domingo, 13 de maio de 2012

Ásia

Ásia é uma palavra que para nós, os falantes da Língua Portuguesa, vem do Latim a partir do grego "Ασία". é pelo menos o que dizem alguns linguistas. pois, mas a palavra original também não é grega, e ficamos na mesma. na mitologia grega, Clímene ou Ásia é uma oceânide, filha do Oceano e da ninfa Tétis. mas, para lá de nos dizer que a terra Ásia emergiu do mar, como todas as outras, nada nos esclarece sobre a palavra "Ásia" em si. e, tal como em relação a "Europa", também não há certezas sobre a origem da palavra "Ásia"/"Ασία". 

o termo "Ασία" parece ter origem no acádio "(w)aṣû(m)", ou no fenício "asa", que significam "levantar", "sair, nascer" [o sol], isto é, o Oriente, o Leste. e, a ser verdade (é pelo menos plausível), com isto se percebe como o olhar semita via o mundo, estando no centro dele: de cara a norte, viam à esquerda a Europa ("o Ocidente") e à direita a Ásia ("o Oriente").

terça-feira, 8 de maio de 2012

Europa


não existe qualquer certeza sobre a origem do nome Europa, este subcontinente a oeste das antigas civilizações. o que se sabe é que nos séc. IX e VIII a.C. a palavra designava a parte continental da Grécia e que no séc. VI já abrangia territórios mais a norte.

mas há uma lenda grega que reza mais ou menos assim: havia na cidade de Tiro, na Fenícia, um rei cujo nome era Agenor. Agenor tinha uma filha, Europa, disputada em sonhos por duas grandes terras-fêmeas: a Ásia e a terra de Diante. ambas queriam a princesa, mas era vontade de Zeus que Europa se fizesse ao mar. um dia, a princesa foi passear até à praia e um "touro branco" (*) levou-a de viagem até Creta, onde, apaixonado,  se lhe revela como Zeus e dela teve uma prole, da qual se destaca o rei Minos. 

esta lenda revela a crença numa origem oriental - e por que não fenícia? - do nome Europa. se os gregos tivessem a consciência de terem sido os pais da palavra, esta lenda não faria sentido algum. do outro lado das hipóteses etimológicas, os que veem em "europa" uma "vista larga", de acordo com uma hipotética origem grega (de "eurys", «largo», e ‘ops’, «vista»), devem reparar que mais vistas largas há na Ásia ou mesmo em África, pelo que de "vistas largas" está o mundo cheio.


os fenícios falavam uma língua semita, parente próxima do árabe e do hebraico. e por isso há quem veja a palavra Europa como uma derivada de "eureb"/"erebu", parente do "gharb" árabe, isto é, "o por do sol", "o ocidente". 

esta é a etimologia que faz mais sentido, enquanto não lhe descubram melhor origem. na verdade, não existe nenhum continente tão mentalmente voltado a ocidente, nem tão envolto na ideia de finis terrae.


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(*) "touro branco": se compararmos com outros povos com um tipo de organização social idêntica, a designação "touro branco" pode referir-se a um chefe guerreiro de uma tribo ou [con]federação de tribos, ou ao animal totémico destas.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

os fitotopónimos e os topónimos "Mação", "Maçãs", "Macedo", "Maceira", "Manzanares" e Cª.

na senda dos pseudo-"fitotopónimos", há um grupo que há muito tempo me desafia. é o grupo Mação, Maçãs, Macedo, Maceira, Macieira, Macinhata, e assim por diante. neste particular, praticamente todos os autores que consultei vão pela tese da árvore das maçãs, chegando alguns a esgrimir o argumento do "óbvio". ora eu não conheço nada que seja menos óbvio que as coisas "óbvias". escusado será dizer que nunca acreditei nessa possibilidade, porque em muitos outros lugares há melhores e mais saborosas maçãs, que lhes poderiam dar com mais propriedade tal nome.
alguns autores, pouquíssimos, nos quais me incluía eu próprio, ainda admitíamos a possibilidade de uma relação com "mansio/ -onis": "morada", "habitação", "residência"; "pousada", "estalagem", "albergue". o busílis da questão era, e é, o "s" de mansio, porque nenhum destes topónimos nas suas variantes passadas, presentes e interlinguísticas admite o "s", mas sempre o "c" e seus equivalentes "z" ou "ç". por exemplo, Macieira da Lixa era, no séc XI, uilla Mazanaria. logo, há que buscar outra origem para esta família tão mal conhecida e tão precipitadamente rotulada.
a tese da árvore das "maçãs" como origem destes topónimos também é largamente dominante nas Espanhas de falas galego-portuguesa, castelhana e catalã, onde encontramos, entre muitos outros, Maçaeda (Gz.), Maçana (Cat.), Maceda (Gz.), Macedo (Gz.), Maceira (Gz.), Maceiras (Gz.), Macian (Cas.), Macieira (Gz.), Macinheira (Gz.), Macinheiras (Gz.), Mancegal (Gz.), Mancinheiras (Gz.), Manzanal (Cas.), Manzanares (Cas.), Manzanas (Cas.), Manzaneda (Cas.), Manzanedo (Cas.), Manzanera (Cas.), Manzaneruela (Cas.),...
curiosa é a "Maçana" catalã, já que em Catalão maçã se diz "poma".
vamos a ver: "Mação" tem por si a ribeira de Mação; "Maçãs de D. Maria" tem por si a ribeira de Maçãs; na Espanha de fala castelhana, mais propriamente em Madrid, há o rio Manzanares. em Macieiras que eu conheço há lugares do Ribeiro e lugares das Veigas.
não há dúvida, são ribeiros, regatos, riachos, arroios e veigas a mais.
diz-se que estes topónimos provêm do latim mattiana, de onde deriva "maçã". mas em latim maçã dizia-se malum/ -i - de onde os nossos ossos malares, que dão forma às "maçãs do rosto".
mas ainda que assim fosse, se estes topónimos derivassem de mattiana, como explicaríamos então as formas Mancegal, Mancinheira, Manzanas, Manzanares, que pressupõem um étimo em MNTi?
já vimos que por estes lugares abundam ribeiros, veigas, mananciais. ora, em latim a coisa diz-se manatio/ -onis (corrimento, corrente de água). e cá está: MNTi.
mais um saltinho às Espanhas: encontro Manantial (Cas.), Manantiales (Cas.), Manantials (Cat.), Manantio (Cas.).

