sábado, 26 de janeiro de 2008

teixeira, teixoso, teixugueira

já em 1947 Miguel Torga escrevia (Diário IV, novembro): "andei há tempos várias léguas para ver um teixo, que é uma árvore que os botânicos dizem que vai acabar."
uma conífera já detectável no Jurássico, a taxus baccata ou teixo é uma espécie em vias de extinção pela mão do homem, ora retaliando pelas intoxicações mortíferas que o teixo foi causando no gado ao longo da História, ora caçando as aves que disseminavam as suas bagas vermelhas. o que fez com que o teixo fosse ficando confinado a territórios cada vez mais reduzidos. em Portugal, está praticamente limitado, hoje em dia, a certas zonas das serras do Gerês e da Estrela, em locais abrigados até 1500 metros de altitude,
e às Ilhas da Madeira e São Miguel. calcula-se que haja no Gerês português cerca de 8000 exemplares e cerca de 500 na Serra da Estrela. na Serra de Montesinho o teixo sofreu extinção recente.
a taxina, substância alcalóid
e presente em tudo o que é verde no teixo, é a responsável por aquela mortandade. mas, como quase tudo o que é veneno é também remédio, a taxina tem sido referenciada como uma possível substância terapêutica, sobretudo um dos seu componentes, o taxol, que lhe tem valido alguma atenção por parte da Indústria Farmacêutica.
árvore de pequeno-médio porte, mas podendo atingir 10, 15 ou mesmo 20 e até 25 metros de altura, o teixo goza de uma longevidade proverbial, de uma verdura perene e de uma enorme resistência a secas, fogos e pragas. isso tornava-a uma árvore sagrada para os celtas e um símbolo da imortalidade, da ressureição ritual, da sabedoria e da inteligência. segundo uma lenda, a cruz onde foi executada a sentença de Jesus Cristo era feita de teixo, o que a torna num instrumento simbólico da ressurreição e imortalidade do Filho de Deus. ainda hoje é a árvore dos cemitérios, em alguns países nórdicos. os druidas usavam a madeira de teixo para nela gravarem os seus escritos ogâmicos.
diz-se que no Monte Medulio as mães galegas, à vista das legiões romanas, envenenaram os seus filhos com brotos e raízes de freixo para que não ficassem sob o jugo de Roma. daí que o freixo possa ser considerado tamém um símbolo da Galiza. como, porém, o Monte Medulio tem sido localizado próximo do Rio Minho, ora no Monte de S. Julião, perto de Tui, ora na Serra d'Arga, próximo de Viana do Castelo, o seu simbolismo é comum a toda a Grande Galiza.
o teixo pode atingir uma longevidade que ronda os 1500 e mesmo 3000 anos. em Portugal há alguns teixos classificados como de Interesse Público: o de Tranguinha, em Santa Maria, Bragança, com cerca de 700 anos; o da Quinta do Senhor da Serra, Belas, Sintra, com cerca de 200 anos; e o da Quinta de S. João, Teixoso, Covilhã.
quanto aos topónimos "Teixuga" e derivados, eles derivam de "teixugo" ou "texugo" e não de "teixo" (ver Comentº de Miguel).


A Teixeira (Gz.) . ver "Teixeira"
Quinta de Teixedas
Taxeira - ver Comentº de Gundibaldo
Teixe - ? - ver Comentº de Gundibaldo
Teixeda (Gz.)
Teixedelos (Gz.) - diminut. plur. de "Teixedo"
Teixedo

Teixeira (Pt. e Gz.) - ou "bosque de teixos" (selvagens, não plantados)

Teixeira de Abaixo (Gz.)
Teixeira de Arriba (Gz.)
Teixeira de Baixo
Teixeira de Cima
Teixeiras (Pt. e Br.)
Teixeiro (Pt. e Gz.)
Teixeiró - diminut. medieval de "Teixeira"
Teixelo - diminut. de "Teixo"
Teixidelos (Gz.)
Teixido (Gz.)
Teixieirinha - ver Comentº de Gundibaldo
Teixinho - diminut. de "Teixo"
Teixo
Teixoeira (Pt. e Gz.)

Teixogueira - ver Comentº de Miguel. é derivado de "teixugo", "texugo", não de "teixo". no entanto, quer em "Teixogueira" quer em "Teixogueiras", o "o" em lugar de "u" levanta algumas dificuldades. será mera disgrafia?

