - o que parece condizer com uma boa dúzia desses topónimos que eu conheço.
e como a toponímia é o lugar geométrico de todas as coincidências linguísticas, pode até suceder que tábua signifique mesa: plano alto, pequeno planalto (Cf. "Meseta", Es.)
não visitei pessoalmente todas as terras com topónimos como estes que se seguem, mas se o que eu digo for verdade haverão que ter em comum o serem planas ou quase planas, em contraste com a orografia envolvente:

Taboaças ou Taboazas (Gz.)
Taboada (Gz.)
Taboadela (Gz.)
Taboadelo (Gz. e Pt.)
Taboado (Gz.)
Taboao da Serra (Br.) (obrigado, João Lopes Ribeiro!)
Táboas (Gz.)
Taboeira (Gz. e Pt.)
Tabosa (?)
Tábua
Tabuaça
Tabuaças


Tabuaço (foto)


Tabuadelo
Tabuado
Tabual
Tabuão (Br.)
Tábuas
Tabuínho
Tabuladelo
Tabulado
Tabulados
Tabuleiro (Pt. e Br.)
Tabulosa


nota: a grafia tabu... em lugar de tabo... não está autorizada pelos antecedentes linguísticos destes topónimos




sexta-feira, 30 de dezembro de 2005

Britos, Briteiros e Bretonhas

naquele tempo em que o Império Romano rompia pelas costuras, os povos Escoto e Picto da Escócia resolveram aproveitar-se do vazio da Pax e passar a dominar toda a Britannia. os Bretões ou Britos, vendo a casa a arder por dentro, chamaram em seu auxílio a gente de fora. como é bom de ver, a ajuda de fora é mais fácil de chamar que de aturar. em consequência desse acto pouco reflectido, a Britannia foi infestada de gente que nunca lá devia ter entrado: os Anglos, Frísios, Jutos e Saxões, que bem souberam valer o preço dessa ajuda. e os Britos, não tendo remédio melhor, fizeram-se ao mar, para o sul, às Gálias e Galécias, em busca de sossego e segurança. onde assentaram deixaram na toponímia a sua marca étnica, afinal a mesma que predominava nestas regiões celtas irmãs do Continente. e trouxeram a gaita com eles. onde haja Bretagne (Fr.), Bretanha (Pt.), Bretonha (Gz.), Briteiros, Britiande (?), Britelo, Brito, é uma terra-irmã, armórica, galega ou portuguesa, que eles adoptaram como nova pátria.
...e mais ano menos ano, chegaram por essa hora os Suevos, que tamém abancaram por aqui - chamando a si o governo da Xunta da Grande Galiza, com a bênção dos Godos da Meseta.


quinta-feira, 29 de dezembro de 2005

Topónimos Terminados em "ô"

são topónimos diminutivos masculinos de outros topónimos. provêm do diminutivo latino tardio em -olo. em trás-os-montes há formas arcaicas em -oulo / -uolo, como "Palaçoulo"/"Palaçuolo" (Mir.), em lugar de "Paçô".
são menos frequentes do que os topónimos terminados em "ó".

exemplos:

Avô - do grupo "Ave"
Barrô (pronunc. "Bàrrô")

Gestaçô
Mosteirô
Paçô (pronunc. "Pàçô") (diminut. de "Paço", Paaço, Palácio)
Sequeirô
Travassô
Urrô



segunda-feira, 26 de dezembro de 2005

Là Sù, Là Giù

"Jusão" e "Jusã" provêm do lat. tardio e significam "o/a de baixo". "Susão", "Susana" e "Susã" vêm do lat. da mesma época e significam "o/a de cima". estão muito representados na Galiza e em Portugal, com variantes.

podemos apontar aqui os seguintes topónimos:

Aldeia de Juso (o mesmo que Aldeia de Baixo)
Arcas de Susãs (o mesmo que Arcas de Cima. Arcas=Antas?)
Outeiro Jusão (o mesmo que Outeiro de Baixo)
Paço de Jus (o mesmo que Paço de Baixo. Paço=Palácio)
Pereira Jusã (o mesmo que Pereira de Baixo)
Portela de Jusão (o mesmo que Portela de Baixo)
Portela Susã (o mesmo que Portela de Cima)
Susá (Gz.)
Susã
Susana (Gz. e Pt.)
Susao (Gz.)
Susão
Susaus (Gz.)
Viladesuso ou Vila de Suso (Gz.)
Vila Jusã (o mesmo que Vila de Baixo ou Quinta de Baixo)
Vilasusá ou Vila Susá (Gal.) (o mesmo que Vila de Cima ou Quinta de Cima)
Vilasusán (Gz.) ou Vila Susan ou Vila Susã (o mesmo que Vila de Cima ou Quinta de Cima)



