segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

camarinhas e caraminhas

as camarinhas são pequenos frutos brancos em forma de contas de cristal, de sabor adocicado, produzidos por um arbusto espinhoso, a camarinha ou camarinheira, que nasce em terrenos dunares atlânticos próximos do mar. vêem-se muito na costa do centro e norte de Portugal e da Galiza. a garotada das colónias balneares adora colher camarinhas enquanto caminha para a praia.

de "camarinha" (Pt. e Gz.) surge tamém "caraminha", por metátese.
as camarinhas estão presentes na toponímia galego-portuguesa do litoral, sob diversas formas, que se incluem na classe dos fitotopónimos:
no entanto, em alguns casos, sobretudo se no singular, a origem do topónimo pode ser outra: de "Câmara"?


A Camarinha (Gz.) - graf. altern.: A Camariña
A Pobra do Caraminhal (Gz.) - graf. altern.: "A Pobra do Caramiñal". ver "Camarinhal"

Camarinha (Pt. e Gz.) - graf. altern: Camariña. de Câmara?
Camarinhais (Pt.) -
Camarinhal (Pt.) - lugar onde abundam as camarinhas ou camarinheiras.

Camarinhas (Pt. e Gz.) - graf. altern.: "Camariñas"
Camarinheiras (Pt.) -
Caraminhais (Pt.) -
Caraminhal (Pt. e Gz.) -
Casal das Caraminheiras (Pt.)
Pico das Camarinhas (Aç.) -
Reguengo da Camarinha (Pt.) -
Ribeira das Caraminheiras (Pt.) -

e reencontramo-las no sul da Península, na Andaluzia, perto de Gibraltar: o Cabo Camariñal ou Punta Camariñal.



imagem: www.ideotario.com

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

boidobra

a antiguidade desta vila do concelho da Covilhã fez esquecer a origem e o significado do seu nome, o qual, pela pronúncia que hoje tem, em língua alheia à original, dá azo a explicações mais ou menos arbitrárias. a terminação -bra implica uma origem celta em briga, que significa "castro ou fortificação no alto". a primeira parte, boido, é também celta e refere-se ao divino Boduus. a "tradução" talvez se torne óbvia: Boidobra: "o castro ou fortaleza de Boduus". é, pois, um caso de "monte santo".

terça-feira, 11 de novembro de 2008

agrolongo, longos, longos vales, longroiva, monte longo

trata-se de etnotopónimos, que se reportam aos "Longos", "Lónicos", "Luancos" ou "Lyncos", tribo proto-histórica cujo animal totémico era o lince. a sua divindade principal era Deo Vestio Lonico, "o divino Vestio dos Longos". a notícia epigráfica e toponímica deste povo estende-se da bacia do Douro português até às províncias galegas do sul.


no caso de "Longroiva" (Longobriga), o topónimo significa "o castro ou fortaleza dos Longos" - indicando, pelas suas particularidades linguísticas, a presença dos Longos já no período celta.
todos estes topónimos estão em cima ou junto de castros pré-romanos. no caso de Santa Cristina de Longos, concelho de Guimarães, o castro é o de Sabroso, notável pelo aparelho das muralhas, de uma precisão milimétrica.
a memória dos Longos e de Vestio Lonico parece persistir no culto de "São" Longuinhos, no escadório do Bom Jesus do Monte, em Braga. segundo uma lenda, Longuinhos (Longuinus) teria sido o soldado romano a quem coube a tarefa de dar o golpe de misericórdia na execução de Jesus-o-Cristo. sendo, pois, uma personagem do pré-cristianismo, Longuinus é o pagão que se converte, incorporando-se pacificamente na nova religião. é representado na figura equestre de um centurião romano.
o seu culto tem aspetos muito arcaicos, ligados à fertilidade. no Brasil, São Longuinhos é o patrono dos objetos perdidos ("São Longuinhos, São Longuinhos, me ajude a achar a minha chave e eu darei três pulinhos").