Teixogueiras - ver "Teixogueira"
Teixoso
Teixuga - ver "Teixogueira"
Teixugueira (Pt. e Gz.) - ver "Teixogueira"

Teixugueiras - ver "Teixogueira". a descrição feita por Miguel, nos Comentários, é brilhante.


sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

carrascal, carrasqueira, carrascoso

"carrasco" é uma variedade de "carvalho". a palavra é pré-latina, indiciando o carácter nativo desta espécie de quercus, que se desenvolve entre formas arbustivas e a árvore. este grupo de fitotopónimos encontra-se por toda a Península Ibérica (ver Comentºs.).

as variedades de quercus que importam para a Fitotoponímia incluem:
- a quercus coccifera, carrasco galego ou verdadeiro carrasco;
- a quercus faginea, carvalho português ou carvalho cerquinho;
- a quercus pyrenaica, ou carvalho pardo;
- a quercus robur, carvalho comum, albarinho ou roble;
- a quercus rotundifolia, azinheira, azinho, carrasca ou sardão;
- a quercus suber, chaparro, sobreiro ou sobro.

cada uma destas variedades ou espécies dá o mote para o respectivo grupo de fitotopónimos. no entanto, topónimos como "Sobreira" ou "Carvalho" merecem a nossa atenção, pois raramente ou nunca se referem a aspectos da flora. ver aqui.
de notar a alternância ç /k em cerquinho, cerqueira, quercus.

exemplos de topónimos derivados de Carrasco:

A Carrasqueira (Gz.)
Azenha da Carrasca
Carrascal (Pt. e Gz.)
Carrascal de Alvide
Carrasqueira (Pt. e Gz.)
Carrasquinho
Carrascos
Carrascoso
Carrasqueira
Fonte da Carrasca
Monte Carrascalão
O Carrascal (Gz.)
Quinta da Carrasca
Rua do Carrasquinho
Vale da Carrasqueira

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

juncal, junceira, junqueira

estes fitotopónimos tiram o nome do junco, uma planta gramínea própria de terrenos alagadiços ou pantanosos. já atrás falei do caso particular do bunho e topónimos correlativos.
o junco serve para fazer um montão de coisas, desde esteiras a barcos.

A Xunqueira (Gz.)
Juncais
Juncal
Junceira
Junco
Junqueira (Pt. e Gz.) - graf. altern. Xunqueira
Vale de Juncos
Vale Junco
Xunqueira de Ambía (Gz.)
Xunqueira de Espadanedo (Gz.)

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

azevo, azivo, azevedo

o "azevo" ou "azevinho", do lat. acifolium ("folha acerada", "folha que pica", "folha espinhosa"), deu o mote a fitotopónimos que se encontram por toda a Península Ibérica.
é possível que os topónimos espanhóis "Quevedo" e "Queveda" tenham esta mesma origem, dada a alternância frequente entre ç e k, como Junceira / Junqueira.
em euskera, gorosti (azevo) deu topónimos como Gorostiaga (lugar onde abundam os azevos, azevedo) e Gorostiza

Acebedo do Rio (Gz.)
Acebeiro (Gz.)
Acivro - ver Comentº de Calidónia
Azeval - ver Comentº de Gundibaldo
Azevedinho - ver Comentº de Gundibaldo. diminut. de "Azevedo"

Azevedo (Pt. e Gz.) - graf. altern. "Acevedo". o mesmo que "azevinhal", "lugar onde há muitos azevinhos"

Azeveiro
Azevinhal
Azevinheiro - ver Comentº de Gundibaldo
Azevinho
Azevinhos
Azevo
Azevoso
Azibo - ver Comentº de Gundibaldo
Azival - "lugar onde abundam os azevinhos"
Aziveiro - "lugar onde abundam os azevinhos"
Azivo
Azivoso
Cebreiros (Gz.)
Cibeira - ver Comentº de Calidonia
Foro de Cebreiros (Gz.)
O Cebreiro (Gz.)
Ribeira de Azibo
Zibreira
Zebreiro - ver Comentº de Gundibaldo
Zebreiros (Pt. e Gz.) - graf. altern. "Cebreiros"
Zebros - ver Comentº de Gundibaldo
Zebro de Baixo
Zebro de Cima
Zibreiros - ver Comentº de Gundibaldo


bunho, bunhosa

outro grupo de fitotopónimos é o que deriva de "bunho", uma planta afim do junco que se dá em lugares úmidos e alagadiços, como paúis, pântanos e lagoas . usa-se para fabricar móveis de junco e esteiras e também para resguardar da chuva as medas de sal nas marinhas.


