sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Topónimos Terminados em "-elhe" e "-ilhe"

aqui vão mais alguns topónimos que reflectem o peso da propriedade rústica medieval na formação dos nomes de lugares no território galego-português. neste grupo de topónimos aparecem algumas vezes as palavras "vila" ou "vilar" reforçando o sentido, já implícito, de propriedade rural. ou a redundância "vila de".


Amarelhe - Amarelhe é um genitivo do nome de um proprietário, indicando que a terra, habitualmente a villa (propriedade rústica, quinta), ao momento em que tomou nome ou pouco depois, era propriedade de um tal Amarellu, isto é de um senhor Amaru tratado pelo diminutivo (como ainda há bem pouco era costume tratar os ricos no norte de Portugal e na Galiza).
as terras ou villae com esse nome eram, pois, propriedade do Amarinho. esse Amarinho ou tinha muitas propriedades entre o rio Douro e a Corunha, ou era senhor de um nome relativamente frequente entre os homens ricos da época, pois que há Amarelhe na Corunha, em Ponte Vedra, em Baião e em Vila Verde (pelo menos).

Anelhe

Argoncilhe - topónimo curioso. é genitivo de Dragoncelu, "dragãozinho", nome do proprietário da villa rústica. "deveria" pois chamar-se Dragoncilhe. evolução: Dragoncelli; Dragoncilhe; Dargoncilhe; d' Argoncilhe; (de) Argoncilhe.

Baroncelhe (Gz.) - graf. altern. Baroncelle
Bivilhe (Gz.) - graf. altern. Biville
Boelhe (Pt. e Gz.) - graf. altern. (Gz.): Boelle. de Boneliu
Caçarilhe
Corvelhe (Gz.) - graf. altern. Corvelle
Esmelhe (Gz.) - graf. altern. Esmelle
Lagostelhe (Gz.) - graf. altern. Lagostelle

Lobelhe (Pt. e Gz.) - graf. altern. Lobelle (Gz.). de Leobeliu ou Lobeliu

Lobelhe do Mato
Lovelhe

Marcelhe (Gz.) - graf. altern. Marcelle. de Marcellu
Marselho (Gz.) - graf. altern. Marselle
Merilhe (Gz.) - graf. altern. Merille

Morcelhe (Gz.) - graf. altern. Morcelle. variante dialectal de Marcelhe

Mourilhe - "propriedade de Mauriliu"

Ourilhe (Pt. e Gz.) - "propriedade de Aureliu(?)". ou de Auriliu (?). graf. altern. (Gz.): Ourille

Ouselhe (Gz.) - graf. altern. Ouselle
Pendilhe -
Recelhe (Gz.) - graf. altern. Recelle
Regoelhe (Gz.) - graf. altern. Regoelle
Revelhe
Ruílhe - "propriedade de Rodilu ou Rodelu"

Sabadelhe (Gz.) - graf. altern. Sabadelle. de Sabaticulu, diminut. de Sabatu

Sebadelhe - variante de Sabadelhe, com a qual alterna
Sendelhe (Gz.) - graf. altern. Sendelle

Sernancelhe - "propriedade de Seniorcelo". Seniorcelu: "senhorinho"

Sezelhe (Pt.)
Toubilhe (Gz.) - graf. altern. Toubille
Viladonelhe (Gz.) - graf. altern. Viladonelle
Vilamelhe (Gz.) - graf. altern. Vilamelle
Vilamerelhe (Gz.) - graf. altern. Vilamerellhe
Vilar de Ortelhe (Gz.) - graf. altern. Vilar de Ortelle

Topónimos Terminados em "-ande"

estes topónimos também reflectem a distribuição da propriedade agrícola medieval. são igualmente genitivos dos nomes dos proprietários


Astande (Gz.)

Bande (Pt. e Gz.) - de villa Bandi: "propriedade rural de Bando". antropónimo germânico

Britiande (Pt.)
Cernande (Gz.)
Espasande (Gz.)
Espasande de Baixo (Gz.)
Fernande (Gz.)
Friande (Pt.)
Gresande (Gz.)

Guisande - de villa Guisandi: "propriedade (rural) de Guisando". antropónimo germânico

Grixoa de Esternande (Gz.)
Nande (Gz.)
Ouçande (Gz.) - graf. altern. Ouzande
Rande (Pt.)
Sande (Pt. e Gz.) - "propriedade de Sando". Sando é antropónimo germânico

Senande (Gz.)
Sernande (Pt.)
Trasande (Gz.)

anomalias:

Vila Fernando (Pt.) - está por Vila Fernande. de villa Ferdinandi
Vila Mendo (Pt.) - está por Vila Mende. de villa Mendi

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Topónimos Terminados em "-monde" e "-munde"

são topónimos de origem germânica, no genitivo latino. sentimos, ao longo de toda esta compilação de genitivos na toponímia galego-portuguesa, quão estranhos nos soam os nomes dos senhores das terras na Idade Média. mas não podemos sentir o mesmo com os nomes das pessoas que todos os dias se levantavam co'as galinhas e se deitavam ao sol-pôr. dessas pessoas, salvo rarissimas excepções, não reza a Toponímia. e quando reza não é por grande coisa.