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

adorigo

no concelho de Tabuaço (Pt.), Adorigo é mais um antropotopónimo de origem germânica. porém, diferentemente da grande maioria deles, não é um genitivo. por isso, refere-se mais ao senhor que à sua propriedade. de "Adericus".

valdigem

o nome desta vila do concelho de Lamego (Pt.) deve ser incluído na antropotoponímia germânica. representa o genitivo do nome de um senhor feudal, um tal Baldoigius (forma latinizada de Balthweigs), que teria sido bispo de Cuenca e detentor da posse da terra a que deu o nome.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

brasília



inaugurada em 21 de abril de 1960, Brasília é o resultado do cumprimento de uma promessa eleitoral de Juscelino Kubistchek cinco anos antes.


segundo se diz, a capital foi planeada com requintes tais que se chegou à análise do seu horóscopo e a precisões de orientação simbólica.

seja como for, o mapa da cidade assemelha-se a um urubu de asas abertas, com a cabeça voltada a oriente. uma cidade pensada para tudo menos para quem lá mora e a visita. cidade mais desumana não conheço: é tudo longe de tudo. é tudo imenso e vazio. procura-se uma ágora, uma praça, onde se junte gente fazendo aquele barulho da vida das cidades. não tem. e pode ser que um dia Brasília tenha uma rede de metro, uma ciclovia, uma teia de bondes, sei lá, qualquer coisa que permita a um ser humano ir daqui para ali sem ter de comprar um carro, chamar um táxi ou alugar uma vanete.
mas talvez o segredo de tudo esteja no mausoléu de Kubistchek. afinal de contas, Brasília é uma cidade faraónica.

o nome é de extração óbvia, pensado para a capital do Brasil. e os habitantes de Brasília chamam-se brasilienses.
e é aqui que começa uma estória de pasmar. num grande congresso internacional, um importante senhor, que saberá mais do seu ramo específico de ação do que de filologia e de história, lembrou-se de exarar, com ares de quem sabe, que "Brasília" veio dar aos seus habitantes o nome gentílico ("brasilienses") que caberia a todos os brasileiros. dizia ele que "brasileiro" se inclui no grupo de nomes acabados em "-eiro", como "pedreiro", "carpinteiro", "mineiro", "padeiro", ou seja, indicaria uma profissão. e vai daí, a profissão dos "brasileiros" teria sido a de trabalhar o pau-brasil - por isso o nome que deram aos habitantes do Brasil, aos que trabalhavam no pau e aos outros.
todos, naquele congresso, de boca aberta com a ignorância que levaram e a sabedoria que traziam.
mas a realidade das cousas é bem diferente: o gentílico "brasileiro" é de origem galego-portuguesa. a terminação "-eiro" aplica-se aos habitantes de certas vilas, cidades ou regiões do litoral galego-português, como "fangueiro", "poveiro", "vareiro" e "penicheiro". tamém oiço chamar "camacheiros" aos madeirenses da Camacha.
e daí o "-eiro" dos habitantes do Brasil.

domingo, 26 de outubro de 2008

pirenópolis (Br.)

Pirenópolis deve o seu nome à Serra dos Pirenéus, contraforte do Planalto Central do Brasil, no estado de Goiás. desde a sua fundação em 1727 até 1890, o seu nome era Minas de Nossa Senhora do Rosário de Meia Ponte, passando então a chamar-se Pirenópolis.

a sua população europeia é quase toda oriunda do norte de Portugal e da Galiza.

sábado, 25 de outubro de 2008

sumé (Br.)