Bunhal
Bunheira - lugar onde abunda o bunho
Bunheirinha
Bunheiro
Bunho (Pt. e Gz.) - graf. altern. "Buño"
Bunho da Costa (Gz.) - graf. altern. "Buño da Costa"
Bunhosa - lugar onde abunda o bunho
Casais da Bunhosa
Gândara da Bunhosa
Vale de Bunho

mata, matança, mateira, matinha, mato

este é um grupo de fitónimos inespecíficos, referente à abundância de "mato". como parece evidente, o nome de muitos destes topónimos, que implica a ideia de "espessa vegetação silvestre", terá sido posto antes desses lugares se tornarem habitados. noutros casos, a "mata", ou "matagal", continua lá.
as palavras "mata" e "mato" são pré-latinas, de língua ainda não esclarecida, e aparecem por toda a Península Ibérica.

Casal do Mato
Casal do Mato Grande
Córrego da Matinha (Br.)
Herdade da Matinha
Herdade da Matosa

Madeira - por "Mateira", "mata grande", "matagal". a Ilha da Madeira deve o nome à mata cerrada de arvoredo que cobria a ilha quando foi descoberta.

Malhada da Matosa
Mata (Pt. e Gz.)
Mata do Bispo
Mata do Urso
Matadussos - de "Mata de Ursos"
Matagosa
Matagosinha
Mata Mourisca

Matança (Pt. e Gz.) - graf. altern. "Matanza". refere-se ao subst. "mata" e não ao verbo "matar"

Matancinha - diminut. de "Matança"
Mataria
Mataró (Cat.)
Mateira (Br.) - ver "Madeira"
Matela (Pt. e Gz.)
Matelo - diminut. de "Mato"
Matelinho - duplo diminut. de "Mato"
Matilla (Le) - diminut. de "Mata". é o equivalente de "Matela"
Matinha (Pt. e Br.) - diminut. de "Mata"
Matinhas
Mato (Pt. e Gz.)
Matões (Br.)
Mato Grosso (Br.)
Matos
Matosa (Pt. e Gz.)
Matoseira
Matosela - diminut. de "Matosa"

Matosinhos - uma forma antiga do topónimo era Matesinus, o que exclui a sua relação com "mato" ou com um diminutivo de "Matosos".

Matosos
Matoutinho
Matouto
Mato Velho

Matozinhos (Br.) - transposição de topónimo português. ver "Matosinhos"

Matulos - ?
Matum - ?
Matusinhos (Gz.) - graf. altern. "Matusiños". ver "Matosinhos"
Monte da Matosa
Quinta da Matosa
Ribeirão da Mateira (Br.)
Rua da Matinha
Rua de Matadussos
São João da Madeira - antes chamada "de Mateira"
Travessa de Matadussos
Vila do Mato
Vilar de Matos
Vil de Matos


sábado, 19 de janeiro de 2008

falacho, faleital, faleto, fetal, feteira

este é um outro grupo de fitotopónimos que se refere à abundância de fetos.
do lat. filix/filictu resultaram variadas formas evolutivas, tais como, entre outras, as variantes dialectais "feto", "feito", "fento", "fieito", "falga", "felga", "filga", "folga", "faleto", "faleito", "falacho", "felecho", "helecho".
como há muitos terrenos com humidade propícia ao desenvolvimento de fetos, é um topónimo muito frequente quer na Região Galego-Portuguesa quer noutras regiões da Península.
é de notar a grande quantidade de topónimos dedicados à presença de fetos na região portuguesa de fala asture-leonesa ou Bable (Bragança-Miranda do Douro), ali chamada "Mirandês".


Afeiteira - está por "A Feiteira"
Agra Filgueira (Gz.)
Bairro Feital (Br.)
Córrego Feital (Br.)
Falacho - cf. babl. felecho, cast. helecho (feto)
Falagueira
Falgueira (Gz.)
Faleital (Mir.)
Faleito (Mir.)
Faleto
Falgarosa
Falgaroso
Falgueirosa (Gz.)
Feitada
Feital (Br.)
Feitalzinho (Br.)
Feiteira
Feiteira de Cima
Feiteira de Dentro
Feiteiras
Feiteirinha
Feitos
Feitosa
Felecho (Ast.)
Felechosa (Ast.)
Felgar (Gz.)
Felgosa (Gz.)
Felgoso (Gz.)