Ansemonde (Gz.)
Baamonde (Gz.) - (?)
Bamonde (Gz.)
Freamunde - "propriedade de Fredmundus"
Friamonde (Gz.) - variação dialectal de Freamunde
Gemunde - "propriedade de Iemundo ou Gemundo"
Gilmonde
Gimonde - variação dialectal de Gemunde
Gueimonde (Gz.)
Hermunde (Gz.)
Recemonde (Gz.)
Remonde (Gz.)
Salamonde - "propriedade de Salamundo"
Samonde - variação dialectal de Salamonde
Sermonde
Sesmonde (Gz.) - "propriedade de Segismundo"

Topónimos Terminados em "-ide" e "-ite"

também em -ide e -ite há topónimos que são genitivos do nome de antigos proprietários. referem-se, portanto, a quintas, sítios ou herdades agrícolas (villae). a existência de topónimos idênticos em França e na Suíça italiana parece significar que a data destes topónimos remonta a uma época de pouca diferenciação das línguas novilatinas.

Ataíde
Belide
Caíde - também se encontra a variante Caído
Campolide - (?) origem controversa
Caparide
Carnide
Carvide
Colaride
Corvite (Pt. e Gz.)
Covide

Espite - (?) não tem nada que ver com os restantes. deriva de hospite, pousada.

Margaride (Pt. e Gz.)
Maside (Gz.)
Meixide (Pt. e Gz.)

Melide (Gz. e CH) - no cantão suíço de Ticino, de língua italiana, há também Melide. é genitivo de Mellitus: "propriedade de Mellitus"

Povolide
Seide - (?) também aparece grafado Ceide
Semide (Pt. e Fr.) - em França, nas Ardenas, há também Semide
Sunhide (Gz.) - graf. altern. Suñide
Teibilide (Gz.)
Verride

Vide (Pt. e Gz.) - de Vitus ou Vito, nome do proprietário da respectiva villa

Vilanuíde (Gz.)
Vilavide (Gz.) - de villa Viti: "quinta de Vito"
Viloíde (Gz.)

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Topónimos Terminados em "-ede"

já falámos de uma série de topónimos derivados de genitivos latinos e associados a villae, quintas ou herdades agrícolas. há-os terminados em "-ães", "-ende", "-im", "-inde", "-iz", "-ufe", "-ulfe" e agora chegou a vez dos terminados em "-ede" (pronunc.: "êde"). têm estes a característica de se situarem na margem norte do Baixo Mondego, numa faixa de terrenos férteis, propícios à agricultura, e que se estende da Mealhada à Figueira da Foz.
o facto de o genitivo ser latino não significa que o proprietário fosse romano ou que o seu nome fosse latino. em posts anteriores já vimos a quantidade de nomes germânicos, no genitivo latino, que povoam a Toponímia Galego-Portuguesa.
a novidade dos topónimos terminados em "-ede" está, com muito poucas excepções, na sua concentração nesta faixa geográfica.


Ancede - não se localiza na faixa norte ribeirinha do Baixo Mondego. situa-se no concelho de Baião, Douro Litoral. grafia alternat.(mais correcta?): Ansede - ver Comentº de Calidonia

Ansede (Gz.) - ver Ancede.

Antuzede - genitivo de um antropónimo germânico. J. P. Machado (2003) prefere "Antosede", mas não sei porquê

Arazede - genitivo de Araceto ou Aracedo, antropónimo de origem desconhecida

Cantanhede - é genitivo do antropónimo, Cantonieto ou Cantoniedo, de origem desconhecida. há quem admita que é genitivo de "canteira" ou "pedreira": villa da pedreira. mas a analogia com topónimos em -ede próximos, faz-me inclinar para a primeira hipótese.

Lemede - genitivo de Lameto ou Lamedo. ver Comentário de João.
Murtede
Somede (Gz.)