Sumé é uma cidade do sul do estado da Paraíba. o seu nome deriva de "çumé" ou "tsumé", uma entidade mítica do folclore de várias tribos tupi do Brasil, um ser de cara branca, misto de semi-deus, curandeiro e sábio, dotado de poderes sobrenaturais, que praticava o bem e os teria iniciado nas artes da agricultura e nas regras morais.

atribui-se a sumé a autoria de escritos gravados em pedra (petroglifos), onde estarão consignados os seus ensinamentos. os missionários jesuítas da Paraíba rapidamente se aperceberam das semelhanças do mito com o do apóstolo Tomé, pelo que o lugarejo de então passou a chamar-se de "São Tomé", bem como o rio que o atravessa.
em 1951, "São Tomé" adquire o estatuto de cidade e, havendo já outras "São Tomé", decidiram os seus habitantes dar -lhe o nome cariri de "Sumé".

chainça

este topónimo aparece na Galiza e em Portugal. faz parte do grande grupo de topónimos simples ou compostos que indicam terreno plano, planície ou chã, tais como "Chã", "Chaira", "Chairo", "Chão", "Chãs", "Cheira", "Cheirinha", "Chelas", "Chelinho", "Chelo", "Chenlo".
"Chainça", graf. altern, "Chainza" (Gz.). conheço uma em Abrantes (Pt.), uma em Leiria (Pt.), uma em Penela (Pt.), uma em Rio Maior (Pt.) e outra em Noia (Gz.). tem a mesma etimologia de "planície", do lat planitia.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

almacave

"Almacave", é uma palavra árabe que significa "túmulo(s)", "cemitério". como tomou o nome durante o domínio árabe, a conclusão é que esse(s) "túmulo(s)" ou "cemitério" data(m), pelo menos, do domínio árabe na região.

mas a presença de uma igreja românica importante nessa freguesia de Lamego aponta para a presença de um espaço sagrado antigo, já que os beneditinos se esforçaram por cristianizar, na Idade Média, locais já sagrados há muitos séculos.
tomava-se por "túmulos" as chamadas "sepulturas antropomórficas", cavadas na rocha, por vezes de dimensões mais próprias para crianças ou adolescentes e cuja função não está ainda perfeitamente esclarecida, apesar de serem conhecidas por "sepulturas". é o caso de S. Pedro de Lourosa, de Penela e de muitos outros lugares. para mim, são lugares iniciáticos, onde se praticariam cerimónias de passagem da infância à idade adulta, coisa que é suficiente para justificar a cristianização quer no período visigótico, quer, depois, no período baixo-medieval.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

praia da falésia (Pt.), praia da ribanceira (Br.)

muitas praias mereceriam estes nomes. no entanto, pelo menos em língua decifrável, são poucas as que fazem alusão às falésias e ribanceiras que as rodeiam e protegem.

Praia da Falésia (Pt. - Alg.)
Praia da Ribanceira (Br. - SC)
Praia de Muro Alto (Br. - PE) - praia rodeada por um paredão de areia de cerca de 3 metros de altura

sábado, 27 de setembro de 2008

conraria

"conraria" era a dependência ou oficina do cónego conreário ou conreeiro, o qual tinha por função guardar e gerir o que pertencia aos cónegos e à sua mesa comum. "conraria" é variante de "conrearia".


o topónimo existe na margem esquerda do Mondego, na freguesia de Castelo Viegas, arredores de Coimbra, onde encontramos:


Estrada da Conraria
Quinta da Conraria
Volta da Conraria

este topónimo coimbrão deve ter vindo ao mundo solteiro, pois não conheço outro exemplo.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

sumes, súmio

estes topónimos referem-se a lugares onde há sumiço de águas.

relativamente ao "Lugar de Sumes", freguesia de Gondar, concelho de Guimarães, região granítica por excelência, cito o Pe. António Ferreira Caldas (1996, 2ª ed., pág. 143): "[ao rio Selho] depois de um percurso aproximado a um quilómetro, no lugar do Reboto, junta-se-lhe o riacho de nome Selhinho, e assim reunidos escondem-se debaixo da terra no lugar de Sumes, freguesia de S. João de Gondar, correndo ocultos por espaço de mais de seiscentos metros até à freguesia de Serzedelo [...], indo em seguida confundir-se no [rio] Ave".