Felgueira - do lat. filicaria, lugar onde há polypodium filix, ou felga, isto é, feto-macho

Felgueiras - ver "Felgueira"
Felitosa
Fetal
Feteira
Fetil
Fieital (Pt. e Gz.)
Filgueira (Gz.) - ver "Felgueira"
Filgueira de Barranca (Gz.)
Filgueira de Traba (Gz.)
Filgueiras (Gz.)
Filgueiros (Gz.)
Fleitosa (Mir.)
Folgar (Gz.) - variante de "Felgar"
Folgosa (Pt. e Gz.) - evolução fonética de "Felgosa"
Folgosa da Maia
Folgosa do Douro
Folgosa Velha
Folgueira (Gz.) - variante de Filgueira e Felgueira
Folguera (Cat.)
Foros da Afeiteira
Herdade da Afeiteira
Iratzabal (Eusk.) - de "iratz" (fèto) + "-abal" (suf. abundanc.): o mesmo que "Fètal"
O Fieital (Gz.)
Quinta da Folgosa
Reguengo do Fetal
Ribeira de Falgueirosa
Rua do Fieital - em Seixas do Douro, Vila Nova de Foz-Côa
Urreta Faleto (Mir.)
Vale da Feiteira
Vale Fetal


pampilhais, pampinhal, pampilhosa

estes topónimos são também fitotopónimos. derivam de "pampilho", planta do grupo dos malmequeres e margaridas.


Alto da Pampilheira
Bairro da Pampilheira
Pampilhais - o mesmo que "campos de pampilhos"
Pampilhal (Pt. e Gz.) - graf. altern.: "Pampillal"
Pampilheira
Pampilhido
Pampilhosa
Pampilhosa da Serra
Pampilhosa do Botão
Pampinhal
Praia da Pampilhosa (Gz.) - graf. altern. "Praia da Pampillosa"

panascal, panasqueira, panascoso

estes topónimos são fitotopónimos, pois derivam de "panasco", uma planta gramínea que serve de pasto aos rebanhos (de ovelhas, por exemplo).


Minas da Panasqueira
Monte Novo do Panascoso

Panascal (Pt. e Gz.) - o mesmo que "prado de panascos". tem um significado próximo de "pradaria"

Panascos
Panascoso
Panasqueira - significa "campo ou prado de panascos"

Penhascoso - o nome "Penhascoso" resulta de uma alteração e reinterpretação recente do topónimo "Panascoso". como o topónimo se tornou vagamente cacofónico para certas mentes e a terra é muito rica em penhascos, vá de alterar o nome original - o qual, como hoje se diz, tinha adquirido conotações homofóbicas.

Quinta do Panascal

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Alcongosta, Cangosta, Congosta, Congosto, Congostra, Quingosta

estes topónimos estão associados a lugares de passagem difícil mas incontornável. encontram-se por toda a metade Norte da Península Ibérica, desde o território galego-português até aos vales pirenaicos de Aragão. tanto aparecem em lugares altos de passagem difícil, como em ruas, veredas, azinhagas e vielas estreitas, em troços apertados do curso de um rio ou em desfiladeiros e gargantas. a oscilação da primeira vogal é curiosa, variando entre a, i e o.
a sua associação a lugares de passagem estreita tem feito pensar no lat. canale angusta. admito também o parentesco linguístico com a palavra "canga", que contém a ideia de "aperto", "constrangimento".
encontra-se "congosta" como adjectivo, sobretudo em castelhano: "Las gargantas del Dobra son espectaculares, muy congostas y escarpadas" (da web).
nas regiões moçarábicas aparece o híbrido "Alcongosta" (do árab. al + congosta).

alguns desses topónimos:

Alcongosta
Cangosta
Cangosta da Palha
Cangosta das Cruzes
Cangosta de S. Sebastião