Tavarede - genitivo de Tavareto ou Tavaredo. a pronúncia é tâ-vâ-rêde e não tà-và- rêde, como exigiria a tese de Talavareto ou Talavaredo por analogia com os topónimos Tavares, Taveira e Taveiro

Xafede - (?) este topónimo aparece nos concelhos da Mealhada e de Viana do Castelo (Chafé)

domingo, 28 de outubro de 2007

Mafra

apesar dos esforços de bons eruditos para lhe atribuir uma origem árabe, Mafra (que, ao longo do tempo foi sendo Mafarã, Malfora e Mafora) continua um topónimo solteiro e enigmático.
a atribuição de origem árabe, através de mahfara, "cova", não acerta com as características do local, nem com as formas anteriores do topónimo.
não sendo de origem árabe, a estrutura da palavra remete-nos para uma origem pré-latina.
ora, segundo se diz, o rei Dom João V, terá mandado construir esse convento colossal com a receita do ouro do Brasil e o motivo de tão magnânimo empreendimento estaria relacionado com o cumprimento de uma promessa à Mãe-de-Deus, caso lhe fosse concedida a graça de ter filhos herdeiros, pois que filhos não herdeiros os tinha ele aos centos. em especial de freiras, o que, entre outros cognomes, lhe mereceu o epíteto de "O Freirático".
se assim fosse - e não é certo -, o Convento de Mafra seria a actualização setecentista de um culto pagão ancestral à mater genetrix, "a mãe geradora", Senhora do Ó, Ísis e assim por diante. certo é que o culto à Senhora do Ó está ainda hoje vivo na Região Saloia, no próprio concelho de Mafra.
é aqui que entra a origem pré-latina para o topónimo.
segundo uns, a origem é fenícia; segundo outros, a origem é turânica. e a voz original estaria relacionada com um significado religioso, compatível com o culto da deusa-mãe.
seja como for, nada está definitivamente resolvido e Mafra continua um topónimo obscuro.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Gente de Coimbra

outra gente que deixou marcas na Toponímia foi a gente de Coimbra. mais que uma vez na História, o então excedente populacional desta região foi empregue no povoamento ou repovoamento de outras regiões, quer em Portugal quer na Galiza.
a distribuição geográfica destes topónimos vai do Alentejo às províncias galegas de Lugo e da Corunha, sendo a maior concentração nas regiões nortenhas.

exemplos:

Coimbra (Pt. e Br.) - no caso português, a repetição do nome Coimbra significa o mesmo que "segunda Coimbra", "nova Coimbra". no caso brasileiro, ou é a transposição do topónimo português, ou é um antropónimo.

Coimbrã - aldeia de gente coimbrã
Coimbrão - povoado de gente de Coimbra
Coimbrãos - gentes de Coimbra
Coimbró - diminutivo de Coimbra
Coimbrões - o mesmo significado que Coimbrãos
Cruceiro de Cumbraos (Gz.)
Cumbrao (Gz.) - ver Coimbrão e Cumbraos

Cumbraos (Gz.) - o mesmo significado que Coimbrãos e sua variante dialectal

Cumbraos de Abaixo (Gz.)
Torre de Cumbraos (Gz.)

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

O Grove (Gz.)

talvez seja mais conhecida a vizinha ilha termal de A Toxa - que os portugueses teimam em conhecer por La Toja. pessoalmente, prefiro O Grove marinheiro-marisqueiro. nom polo marisco, que será do melhor que existe sobre a Terra, mas pola paisage ao redor.
tal como é hoje A Toxa, O Grove foi em tempos uma ilha na junção das Rias de Arousa e Pontevedra.
é conhecida a existência dos grovii no tempo dos romanos, constituindo um ramo não-celta da tribo dos Calleci Bracari. a sua origem étnica e proveniência geográfica são desconhecidas. ocupavam o vale do Baixo Minho, de uma e de outra banda, tinham Tui por cidade principal e pelo menos alguns deles ocupavam-se na mineração do estanho e produção de bronze. o seu deus dos deuses era Turiacus, o que traduzido para Galego-Português significa Senhor, Rei. afinal de contas, o mesmo nome que tem hoje.
as voltas e revoltas da História terão feito dispersar este povo, que aparece na Toponímia Galego-Portuguesa desde o Norte da Galiza ao Centro de Portugal, sob a forma Grove e derivados. certo é que poucos povos, tribos ou clãs se poderão gabar de ter deixado tantos vestígios toponímicos.
curiosamente, existe no léxico português o adjectivo "esgroviado", o que sugere que a memória que ficou desse povo é a de gente com ar desalinhado e cabelo desgrenhado... o que não corresponde, nem de perto nem de longe, aos groveiros de hoje em dia.
bom, é claro que se diz por aí hoje que a relação etimológica entre O Grove e os grovii é uma mera coincidência fonética. mas eu prefiro esta estória. e tenho comigo Emilio Nieto Ballester (1997). sempre é alguma cousa.

outras terras de gróvios:

A Groba (Gz.)
A Grova (Gz.)
As Encrobas (Gz.)
Costa da Groba (Gz.)
Groba (Pt. e Gz.)
Grobas (Gz.)
Groias (Pt.)
Groiva (Pt)
Grova (Gz.)
Grovas (Gz.)
Grova Fragosa (Gz.)
Grove (Pt. e Gz.)
Grovela (Pt.) - diminut. de Grova
Grovelas (Pt.) - diminut. de Grovas
Groves (Gz.)
Gróvia (Pt.)
Grovos (Pt.)
Serra da Groba (Gz.)