Cañón de Sumideiro (Mx) - no Estado de Chiapas
Casal de Suimo - ?
Castro de Sumes (Pt.)
Monte Suimo
Suimo - ver Comentº
Sumes (Pt.)
Sumideiro (Pt.)
Sumidoiro (Pt.) - é hidrónimo
Santiago de Sumio (Gz.) - no concelho de Carral.
Sumidouro (Br.) - no Estado de MG
Sumidouro de Cima (Br.) - no Estado de SP



"súmio" é uma fenda ou greta da terra por onde as águas se somem.

domingo, 7 de setembro de 2008

a sionlha (Gz.)

a primeira noite que passei em Santiago de Compostela, há uma boas décadas atrás, foi dentro de uma tenda, no parque da Sionlha. um topónimo estranho, como tantos outros sem significado na língua vernácula. se trago aqui à baila o parque de campismo, lugar de pernoita e estadia temporária, é porque "A Sionlha" parece derivar de Asseconia, uma mansio ou pousada romana na via XIX de Braga a Astorga.
deveria, pois, ser "Assionlha" e não "A Sionlha", mas a transformação do "A" inicial no artigo definido "A" é um fenómeno muito comum na toponímia galego-portuguesa escrita.
derive de Asseconia ou não, é um topónimo muito antigo, pré-romano, cujo significado me escapa.
certo é que Sionlha é tamém um hidrónimo ou nome de rio, mas talvez o nome do ribeiro derive do nome povoado e não o inverso.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Senhor Roubado

este é o nome de uma estação de Metro de Lisboa. localiza-se junto ao pequeno largo do mesmo nome, à saída da Calçada de Carriche, na estrada de Odivelas. nesse largo encontra-se um padrão datado de 1744.
foi construído em memória de um roubo sacrílego ocorrido em 1671 na igreja matriz de Odivelas. o autor confesso do roubo de peças sacras, o infeliz António Ferreira, acabaria condenado pela Inquisição, arrastado e levado à praça do Rossio, onde lhe deceparam as mãos e lhas queimaram à vista, após o que o assaram vivo - numa manifestação eloquente do mais sacrílego fundamentalismo político-religioso.
o monumento ao Senhor Roubado compõe-se de um recinto quadrangular trapezoidal, de dez metros de comprido por oito de largura, a modo de templo descoberto. 12 quadros, de 72 azulejos cada, contam as peripécias de um roubo que daria nome ao lugar.
ali os fiéis vinham encomendar-se ao Senhor e pedir perdão pelos seus pecados.




(ver notícia original em http://odivelas.com/2010/01/14/sr-roubado-historia/)

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

bairros dos sonhadores ou os excessos poéticos

é natural que se goste de morar num bairro com um nome bonito, até poético. o pior é que a realidade nem sempre dá pelo nome que lhe chamam.
alguns destes bairros têm nome de inspiração religiosa (r).

Bairro Alto da Maravilha (Br.)
Bairro Boa Esperança (Br.)
Bairro da Alegria
Bairro da Amizade (Br.)
Bairro da Bela Vista
Bairro da Boa Viagem (Br.)
Bairro da Boa Vista
Barro da Boavista
Bairro da Consolação - (r)
Bairro da Fraternidade
Bairro da Graça (Pt. e Gz.) - (r)
Bairro da Juventude (Br.)
Bairro da Liberdade (Pt. e Br.)
Bairro da Luz
Bairro da Nova Imagem (Pt.)
Bairro da Paciência (Br.)
Bairro da Paz
Bairro da Piedade (Br.)
Bairro da Rosa
Bairro da Saúde (Br.)
Bairro da União (Br.)
Bairro da Vista Alegre (Pt., Gz. e Br.) - ver Comentº de Calidonia
Bairro da Vitória (Br.)
Bairro do Bom Pastor - (r)
Bairro do Paraíso (Br.)

não conheço este costume na Galiza. os bairros que eu conheço tenhem um nome mais distanciado desses sentimentos e aspirações. ex: "Bairro da Madalena", "Bairro de Canido", "Bairro de Sam Lázaro", "Bairro do Esteiro",...