Congosta (Pt. e Gz.)
Congosta de Vidriales (Le.)
Congostas
Congosto de Olvena (Arag.)
Congostras (Gz.)
Congostro (Gz.)
Cruzeiro da Quingosta
Dehesa de Congosta (Le.)
Lugar da Congosta
Puente de la Congosta (Ast.)
Quingosta
Quingostas
Rua da Congosta
Rua da Quingosta
Rua das Congostas
San Andrés del Congosto (CsM)


domingo, 13 de janeiro de 2008

canga e cangas

apesar de aqui e ali virem referenciados ao latim cannica(s), os topónimos "Canga" e "Cangas" são, muito provavelmente, de origem linguística pré-romana. o topónimo nasceu nas Astúrias, onde encontramos as muito antigas Cangas de Onís e Cangas de Narceo. no séc. XII aparece nos documentos Cangas do Morraço na Galiza. o diminutivo "Canguelas" aparece na toponímia andaluza sob a forma "Picón de Las Canguelas". e como a Toponomástica está cheia de homofonias entre línguas diferentes, só para exemplo há em Angola o Rio Cutato das Canguelas, sendo que, nesse caso, "Canguelas" ou "N'Canguelas" é um etnónimo e nada tem que ver com Cangas.
sendo o topónimo Cangas originário das Astúrias, a melhor pista para o seu significado é o Bable, a língua asture-leonesa, tamém chamada vieya fala, de que o impropriamente chamado "mirandês" constitui um subdialecto. ora, segundo Rato de Argüelles (1891), "o nome de Cangas provém das choças ou cabanas em que viviam os habitantes dos povoados, as quais, cobertas de palha ou de urze em lugar de telhas, deviam o nome ao conjunto de paus entrelaçados que se colocavam por cima para evitar que o vento levasse a cobertura". a ser assim, os topónimo Canga, Cangas e Canguelas seriam, de certo modo, sinónimos de "Cabana", "Cabanas" e "Cabanelas", respectivamente.
as teorias latinófilas que referem o significado de "canavial" ou de "vale profundo e estreito" carecem de comprovação factual no terreno.

alguns topónimos derivados de "Canga" ou "Cangas":

Cangas de Foz (Gz.) ver Comentº de Malvelinha
Cangas de Narceo (Ast.) - ver aqui
Cangas de Onís (Ast.) - ver aqui
Cangas do Morraço (Gz.)

Cangas (Br.) - são topónimos antroponímicos. homenagem a alguém de sobrenome Cangas. ou transposições dos topónimos galegos ou asturianos? ver Comentº de Jolorib.

Picón da Las Canguelas (And.)
Rua da Canga - em Aguiar da Beira (Pt.)


sábado, 12 de janeiro de 2008

morros, morraços e morreiras

"morreira" é um lugar onde há vários "morros", ou "lugar entre morros".
um "morro" é um monte de pequena altura, um outeiro, um cabeço, uma colina, um cêrro ou sêrro, um bairro ao subir de um monte. o topónimo "Morro" é ubíquo um pouco por todo o Brasil. no Algarve (Pt.) predomina o termo "Cêrro".

topónimos derivados de "morro":

Cangas do Morraço (Gz.) - graf. altern. Cangas do Morrazo. ver tamém "O Morraço"

Farol do Morro (Br.)

Marrazes - ??? (topónimo pré-romano). relação com Morrazos? verdade é que no Séc. XIX, "Marrazes" era tratada como substantivo plural: "Freguesia de Santiago dos Marrazes"

Morraço (Gz.) - graf. altern. "Morrazo". pode significar um morro mais avantajado. promontório. mas Morraço também pode ser sinónimo de "Cachada", topónimo rural que designa um terreno que se tornou cultivável depois de queimada a vegetação silvestre e depois de nivelado ("disfarçado", "escondidas as irregularidades", "alteado")

Morrão (Br.) - o mesmo que "morro grande". nome de serra

Morreira (Pt.) - "lugar onde há vários morros" ou "lugar entre morros". serra de baixa altitude

Morro
Morro Agudo (Br.)
Morro Azul (Br.)
Morro Branco (Br.)
Morro Cará-Cará (Br.)
Morro Cara de Cão (Br.)
Morro Cara Suja (Br.)
Morro da Fumaça (Br.)
Morro da Lapa (Br.)
Morro da Mangueira (Br.)
Morro da Providência (Br.)
Morro das Pedras (Br.)
Morro da Urca (Br.)
Morro de São Paulo (Br.)
Morro do Castelo (Br.)
Morro do Forte (Br.)
Morro do Lajedo (Br.)
Morro do Moreno (Br.)
Morro Dona Maria (Br.)
Morro do Osso (Br.)
Morro dos Ventos (Br.)
Morro Grande (Br.)
Morro Pelado (Br.)
Morro Santana (Br.)
Morro Velho (Br.)
Morro Vermelho (Br.)
O Morraço (Gz.) - graf. altern. O Morrazo
Três Morros (Br.)