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Fisterra (Gz.)

Fisterra, do latim finis terrae, "fim do mundo", é um topónimo estranho. fins-do-mundo há muitos: Cabo Carvoeiro, Cabo da Roca, Cabo Espichel, Cabo de São Vicente, etc., etc. por que motivo são especificamente Finisterrae este cabo galego, o Finistère francês da Bretanha e o Land's End inglês da Cornualha?
diz-se que "Fisterra" é o (ou a) fim-do-mundo porque é o cabo mais ocidental do Continente Europeu. falso: o cabo mais ocidental é o Cabo da Roca. e que razão presidiria, então, ao nome do cabo Finistère e do Land's End?
temos de admitir que, no caso galego como no caso francês e inglês, haja razão especial para que um certo mundo ali termine.
creio que a razão é profunda e vem do mais recôndito dos séculos: uma razão religiosa, mágica, iniciática.
na Galiza, o Fisterra culmina a Costa da Morte, nome já de si misterioso, e conclui o Caminho de Santiago; em França, diz-se que o Cabo Finistère (Penn ar Bed, em bretão) deve o seu nome à abadia bretã de Saint Mathieu de Fine-Terre, lugar deserto e lúgubre; na Cornualha, Land's End (Penn an Wlas, em língua céltica) está associado ao ciclo de lendas do Rei Artur.
e acresce que Fisterra, embora de origem latina, não é o nome que os romanos davam ao cabo da Galiza. para eles, o cabo era o Promontorium Nerio, do nome de uma tribo celta, cuja religião celebrava a "paixão e morte" do Sol.
em comum, têm os três cabos o serem pontos de contacto com o "Ocidente", o lado da terra "onde o sol morre", ou melhor, o lugar da terra "onde matam o sol"; os vestígios de uma linguagem sacra expressa nas pedras; e a fonte de onde emanam lendas e lendas cujo sentido se oculta no embalo das palavras.

domingo, 21 de outubro de 2007

Catoira (Gz.)

o povo, tribo ou gens dos catorienses aparece referido numa lápide romana, hoje colocada sob o altar-mor da igreja de Santiago, no Padróm. daqui se retira que os romanos encontraram um povoado, bisbarra ou comarca chamada Catoria. se a palavra é indígena ou exógena, é uma questão em aberto. a localização marítima de Catoira, na desembocadura do Ulha, na parte mais adentrada da Ria de Arousa, admite uma origem exógena; isto é, algum povo do mar lhe poderia ter dado o nome. no entanto, a existência do "Monte da Catoura", em Barrancos, distrito de Beja, abre uma possibilidade de tratar-se de nome indígena.
Catoira está em íntima relação co ciclo das lendas jacobeias que relatam a chegada da barca do corpo santo.
tamém Catoira está relacionada coa invasão de gente do Norte, no séc. IX. daí a Romaria Víquingue que, desde 1962, tem lugar todos os anos no 1º de Agosto. ainda em lembrança do ataque víquingue, Catoira encontra-se geminada com Frederikssund, na Dinamarca. sem ressentimentos.

Chantada (Gz.)

Chantada é o centro da bisbarra (ver aqui) do mesmo nome, situada no sudoeste da província de Lugo, formada pelos concelhos de Carbalhedo, Taboada e Chantada. o seu nome parece indubitavelmente de origem latina tardia, evoluído de Plantata - que significa terra ou povoação defendida por uma espécie de muralha de estacas cravadas no chão, o mesmo que "estacada". região de forte representação da cultura castreja, as raízes históricas de Chantada propriamente dita estão muito ligadas à invasão normanda do séc. IX.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Marco das Três Fronteiras (Br.)