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

bairro da solum, bairro do brinca

a curiosidade destes dois topónimos da cidade de Coimbra reside no facto de o seu nome derivar das respetivas sociedades construtoras. o seu caráter eufónico e a falta de mais imaginada alternativa fez com que vingassem na linguagem quotidiana. a gente nascida depois dos anos 70 fala do Bairro do Brinca e do Bairro da Solum sem fazer ideia da origem desses nomes.
isso faz entender melhor como se perdem tão depressa as referências etimológicas dos topónimos e como tão rapidamente surge a necessidade de lhes dar as mais desencontradas explicações, fonte de lendas, palpites e teses de mestrado.
o Bairro da Solum ("da" porque se refere à sociedade "Solum"), começou a desenvolver-se no final dos anos 60 e é hoje a parte mais nobre e aprazível da cidade. digo eu...

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nb: solum (lat.): "solo", "chão". embora a palavra latina seja paroxítona, em Coimbra "A Solum" é pronunciada com acentuação na segunda sílaba: "sòlúm".

domingo, 17 de agosto de 2008

alhos e bugalhos

1. "alhos" é a designação de alguns topónimos curiosos, pela confusão que podem criar com o alho das cozinhas. a questão é que essa pretensa etimologia não me convence, dada a ubiquidade da planta em causa.
alius
, em latim significa "outro", "alguém que não é dos nossos", "estrangeiro", "de fora de aqui", "de fora parte", "de outro lado", "de outro lugar".
coisa que nem sequer seria de estranhar numa região que sempre conheceu repovoamentos por "gente de fora".

a palavra latina alius//aliunde entronca numa raiz indo-europeia que deu em grego allòs ("outro") e no celta allo (o numeral "dois" e o adjetivo "diferente", "outro", "segundo"). assim, não é de estranhar a presença de topónimos franceses de origem celta como "Col d'Allos, "La Foux d'Allos", "Val d'Allos".

2. mas outra explicação pode ser encontrada no latim alodis, que deu Alleu, Alleux (Fr.) na Toponímia Francesa, e tem sido associado tamém à etimologia de Allos (Fr.): trata-se de uma propriedade, ou "alodio", livre das obrigações da feudalidade, sem encargos nem direitos senhoriais, o que não deixa de ser, na qualidade de excepção a uma regra, uma excelente razão para ter ficado cristalizada sob a forma de topónimo, tal como "Foros". esta explicação contém, no entanto, algumas dificuldades de natureza fonética, pelo menos no nosso idioma.

sendo assim, qual a etimologia mais adequada para topónimos raros, como "Alhos Vedros" e "Sernache dos Alhos"?

os topónimos "Alli", "Allin", "Allo", Alloz" ocorrem em Navarra. e All na Catalunha.

o topónimo "Alhos Vedros", se se tratar de "estrangeiros velhos", de duas uma: ou indica que se trata de "gente que veio de fora antes de outras", ou indica que, na época em que se dizia "vedros" em lugar de "velhos", haveria outro povoado com o nome de "Alhos", menos antigo. e significa também que os "alhos" já eram "velhos" nessa época.
quanto a "Sernache dos Alhos", o cheiro do condimento popular acabou por reduzir o nome para apenas "Sernache".

porém, se a etimologia for alodium, os "estrangeiros" saem de cena, ficando apenas uma realidade rústica medieva do que terá sido uma ou mais que uma "propriedade livre".


Alhões - aqui pode significar "aldeia de gente originária de "Alho" ou de "Alhos"

Alhos Vedros
Sernache dos Alhos

outras alhadas:

A-do-Alho - não acredito nesta grafia. será "Adualho" - de "adua" (árab: addua)?