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Morraceira e Mouchão

sobre o topónimo "Morraceira" encontrei no jovem blogue do mesmo nome esta belíssima definição:

"unha morraceira... Un illote de terra no medio dun río na que xa se asentou vexetación..."

e a essa vegetação é costume dar-se o nome de "morraça".

tal como no Rio Minho, tamém no estuário do Rio Mondego existe uma ilha Morraceira.

um pouco mais a sul, a palavra correspondente é "Mouchão": Mouchão de Tomar, de Alhandra, de Póvoa de Santa Iria, do Lombo do Tejo, Herdade do Mouchão, etc. porém, nos "mouchões" não é costume a presença de "morraça", uma planta gramínea utilizável como forragem.

topónimos afins:
Morraça
Morraçã
Morraçal
Morração


sábado, 5 de janeiro de 2008

Topónimos Terminados em -el

é um grupo heterogéneo de topónimos, que, na sua maior parte, indica filiação no grupo de falares do romance galego-português moçarábico (Beiras, Estremadura, Ribatejo, Alentejo e Algarve, Pt.).
alguns destes topónimos, como Samel e Tourel, são genitivos de antropónimos.

Albarquel - topónimo híbrido, de árab. "al" + "barquel". "barquel" é diminut. de "barco", tal como "Barcelos" (diminut. plur. de "Barco"). implica a proximidade de um rio. é o mesmo que "portinho", "lugar de passagem ou travessia ou embarque". ver post

Alboritel - ver "Alburitel"

Alburitel - graf. altern. de "Alboritel". o mesmo que "Alportel"? pressupõe as formas intermédias "Alporetel" e "Alboretel"

Alfornel - topónimo híbrido, de árab. "al" + "fornel" (diminut. de "forno"). o topónimo "Fornel" encontra-se em França e na Catalunha. do lat. fornellu.

Aljustrel

Alportel - em "S. Brás de Alportel". topónimo híbrido, de árab. "al" + "portel". ver "Portel"

Arnel - ver "Ponta do Arnel"
Courel (Pt. e Gz.)
Espichel - nome de um cabo
Ferrel
Fratel

Marnel (Pt. e Gz.) - topónimo associado à presença ou proximidade de rios ou ribeiros. como hidrónimo: Rio Marnel. mesma etimologia de Marne (Fr. ). origem celta: matter (mãe, nascente) + onna (fonte)

Pinhel - diminut. de "Pinho" (o mesmo que "pino", "ponto alto")

Ponta do Arnel (Aç.) - parece haver uma relação com Ar-Men, na Bretanha (Fr.), onde, aliás, também existe um famoso farol. "ar-men": "a pedra", "o rochedo". o povoamento da Ilha de S. Miguel pode explicar a relação. e a localização também

Portel - diminut. de "Porto". do lat. portellu: Portelo, Portinho
Rochel
Rogel
Sousel

Samel (Pt. e Gz.) - genit. de Salamiru. também aparece sob a forma Samil (Pt. e Gz.). pronúnc. Sàmel/ Sàmir

Tamel - forma ant. "Tamal"
Tourel (Pt. e Gz.) - é um genitivo de um antropónimo

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Topónimos terminados em -ei, -ey

mais um grupo de topónimos com terminação comum, neste caso em -ei ou -ey, indicando, regra geral, um genitivo de antropónimo. são, pois, em geral, lugares cujo nome se associa à posse da terra, na Idade Média.


Atei - graf. anter. "Atey"

Ganfei - nome derivado de S. Ganfei, ou Ganfred, que mandou reedificar um antigo mosteiro beneditino que existira no local e que fora destruído por Al-Mansur, Rei de Córdova. a forma Ganfei é um genitivo. como dizer: "(Mosteiro) de São Ganfred"

Gondarei (Gz.) - graf. altern. "Gondarey". ver "Gondarém"

Guilhofrei - de Wiliafredi ou Uiliauredi, genit. de Wiliafredu ou Uiliauredu, antropónimo germânico

Guimarei (Pt. e Gz.) - graf. altern. "Guimarey" (Gz.). de Vimaredi, genit. de Vimaredu

Gumiei -

Jesufrei - de Segefredi, genit. de Segefredu.

