quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Mais Pedras na Toponímia Brasileira






desta vez, pedras em língua portuguesa
(ou como a língua pode mudar mas não muda o jeito de pensar o nome das coisas):





Bom Jesus da Lapa (Bahia)
Lageado (Tocantins)
Lageado Grande (Santa Catarina)
Lages (Santa Catarina)
Laje (Bahia)
Lajeado(Rio Grande do Sul)
Lajeado Novo (Maranhão)
Lajedão (Bahia)
Lajedinho (Bahia)
Lajedo (Pernambuco)
Lajedo do Tabocal (Bahia)
Laje do Muriaé (Rio de Janeiro)
Lajes (Rio Grande do Norte)
Lajes Pintadas (Rio Grande do Norte) - ver post anterior: "Itacoatiara"

Lajinha (Minas Gerais) - os índios diriam "Itapemirim", como se vê no post anterior

Pedra (Pernambuco) - os índios diriam "Itá" (post anterior)
Pedra Azul (Minas Gerais)
Pedra Bela (São Paulo) - ver "Itabela" no post anterior
Pedra Bonita (Minas Gerais) - ver "Itabela" no post anterior

Pedra Branca (Ceará, Paraíba) - como se vê (post anterior: "Itatim"), os topónimos repetem-se em línguas diferentes

Pedra do Anta (Minas Gerais)
Pedra do Indaiá (Minas Gerais)
Pedra Dourada (Minas Gerais)
Pedra Grande (Rio Grande do Norte)
Pedra Lavrada (Paraíba)
Pedra Preta (Mato Grosso, Rio Grande do Norte)
Pedras Altas (Rio Grande do Sul)
Pedras de Fogo (Paraíba)
Pedregulho (São Paulo)
Pedreira (São Paulo)
Pedreiras (Maranhão)
Pedrinhas Paulista (São Paulo)
Penedo (Alagoas)

Poção de Pedras (Maranhão) - creio que "poção" é aqui o mesmo que "poço grande"

Rochedo (Mato Grosso do Sul)
São José da Lage (Alagoas)

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

"Itá" e a Toponímia brasileira



em língua tupi-guarani, "yta" (itá) significa "pedra". pedra essa que "itá", só por si, não distingue de pedra preciosa, mineral e minério. e tamém por isso, "itá" entra numa grande quantidade de topónimos brasileiros de origem nativa, que, é bom de ver, já lá estavam quando os portugueses deram nome ao que faltava nomear até então.
os topónimos que designam pedras, formas de pedras, tamanho de pedras, etc., são sempre dos primeiros que surgem numa dada região, juntamente com o nome de serras, rios, fontes, planícies. não admira que a língua que lhes deu o nome seja a do povo ou a dos povos que primeiro a povoaram.
em Portugal encontramos topónimos em cand-, cant-, como, por exemplo, Candeeiros, Cantanhede, Cântaro, e em car-, carr-, como Caramulo, Carregal, etc., etc. no Brasil, encontramos ita, itá, yta. já vimos alguns destes nomes a propósito da toponímia tupi-guarani.
o topónimo em itá é completado por um segundo termo que indica as características, a côr, localização ou a quantidade.

exemplos:

Itabela (Bahia) - topónimo híbrido? se é, significa "pedra bela", do tupi-guarani "ita" (pedra) e do português "bela"

Itaberaba (Bahia) - à letra: "a pedra que brilha" (o diamante)
Itaberaí (Goiás) - à letra: "rio dos seixos"

Itabira (Minas Gerais) - à letra: "pedra empinada", "pedra erguida". não é sinónimo de "perafita", porque esta está associada a menires

Itabirinha de Mantena (Minas Gerais) - topónimo híbrido. "itabira" + diminut. port. "inha"

Itabirito (Minas Gerais)
Itabuna (Bahia)

Itacambira (Minas Gerais) - aqui "itá" significa "ferro". "ita+acanga+bira": "osso de pedra levantado" (um instrumento de ferro: tenaz, compasso, forquilha)

Itacaré (Bahia) - o mesmo que "Itacaaí"? nesse caso: "pedra santa", "altar"

Itacoatiara (Amazonas) - ver link
Itaeté (Bahia) - à letra: "pedra excelente" (ferro)
Itagi (Bahia) - "cascalho"

Itagibá (Bahia) - à letra: "braço de ferro". é o título de um chefe de tribo

Itagimirim (Bahia) - à letra, pode traduzir-se por "cascalheira miúda", isto é, "uma grande quantidade de pedras pequenas"

Itaguaçu da Bahia (Bahia) - "itaguassu": "itá" (pedra) + "guassu" (grande)

Itaguaçu (Espírito Santo) - à letra: "pedra grande"

Itaguara (Minas Gerais) - ver Comentº d'Noronha. à letra: "poço de pedra"
Itaguari (Goiás)
Itaguaru (Goiás)
Itaí - à letra: "rio das pedras"
Itaiçaba (Ceará)
Itaipaba do Grajaú (Maranhão)
Itaitinga (Ceará)

Itajá (Goiás) - à letra: "lugar de muitas pedras". em Portugal: "Cantanhede", "Carregal", "Carregosa"

Itajaí (Santa Catarina) - ver Comentº d'Noronha. à letra: "rio pedregoso"

Itajubá (Minas Gerais) - ver Comentºs. à letra:"pedra amarela" (ouro)

Itaju do Colônia (Bahia) - "itaju": "itá" (pedra) + "ju" (amarela). juntamente com outros topónimos em "itá" e "ju", refere-se à presença de ouro

Itajuípe (Bahia) - à letra: "no rio do ouro"
Itamaraju (Bahia)
Itamarandiba (Minas Gerais) - ver Comentº d'Noronha
Itamarati (Amazonas) - à letra: "rio das pedras claras"
Itamarati de Minas (Minas Gerais) - ver Comentº d'Noronha
Itamari (Bahia)

Itambacuri (Minas Gerais) - ver Comentº d'Noronha

Itambé (Bahia) - à letra: "pedra bicuda", "pedra pontiaguda". variante "Itaimbé"

Itambé do Mato Dentro (Minas Gerais) - ver Comentº d'Noronha
Itamogi (Minas Gerais)
Itamonte (Minas Gerais) - topónimo híbrido
Itanagra (Bahia)
Itanhandu (Minas Gerais)
Itanhém (Bahia) - à letra: "pedra falante", "pedra que bota um som"
Itanhomi (Minas Gerais) - ver Comentº d'Noronha

Itaobim (Minas Gerais) - ver Comentº d'Noronha. o mesmo que "Itaobi": pedra azul ou verde (esmeralda)

Itapagé (Ceará)
Itapagipe (Minas Gerais) - ver Comentº d'Noronha

Itaparica (Bahia) - o mesmo que "Itapari". à letra: "curral ou cêrca de pedra". no caso, refere-se a uma frente de recifes que protege a costa

Itapé (Bahia) - à letra: "caminho de pedra". pode ser um trilho fora de água ou dentro de água, e então, neste caso, significa "vau"

Itapebi (Bahia) - à letra: "rio da laje"

Itapeva (Minas Gerais) - ver Comentº d'Noronha. à letra "pedra chata" (lage)

Itapecerica (Minas Gerais) - ver Comentº d'Noronha. à letra: "pedra escorregadia"

Itapecuru Mirim (Bahia) - ver Itapicuru. "mirim" significa "pequeno"

Itapemirim (Espírito Santo) - à letra: "pequena laje"

Itapetinga (Bahia) - à letra: "pedra cheia de pintas brancas"
Itapeva (Minas Gerais)

Itapicuru (Bahia) - o mesmo que "Itapecuru". "laje formada por caroços ou pequenas bossas"

Itapipoca (Ceará)
Itapira (São Paulo) - à letra: "pedra alta", "penha"
Itapiranga (Amazonas) - como "Itapitanga"


Itapitanga (Bahia) - à letra: "pedra vermelha". o mesmo que "Itapitã"
Itapiuna (Ceará)
Itaporã (Mato Grosso do Sul)
Itapuã (Baía) - "cabo de pedra"
Itapuranga (Goiás) - o mesmo que Itaporanga. à letra: "pedra bonita"
Itaquara (Bahia) - à letra: "cova de pedra", "gruta"
Itaquiraí (Mato Grosso do Sul)
Itaquitinga (Pernambuco)
Itarema (Ceará) - à letra: "pedra malcheirosa" (ferro ; também enxofre)

Itatiaiuçu (Minas Gerais) - ver Comentº d'Noronha

Itatim (Bahia) - à letra: "pedra branca". aqui, "itá" significa pedra mas no sentido de metal. pode ser "gêsso", "prata", "calcário". variante de "Itatinga"

Itatira (Ceará) - à letra: "tubo de pedra" (cano de ferro)

Itaúba (Maranhão, Mato Grosso) - é o nome de uma árvore de madeira muito dura. à letra: "pedra-árvore"

Itaubal (Amapá) - parece palavra híbrida, de "itaúba" + sufixio abund. port. "-al": "lugar onde há muitas itaúbas"

Itauçu (Goiás)

Itaú de Minas (Minas Gerais) - "Itaú": "pedra negra" (pode designar certa variedade de ferro)

Itaúna (Minas Gerais) - o mesmo que "Itaú"

Itaverava (Minas Gerais) - ver "Itaberaba".