Alhadas -
Alhais -
Alheira - ver "Alhões"
Alheiro - ver "Alhões"
Alho -
Alhos -
Torre do Alho (Gz.) - ver Comentº

quanto aos Bogalhos, são muitos e mais nortenhos:

A Bugalha (Gz.) - graf. altern: A Bugalla
Bogalheira
Bogalho
Bugallha (Pt. e Gz.) - graf. altern. Bugalla
Bugalhães - originários de Bugalha?
Bugalhal (Pt. e Gz.) - graf. altern: Bugallal
Bugalhão / Bugalhóm (Pt. e Gz.)
Bugalhas
Bugalheira (Pt. e Gz.) - graf. altern: Bugalleira
Bugalheiras (Gz.) - graf. altern: Bugalleiras
Bugalheirinha

Bugalho - em italiano Bugaglio é hidrónimo: "Cavo Bugaglio", "Rio Bugaglio"

Bugalhos
Bugalhós - diminut. de Bugalhas
Bugalhosa
Mina da Bugalha
Os Bugalhales (Gz.) - graf. altern: Os Bugallales
Quinta da Bugalha

sábado, 2 de agosto de 2008

as pontes que nos unem

a ponte estabelece uma ligação entre dois mundos. no plano material, liga duas margens de um rio, de um vale profundo ou de um braço de mar, permitindo ou facilitando a comunicação entre povos e realidades até então separados. no plano simbólico, que noutras eras acompanhava e revestia o mero plano material, esta ligação adquiria propriedades re-ligiosas: o construtor de pontes ligava terra com terra, terra com céu, matéria com espírito. a sua função era assimilada à de um sacerdote, a que os romanos chamavam pontifex, "pontífice", "fazedor ou construtor, de pontes". ele formava o elo de ligação entre a vida de Aquém e de Além. os pontífices romanos constituíam-se em colégio ou ordem sacerdotal, com funções religiosas e jurídicas (direito divino), segundo a máxima, transposta para o cristianismo, "o que ligares na terra será ligado nos céus". ao colégio dos pontífices, ou "colégio pontifício", presidia o "sumo pontífice" ou pontifex maximus, eleito vitaliciamente pelos seus pares. após uma profunda crise religiosa e vagando o lugar de sumo pontífice, César assume a função e incorpora-a no exercício do poder imperial. com a queda do Império, a designação e a função são assumidas pelo Papado de Roma.
na Idade Média, a "congregação dos irmãos pontífices" do século XII, sob a regra beneditina, encarrega-se da construção de pontes e calçadas. certas lendas, como a de São Gonçalo de Amarante, atribuem ao mestre construtor a função de estabelecer "pontes" também a outros níveis, como a função de "casamenteiro das velhas" (ou seja, das "antigas mulheres"), talvez, dada a configuração do culto, pela adição de funções religiosas pagãs anteriores relativas ao chamado "culto da fertilidade". mas a verdade é que a própria ponte em si se pode relacionar com esse "culto da fertilidade", pois casos há em que nelas se realizam rituais destinados a favorecer a gravidez e o seu bom termo.
certas pontes, pela especial sensação de dificuldade que a sua arquitetura inspira, são conhecidas por "ponte do diabo", pois só o diabo, ou alguém que lhe conheça as artes, seria capaz de as construir. são assim conhecidas, entre outras, a Ponte da Mizarela (Pt), a Ponte de Martorell (Cat.), as ruinas da Ponte de Liédana (Na.) e as Pontes de Olvena (Arag.). as "pontes do diabo", com a respetiva lenda, existem também em França e na Itália.
às vezes, a palavra "ponte" é substituída por "arco", "arcos" ou "arquinho", que reportam à arquitetura da construção.

os topónimos que se seguem relacionam-se com pontes que estiveram na origem do desenvolvimento do respetivo povoado, vila ou cidade:

Alcântara

Alcantarilha - na realidade, "alcantarilha" é uma espécie de "ponte ao contrário", ou seja, uma "construção destinada a permitir que um pequeno canal cruze uma estrada por baixo".

Aldeia da Ponte

Arcos de Valdevez - está por "Arcos de Vale de Vez", sendo "Vez" o rio transposto pela ponte

Brugg (CH)
Cambridge (GB) - "ponte sobre o rio Cam", ou "Ponte de Cam"
Innsbruck (A.) - "ponte sobre o rio Inn", ou "Ponte de Inn"
Most (Cs.)
Mostar (BiH)
Ponferrada (Le.)
Ponteceso (Gz.)
Ponte Barxas (Gz.) - "barxas" por "várzeas"?