ora aqui está um daqueles (poucos) topónimos que fala por si próprio. situado no Estado do Paraná, junto à foz do Iguaçu, o local assinala o ponto em que confluem os limites territoriais de três países: o Brasil a norte, a Argentina a sul e o Paraguay a oeste. estes limites são ditados pela confluência do Rio Iguaçu, que divide Argentina e Brasil, com o Rio Paraná, que separa, por sua vez, Argentina e Brasil do Paraguay. esta conformação de fronteiras, como ensina o brilhante guia Marlon Schunk, só acontece em mais dois casos: a fronteira Áustria-Alemanha-Suíça e a fronteira Laos- Burma-Tailândia.
a toponímia está marcada em toda a região pela influência dos povoadores aborígenes, de língua guarani: "Iguaçu", "água, ou rio, grande"; "Paraguay", "rio dos papagaios"; "Paraná", "rio veloz" ou "rio caudaloso", enfim, um nunca mais acabar de nomes de uma musicalidade única.
mas ao contrário da Galiza e Portugal, em que os povoadores primitivos que deram nome aos rios desapareceram há milénios, os guaranis ainda se vêem por estas paragens do Parque Natural do Iguaçu.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Rio Guaíba (Br.)

"Guaíba" é a linha de água que banha a cidade de Porto Alegre, capital do Estado do Rio Grande do Sul.
não está ainda claro se é um rio ou um lago, já que tem muitas características de lago.
em tupi-guarani, "guaíba" significa "estuário de muitos rios" (gua+ybé) ou "enseada de todos os rios" - o que corresponde bastante bem à realidade hidrológica desse imenso labirinto aquático, dado que nele confluem os rios Gravataí, Sinos, Caí e Jacuí.
também há quem retire Guaíba de "gua+y+ba", que significa "lugar de muita água"

sábado, 6 de outubro de 2007

Porto Alegre (Br.)

Porto Alegre teve vários nomes ao longo da sua história. começou por ser chamada Porto de Viamão, por estar localizada nos campos de Viamão, distrito de Laguna, Estado de Santa Catarina. de ponto de passagem de nómadas com suas manadas de gado, a região evoluíu para o localização de uma população sedentária de agricultores. em 1740, o madeirense Jerónimo d'Ornelas recebe a região em sesmaria e o local passa a ser conhecido por Porto do Dornelles.
a região que hoje constitui o Estado do Rio Grande do Sul ficava de fora dos limites acordados no Tratado de Tordesilhas, mas foi reconhecida como portuguesa pelo Tratado de Madrid, de 1750.
em 1752, começam a chegar levas de casais açorianos com a missão de povoar a zona, aliviando, também, o excedente populacional que então se verificava nos Açores. com a chegada desses casais, o Porto de Dorneles passou a ser mais conhecido por Porto dos Casais. sessenta foi o número de casais açorianos que foram fixados especificamente no Porto de Dorneles (na foto, a "ponte dos açorianos" e o monumento aos casais açorianos).
a população começa depois a evoluir para um modo de vida urbano de comércio e serviços.
em 1773, um Governador, José Marcelino de Figueiredo, entende dar ao local o nome que merecia: Porto Alegre.
mas apesar de ter apenas 227 anos de vida e de sabermos quem foi o seu padrinho de batismo, a razão do topónimo continua incerta. como tenho dito várias vezes, é um mistério a facilidade com que se perde a memória da origem dos topónimos. há quem pense que Porto Alegre será uma transposição de Portalegre, cidade portuguesa do chamado Alto Alentejo. porém, sobra por explicar por que motivo, na época, uma cidade com população predominantemente açoriana iria buscar o seu nome ao Alentejo. e por que motivo José Marcelino de Figueiredo, da família dos Sepúlvedas de Trás-os-Montes, foi escolher um nome alentejano. uma outra hipótese, ainda pouco explorada mas muito verosímil, remete para uma povoação açoriana da Ilha Terceira, entretanto desaparecida, cujo nome era Santana de Porto Alegre (*). uma terceira hipótese, que não pode ser descartada, é a de que Porto Alegre seja, simplesmente, uma designação eufónica que predispõe para que se goste do local.
certo é que em 1810, Dom João VI de Portugal eleva a Capitania de Porto Alegre à categoria de Vila, com o nome barroco de Vila de Nossa Senhora Madre de Deus de Porto Alegre (ver Comentº. de Eduardo). finalmente, em 1821, o Imperador D. Pedro I do Brasil, D. Pedro IV de Portugal, eleva Porto Alegre à categoria de cidade.
Porto Alegre é hoje a capital do Estado gaúcho do Rio Grande do Sul.