Antropotoponímia do Brasil

encerro esta tetralogia com os antropónimos mais simples: pessoas sem "doutor", "coronel", "marechal", "governador", "presidente", "capitão", etc., etc. em muitos casos são os mesmos, mas em muitos outros casos é gente que só a gente deles sabe quem foram.
às vezes é um apelido ou alcunha.
em Portugal, os antropónimos também são frequentes, a maior parte deles já demasiado antigos para que sejam reconhecidos como tal. já os vimos a propósito da toponímia de origem germânica, mas tamém os há de origem romana e árabe. os mais recentes são alcunhas ou apelidos que, em alguns casos, nem sequer se sabe de onde vieram e o que significam. por exemplo, "Pevidém" e "Calhabé". referem-se a duas figuras típicas, daquelas que nada fizeram de especial que lhes recomendasse a posteridade. uma dá nome a uma vila do concelho de Guimarães. a outra designa uma zona da cidade de Coimbra. Pevidém e Calhabé eram dois lugares isolados e sem nome quando a personagem respetiva lá viveu. ir ao Pevidém ou morar no Calhabé significava que nada mais de relevante tinha cada um dos lugares, na altura em que foram nomeados, senão a sua figura típica. o caráter arbitrário mas eufónico dessas alcunhas terá também contribuído para o seu êxito.
o caso do Brasil tem a particularidade do novo. a nós, portugueses, que convivemos há mais tempo com a História, o novo soa um pouco estranho. o inverso se passa com os brasileiros em relação ao velho.
seja como for, os antropónimos, sem mais (isto é, sem polis, lândia, etc), parece que soam melhor.

não sei se vou ignorar antropónimos da toponímia brasileira, pelo simples facto de nem sempre poder reconhecer apelidos ou alcunhas. assim como aposto forte que a imensa maioria dos portugueses não reconhecerá "Pevidém" e "Calhabé" como antropónimos. mas, em matéria de alcunhas ou apelidos brasileiros, agradecerei o contributo dos meus amigos do Brasil.

exemplos de antropónimos:

Abelardo Luz (Santa Catarina) - ver Comentº. contributo de Luís Felipe Noronha

Afonso Cláudio (Espírito Santo)
Albertina (Minas Gerais)
Alfredo Chaves (Espírito Santo)
Alfredo Vasconcelos (Minas Gerais)

Alfredo Wagner (Santa Catarina) - ver Comentº. contributo de Luís Felipe Noronha

Amélia Rodrigues (Bahia)
Angélica (Mato Grosso do Sul)

Angelina (Santa Catarina) - ver Comentº. contributo de Luís Felipe Noronha

Antônio Cardoso (Bahia)
Antônio Carlos (Minas Gerais)
Antônio Dias (Minas Gerais)
Antônio Gonçalves (Bahia)
Antônio João (Mato Grosso do Sul)
Aral Moreira (Mato Grosso do Sul)
Astolfo Dutra (Minas Gerais)
Augusto de Lima (Minas Gerais)
Aurelino Leal (Bahia)
Belmiro Braga (Minas Gerais)
Benedito Leite (Maranhão)
Benjamin Constant (Amazonas)

Bias Fortes (Minas Gerais) - ver Comentº. contributo de Luís Felipe Noronha

Cândido Mendes (Maranhão)

Careiro (Amazonas) - alcunha de comerciante? d'Noronha diz que não e explica. ver Comentº

Careiro da Várzea (Amazonas) - ver "Careiro"
Carlos Chagas (Minas Gerais)
Castro Alves (Bahia)
Catalão (Goiás)
Cavalcante (Goiás)
Cezarina (Goiás) - ?
Cícero Dantas (Bahia)
Cláudia (Mato Grosso)
Cláudio (Minas Gerais)

Colatina (Espírito Santo) - Colatina se chamava a esposa do governador que lhe deu o nome

Cristiano Otoni (Minas Gerais)
Cristina (Minas Gerais) - ver Comentº

Delfim Moreira (Minas Gerais) - ver Comentº. contributo de Luís Felipe Noronha

Delmiro Gouveia (Alagoas) - ver Comentº de Jolorib
Denise (Mato Grosso)
Diogo de Vasconcelos (Minas Gerais)
Domingos Martins (Espírito Santo)
Edealina (Goiás) - ?
Elói Mendes (Minas Gerais)
Érico Cardoso (Bahia)
Eusébio (Ceará)

Fernandes Tourinho (Minas Gerais) - o sobrenome "Tourinho" é de origem galega. e "Fernandes" pode ser também

Fernando Falcão (Maranhão)
Firmino Alves (Bahia)
Francisco Badaró (Minas Gerais)
Francisco Dumont (Minas Gerais)
Francisco Sá (Minas Gerais)
Godofredo Viana (Maranhão)

Gonçalves (Minas Gerais) - ver Comentº. contributo de Luís Felipe Noronha

Humberto de Campos (Maranhão)
Inocência (Mato Grosso do Sul) - ?
Januária (Minas Gerais) - ?
Jerônimo Monteiro (Espírito Santo)
João Dourado (Bahia)
João Lisboa (Maranhão)
João Neiva (Espírito Santo)

João Pinheiro (Minas Gerais) - ver Comentº. contributo de Luís Felipe Noronha

Joaquim Gomes (Alagoas)

José Gonçalves de Minas (Minas Gerais) - ver Comentº. contributo de Luís Felipe Noronha
Lafayette (Minas Gerais) - antiga "Queluz", tira o seu nome de Lafayette Rodrigues Pereira.

Lauro de Freitas (Bahia)

Leopoldina (Minas Gerais) - ver Comentº. contributo de Luís Felipe Noronha

Licínio de Almeida (Bahia)

Lima Duarte (Minas Gerais) - ver Comentº. contributo de Luís Felipe Noronha

Luís Domingues (Maranhão)

Mamonas (Minas Gerais) - será alcunha? d'Noronha diz que não e explica. ver Comentº

Mâncio Lima (Acre)
Manuel Urbano (Acre)
Manoel Vitorino (Bahia)
Mara Rosa (Goiás)
Mariana (Minas Gerais) - ?
Marcionílio Souza (Bahia)
Mário Campos (Minas Gerais)
Não-Me-Toque (Rio Grande do Sul) - será apelido (alcunha)?
Natércia (Minas Gerais) - ?
Nazário (Goiás)

Olímpio Noronha (Minas Gerais) - ver Comentº. contributo de Luís Felipe Noronha

Pancas (Espírito Santo) - será apelido (ou alcunha)? d'Noronha diz que não e explica. ver Comentº

Paulino Neves (Maranhão)
Paulo Afonso (Bahia)
Paulo Cândido (Minas Gerais)
Paulo Jacinto (Alagoas)
Paulo Ramos (Maranhão)
Pedrão (Bahia) - será antropónimo?
Pedro Alexandre (Bahia)
Pedro Canário (Espírito Santo)
Pedro Leopoldo (Minas Gerais)
Pedro do Rosário (Maranhão)
Pedro Teixeira (Minas Gerais)
Pescador (Minas Gerais) - será alcunha (ou apelido)?
Rafael Jambeiro (Bahia)
Santos Dumont (Minas Gerais)
Sebastião Laranjeiras (Bahia)
Tasso Fragoso (Maranhão)
Teófilo Otoni (Minas Gerais) - ver Comentºs
Teotônio Vilela (Alagoas)
Trombas (Goiás) - será alcunha?
Urbano Santos (Maranhão)
Virgínia (Minas Gerais) - ver Comentº
Vitorino Freire (Maranhão)

Wenceslau Brás (Paraná) - ver Comentº Paulo Brabo

Wenceslau Braz (Minas Gerais) - ver Comentº. contributo de Luís Felipe Noronha. também aparece grafado "Wenceslau Brás" (Paraná)

Wenceslau Guimarães (Bahia)
Zé Doca (Maranhão) - penso que será alcunha


segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

Monsenhor, Coronel, Deputado e Senador

a toponímia brasileira consagra um sem-número de figuras que em vida se destacaram ao menos na sua região específica. este procedimento não está isento de riscos, já que os heróis de ontem e de hoje passam com facilidade a vilões de amanhã. e se botar o nome de alguém a uma rua ou avenida já é o que se vê, agora imaginem botar o nome de alguém numa cidade... mas, enfim, pode bem ser que no Brasil o bom nome das pessoas de destaque perdure mais para sempre do que noutras bandas do mundo.

alguns exemplos:

Capitão Andrade (Minas Gerais)
Capitão Enéias (Minas Gerais)
Comendador Gomes (Minas Gerais)
Cônego Marinho (Minas Gerais)
Conselheiro Lafaiete (Minas Gerais)
Conselheiro Pena (Minas Gerais)
Coronel Fabriciano (Minas Gerais)
Coronel João Sá (Bahia)
Coronel Murta (Minas Gerais)
Coronel Pacheco (Minas Gerais)
Coronel Sapucaia (Mato Grosso do Sul)
Coronel Xavier Chaves (Minas Gerais)
Deputado Irapuan Pinheiro (Ceará)
Governador Archer (Maranhão)
Governador Edson Lobão (Maranhão)
Governador Eugênio Barros (Maranhão)
Governador Lindenberg (Espírito Santo)
Governador Lomanto Júnior (Bahia)
Governador Luiz Rocha (Maranhão)
Governador Mangabeira (Bahia)
Governador Newton Bello (Maranhão)
Governador Nunes Freire (Maranhão)
MajorIsidoro (Alagoas)
Marechal Deodoro (Alagoas)
Marechal Floriano (Espírito Santo)
Marechal Thaumaturgo (Acre)
Monsenhor Tabosa (Ceará)
Padre Bernardo (Goiás)
Presidente Bernardes (Minas Gerais)
Presidente Dutra (Bahia, Maranhão)
Presidente Figueiredo (Amazonas)
Presidente Jânio Quadros (Bahia)
Presidente Juscelino (Maranhão)
Presidente Kennedy (Espírito Santo)
Presidente Médici (Maranhão)
Presidente Olegário (Minas Gerais)
Presidente Sarney (Maranhão)
Presidente Tancredo Neves (Bahia)
Presidente Vargas (Maranhão)
Professor Jamil Safady (Goiás)
Senador Alexandre Costa (Maranhão)
Senador Guiomard (Acre)
Senador La Roque (Maranhão)
Senador Rui Palmeira (Alagoas)

domingo, 3 de dezembro de 2006

As "Lândias" Brasileiras

Jo Lorib nem me deixa respirar. tenho que falar de "-lândias", já.
a história é a mesma das "-polis". e se "polis" vem do grego e quer dizer "cidade", "land" vem das línguas germânicas e quer dizer "terra", "terra de...", "país de...", como "Nederland", "Deutschland", "England", "Groenland", etc.
como se vê, "land" é uma designação mais própria para regiões ou países do que, propriamente para cidades ou vilas.


exemplos:

Abreulândia (Tocantins)
Açailândia (Maranhão)
Acrelândia (Acre)
Adelândia (Goiás)

Aloândia (Goiás) - nome irregular. a terminação correcta seria "-lândia" e não "-ândia". ou terá outra explicação?