Mais Terras Planas

além de "Chã", "Chá" (Gz.), "Chão", "Chelo", "Chenlo" (Gz.) e "Chelinho", encontramos por aí (Gz. e Pt.) topónimos que realçam o caráter plano de uma povoação ou de um terreno em contraste com a orografia envolvente. É o caso dos derivados femininos de planarium, planaria, como "Chaira" (Gz. e Pt.), "Cheira" (Gz. e Pt.) e "Cheirinha". na região de Miranda do Douro surgem topónimos mais arcaicos, como "Chana", "Chanas" e "Chaneira".
"Chelas", feminino plural de "Chelo", poderá significar "pequenas chãs" dispostas ao longo de um vale, como é o caso da "Cheira" e do "Chelo", de Penacova.
há que dizer aqui que o que diferencia "Chão" de "Chelo" e de "Chelinho", "Chã" de "Chelas" e "Cheira" de "Cheirinha" não é a dimensão absoluta do terreno, mas sim o termo de comparação utilizado pela população que lhe deu o nome.

poderemos , então, elencar uma série de topónimos que se referem a um terreno plano, independentemente da sua dimensão:

A Chaira das Corças ou A Chaira das Corzas (Gz.)
Alter do Chão
As Chairas (Gz.)
Campos de Cheira
Casais das Cheiras
Casal da Cheira
Chã da Ilha
Chã da Lama
Chã do Boi
Chaela - informação de Carlos Durão
Chaila - informação de Carlos Durão
Chainça (Pt. e Gz.) (ver comentº)
Chainza (Gz.) o mesmo que Chainça
Chaira (Gz. e Pt.)
Chana (Mir.) o mesmo que "Chã"
Chanas (Mir.) o mesmo que "Chãs"
Chandrexa (Gz.) (?)

Chandrexa de Queixa (Gz.) (?) - segundo o meu amigo Carlos Durão, Chandrexa pode significar Chã de Eireja ou Ereija, ou Igreja. seria, pois, "chã da igreja".

Chaneira (Mir.) o mesmo que "Cheira"
Chanos (Mir.) o mesmo que "Chãos"
Chão da Capela
Chão d'Ave
Chão da Feira
Chão da Vã
Chão da Velha
Chão de Casados
Chão de Couce
Chão de Espinho
Chão do Ancinho ("Ancinho" é hidrónimo?)
Chão do Bispo
Chão dos Santos
Chãs d'Égua ("Égua" é hidrónimo?)
Chãs de Tavares
Chãs de Viseu
Chãs Grandes
Chaveã ou Chavean (Gz.) (?)
Cheela - informação de Carlos Durão
Cheira (Gz. e Pt.)
Cheiras
Cheirinha
Cheirinho
Cheirinhos
Chelas
Chelo (Gz. e Pt.)
Chenlo (Gz)
Fonte da Cheira
Foro da Cheira
Maçal do Chão
O Chao (Gz.)
Outeiro da Cheira
Quinta da Cheira
Rebordochão
rua da Fonte da Cheira
Terra Cha (Gz.)
Vila Chã
Vila Chã da Beira
Vila Chã de Barceosa
Vila Chã de Sá




quinta-feira, 22 de dezembro de 2005

O Topónimo Chelo

presente na toponímia galega e portuguesa, é o diminutivo planellum de planum: "plano", "chão". é, pois, um topónimo diminutivo de um outro topónimo, "Chão".
encontra-se onde um pequeno plano, suficiente para albergar um povoado, contrasta com um terreno irregular, de montes e vales. existe a forma "Chelo", "Chenlo" (Gal.) e o duplo diminutivo "Chelinho" (pronunc. "Chèlo", "Chèlinho"). experimentem passar por este interessante lugar , com o cuidado de não tropeçar nas vírgulas nem na ortografia

quarta-feira, 21 de dezembro de 2005

Esta Quadra de Natal, Essa Festa do Sol

no hemisfério norte, e quanto mais a norte mais assim, esta época do ano é fria, as noites são grandes, o sol é fraco. a natureza está adormecida. cada dia que passa a noite é mais comprida e o dia quase nada. o sol está doente. parece que em breve sucumbirá e tudo vai ficar escuro e frio. a neve estende o seu manto branco por toda a terra, ferindo a vista com seu brilho penetrante, imenso, gelado. a morte deve ser assim, gelada, imensa, sem ontem nem hoje.
mas eis que tudo vai mudar. parece que a noite começa a encolher, dia para dia uns minutos, meia hora, uma hora inteira. o sol invencível já não morre, ganha força de novo, renasce.
vamos festejar, porque este ano, afinal, é como o ano passado e o ano anterior e ainda o outro que se foi. a natureza precisa de passar por aqui, como precisa da primavera, do verão e do outono. aqui, no hemisfério norte. porque a terra não tem uma verdade igual para todos. do pólo norte ao sul, do equador aos trópicos, cada terra tem sua verdade e cada verdade seu ciclo.
o natal é a festa do natalis solis invictus - o nascimento do sol invencido, no dizer dos romanos. assim também a cidade de Natal, quente, ensolarada, passeando na praia e a tremer de insolação na noite de natal: é "a cidade do sol"