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(*) muita da informação recolhida no parágrafo pode ser encontrada em "Porto Alegre - história e cultura", de Hilda Agnes Hübner Flores, Martins Livreiro-Editor, Porto Alegre, 1987.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Dois Anos de Vida

toponímia galego-portuguesa e brasileira faz hoje dois anos de navegação. 238 postagens, média de 83 visitas diárias.
sem pressas, sem empurrões, sem arremedar ninguém.
porque devagar se vai ao longe, seja esse longe onde for.

caminante no hay camino,
el camino se hace al andar.

um muito obrigado a todos, com um especial carinho à frota honorária.

e os cumprimentos fraternos da frota de recreio.

domingo, 23 de setembro de 2007

Parada e Paradela

Parada (lat. parata, "preparada", "arranjada") era o foro que o povo pagava aos senhores da terra, bispos, autoridades eclesiásticas e senhoriais, quando por ali apareciam ou "paravam". essa obriga consistia em terem prontos mantimentos ou dinheiro para manter e aposentar os senhores e sua comitiva. Paradinha e Paradela pagavam um foro menor.

Parada (Pt. e Gz.)
Parada de Baixo
Parada de Cunhos
Parada de Ester
Parada de Gatim
Parada de Gonta
Parada de Labiote (Gz.)
Parada de Monteiros
Parada de Pinhão
Parada de Sil (Gz.)
Parada de Tibães
Parada de Todeia
Parada do Bispo
Parada do Bouro
Parada do Monte
Paradela (Pt. e Gz.)
Paradela de Ansiães
Paradela de Baixo
Paradela de Cima
Paradela de Guiães
Paradela de Lorvão
Paradela de Monforte
Paradinha
Paradinha de Besteiros
Paradinha do Outeiro
Paradinha Nova
Paradinha Velha
Paravedra (Gz.) - de Parada Vedra
Pardavedra (Gz.) - de Parada Vedra
Prada (Gz.) - de Parada

sábado, 22 de setembro de 2007

Paredes e Pardilhós

retomo um tópico de março de 2006. estes topónimos, muito difundidos, indicam que os povoadores que lhes deram os nomes encontraram "paredes" ou "muros", isto é, ruínas de povoados anteriores, de cujo nome já não havia memória. no caso do Brasil, há "Paredes" que derivam do nome do seu fundador ou de características da geografia.


As Paredes (Gz.)
Casa das Paredes

Parcel das Paredes (Br.) - é um enorme banco de corais, com mais de 30 km de extensão, situado a meio caminho entre a cidade baiana de Caravelas e o arquipélago de Abrolhos.

Paradelhas - diminut. plural de "Parede". influência fonética de topónimos próximos, como Parada, Pardelhas e Paradinha

Pardelhas (Pt. e Gz.) - diminut. de "Paredes", por "Par(e)delhas"
Pardelhinhas

Pardilhó - duplo diminutivo de "Parede": "Par(e)delha": "Pardelhó": "Pardilhó"

Pardinhas (Pt. e Gz.) - do lat. parietinias: "paredes tombadas". graf. altern. (Gz.): "Pardiñas"

Pardinhas de Abaixo (Gz.)
Pardinhas de Arriba (Gz.)
Paredão
Parede
Parede Armada
Parede Nova (Gz.)
Paredes (Pt. e Gz.)
Paredes da Beira
Paredes da Vitória
Paredes de Coura

Paredes de Sapucaí (Br.) - devia esse nome a José Paredes Viana, seu fundador. é actualmente chamada Cordislândia - um neologismo híbrido latino-germânico que significa "Terra do Coração". também grafada "Paredes de Sapucahy"

Paredes de Viadores
Paredes do Bairro
Paredes do Rio
Paredes do Vale
Paredes Secas
Paredinha
Paredinhas
Sam Pedro de Muros de Paredes (Gz.) - pedro-pedras-pedras...

Torres e Torrelhas

estas são torres antigas, de algumas só resta o nome. nem todas tinham funções militares , já que algumas são restos de construções, partes de solares, vestígios de igrejas, monumentos de função desconhecida (como Centum Cellas, que deu o nome à aldeia de Colmeal da Torre), faróis marítimos (Torre de Hércules, na Corunha; Torre da Barra, Ílhavo) e até curiosidades geológicas (ver Comentº de Jolorib). em alguns casos a "torre" é muito mais antiga: provém do basco "iturri" e significa "fonte". mais curioso ainda, algumas fontes, pela sua importância estratégica, estavam defendidas por uma torre militar e engenho de captação da água, como em Alcabideque, Condeixa.
a toponímia moderna está cheia de "Torres", umas vezes por alusão a figuras e figurões com esse nome, outras vezes para designar essas torres de babel, feitas de ferro, cimento e vidro, cuja segurança ficou tristemente demonstrada no desastre de 11 de setembro.
mas não é dessas que quero falar aqui.