Anaurilândia (Mato Grosso do Sul)
Andrelândia (Minas Gerais)
Angelândia (Minas Gerais)
Brasilândia (Mato Grosso do Sul)
Brejolândia (Bahia)
Cassilândia (Mato Grosso do Sul)
Castelândia (Goiás)
Catolândia (Bahia)
Cidelândia (Maranhão)
Cravolândia (Bahia)
Crucilândia (Minas Gerais)
Damolândia (Goiás)
Doverlândia (Goiás)
Epitaciolândia (Acre)
Felixlândia (Minas Gerais)
Funilândia (Minas Gerais) - (este é um bom enigma)

Hidrolândia (Goiás) - neologismo híbrido, poderia ser "Hidropólis" ou "Vaterlândia". mas não é, e fica assim

Inaciolândia (Goiás)
Israelândia (Goiás)
Ivolândia (Goiás)
Joselândia (Maranhão)
Marcelândia (Mato Grosso)
Marilândia (Espírito Santo) - Cf. "Mariápolis" e "Maryland" (EUA)

Materlândia (Minas Gerais) - topónimo híbrido, de lat. mater e germ. land: à letra: "terra mãe". poderia ser "Mátria" ou "Muterlândia", para ter uma formação mais consistente. mas, na era das palavras híbridas, será um pecado menor

Maurilândia (Goiás)
Medicilândia (Pará)
Mozarlândia (Goiás)
Niquelândia (Goiás)
Nortelândia (Mato Grosso)
Nova Brasilândia (Mato Grosso)
Ourilândia do Norte (Pará)
Portelândia (Goiás)
Rondolândia (Mato Grosso)
Sanclerlândia (Goiás)
Serrolândia (Bahia)
Sidrolândia (Mato Grosso do Sul)
Simolândia (Goiás)
Tailândia (Pará)
Teofilândia (Bahia)
Teolândia (Bahia)
Turilândia (Maranhão)
Turvelândia (Goiás)

sábado, 2 de dezembro de 2006

As "Polis" do Brasil

em muitos lugares do Brasil o povoamento é tão recente que nem deu tempo de esperar pelo nome. desse jeito, houve que recorrer à palavra grega "polis" (cidade) e colar atrás a primeira coisa que veio à cabeça: o nome de uma pessoa, um desejo, uma qualidade, uma estação do ano, um característica do local, sei lá. de um modo geral, "polis" vem sob a forma "-ópolis", mas há (muito poucos) casos em que vem sob a forma "-ápolis". com excepção de uns quantos exemplos, a criação linguística soa um tanto forçada. alguns Estados do Brasil, que não têm "polis", devem ser da minha opinião: mais valia ter esperado pelo nome a sério...
mas não se magoem os meus amigos brasileiros: o pior que poderia acontecer a uma cidade seria não ter nome nenhum.

exemplos:

Adrianópolis (Paraná)
Aguiarnópolis (Tocantins)
Alcinópolis (Mato Grosso do Sul)
Alpinópolis (Minas Gerais)
Alvinópolis (Minas Gerais)
Amorinópolis (Goiás)
Anápolis (Goiás)
Areiópolis (São Paulo)
Augustinópolis (Tocantins)
Avelinópolis (Goiás)
Bonfinópolis de Minas (Minas Gerais)
Borrazópolis (Paraná)
Brasópolis (Minas Gerais)
Buenópolis (Minas Gerais)
Buritinópolis (Goiás)
Caetanópolis (Minas Gerais)
Campinápolis (Mato Grosso)
Canápolis (Bahia)
Canápolis (Minas Gerais)
Carlópolis (Paraná)
Carmópolis (Sergipe)
Carmópolis de Minas (Minas Gerais)
Carvalhópolis (Minas Gerais)
Crisópolis (Bahia)
Cristópolis (Bahia)
Cristianópolis (Goiás)
Cristinápolis (Sergipe)
Darcinópolis (Tocantins)
Davinópolis (Goiás, Maranhão)
Delfinópolis (Minas Gerais)
Deodápolis (Mato Grosso do Sul)
Dianópolis (Tocantins)
Divinópolis (Minas Gerais, Tocantins)
Divinópolis de Goiás (Goiás)
Doresópolis (Minas Gerais)
Emilianópolis (São Paulo)
Esperantinópolis (Maranhão)
Eugenópolis (Minas Gerais)
Eunápolis (Bahia)
Fernandópolis (São Paulo)
Firminópolis (Goiás)
Florestópolis (Paraná)
Florianópolis (Santa Catarina) - de "Floriano Peixoto". ver Comentº
Francinópolis (Piauí)
Franciscópolis (Minas Gerais)
Goianápolis (Goiás)
Heliópolis (Bahia)
Indianópolis (Minas Gerais)
Itainópolis (Piauí)
Janiópolis (Paraná)
Jardinópolis (São Paulo)
Jesúpolis (Goiás)
Joanópolis (São Paulo)
Junqueirópolis (São Paulo)
Lacerdópolis (Santa Catarina)
Leópolis (Paraná)
Lucianópolis (São Paulo)
Lupionópolis (Paraná)
Luzinópolis (Tocantins)
Mantenópolis (Espírito Santo)

Mariápolis (São Paulo) - é dos poucos topónimos deste grupo terminados em "-ápolis". deve-se a que o primeiro elemento da palavra é feminino. será? e "Mirandópolis"?

Marinópolis (São Paulo)
Marianópolis do Tocantins (Tocantins)
Marizópolis (Paraíba)
Marmelópolis (Minas Gerais)
Martinópole (Ceará) - forma mais aportuguesada que "Martinópolis". ver "Solonópole"
Martinópolis (São Paulo)
Mesópolis (São Paulo)
Mirandópolis (São Paulo)
Monteirópolis (Alagoas)
Mutunópolis (Goiás)
Neropólis (Goiás)
Palminópolis (Goiás)
Palmópolis (Minas Gerais)
Pedrinópolis (Minas Gerais)
Petrópolis (Rio de Janeiro)
Pintópolis (Minas Gerais)
Pirenópolis (Goiás)
Quirinópolis (Goiás)
Quiterianópolis (Ceará)
Rianápolis (Goiás)
Ribeirópolis (Sergipe)
Ritápolis (Minas Gerais)
Rondonópolis (Mato Grosso)
Rorainópolis (Roraima)
Rurópolis (Pará)
Sabinópolis (Minas Gerais)
Salesópolis (São Paulo)
Salinópolis (Pará)
Santanópolis (Bahia)
Santópolis do Aguapeí (São Paulo)
Serranópolis (Goiás)
Sertanópolis (Paraná)
Silvanópolis (Tocantins)

Solonópole (Ceará) - aqui a "-polis" está mais adaptada à língua, como em "metrópole" ("cidade-mãe", ou "mátria" - como diria Natália Correia). ver "Martinópole"

Suzanápolis (São Paulo) - ver "Mariápolis"
Teixeirópolis (Rondônia)
Tocantinópolis (Tocantins)
Ulianópolis (Pará)
Veranópolis (Rio Grande do Sul)
Vianópolis (Goiás)
Vicentinópolis (Goiás)

sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

O Glorioso 1º de Dezembro de 1640

I

à tremenda revolta da Catalunha responde Filipe IV com o abandono da guarnição militar em Portugal. e ao chefe do Governo de Lisboa, Miguel de Vasconcelos, deixam-no os de Madrid miseravelmente estantío, só e impotente. meia dúzia de fidalgos de opereta entram à vontade no terreiro e no palácio. descobrem Vasconcelos dentro de um armário. agarram com denodo no coitado e botam-no à rua por uma das janelas. enquanto a revolta catalã era esmagada.
esta gloriosa façanha, difícil de igualar em valentia e desprezo pelo risco, é lembrada ainda hoje, de ano em ano, no primeiro de Dezembro. faz agora 366 anos de bolor e naftalina.
mas é que dá jeito. é um feriado bonito. sobretudo quando calha à sexta ou à segunda. ou mesmo à quinta e à terça.

II

propriamente, esta data deveria ser comemorada pelos de Madrid. é que nom há possibilidade de uma Espanha Unitária sem a existência de um Portugal Independente. vamos por partes: o País Basco está dividido entre Espanha e França. a Catalunha está dividida tamém entre França e Espanha. e a velha naçom galego-portuguesa está por sua vez dividida entre Espanha e Portugal. sem a experimentada divisão das três nações periféricas, nom há unidade da Espanha que resista.


III

...e por que tem a Espanha que ser unitária? por que tem a Espanha que aferrar-se aos tempos tenebrosos dos Reyes Católicos e ao consulado medonho de Francisco Franco? valem a unidade de Espanha as fogueiras, os fuzilamentos, as deportações e o garrote? valem a unidade de Espanha a miserável perseguição dos costumes populares, das culturas e das línguas, dos judeus e dos intelectuais e artistas?
como conceito geográfico, a Espanha é uma só. é outra forma de dizer Península Ibérica. e parte dela somos nós tamém, os portugueses. mas como agregante étnico, cultural e linguístico, a Espanha é, e foi sempre, uma realidade plural. apesar dos terríveis intervalos de unidade à força. mas talvez esteja próximo o retorno àquela Espanha múltipla, livre e igualitária, separada, federada ou confederada pela vontade de todos, por que tanta gente tem lutado, ou simplesmente morrido, ao longo da História.




terça-feira, 28 de novembro de 2006

O "Megalitismo" por Detrás da Toponímia


notável civilização das regiões ribeirinhas do atlântico europeu, o Megalitismo foi uma civilização do Mar. desenvolveu-se na faixa atlântica peninsular ocidental, correspondendo com bastante exatidão à faixa de distribuição dos falares galego-portugueses, e também na Bretanha francesa, na Irlanda e no Sudoeste da Inglaterra.
sem vestígios de um sistema de transmissão escrita das suas bases conceptuais, podemos ver, no entanto, pelos restos descarnados dos seus singulares monumentos, uma conceção do mundo profundamente bipolar. à aparente soturnidade uterina das antas, que tem levado até a confundi-las com monumentos funerários, contrapõe-se o ar festivo e descaradamente erótico dos menires e cromeleques.
está no cerne das lendas de Compostela e de outros santuários de "finisterrae", como Locmariaquer (Fr.) e Stonehenge (Ing.)
os topónimos que se referem aos vestígios físicos dessa civilização atlântida são eles mesmos vestígios arqueológicos de uma poderosa resistência ao passo dos milénios, já que muitos sobreviveram à própria destruição dos monumentos a que dizem respeito. "Antas" e "Perafitas" perpetuam, em muitos casos, a memória de vestígios megalíticos desaparecidos na voragem do tempo ou pela destruição conduzida por civilizações menores que lhe sucederam. mas não nos devemos precipitar. estes nomes, ou topónimos, são interpretações ou apenas descrições que povos e línguas muito posteriores fizeram desses vestígios. consequentemente, ao chamarmos "anta", "arca", "mesa", "mamoa", "mámoa", "pedra erecta" ("perafita", "pedrafita"), "redondo", "redonda", e assim por diante, descrevemos vagamente a sua forma ou distribuição no lugar sem acrescentarmos nada sobre a sua função. no entanto, o conjunto de lendas que persistem à sua volta, o esforço inimaginável que a sua construção aparentemente tosca representou e a cristianização superficial que sofreram na época de S. Martinho e seus discípulos apontam, de forma insofismável, para uma função religiosa de hierarquia superior. quero dizer: uma forma muito elaborada de humanização do mistério da vida


Almodôvar - topónimo árabe que significa "O Redondo". ver "Redondo"

Anta (Pt. e Gz.) -
Anta do Gago -
Antas -
Antela (Pt. e Gz.) - diminutivo de Anta
Antes -
Arca -
Arcã -
Arcacha
Arcela - diminutivo de Arca
Arcelas -
Casa de Mouros -
Casarota -
Casota -
Castro Modorrão -
Fornela -
Forno dos Mouros -
Madorna -
Madorno -
Madorra (Pt. e Gz.) -
Madorras (Gz.) -
Madorro -
Mamarrosa
Mámoa (Gz.) -
Mamôa -
Mamodeiro
Mamoela (Pt. e Gz.) - diminutivo de Mamoa"
Mamola -
Meda -
Meda de Mouros -
Medas -
Medela (Pt. e Gz.) -
Medelinha -
Medolas -
Medorra (Gz.) - ver "Madorra"
Mesa
Mesas (Pt. e Gz.)
Mesinha
Modorra (Pt. e Gz.) - ver "Madorra"
Modorrão -
Modorrões -
Modorrones (Gz.) -
Monte d'Arca -

Mota da Cabreira - "Mota" é o nome que se dá à mamoa na Serra de Laboreiro

Mota de Meda - ver "Mota da Cabreira"
Mota Grande - ver "Mota da Cabreira"
Orca -
Paredes d'Arca -

Pedra Chantada (Gz.) - o mesmo que "pedra plantada", "pedra erguida", "pe(d)rafita"

Pedrafita (Gz.) -
Perafita -

Redonda - existe no Alentejo a igreja de Nossa Senhora da Redonda. ver "Redondo"

Redondo - traduz a ideia de um recinto redondo, de natureza sagrada.