Lufrei - graf. anter. "Logefrey", "Loifrei" e "Luifrei". de Leodefrei, genitivo de Leodefredu - de onde também o topónimo "Lufreu" (Penacova, Pt.)

Recarei - de Recaredi, genit. de Recaredu
Turei (Gz.) - graf. altern. Turey. ver "Tourém"



segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

frase do ano 2007

"paréceme que se está a perder liberdade, porque deixamos que pensen por nós. iso si, eu agora penso que son libre por poder dicir todas estas tonterías".

Lúa

Topónimos Terminados em -ém, -én

é um grupo heterogéneo de topónimos, do qual fazem parte alguns genitivos de nomes de possuidores de terras.


Alentém - em "Vilar de Torno e Alentém", Lousada (Pt.). antiga Arantei e Arantey. origem pré-romana. relacionada com o euskera arantz, "vale", ou com o pré-céltico are, "rio"? ou as duas coisas?

Azurém - de Osoredi, genit. de Osoredu, antropónimo germânico. ou seja, "propriedade de Osoredu"

Belém - do célt. Belenos ("carvalho"), a "morada do sol", equivalente à divindade grega Apolo. é um teónimo, no caso, um genitivo da divindade. como dizer "propriedade ou santuário de Belenos"

Borratém - em "Poço do Borratém", Lisboa. do árab. bîrr at-tîn: "poço da figueira". é mais um caso de redundância, em que a Toponímia se compraz. Poço do Borratém: "poço do poço da figueira"

Gondarém (Pt. e Gz.) - de Gunduredi, genit. de Gunduredu, antropónimo germânico. como dizer "propriedade ou quinta de Gunduredu". graf. altern. (Gz.): Gondarén. variante: Gondarei (Gz.) - graf. altern. Gondarey.

Litém - em Santiago de Litém e São Simão de Litém. de Litém, Pombal (Pt.). hidrónimo: Ribeira de Litém. ver" Alentém"

Orbacém - topónimo nortenho (Pt.), de Vila Praia d' Âncora. genit. de Urbacenu ?

Ourém - para J. P. Machado (2003), trata-se da transposição do topónimo árabe Uhrâm (Orã, Argélia)

Pevidém - topónimo de uma Vila do concelho de Guimarães (Pt.), deriva do apelido ou alcunha de uma figura típica que em tempos viveu num pequeno lugar da freguesia de S. Jorge de Selho. nesse lugar, uma casa ostenta o letreiro "aqui nasceu Pevidém". o apelido ou alcunha é provavelmente arbitrário. caso idêntico sucedeu em Coimbra com o Calhabé

Sacavém - topónimo de origem pouco clara. a hipótese árabe, sâqabi, "[lugar] próximo ou vizinho (de Lisboa)" é tentadora, mas não passa disso

Santarém - topónimo de origem desconhecida, talvez pré-romano. isto apesar da muito conhecida tese de provir de Santa Irene. no Pará (Br.), Santarém é transposição do topónimo português. também no Pará, existe Santarém Novo

Serém - de Sereni, genit. de Serenu: "quinta ou propriedade de Serenu"

Toém (Gz.) - graf. altern.: Toén

Tourém - de Teodoredi, genit. de Teodoredu. forma anterior "Tourei". da mesma etimologia são os "Turei" (Gz.), graf. altern. "Turey"

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Comba, Santa Comba, Pombal e Pombeiro



não se trata de um grupo de topónimos fácil. é um ponto de confluência evolutivo de vários pontos de partida etimológica. assim, pode ser o aspecto actual do céltico cumba (vale estreito e curto, garganta), de comba (pequena chã no declive de um monte), do latim columna (marco ou coluna romana), ou do hagiónimo Colomba - correspondente a várias Santa Colomba ("pomba"), as quais, por sua vez, representam cristianizações medievais de cultos pagãos anteriores. a destrinça nem sempre é possível, dado que tanto a orografia como a História do local podem explicar o topónimo.
Santa Comba de Sens, França (séc. III) e Santa Comba de Córdova, Espanha (Séc. IX) têm em comum o terem sido decapitadas no processo de martírio, o que as faz incluir no culto das "cabeças", ou pontos altos, tal como Santa Eulália ou Santa Quitéria.
alguns topónimos relacionam-se com este grupo, quando representam variações de columbarium, quer no sentido de "pombal", quer no sentido de jazigo ou local com nichos onde se depositavam vasos com as cinzas dos mortos. é o caso de topónimos como "Pombal" e "Pombeiro".