Alvorge - do árabe: "a torre"
A Torre (Gz.)
As Torres (Gz.)
Casa da Torre (Gz.)
Colmeal da Torre
Quinta da Torre
S. Pedro da Torre
Torralta
Torrão
Torrão do Lameiro
Torre (Pt. e Gz.)
Torre Altinha
Torre Caldeira
Torre Cimeira
Torre da Barra
Torre da Brejoeira
Torre da Gadanha
Torre da Lagariça
Torre da Marinha
Torre d'Ares
Torre da Silva
Torre de Baixo
Torre de Beba

Torre de Belém - aqui, "Belém" provém de Belenos, divindade celta equivalente a Apollon

Torre de Bera
Torre de Chão do Pereiro
Torre de Cima
Torre de Coelheiros

Torre de Dona Chama - "Chama" é o nome medieval feminino "Flâmula"

Torre de Hércules (Gz.)
Torredeita - de "Torre de Eita". "Eita" é hidrónimo.
Torre de Moldes
Torre de Moncorvo
Torre de Mosqueira
Torre de Nevões - "Nevões" é uma evolução fonética de "Novões"
Torre de Pedra (Br.)
Torre de Pinhão
Torre de S. Fagundo
Torre de S. Julião
Torre de Sobral
Torre de Tavares - ver Comentº de Al Cardoso
Torre de Terranho
Torre de Vale de Todos
Torre de Vilela
Torre do Bispo
Torre do Couto
Torre do Natal
Torre do Parragil
Torre Fundeira
Torreira - significa "a da Torre", no caso "a Costa da Torre"
Torrejão
Torrelha - "pequena torre"
Torre Pequena
Torres (Pt., Gz. e Br.)
Torres d' Apra
Torres do Mondego
Torres e Cercas
Torres Novas -
Torres Vedras - "torres velhas"
Torres Velhas
Torrinha (Pt. e Br.) - "pequena torre"
Torrinhas
Torrinheiras
Torronha (Gz.)
Torrozelas - ?

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Acidentes Orográficos e Posições Relativas

estes topónimos estão relacionados com acidentes orográficos ou indicam a posição de um lugar em relação a outros. são muito frequentes na Toponímia.


Alto da Serra -
Alto do Monte -
Cabeça -
Cabeçadas -conjunto de "cabeças" ou "lugares altos"
Cabeceira -
Cabeceiras - conjunto de "lugares altos" ou "cabeças"
Cabeço -
Carapinheira -
Castanheira - de "Costanheira": "aldeia na encosta"
Cêrro -
Chã -do latim: "plana"
Chaira -
Chão -do latim: "plano"
Chãs -
Cheira -
Chelo -do latim: "plano pequeno"
Cimeira -
Cimeiro -
Cimo de Vila -
Cimo do Douro -
Cimo do Lugar -
Crista -
Cruto - de "cocuruto": o ponto mais alto, o alto da cabeça
Cumeada -
Cumeira - aldeia que fica no cume
Cumieira -
Espinheira - lugar alto
Espinheiro -
Espinho -
Fundão -
Fundo de Vila -
Fundo do Lugar -
Fundões -
Ladeira - terreno muito inclinado, rampa, encosta íngreme
Lomba (Pt. e Gz.) -

Meã ou Meá- aplica-se normalmente a uma quinta (villa) ou sítio a uma "altura intermédia", em relação a outras

Meãs -

Mont'Alto -
Montemor - de "Monte Maior", isto é, "Monte Alto", "Mont'Alto" ou "Monte Grande"

Jusã - o mesmo que "A de Baixo"
Jusão -
Outeiro -
Pé de Monte - Cf. Piedmont. Piemonte
Pico -
Picoto -
Pinhão -
Pinheiro - significa "lugar pinheiro", "lugar no alto", "lugar no pino"
Pinho -
Porto Alto -
Rojão de Baixo -
Rojão de Cima -
Rojão do Meio -
Sêrro -
Sobreira - aldeia que está numa posição superior em relação a outras

Sobreiro - lugar que está "sôbre", que está numa posição superior em relação a outros