Ribeira d'Arcas -
Portela d'Arca -

S. Brissos - discípulo de S. Martinho de Tours, dá o nome a antigos locais megalíticos. a grafia correcta seria "S. Briços" (de Britius). ver aqui

S. Martinho - é um hagiónimo muito frequente em antigos locais megalíticos. S. Martinho de Tours é tido como o apóstolo do Megalitismo.

S. Paio d' Antas -


Celtibéria remete para este post. ver aqui

sexta-feira, 24 de novembro de 2006

Navas, Naves e Navios

as primeiras aparências enganam.
estes topónimos não tenhem nada que ver com barcos nem com a navegação.
estão, antes, relacionados com a oronímia e derivam de uma raiz proto-indo-europeia, muito espalhada por todo o norte da Península Ibérica, França, Suíça e Itália, que significa um "lugar plano entre montanhas".
apesar da sua dispersão e antiguidade, tem poucas variações regionais e dialetais.

não se confunde com o céltico "navia"(*) - que originou hidrónimos como "Nabão", "Navia" (Gz.) e "Neiva" (ver aqui).


Portugal e Galiza:

Cabo da Nave (Gz.) - já o encontramos em postagem anterior

Chã da Nava - um dos muitos pleonasmos em que a toponímia se compraz. ao termo indígena "nave" juntou-se uma palavra latina com o mesmo significado

Nabais

Nabal - pelo menos alguns casos. ver "Napal", mais em baixo em "outras Espanhas"

Nabalhos (Gz.)
Nabeira (Gz.) - ver "Naveira"
Nava
Navalho
Navalhos (Pt. e Gz.)

Navarra (Pt.) - palavra euskera. neste caso, é topónimo de origem ou nome de aldeia povoada por gente vinda de Navarra (Es.)? não está excluída a primeira hipótese, até porque o significado, "Chã Grande", está de acordo com o local.

Navas
Nave

Nave de Haver - grafia equívoca. seria preferível "Nave Daver" ou "Navedaver". é simultaneamente um orónimo ("Nava", "Nave") e um hidrónimo ("Daver", do grupo "Douro", "Divor"). significa "chã da veiga do rio".

Nave de Santo António
Nave Fria
Naveira (Gz.)
Naveiras (Gz.)
Navelongo
Navio
Navezinha
Neve - pelo menos em alguns dos casos
Neves - pelo menos em alguns dos casos
Quinta da Nave
Ribeira das Naves
Vila Franca das Naves


outras Espanhas:

Arroyo de Navalconejo
La Navata
Nabarniz

Napal - (repare-se como o nome do pequeno reino do "Nepal" significa "...junto às montanhas", em sânscrito)

Navacerrada
Nava de Francia
Navalafuente
Navalagamella
Navalayegua
Navalcaballo
Navalcán
Navalcarnero
Navalcuervo
Navalmanzano
Navaluenga
Navalmoral
Navalmoral de Béjar
Navalmoral de la Mata
Navalsauz
Navamorisca
Navares da las Cuevas
Navarra - na realidade, em euskera, "Nafarroa" ou "Naparroa"
Navarri
Navarzato
Navas de Jadraque
Navas de Tolosa
Navata
Navatalgordo


França:

Nabas
Naves


Itália
:

Nave
Nave San Rocco
Pian Nava - um pleonasmo

Suíça:

Monti Nava

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(*) mas pode haver uma relação entre "nava"/"nave" e "navia": as "navas" ou "naves" são lugares úmidos, de junção de águas que descem dos cumes dos montes e, por isso, de nascimento de rios



domingo, 19 de novembro de 2006

Os "Judeus" na Toponímia

já falei de Judiarias, Mouriscas e Mourarias. mas não me referi ainda aos topónimos por aí espalhados que aludem a "judeus". não sei se todos, ou mesmo sequer a maioria, se referem aos filhos de Judá. do mesmo modo que Mouros e Mouras, enquanto topónimos, se não referem aos nossos vizinhos do Magreb.
é assunto para investigar com mais demora e lucidez.
de facto, estes topónimos aparecem em lugares onde é improvável a presença de populações de origem judaica. e têm uma especial predilecção por fontes, rios, vales e montes. em alguns casos, sobretudo orónimos e hidrónimos, é possível que se trate de homofonias evolutivas de palavras diferentes. noutros casos, pode tratar-se de alcunhas. já em Barcelona estranhei que o célebre Montjuich se traduzisse por "Montejudeu".
não serão "judeus" a mais?







exemplos:

Alcaria de Judeu - "alcaria" é "aldeia", em árabe. mas se esta aldeia tivesse sido realmente habitada por filhos de Judá, seria "Alcaria dos Judeus" e não "de Judeu". o mesmo se passa com "Rio de Judeu"

Alto da Judeia (Algarve, Serra do Caldeirão)
Azenha do Judeu
Chan de Xudeus (Gz.)
Corte do Judeu
Fonte Judeu Morto (Algarve, Castro Marim)

Jódar (And., Província de Jaén) - é o protótipo do grupo, quer pela sua origem linguística quer pela sua localização, numa planície cercada de montanhas

Judeu Morto
Judias

Jueus (Pt. e Gz.) - esta forma, quanto a mim, descarta a hipótese dos filhos de Judá. ver Comentºs.

Lombo da Achada do Judeu (Madeira)
Malhada do Judeu (Algarve, Tavira)
Monte da Judia
Monte Judeu

Poio do Judeu - ver Comentº. ver também este link. tendo em conta as lendas que rodeiam este "poio" (penedo), não me parece que o termo "judeu" seja pejorativo, ao contrário do que já admiti. é possível que aqui o "judeu" seja uma evolução fonética convergente de um termo pré-romano, ibérico, sjodar, que significa "uma planície no meio de montanhas". nesse sentido, seria equivalente de nava, nave, também de origem pré-romana e pré-céltica. o que estaria de acordo com a situação do "poio" na Nave de Santo António.

Porto de Judeus
Porto Judeu (Açores)
Rio de Judeu - ver "Alcaria de Judeu"
Vale das Judias
Vale do Judeu
Vale dos Judeus
Vale Judeu

quinta-feira, 9 de novembro de 2006

Talassotoponímia ou Toponímia Marítima


talassotoponímia refere-se aos nomes relacionados com o mar (grego thalassa: "mar"). são, pois, nomes que foram postos por quem fez do mar a sua terra e do barco a sua habitação primeira.
os marinheiros são gente dura, testada em tormentas e perigos, que sempre dependeu, ou julgou depender, dos favores e dos caprichos dos deuses. por isso, nomes e nomes de deuses e de santos foram dados a cabos, ilhas, aldeias, vilas e cidades da beira-mar.




Açores - em Portugal Continental, "Açor" e "Açores" são orónimos, nomes de serras ou lugares elevados. não haverá razão para que o nome do arquipélago tenha origem diferente. já me referi ao assunto. os milhafres e os açores ficam muito bem nas bandeiras, mas encaixam mal na Toponímia.


Abrolhos (Br.) - ver Comentº. de Jolorib
Albufeira - do árabe. significa "lago", "lagoa", "enseada estreita".
Angra - pequena enseada. praticamente o mesmo que "Calheta"
Angra do Heroísmo
Angra dos Reis (Br.)
Angrinha

Árvore - já me referi a este topónimo, a que julgo corresponder o significado de "porto"

Bahia (Br.)
Baía
Baía de Guanabara (Br.) - é um pleonasmo: "baía de baía"
Baía de Todos os Santos (Br.)
Baiona (Gz.)

Berlenga - são mais as hipóteses que as possibilidades. tal como "Estelas" e "Farilhões", cada qual na sua língua original, deverá referir-se ao carácter rochoso do pequeno arquipélago à vista de Peniche

Berlengas - ver "Berlenga"

Brasil - a tese do "pau-brasil" tem o valor que tem. já me referi ao assunto. penso tratar-se de um talassotopónimo - o que, fazendo embora mais sentido, tem, também e evidentemente, o valor que tem. na Ilha Terceira, junto à cidade de Angra do Heroísmo, existe o Monte Brasil

Buarcos - (?)
Cabedelo - diminutivo de "Cabo"
Cabo
Cabo Corrubedo (Gz.)
Cabo da Nasa (Gz.)
Cabo da Nave (Gz.)
Cabo de Estaca de Bares (Gz.)
Cabo de Home (Gz.)

Cabo de Sagres - "Sagres" reproduz a fonética meridional de "Sacros", termo com que os cartagineses designavam o Algarve e a Andaluzia

Cabo de Santa Maria (Pt. e Br.)
Cabo de São Roque (Br.)

Cabo de São Cibrão (Gz.) - também grafado "Cabo de San Cibrán". "Cibrão"/"Cibrán"/"Cibrao" são formas evolutivas de "Cipriano"

Cabo de São Vicente
Cabo Espichel

Cabo Fisterra (Gz.) - todos os cabos são finis terrae, lugares "onde a terra se acaba e o mar começa". mas uns são mais finisterra que outros. na Idade Média, os peregrinos de Compostela terminavam a sua Peregrinação em Fisterra, para assistirem à "morte do Sol"

Cabo Sardão - este nome "Sardão" está relacionado com "Sardinheira" (Gz.) e "Sardenha". já me referi a este assunto. para uma informação mais completa, ver também os Comentários

Cabo Verde

Calheta - é um diminutivo. significa uma "pequena calha" ou "angra pequena"

Cambados (Gz.) - faz parte de uma série de topónimos galegos e portugueses com base na raiz celta comb-/camb-: "curvo". refere-se a "baía"?