Azinhaga de Santa Comba (Coimbra, Pt.)
Casal Comba
Comba (Pt. e Gz.)
Combada
Combarro (Gz.)
Combas
Combel (Gz.)
Combelas - diminut. de Combas
Combinha - diminut. de Comba
Monte de Santa Colomba - no concelho de Mêda

Pombal (Pt., Gz. e Br.) -o caso brasileiro é uma homenagem a Sebastião José de Carvalho e Melo, Marquês de Pombal e primeiro ministro do Rei Dom José I.

Pombeiras
Pombeirinho - diminut. de Pombeiro
Pombeiro (Pt. e Gz.)
Pombeiro da Beira
Pombeiro de Riba Vizela
Pombeiros
Quinta das Combas
Santa Comba (Pt. e Gz.)
Santa Comba Dão - está por Santa Comba d'Ão
Santa Comba de Bande (Gz.)
Santa Comba de Rossas
Santa Comba de Soutolobre (Gz.)
Santa Comba de Vilariça
Santa Comba do Trevoedo (Gz.)
Serra de Santa Comba


domingo, 9 de dezembro de 2007

Rabelo, Ravelo, Rebelo, Revelhe e Reveles - toponímia e onomástica

trata-se de topónimos e onomásticos de origem muito discutida e provavelmente diversa. Revelhe é claramente um genitivo de Rabelo, Rebelo ou Revelo, formas alternativas que o antropónimo apresentava na Idade Média. por sua vez, Reveles é um patronímico de Revelo, isto é, quer dizer "filho de Revelo", tal como Rodrigues significa "filho de Rodrigo", por exemplo. um topónimo aparentado é Ravel, em França, cuja origem tem sido associada ao latim rivus: "curso de água". as formas "Rebel" (Gz.), Revel e Ribela parecem indiciar uma origem mais em ripa, também latina (margem, margem elevada), de onde deriva o topónimo Ribeira, aplicando-se a lugares ou comarcas contíguos a um rio ou mar. o facto de o barco típico do rio Douro se chamar "rabelo" parece confirmar esta etimologia, tal como a designação de "rabelas" para as populações ribeirinhas do mesmo rio. o sobrenome ou apelido "Rebelo", frequente na zona do Douro Litoral, é isso mesmo que significa: "ribeirinho" (do Douro).
lê-se em J. P. Machado (2003) que os sobrenomes Rabelo/Rebelo derivam do latim raphanellu ("rabanete"), o que me parece bastante inadequado para nome de pessoa, quanto mais para nome de pessoa proprietária de terra e suficientemente importante para dar origem ao topónimo e seus derivados.

Rabelo
Ravel (Fr.)
Ravello (It.) - cidade da Campania, no Sul de Itália
Ravelo (Gz.)

Rebel (Gz.) - variante de Revel. de acordo com uma achega de Isabel Rei Samartim, existe o topónimo Rebel na Galiza, em Vilalonga, São Gens, Ponte Vedra.

Rebelo

Revel (Pt., Gz. e Fr.) - há vários topónimos "Revel" em França, designadamente no Haute-Garonne e Isère, donde não ser proibido que o sobrenome Revel/Rebel tenha origem numa mais ou menos ancestral ou mais ou menos recente origem transpirenaica.

Reveles - nome de lugares e quintas da margem esquerda do Mondego.
Revelhe - genitivo de Revelo: "quinta ou propriedade de Revelo".

Revilhães - tal como Revelhe, é genitivo de Revelo: "quinta ou propriedade de Revelo"

Ribeira (Pt. e Gz.)
Ribel (Gz.)

Ribela - aqui parece mais clara a origem em ripa / "riba", na forma diminutiva. a "riva" ou "riba" (margem, margem alta, arriba) aplica-se a lugares contíguos a um rio ou mar.

sábado, 8 de dezembro de 2007

Topónimos Terminados em -ance e -ante

pertencem ainda ao grupo dos genitivos relacionados com proprietários rurais da Idade Média.

Amarante (Pt., Gz. e Br.) - no caso português, Amarante é feminino. a população local e próxima trata a cidade por "a Amarante". assim, tudo indica tratar-se de um genitivo de um possuidor de uma villa: villa Amarantii. o caso brasileiro é transposição do topónimo português.

Constance - de villa Constantii: quinta ou propriedade de Constantiu (Constâncio)