Ponte Cesures (Gz.) - há dúvidas sobre "Cesures" ou "Sezures". as duas grafias surgem tamém em Portugal

Ponte da Barca - como "barca" já significava "passagem", "ponte da barca" é uma redundância

Ponte da Mucela
Ponte da Pedra
Ponte das Três Entradas - pela sua forma em "Y"
Ponte de Lima
Ponte de Sor
Ponte d' Eume (Gz.)

Ponte do Arquinho - uma espécie de pleonasmo, já que "arquinho" é a própria ponte

Ponte do Bico
Ponte dos Arcos (Br.) -
Ponte do Sótão - "Sótão" é hidrónimo
Pontela
Pontelha (Pt. e Gz.)
Pontelinha

Ponte Pedrinha (Pt. e Gz.) - topónimo muito frequente, indica construção romana (?). a estas pontes, tal como às "pontes do diabo", associa-se uma lenda segundo a qual teriam sido construídas durante a noite, ficando no final uma "pedrinha" por colocar, para que não pudessem ser dadas por concluídas. umas vezes é o diabo que as constrói pela noite, outras vezes são os mouros. a "pedrinha" em falta é um artifício para ludibriar o diabo, que estabelece um "preço" pela sua colaboração na obra: a morte dentro de um ano para o primeiro que a atravesse depois de pronta. o diabo sai sempre enganado, pois que o primeiro ser vivo que a atravessa é um gato, um cão ou um porco. é possível que estas lendas estejam associadas aos sacrifícios humanos ou de animais que outrora se fazia para propiciar o bom curso de uma construção.

Ponte Vedra (Gz.) - ponte medieval, como indica a forma "vedra", para designar "velha"

Ponte Sezures - ver "Ponte Cesures" (Gz.)
Pontezela - pequena ponte medieval, como indica o diminutivo "cella"
Pontezinha
Pontilhão / Pontilhóm (Pt. e Gz.)
Pontinha (Pt. e Gz.)
Puente la Reina (Na.)
São João da Ponte (Pt. e Br.)


(nota: aqui se retoma e amplia um tópico já publicado)
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nota: sobre o simbolismo da ponte, ver Jaime Cobreros (1991), El Puente, Ediciones Obelisco, Biblioteca de los Símbolos, nº 2, Barcelona. ver tamém Jean Chevalier e Alain Gheerbrant (1982), Dictionnaire des Symboles, Robert Laffont/Jupiter, Paris, pp. 777-778.

domingo, 29 de junho de 2008

fanha, fanhais, fanheiro e fanhões

são lugares úmidos, lamacentos, vestígios ativos de lagoas ou pântanos.
o termo "fanha", de onde derivam, assenta num radical fanh- ou fanc-/fang-, relacionado com a ideia de "lama", "pântano", "paúl", "chiqueda".
aparecem topónimos deste grupo em Aragão, na Catalunha, França, Itália, Bélgica e Escandinávia.

A Fangueira (Gz.) - ver "Fangueira" (Br.)
Fañanás (Ar.)

Fangueira (Br.) - em Minas Gerais. a questão é que "fangueira", "fangueiro", significa "habitante ou natural de "Fão", concelho de Esposende (Pt.) - o que fará sentido nos dois casos brasileiros. no caso galego (A Fangueira) pode significar "lugar onde há fanga ou fanha"

Fangueiro (Br.) - em Minas Gerais
Fanha
Fanhais
Fanheira
Fanheiro
Fanhões - será o plural de Fanhão, ou indica gente oriunda de Fanha?

Fão - há quem diga que "Fão" vem do latim fanum, "templo". porém, quando nos referimos aos habitantes de Fão chamamos-lhe "fangueiros" (e não "faneiros", "fanenses" ou "faneses"), o que pressupõe o radical fang- e condiz com as caraterísticas geológicas da foz do Cávado

Hautes Fagnes (Be., Al.) - esta região é rica em turfeiras
Pinhal Fanheiro

São Domingos de Fanga da Fé - atual freguesia da Encarnação, concelho de Mafra