Catoira (Gz.) - nome pré-romano, de significado ainda obscuro. situada na Ria de Arousa, junto à desembocadura do Rio Ulha, Catoira foi até ao séc. XVI um lugar estratégico de defesa de Compostela. está muito ligada às invasões normandas dos anos 1000, de que ainda se cultiva a memória, como a realização da Romaria Víquingue.

Corcubióm (Gz.) - tamém grafado "Corcubión". do céltico "corcu" (círculo)+"beón" (lago): "baía redonda"

Costa da Morte (Gz.) - esta região de finis terrae era já conhecida por "região da morte" ou "região da desgraça" (Dutika Mere) pelos antigos gregos. é um nome duplamente merecido: num sentido, é a região onde o sol mergulha diariamente no Hades; num sentido mais literal, é uma região de naufrágios e desgraças marítimas, como o recente naufrágio do Prestige.

Coz - povoação perto de Alcobaça, o seu nome é de origem desconhecida. pode ser um talassotopónimo, se tivermos em conta que se situa no extremo interior de uma antiga ria. não sendo de admitir uma relação com a ilha grega de "Cós", como alguém aventou, já será admissível uma relação com "Côja", que, aliás, é um hidrónimo

Enseada (Pt. e Br.)
Enseadinha (Br.)

Ericeira (Pt. e Br.) - os topónimos brasileiros com este nome são transposições da Ericeira portuguesa. não conheço explicação plausível para este topónimo, que, no entanto, como "Lavadores", "Leixões", "Pedrógão", "Moel", "Peniche", "Cascais" e outros, terá que ver com o carácter pedregoso da costa.

Espanha - muito se tem tocado na corda fenícia isephanim, uma verosímil (*) mas ridícula "Ilha dos Coelhos", que não teria qualquer paralelo noutro lado. tem, porém, o mérito de atribuir um significado talassonímico a esta palavra antiquissima. sob a forma Hispania, os romanos adaptaram ao latim uma designação anterior. é possível que exista um parentesco linguístico e semântico entre "Hispania" e "Hispalis" - o antigo nome de Sevilha

Estarreja - topónimo de origem obscura. tem ressonâncias euskera, como Biarritz

Estelas - ver "Berlenga"

Faralhons (Gz.) - também grafado "Os Farallóns". são pequenas ilhotas situadas defronte do Cabo de São Cibrão, no concelho de Cervo

Farelhão - penedo alto e estreito que emerge do mar
Farilhões - ver "Farelhão"

Foz - a palavra "foz" significa boca (em inglês:mouth, como Portsmouth, Plymouth).

Ilha de Diu (Índia, antiga Índia Portuguesa) - é um pleonasmo, já que "Diu" significa "ilha"

Ilha de Sálvora (Gz.) - na boca da Ria de Arousa
Ilha de Santa Catarina (Br.)
Ilha de Santa Luzia (C.V.)
Ilha de Santa Maria
Ilha de Santiago (C. V.)
Ilha de Santo Antão (C. V.)
Ilha de São Jorge
Ilha de São Miguel
Ilha de São Nicolau (C.V.)
Ilha de São Tomé (S.T.P.)
Ilha de São Vicente (C. V.)

Ilhas Cies (Gz.) - salta à vista a semelhança com "Skye", ilha das Hébridas, Escócia

Ilhas Ons (Gz.) - esta designação parece estar relacionada com o meio aquático. não admiraria que fosse um pleonasmo, daqueles em que a toponímia é tão rica

Ilhas Sisargas (Gz.)
Ilha Terceira

Leixão - ver "Leixões"
Leixão da Cruz
Leixões - são pequenos recifes
Moel - ver "São Pedro de Moel"
Muel - ver "São Pedro de Moel"

Nazaré - a "Senhora da Nazaré" é o avatar de uma antiga deusa mediterrânica (fenícia?) protectora dos navegantes. é um culto muito difundido na costa portuguesa a sul do Cabo Mondego.

Ovar - o termo "vareiro"/"vareira", para os habitantes de Ovar e para designar a costa entre o Porto e Aveiro, bem como o termo "varina", para designar as vendedeiras de peixe, parecem indicar que "Ovar" está por "O Var".

Peniche - do céltico "pen-" (rochedo) + "iche" ( grande? muitos?). tendo em conta que Peniche foi uma ilha em tempos recentes, será a continuidade semântica e geográfica das actuais Berlengas. para os marinheiros, seria o recife maior desse conjunto. "Peniche" tem semelhanças e parentesco linguístico com "Carriche" [de "karr-" (pedra)+"iche": carregal, pedregal]

Ponta
Ponta Delgada
Ponta do Sol
Ponta Grossa (Br.)
Ponta Negra (Br.)
Pontinha
Portimão
Portinho
Porto
Porto do Som (Gz.)
Porto Novo
Porto Santo
Porto Seguro (Br.)
Praia
Praia da Vitória
Quiaios - já me referi a este assunto
Quimbres - ver "Quiaios"
Quinhendros - ver "Quiaios"
Recife

São Pedro de Moel - também grafado "São Pedro de Muel". origem pré-romana. este topónimo parece relacionado com as palavras "molhe", "mola", "moer" (moinho, moleiro, molar). em qualquer dos casos, com pedras. o local é testemunha de uma catástrofe geológica que atingiu a costa hoje portuguesa há uns bons milhões de anos, daqui até Peniche e Ericeira: o rasgão planetário que afastou a Europa da América do Norte.

Sardinheira (Gz.) - também grafada "Sardiñeira". ver post
Sines - ao que se julga, é a fonética meridional do latim sinus, "baía"
Terra Nova - que os ingleses traduziram por New Found Land


..................................................
(*) - não tão verosímil assim. para quem navega no Mediterrâneo de leste para oeste é impossível confundir a Península Ibérica com uma ilha. se os fenícios a confundiam com uma ilha, que haveriam eles de dizer da Grécia e da Itália...


sábado, 4 de novembro de 2006

Sevilha


este topónimo aparece em Portugal em transposições do nome da cidade andaluza, mas também existe uma Sevilha, em Tábua, que me parece uma designação de origem.
para deslindar a etimologia de Sevilha há que remontar a épocas anteriores ao domínio de Roma.
gregos e romanos adaptaram o vocábulo de língua desconhecida, ao qual deram a forma Hispalis. os árabes, adaptando por sua vez o topónimo já latinizado, chamaram-lhe Ixbília - de onde descende em linha directa o actual nome Sevilha.

onde não existe uma luz que nos abra caminho, há quem enxergue neste topónimo um vocábulo semita, pois que sefelah significa "chão, lugar plano", em hebraico, e safal significa "fundo, baixo", em árabe. a primeira acepção convém à Sevilha andaluza, a segunda acepção encaixa melhor na Sevilha de Tábua.
se a etimologia semita fizer vencimento, o vocábulo terá sido trazido pelos fenícios. coisa pouco ou nada impossível, dada a localização de ambas junto de velhas rotas comerciais daqueles mercadores mediterrânicos.

(uma outra hipótese é uma origem tartéssica, mas aí o topónimo fica completamente às escuras).


topónimos derivados:

Corte Sevilha
Sevilhão - significa "lugar povoado por gente oriunda de Sevilha"


segunda-feira, 23 de outubro de 2006

Pondelgada, Ponferrada


Ponta Delgada deve o seu nome ao facto de ter sido fundada junto a uma ponta rochosa muito estreita, onde mais tarde seria edificada a ermida de Santa Clara. entre esta Ponta e a Ponta da Galé forma-se uma enseada, comprida de três léguas.
ouve-se frequentemente os seus habitantes chamar-lhe Pondelgada - o que tem a ver com as particulardades dos falares micaelenses.
o povoamento da Ilha de São Miguel, iniciado nos anos quatrocentos, fez deslocar para lá sobretudo gente do Alto Alentejo, da região de Nisa - coisa bem aparente ainda hoje, não só no falar como tamém na quantidade de casas alentejanas que encontramos na ilha.
quem conheça os falares da Beira Baixa e do Alto Alentejo, como os da Sertã, Abrantes, Nisa e Mação, certamente encontrará de imediato notáveis semelhanças: a começar pelo chamado "u francês".
outra característica dos falares de S. Miguel é o relevo da tónica, que faz silenciar ou desaparecer o resto da palavra. assim, pelo menos na boca de alguns falantes, "Ponta Delgada" fica reduzida a "Pondelgada".
mas não penso que seja um exclusivo dos Açores. o nosso património linguístico prevê que isto suceda. na comarca de O Berço (ou El Bierzo), província de León, de influência linguistica galego-portuguesa, encontramos Ponferrada, cidade templária do Caminho de Compostela.
"Ponferrada" evoluiu de "Ponte Ferrada", latim ponte ferrata, isto é, "ponte (feita, segura, reforçada) com ferro(s)" - mas não "ponte de ferro".

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nota desnecessária: "Ponferrada" é grafia oficial, "Pondelgada" não

terça-feira, 10 de outubro de 2006

domingo, 8 de outubro de 2006

A Língua de M.

M. é jornalista de peso. presumo que o seu cachê reflectirá o peso que tem. dou isso de barato.
mas os seus horizontes linguísticos é que são demasiado curtos.
a propósito dos desafios que a China representa para muitos países potenciais concorrentes, ele soube que o Brasil está atento. que estuda a China. que se prepara. que faz o que tem a fazer. e M. mostra um livro publicado no Brasil sobre isso mesmo: o desafio da China. e explica que o livro está em brasileiro.
quero crer que sim. não seria de supor que estivesse em argentino, mexicano, americano, quebequense, australiano, sei lá.

mas...por quê a necessidade daquela "precisão"?
é que, se está em "brasileiro" é porque - suponho - não estará em português. e então imagino que M. entenderá por português uma língua a que não possa acrescentar-se nenhum qualificativo mais. uma língua minoritária ao quadrado. saloia. um dialecto europeu da região de Sintra e arredores. onde cabe Lisboa e M. e nada mais.