Susã - o mesmo que "Cimeira" , "Sobreira", "A de Cima"
Susão -
Vila de Suso -


ver Comentº de D'Noronha

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Velhos e Novos Lugares



uma forma comum de dar nome a um lugar é apelidá-lo de "novo" ou de "velho" em relação a um outro. em geral, o topónimo "novo" deve-se ao estabelecimento, nesse lugar, de um grupo de povoadores originário do "velho". é uma forma muito corrente de nomear lugares em terras conquistadas ou colonizadas, ou em fundações de novas cidades. trata-se de um costume tão velho como a humanidade. já assim se fazia entre os fenícios e os gregos, quando fundavam as suas colónias em outros pontos do Mediterrâneo. nestes casos, o adjectivo vem no início.
mas um lugar pode ter sido designado de "velho" apenas pela sua especial antiguidade, como em "Castro Verde", "Ponte Vedra", "Vila Verde", "Torres Vedras". ou seja, quando o nome lhes foi dado já o "castro", a "ponte", a "villa" e as "torres" tinham fama de antiguidade. aí o qualificativo vem no fim.
do mesmo modo, um lugar pode ser chamado de "novo" pela sua especial novidade no momento de ter nome, como é o caso de "Casas Novas", "Feira Nova", "Fonte Nova", "Ponte Nova". o qualificativo vem também no fim.
noutros casos, ainda, o nome "velho" aplica-se a um lugar cuja função foi abandonada, como em , "Escola Velha", "Estrada Velha", "Hospital Velho", "Praça Velha". e do mesmo modo que nas duas anteriores, o adjectivo vem no fim.
também ocorre a designação "antigo" ou "antiga", sobretudo para indicar lugares onde existiu em tempos um estabelecimento público ou privado. é mais frequente na toponímia interna de cidades, vilas ou aldeias, como "Rua da Antiga Barbearia".

exemplos:

fora do Mundo da Língua:

Cartagena (Nova Cartago)
Cartago - que significa "Nova Tiro"
Nápoles - que significa "Cidade Nova"

Newark - há doze "Newark" nos States. a mais conhecida, em New Jersey, foi fundada por gente de Newark-on-Trent, Nottinghamshire, Inglaterra. o nome original é muito antigo e parece não ter nada a ver com "novo". as "Newark" americanas são transposições da ou das "Newark" britânicas.

Newcastle - que significa "Castelo Novo"
Nova Caledónia
Nova Escócia
New Found Land - ver "Terra Nova"
New Scotland - ver "Nova Escócia"
Nova Gorícia
New Hampshire
Nova Inglaterra
Nova Iorque
Nova Jersey
Nova Orleães
Nova Zelândia
Novgorod - que significa "Cidade Nova"
Novosibirsk
Porto-Novo - a capital do Benim, o seu nome é português
Terra Nova

no Mundo da Língua:

Aigra Nova
Aigra Velha
Albergaria-a-Nova
Albergaria-a-Velha
Aldeia Nova
Aldeia Velha
Alhos Vedros
Bouça Velha (Gz.) - graf. altern. "Bouzavella"
Cacela Nova
Cacela Velha
Cadima - que significa "[Aldeia] Velha"
Caldeira Velha
Carvalho Velho
Casa Nova
Casas Novas
Castelo Novo
Castro Verde
Condeixa-a-Nova
Condeixa-a-Velha
Costa Nova
Eira Vedra (Pt. e Gz.)
Eira Velha
Estação Nova
Estação Velha
Estrada Velha
Fazenda Velha (Br.) - ver Comentº de Tiago André
Feira Nova
Idanha-a-Nova
Idanha-a-Velha
Linda-a-Velha
Loja Nova
Montemor-o-Novo
Montemor-o-Velho
Morro Velho (Br.)

Nova Bragança (Br.) - há ou houve pelo menos duas no Brasil. a actual "Bragança Paulista" foi, antes, Nova Bragança. a cidade de Fortaleza, no Ceará, já se chamou "Fortaleza de Nova Bragança". ver Comentº de Gundibaldo

Nova Canaã (Br.)
Nova Fátima (Br.)
Nova Friburgo (Br.)
Nova Iguaçu (Br.) -
Nova Iorque (Br.)
Nova Odessa (Br.) - ver Comentº de Tiago André
Nova Olinda (Br.)
Nova Olinda do Maranhão (Br.)
Nova Petrópolis (Br.)
Nova Soure (Br.) - de "Soure", vila do distrito de Coimbra (Pt.)
Nova Veneza (Br.) - ver Comentº de D'Noronha
Novo Hamburgo (Br.) - ver Comentº de D´Noronha
Novo Horizonte (Br.)
Olinda Nova do Maranhão (Br.)
Ponte Nova
Ponte Vedra (Gz.)

Porta Nova - refere-se, em geral, a uma porta aberta mais recentemente, na muralha da cidade

Porto Antigo
Porto Novo (Pt., Gz. e C.V.) - graf. altern. (Gz.): Portonovo
Porto Vedro (Gz.) - graf. altern: Portovedro
Pousadas Vedras
Praça Velha
Proença-a-Nova
Proença-a-Velha
Relva Velha
Rocha Nova
Rocha Velha
Rua Nova
Rua Velha
S. Tiago dos Velhos - ?
Tanque Novo (Br.)
Torres Novas
Torres Vedras
Unhais-o-Velho
Venda Nova
Vendas Novas
Vila Velha de Ródão