M. de míope?
e que culpa temos nós?

sexta-feira, 6 de outubro de 2006

A Granja



"Granja" é uma propriedade ou casal rústico com todos os vivos, safras e apetrechos. no Alentejo será "o Monte". para os romanos seria a "villa".

exemplos de Granja:

A Granja (Gz.)- graf. altern: "A Granxa"
Granja (Pt., Gz. e Br.)
Granja de Meanho (Gz.) - graf. altern. "Granxa de Meaño"
Granja do Gesto (Gz.) - graf. altern: "Granxa do Xesto"
Granja do Ulmeiro
Granjinha - diminutivo de Granja
Granjola (Pt. e Gz.) - diminutivo de Granja
Granja Viana (Br.)


quinta-feira, 5 de outubro de 2006

A Gândara


"Gândara" e suas variantes e diminutivos constituem um grupo de topónimos muito difundido em Portugal, na Galiza e nas Astúrias. tem o seu quê de desconcertante, na medida em que existe consenso no seu significado: "charneca", "terreno inculto e árido", "terreno arenoso e estéril", "zona baixa da montanha, rasa e pedregosa onde crescem torgas e giestas", "planície inculta, rasa, terreno pedregoso", "terreno alagado, arenoso, pantanal". terá origem no pré-indoeuropeu gand /kant, que se relaciona com o sentido de "pedra", "rocha" - como Canda e Cando (Gz.), Candeeiros, Candosa, Cantanhede, etc.
conheço, pelo menos, duas Gândaras a que esta explicação se pode aplicar com propriedade: a Gândara de Montedor (Pt., Viana do Castelo) e Gándaras de Budinho (Gz., Porrinho)
o problema é que, na sua imensa maioria, estes topónimos estão relacionados com uma frutuosa atividade agrícola e agropecuária - o que parece um contra-senso.
no Centro de Portugal, espalhada pelos concelhos de Mira, Tocha, Cantanhede, Montemor-o-Velho e Figueira da Foz, existe a Região Gandaresa, ou da Gândara, de intensa atividade agropecuária.
a verdade é que esta região, tal como as Gafanhas vizinhas, resulta da vontade do homem de transformar a natureza de acordo com as suas necessidades. nem sempre com os maus resultados de que por aí se fala...

exemplos:

A Gándara (Gz.)
A Gándara de Guilharei (Gz.)
Fonte da Gándara (Gz.)
Gândara
Gândara de Montedor
Gândara dos Olivais
Gandarela
Gandarela de Basto
Gandarinhas (Pt. e Gz.)

Gandra (Pt. e Gz.) - é uma variante dialetal e não uma corrupção de "Gândara", como por aí se lê

Granda (Pt., Gz. e Ast.) - variante dialectal de "Gândara", "Gandra"
Grandela (Gz.) - diminutivo de "Granda"
Moínhos da Gândara
Salvador de Gandarela
S. Martinho da Gândara

Serra da Gandarela (Br.) - em Minas Gerais. desconheço o porquê da transposição deste nome



terça-feira, 3 de outubro de 2006

As Gafanhas


Ílhavo é um município que confina com o mar. o seu nome, de ressonâncias pré-romanas, parece remeter-nos para as águas: a do mar, a do Vouga e a da ria. a primeira parte do nome, Illi-, encontra-se hoje nos topónimos bascos com o significado de "cidade"; a segunda metade do topónimo, - avu, está na composição de um sem número de hidrónimos portugueses e galegos - ver post.

sendo assim, ter-lhe-ão chamado então o nome que ainda hoje merece: "A Cidade do Rio" ou "A Cidade da Água".

está hoje separada do mar pela Costa Nova - nome que ilustra bem as transformações que o desenho desse litoral vem sofrendo em séculos recentes.




a vizinha cidade de Aveiro, linguística e semanticamente aparentada, usurpou o nome do porto, pois que o porto é pertença do município de Ílhavo; e o da "ria", que, embora tenha por nome "Ria de Aveiro", se expande pelos municípios de Ovar, Estarreja, Murtosa, Aveiro, Ílhavo, Vagos e Mira.






um terceiro município, o de Vagos, ajuda a fazer o cerco da "ria" pelo sul. o seu nome não esconde o parentesco com o hidrónimo Vouga, o rio cujos aluviões transformaram, ao longo dos séculos o desenho da costa. este nome pré-romano Vacus, depois Vagos, pode referir-se ao rio Vouga ou à tribo ou tribos que povoavam a margem esquerda da sua foz.
é como se quisesse dizer "os do Vouga".
hoje afastada da costa pela ria e pelas dunas, Vagos foi, em tempos, um porto de mar - do qual restam vestígios arqueológicos. e o Vouga, que foi mudando de foz com o decorrer dos tempos, tempos houve em que desaguava por aí.

a costa arenosa que a separa do mar tem o nome de Costa Vagueira (pronúncia: "vàgueira") ou simplesmente Vagueira: a costa "de Vagos".




na verdade, a Ria de Aveiro é uma laguna. não é como as verdadeiras Rias galegas, formadas por um braço de mar que penetra terra dentro. é, antes, o resultado de um arrastamento milenar de sedimentos trazidos pelo Vouga e por rios e ribeiros como o Águeda, o Antuã, o Cértoma, o Levira e outros, que vão fazendo com que o mar recue visivelmente de século para século.

do equilíbrio dinâmico entre mar, "ria" e rio Vouga, e do colossal labor dos homens, surgiram as "gafanhas": terras áridas fertilizadas pelo moliço da "Ria".

o moliço é o nome que se dá ao adubo natural feito de plantas subaquáticas que vivem na Ria de Aveiro. constituído sobretudo por erva-do-mar e vários tipos de algas, a sua composição varia consoante o grau de salinidade da água e o tipo de sedimentos. o mais procurado é o moliço da metade norte da Ria.
as plantas que compõem o moliço servem de refúgio e alimento aos peixes jovens, contribuem para a produção de detritos nutritivos, fazem acumular matéria orgânica e energia e estabilizam os sedimentos do fundo. as populações locais aprenderam a ver nele um poderoso fertilizante natural capaz de transformar terrenos arenosos e áridos em terrenos de grande fertilidade: as "gafanhas".


a apanha do moliço faz-se com barcos moliceiros, embora também possa fazer-se com bateiras. mas o moliceiro é o barco por excelência adaptado a essa função, tendo uma capacidade de carga de cerca de 3 toneladas, ou mesmo mais (até 5 ton.), em águas pouco profundas. a forma peculiar do moliceiro tem sido atribuída a uma influência viking (*), tal como a pele branca e sardenta e os cabelos ruivos de alguns tipos populacionais da região.

a recolha e distribuição do moliço constituiam há cem anos atrás uma poderosa actividade económica. as alterações políticas, sociais e económicas, a chegada dos adubos químicos e os condicionalismos da política agrícola da União Europeia levaram ao declíneo desta actividade.
além disso, o impacto ambiental das obras do porto fez com que a produção de moliço baixasse drasticamente no último meio século.

as Gafanhas começaram a ser povoadas em finais do séc. XVII, com gente de Vagos - município a que estiveram ligadas até 1856. já no séc. XX, deu-se um forte repovoamento com gente oriunda de várias partes do país, constituindo um acervo populacional diferente do que existia na região. isso criou uma certa animosidade e rivalidade mútuas, talvez mais folclórica que real. embora povoadas há cerca de 350 anos - o que é manifestamente muito pouco tempo em termos europeus - , não há certezas sobre a origem da palavra "gafanha". é um termo praticamente exclusivo da região (ver Comentº).

e apesar do esforço bem sucedido de fertilização dos terrenos arenosos, as Gafanhas nem sempre conseguiram assegurar o sustento de seus filhos. ondas migratórias fizeram espalhar gente da sua gente pelo Brasil, Venezuela, Estados Unidos e Canadá.

as Gafanhas:

Gafanha da Boa-Hora (município de Vagos)
Gafanha da Boavista (município de Ílhavo)
Gafanha da Mota (município de Ílhavo)
Gafanha das Fidalgas (município de Ílhavo)
Gafanha da Vagueira (município de Vagos)
Gafanha de Aquém (município de Ílhavo)
Gafanha da Encarnação (município de Ílhavo)
Gafanha da Nazaré (município de Ílhavo)
Gafanha do Areão (município de Vagos)
Gafanha do Carmo (município de Ílhavo)

os habitantes das Gafanhas chamam-se "gafanhões", mas tamém há quem lhes chame "gafanheiros".
o desenvolvimento e a semelhança histórica, cultural, social e económica deste conjunto regional conduziu à proposta de criação do município da Gafanha - o que não se concretizou até agora.


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(*) há quem veja no moliceiro uma reminiscência do drakkar ("dragão") viking:





segunda-feira, 2 de outubro de 2006

Um Ano de Vida

completam-se 12 meses sobre o início de Toponímia Galego-Portuguesa e Brasileira. o que começou por ser um despretencioso blogue de apontamentos, com a finalidade única de reunir em suporte virtual as ideias que o tempo foi formando, revelou-se, afinal, algo mais ambicioso. a "rede" começou a interagir. do Brasil, da Galiza e de Portugal criou-se um grupo de frequentadores assíduos, cuja intervenção ditou, muitas vezes, o rumo do blogue. não posso esconder o encorajamento recebido de Jolorib (Br.), Calidonia (Gz.), Imprompto (Pt.), D'Noronha (Br.), Rua da Judiaria (Pt.), Homedareia (Gz.), Quitanda do Chaves (Br.), Da Condição Humana (Pt.), A Tola do Monte (Gz.), por esta ordem de chegada. sendo que a minha actividade principal não é esta, devo à Frota Honorária (e a mais algumas barquinhas de estimação) a energia afectiva necessária para manter o blogue activo até aqui.
muito obrigado a todos.





sexta-feira, 29 de setembro de 2006

Raias e Fronteiras


o topónimo "Fronteira", simples ou composto, é mais frequente em Espanha (Andaluzia - An.) que em Portugal - e não se refere à linha divisória entre os dois países. é a cristalização de um período de relativa estabilidade na linha divisória entre o mundo cristão e o mundo muçulmano, sendo que, pela sua localização bastante a sul, corresponde a uma época já tardia do domínio muçulmano na Península (o Reino de Granada).
o topónimo Fronteira não o conheço na Galiza, nem junto a León nem perto de Portugal.
a fronteira luso-espanhola é conhecida por "Raia", que pode ser "sêca" se não for formada por um rio. em Goa, na antiga Índia Portuguesa, também existe o topónimo "Raia".
fronteira mais velha é a designada pela palavra "Extremadura" (Es.) ou "Estremadura" (Pt.), que significa, genericamente "o território que extrema", ou faz fronteira. no caso, com os reinos mouros tamém. mas, parafraseando a lápide da catedral de Zamora, esta é uma fronteira milenar que separa o Norte do Sul, que põe em contacto a Europa do norte com as sucessivas culturas das margens mediterrânicas.

sobre este assunto pode consultar-se ainda o post "Marcos, Malhões e Fronteiras"

exemplos:

Aguilar de la Frontera (An.)
Arcos de la Frontera (An.)
Castellar de la Frontera (An.)
Cerrado da Raia (Pt.)
Chiclana de la Frontera (An.)
Conil de la Frontera (An.)
Cortes de la Frontera (An.)
Extrema (Br.) - ver Comentº
Estremadura (Pt.)
Extremadura (Pt.)
Fronteira (Br.)
Fronteira (Pt.) - vila do distrito de Portalegre
Fronteira dos Vales (Br.)
Fronteiras (Br.)
Jerez de la Frontera (An.)
Jimena de la Frontera (An.)
Morón de la Frontera (An.)

Oliva de la Frontera (Est.) - esta localidade estremenha, junto à fronteira com Portugal, deverá constituir um dos poucos exemplos em que o termo "fronteira" se refere aos dois estados ibéricos

Palos de la Frontera (An.)
Raia (Goa)
Raia dos Vales (Pt.)
Raia Seca (Pt. e Gz.)
Salvaterra do Extremo (Pt.)
S. João da Fronteira (Br.)
Três Fronteiras (Br.)
Vila Verde da Raia (Pt.)


quarta-feira, 27 de setembro de 2006

Os Templos dos Castrejos

apresentado por Jolorib, depressa o blogue de Manuel Anastácio se me tornou de leitura regular. e dou hoje de caras com esta postada especial: "Pormenores: Suásticas Castrejas da Citânia de Briteiros". onde se fala tamém dessas construções enigmáticas como a que a foto nos mostra.
tema que me movimenta os miolos há uns anitos bons, levou a fazer-lhe um comentário em primeira mão.
reproduzo-o aqui, com algumas revisões e correções. a foto é do blogue d'A Condição Humana.


















tenho reparado, aqui e ali, na presença dessas construções castrejas, de que a de Briteiros, por força das minhas origens, é necessariamente a primeira.
porém está descontextualizada, por falta de continuidade histórica até hoje. e, sendo assim, fica à mercê da imaginação dos arqueólogos.
sem mencionar mais, lembro a pequena capela que existe nas Termas de S. Pedro do Sul, junto ao complexo balneo-religioso romano.
é uma capelinha minúscula feita sobre ruínas de pequenos templos anteriores - garantia de uma continuidade no tempo, no lugar e na função.

a construção mais antiga está representada por várias pedras, uma delas embutida naquilo que agora constitui a cabeceira exterior(*) da capela. à qual não há como roubar-lhe a sua proveniência castreja nem lhe negar o paralelo com Briteiros.
a questão é esta: os castros são povoados, vivia neles gente, famílias, clãs, talvez uma tribo inteira. a que corresponde uma religião, um culto, uma crença, uma cosmogonia, uma visão do mundo. os trísceles e suásticas são um aspecto simbólico dessa religião ou dessa cosmogonia. a minha escolha do tríscele como emblema do blogue tem que ver com isso.
mas onde tinham os castrejos os seus rituais, os seus marca-passos sezonais, as suas cerimonias que os re-ligasse, a sua relação formal com o divino? onde estão, simplesmente, os templos castrejos?

a mim nunca ninguém me falou neles, nem de boca nem de livro.
mas eu penso que estão precisamente aí, nessas capelinhas minúsculas, ao fundo dos povoados castrejos, perto de linhas de água.




fogo, fumo, fuligem, tochas, velas nos templos, queima de incenso? em quais é que não há? serão, só por isso, fornos crematórios?
lugar de cerimónias de iniciação e de outros rituais? que templos o não são?
são pequenos? não são ainda mais pequenos os sacrários e os nichos das religiões de hoje?

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(*)
existe uma tendência regular para que a parte exterior das cabeceiras das igrejas e capelas cristãs exiba a forma de culto, ou de invocação religiosa, mais antiga do local. quem quiser comprová-lo vá, por exemplo, ao exterior da cabeceira da sé de Braga. aí se depara com o nicho da Senhora do Leite, a invocação da Mãe Terra por excelência (depois Ísis, depois Santa Maria) .
e querem saber? nas escavações levadas a cabo na Sé apareceu a imagem de Ísis, culto equivalente trazido por soldados orientais integrados no exército de Roma. e a invocação actual da sé: Santa Maria!

terça-feira, 26 de setembro de 2006

Mesquitas e Mesquitelas a norte do rio Douro



é muito estranha a existência de "Mesquitas" e "Mesquitelas" na toponímia galego-portuguesa a norte do rio Douro ou mesmo a norte do Mondego, em lugares onde é quase seguro que não pararam os mouros tempo que chegasse para as construir, quanto mais para as frequentar à sexta-feira - como é de preceito.

e se há no norte de Portugal e na Galiza a possibilidade de seguirmos os templos pagãos e suevo-visigóticos, por que não haveríamos de saber onde ficavam situadas as almasjid?

há topónimos de origem árabe cujo significado é "a mesquita " (islâmica), como "Almoçageme".

e mais: o sobrenome "dá Mesquita" é uma anomalia de peso. parece pedir um "a", antes de "mesquita", ou seja "da Amesquita". é caso único nos sobrenomes de origem toponímica, o que torna praticamente irrefutável a sua origem num topónimo Amesquita (*). e, a ser assim, lá estará, uma vez mais, a escrita traindo a oralidade.

na Galiza, existe uma Mesquita, tamém há quem escreva ou escrevesse A Mezquita e La Mezquita (onde este z dá que pensar) - a qual, pela sua localização tão a norte, dificilmente terá sido alguma vez "o lugar de prostração"(al-masjid) dos muçulmanos. a existência do diminutivo Mesquitela põe-me tamém na retranca.
constato, porém, que os mestres acreditam na tese da mesquita islâmica.

fazendo uma incursão por todo o norte da Península, encontro o topónimo euskera "Amezketa", o mesmo que "azinhal" ou "carrascal", na Província de Guipúzkoa, País Basco.
ainda em Euskadi, encontramos "Amezaga" (Província de Araba ou Alava), de ametz+aga, com significado muito próximo do primeiro.
e "Amezkoa", Alta e Baixa (Província de Nafarroa ou Navarra), em que "-koa" tem carácter genitivo, como se disséssemos "A do Azinho" ou "A da Azinheira".
uma característica curiosa destes locais é a sua tendência para os vales e encostas abruptas.


e pode bem ser que esteja aqui o segredo bem guardado das Mesquitas a norte do rio Douro - ou mesmo a norte do Mondego.


o topónimo guipuscoano "Amezketa" situa-se em terreno abrupto, na encosta de um monte e tem um rio que corre lá embaixo. a palavra resulta de "ametz" (azinho, carrasco) e "k-eta" (sufixo abundancial e colectivo). este padrão paisagístico é comum em várias povoações do norte peninsular e mesmo em regiões das Beiras, em Portugal.

a sul do rio Douro, também há topónimos em "Mesquita", simples e compostos. mas a palavra "Mesquita" pode aqui ter proveniências diferentes, cuja evolução fonética acabou por convergir: "amezketa" (azinhal, carrascal) e "al-masjid" (a casa de oração). distinguir uma origem da outra irá começar pelo aspecto do local e pelo tipo de história da ocupação mourisca.

no Brasil, a "Mesquita" tem uma de duas origens: ou é transposição de toponimo português ou resulta de homenagem a alguém com esse sobrenome. o mesmo se existir "Mesquitela".

quanto à origem do sobrenome Mesquita, é basicamente lendária e brumosa, tal como a dos topónimos correspondentes, tentando casar "al-masjid" com "amezketa". na realidade, consegue-se extrair da lenda alguns elementos com que é possível trabalhar: 1- quatro cidades, Braga, Miranda, Lamego e Viseu - que seguram a mão de "amezketa"; 2-uma actividade militar no norte de África, com passagem por mesquitas - que segura a mão de "almasjid". o casamento é perfeito.
o problema é Mesquitela...

alguns exemplos de "Mesquitas":

A Mezquita (Gz.)

Mesquita (Pt., Gz. e Br.) - nem tudo se resume a almasjid e amezketa. alguns topónimos compostos resultam de um sobrenome, do proprietário por exemplo

Mesquitas - este plural é esquisito. já uma masjid é muito, que fará mais que uma...pode tratar-se, no entanto, do sobrenome de família dos (primeiros) proprietários

Mesquitela - os diminutivos, indicam, em geral, uma povoação derivada de outra. neste caso, seriam derivadas de uma povoação com nome de "Mesquita". ou podem indicar uma povoação que comparada com outra era menor na época em que foi assim chamada. esta hipótese convém a amezketa, mas não a almasjid

San Vitoiro da Mezquita (Gz.)



espero que tenham gostado desta nota. se não servir para mais, já que se trata apenas de uma pista, servirá de tópico a que não se dê importância apenas às componentes exóticas da língua, o latim, o árabe, etc. a componente nativa aborígene ainda se pode reconhecer. é preciso saber procurá-la. o euskera, ou basco, é uma excelente carta de navegação para encontrá-la.

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(*) o caso não é de somenos. em lugar de andarmos à procura de um significado "convincente" para "A Mesquita", seja ele qual for, parece-me mais prometedor caminho procurar o significado de "Amesquita". foi o que fiz.



segunda-feira, 25 de setembro de 2006

O Fracasso de Vila de Rei



de acordo com notícia do Sol (p. 40 e 41, pdf), dói-me ter de informar frequentadores e amigos deste blogue que o primeiro rebento do projecto de Vila de Rei sofreu abortamento espontâneo, por má qualidade da matriz. não sobra nada, só desadaptação, tristeza, fantasias perdidas e lágrimas que cheguem. não sei que novos filhos vão querer nascer de um projeto assim.

quando a esmola é muita ou a banana é muita, pobre sabido desconfia e macaco avisado também.
amigos, venham do jeito que costumam vir, não embarquem em navio iluminado que apareça por aí. pode ser pirata. pode ser negreiro. talvez a nave dos loucos... pode ser... sei lá o que pode ser!

...mas eu também acreditei...




quinta-feira, 21 de setembro de 2006

Casas e Casinhas

a toponímia é um discurso sobre a oralidade. a passagem de um topónimo à escrita é fonte de imensos equívocos, hoje como ontem. as diferenças de pronúncia, por vezes subtis, tornam-se diferenças maiores quando passadas a escrito. veja-se o caso de "Caselhas" e "Coselhas". ainda mais perturbadora é a escrita do mesmo fonema em norma linguística diferente. escrever Casinhas ou Casiñas, assim como escrever Olivença ou Olivenza é exactamente o mesmo, mas não parece. a questão é que optar por uma grafia ou por outra significa uma escolha política prévia. se se está do lado da Meseta optar-se-á pelo ñ em lugar do nh, pelo z em lugar do ç e pelo ll em lugar do lh. e fica identificada a espécie de pessoa que escreve e o que pensa do mundo e de si mesma


Barracão (Pt. e Br.)
Cabana
Cabana de Bergantinhos (Gz.)
Cabanas (Pt. e Gz.)
Cabanas de Viriato
Cabanelas (Pt. e Gz.)
Cabaninha
Cabaninhas
Casa Branca (Pt. e Br.)
Casa do Sal
Casa Grande (Br.)
Casaínho
Casais (Pt. e Gz.)
Casal
Casalinho (Pt. e Gz.)
Casalta

Casa Nova (Pt., Gz. e Br.) - em basco ou euskera há o topónimo e sobrenome "Etcheberria", "Etcheverria", "Echeverria", "Etxebarria", que quer dizer, também, "casa nova". deste resultou
o topónimo navarro "Javier" (Xavier), origem deste nome e sobrenome, bem como do hagiónimo S. Francisco Xavier

Casas (Pt. e Gz.)
Casas Novas
Casas Velhas
Casa Telhada
Casebres
Casegas
Caselas
Casinhas

Catraia - pode fazer uma certa confusão a portugueses do norte, para quem "catraia" é o mesmo que "menina", "miúda", "moça muito jovem". mas aqui é o mesmo que "casinhota"

Catraia Cimeira
Catraia de S. Paio
Catraia de S. Romão
Catraia dos Poços
Catraias

Coselhas - uma das variante dos diminutivos de Casas : Casinhas; Casegas, Casicas; Caselas, Caselhas, Casillas (Cast.), Coselhas.

Mesão - em francês: "maison"
Mesão Frio - pronúncia "mesonfrio".
Mesonfrío (Gz.)
Palhaça
Palhais
Palheira
Palheiro
Palheiros
Palhoça (Br.)
Pousa (Pt. e Gz.)
Pousada (Pt. e Gz.)
Pousada de Saramagos
Pousadinha
Sá (Pt. e Gz.) - do germânico "Sala", passando por "Saa". em francês, "Salle"
Saa (Gz.)
Saavedra (Gz.)
Sala - ver Sá e Saa
Salas (Gz.)
Sás (Gz.)
Salzeda de Caselas (Gz.)


terça-feira, 19 de setembro de 2006

As Fontes




... pois começaria por perguntar o que vem a ser uma fonte. ...e a resposta é... boa pergunta!
pedindo ajuda à sinonímia, encontramos falsos sinónimos, tais como "emanação", "manancial", "nascente", "bica", que mais são variedades do que a mesma coisa. a água nasce como lhe calha melhor. e isso é uma fonte. mas a água não nasce toda igual: uma é fria, outra quente, outra nem fria nem quente, uma nasce numa charca, outra em bica, outra em sete, outra em mil. uma traz ferro outra não traz, uma é muita e outra é pouca. uma é santa e outra é mais. uma é boa e outra mata. e assim, consoantemente, vai tendo o nome que merece...ou nem por isso.
não faz muito tempo, ouvi contar que a inspeção sanitária se lembrou de fazer análises à qualidade da água milagreira de certa fonte santa. e encontrou o que ninguém quis: não sei quantas bactérias e venenos que, tudo somado, fazia uma poção bem perigosa. vai de selar a fonte e proibir a sua utilização. foi o bom e o bonito. o povo levantou-se, tirou a selagem, montou piquete, enfim, fez gato-sapato da inspeção sanitária e análises correlativas. a fonte santa continuou santa e o povo devoto da fonte. porque santidade é santidade, não se mede com análises nem de bata branca


Alcabideche - variante fónica de Alcabideque

Alcabideque - em árabe:"manacial", fonte. é uma charca onde borbulha a água que nasce, tal como em "Fonteminha" e tamém em "Ançã"

Bica

Chiqueda - é a nascente do rio Alcoa, em Alcobaça. tem longa fama de fonte sagrada. penso que "chiqueda" será equivalente de "charca"

Fonfría (Gz.) - ver "Fonte Fria"
Fonsagrada (Gz.)
Fonseca
Fontaínha (Pt., Gz. e Br.)
Fontaínhas (Pt., Gz. e Br.)
Fontaínho (Pt. e Gz.)
Fontanheira
Fontão
Fonte Arcada
Fontarcada
Fonte Boa (Pt., Gz. e Br.)
Fonte da Cheira
Fonte da Pulga

Fonte da Urina - não é o que parece. pronúncia popular: "fonte da ourina" (ou será "fonte dourina"?). alguém alvitrou ser uma confusão com "fonte taurina", hipótese académica pouco provável tendo em conta a fonética. merecia que lhe fosse corrigido o nome escrito

Fonte de Ançã - é um pleonasmo: "fonte da fonte". ver foto
Fonte de Martel

Fonte do Bispo
Fonte do Castanheiro
Fonte do Ídolo
Fonte do Ramilo
Fonte dos Clérigos
Fonte dos Olhos - aqui, "olhos" está por olhos-d'água
Fonte do Vale

Fonte Errada - trata-se de um equívoco de transcrição da fonética para a escrita, pelo que ficou errada duas vezes

Fonte Fria

Fonte Histórica - em Chelo, Penacova. é "histórica" porque está referenciada desde o século XII. fora isso, é uma "fonte santa" - motivo por que mereceu essa referência e por que continua a ser procurada

Fonteira
Fonteita - o mesmo que "fonte telhada"?
Fontela (Pt. e Gz.) - do latim "fontanella": fontinha
Fontelo (Pt. e Gz.) - pronúncia: "Fontêlo"

Fonteminha ou Fontemiña (Gz.) - à letra e na realidade: "nascente do Minho"

Fontenla (Gz.) - é a forma evolutiva imediatamente anterior a "Fontela"

Fonte Nova

Fonterma - será o contrário de "fonte fria"? ou é "fonte erma"? aqui decide a fonética, que desconheço: "fontèrma" ou "fontêrma"?

Fonte Santa
Fonte Seca (Pt. e Gz.)
Fonteseca (Gz.)
Fontiela
Fontinha (Pt. e Gz.)
Fontoura (Pt. e Gz.)
Milfontes
Sete Fontes

Torre - em certos casos, a "torre" está pelo euskera "iturri" (fonte). e pode bem suceder que "torre" e "iturri" coincidam, já que algumas nascentes estão defendidas por torres militares, dado o carácter estratégico de que se revestem ou revestiram. é o caso de "Alcabideque" (Condeixa)


domingo, 17 de setembro de 2006

Cidades Portuguesas e Brasileiras Homónimas (* )


os topónimos que se seguem são transposições para o Brasil de topónimos portugueses, em geral de cidades ou vilas de certa importância. significam, na maioria dos casos, que os seus fundadores seriam originários da localidade portuguesa homónima.
entre parêntesis o Estado ou Estados onde ocorrem os topónimos brasileiros

Alcobaça (Bahia)
Alenquer (Pará)
Alhandra (Paraíba)
Almeida (Minas Gerais)
Almeirim (Pará)
Alvarenga (Minas Gerais) - sobre Alvarenga portuguesa ver aqui
Amarante (Piauí)
Anadia (Alagoas)
Aveiro (Pará)
Baião (Pará)
Barcarena (Pará)
Barcelos (Amazonas)
Batalha (Alagoas) (Piauí)
Belmonte (Bahia) (Santa Catarina)
Borba (Amazonas)
Bragança (Pará)

Bragança Paulista (São Paulo) - é "Paulista" para se distinguir de "Bragança" (Pará). parece dever o seu nome à Casa Real Portuguesa e não à cidade homónima de Trás-os-Montes (Pt.)

Campo Maior (Piauí)
Cantanhede (Maranhão)
Carvalhos (Minas Gerais)
Caxias (Maranhão)
Chaves (Pará)
Coimbra (Minas Gerais)
Colares (Pará)
Crato (Ceará)
Espinho (Minas Gerais)

Extremoz (Rio Grande do Norte) - a grafia actual da cidade portuguesa é Estremoz

Faro (Pará)
Fátima (Bahia) (Tocantins)
Fundão (Espírito Santo)
Gouveia (Minas Gerais)
Granja (Ceará)
Guimarães (Maranhão)

Jerumenha (Piauí) - a grafia actual do topónimo em Portugal é Juromenha

Jurumenha (Ceará) - ver Jerumenha
Lages (Santa Catarina)
Lajes (Rio Grande do Norte)
Linhares (Espírito Santo)
Mafra (Santa Catarina)
Marialva (Paraná)
Marvão (Piauí) - actual Castelo do Piauí
Melgaço (Pará)
Miranda (Mato Grosso do Sul)
Monção (Maranhão)
Nazaré (Bahia) (Tocantins)
Óbidos (Pará)
Oeiras (Piauí) - antiga vila de Mocha
Oeiras do Pará (Pará)

Olivença (Alagoas) - Olivença, cidade portuguesa do Alentejo, encontra-se, com todo o seu concelho, sob administração espanhola desde a chamada "guerra das laranjas" (1801). a actual pressão para que o Reino Unido devolva Gibraltar a Espanha poderá ter como resultado paralelo, e de igual legitimidade histórica, a devolução de Olivença, e seu município, a Portugal. a construção da nova ponte sobre o rio Guadiana, que vem substituir, finalmente, a velha ponte arruinada de Nossa Senhora da Ajuda, será o princípio dessa (desejada?) reaproximação.

Ourém (Pará)
Paranhos (Mato Grosso do Sul)
Penalva (Maranhão)
Pinhão (Paraná) (Tocantins)
Pombal (Paraíba)
Portalegre (Rio Grande do Norte)
Portel (Pará) (Paraná)
Porto (Piauí)

Porto de Moz (Pará) - a grafia actual do topónimo português é Porto de Mós

Queluz (São Paulo)
Raposa (Maranhão)
Resende (Rio de Janeiro)
Rio Tinto (Paraíba)
Sagres (São Paulo)
Santarém (Pará) (Paraíba)

Santo António de Lisboa (Piauí) - muita gente diz "Santo António do Lisboa". mais do que apontar o erro, importa indagar a sua origem - que desconheço

São Gonçalo de Amarante (Ceará) (Rio Grande do Norte) - muita gente diz "São Gonçalo do Amarante". ver "Santo António de Lisboa"

São Paulo de Olivença (Amazonas) - ver "Olivença"

Sarzedo (Minas Gerais)
Silves (Amazonas)
Soure (Pará)
Tomar do Geru (Sergipe)
Valença (Bahia) (Piauí) (Rio de Janeiro)
Viana (Espírito Santo) (Maranhão)
Vila Flor (Rio Grande do Norte)
Viseu (Pará)

além destes casos, surgem cidades com nome antecedido de "Nova", como "Nova Fátima", por exemplo. outras vezes segue-se um qualificativo, como "Tomar do Geru"

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(*) o termo "cidade" tem conotação diferente em Portugal e no Brasil. pelo seu caráter mais genérico, utilizo aqui a acepção corrente no Brasil
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sábado, 2 de setembro de 2006

Portugal e Galiza: a Razão dos Nomes

até que se escreva coisa melhor sobre o assunto, remeto os frequentadores e amigos deste blogue para o Portal Galego da Língua (agal-gz.org), ano V, época 2006/2007, e o notável artigo de Luís Magarinhos Igrejas.
porque o saber ocupa menos lugar do que as certezas.




nota: podem também dar uma espiada no blogue gémeo, posts de 17/03/2006.