fitotopónimos?

ou serão "lugares onde corre [muita] água"?


Maçã
Mação
Maçãs
Maçãs de D. Maria
Maceda (Pt. e Gz.)
Macedo (Pt. e Gz.)
Macedo de Cavaleiros
Macedo do Mato
Macedo do Peso
Macedos (Pt. e Gz.)
Maceira (Pt. e Gz.)
Maceira do Liz (Mecenaria, Macenaria – sec 13, Maçanaria)
Maceiras 
Maceirinha
Maceiro (no séc XI: Mazanario)
Macieira da Lixa (no séc. XI: uilla Mazanaria)
Macieira de Alcoba
Macieira de Cambra (Maceneyra, séc- XII; Maceeira, séc-XIV)
Macieira de Rates (Mazieira, séc XIII)
Macinhata da Seixa
Macinhata do Vouga
Manção
Mancelos
Manços
Praia das Maçãs
Rego de Manços
Ribeira de Maçãs
Ribeiro de Mação
Rio de Maçãs 
Rio Maceiras (Gz.)
Vale de Manços


quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

os fitotopónimos e o topónimo Figueira e derivados

tenho expressado as minhas fundadas dúvidas sobre aquilo a que a grande maioria dos mestres considera "fitotopónimos", ou seja, aqueles topónimos derivados de nomes de árvores ou de certos tipos de vegetação. um deles é "Carvalho", designação que, por estranho desígnio, é dada a algumas serras. só aqui à volta de Coimbra há várias serras do Carvalho. isso leva a pensar que são carvalhos a mais para designar a mesma coisa (serra) e que também são carvalhos a menos, pois que cada uma destas serras só teria um carvalho. já falei sobre o assunto, pelo que não vou repetir-me. para mim, "Carvalho" é um orónimo e não um fitotopónimo. ponto. também "Sobreiro" e "Sobreira" nada têm que ver com a árvore de que se extrai a cortiça, pois que se trata de adjetivos (derivados de super ou supra) e não de nomes ou substantivos (derivados de suber, -eris): significam "o lugar ou a aldeia que estão num ponto superior, acima de, sobre". o mesmo se passa com "Oliveira", um topónimo que na Galiza conhece também as variantes Olveira e Ulveira, e cuja origem se associa à existência de um pântano ("ulvaria") antes ou no momento da sua fundação, e não à presença de árvores cujo fruto é a azeitona. o mesmo com "Pereira", cuja designação se refere à existência de pedras (pedreira) e não de árvores de fruto que dão peras. e "Castanheira", que se refere a "Costanheira" (terra que fica na encosta de um monte) e não à árvore que dá as castanhas. ou, ainda, "Pinheiro", que se refere a "lugar que fica no pino" (no alto) e não a uma árvore que dê pinhas e, através delas, pinhões.
em toponímia as convergências e assimilações vão-se estabelecendo ao longo dos séculos, acabando em homonímias que toldam a verdadeira origem dos topónimos.
hoje trago outro "fitotopónimo" do qual tenho as mais que suficientes dúvidas para não acreditar na sua natureza fitotoponímica. trata-se de "Figueira" e alguns dos seus derivados, como "Figueiró" e "Figueiroa", que são seus diminutivos, e "Figueiredo", que aponta para um conjunto de "Figueiras". tal como os seus derivados, "Figueira" não designa arbitrariamente um local qualquer. é sempre nome de lugar habitado. e nesse lugar habitado raramente ou nunca existiu figueira que lhe justificasse tal nome. e, ao contrário, nunca vi terra de figos que se chamasse Figueira.
tenho procurado outras explicações conhecidas e publicadas, mas todas elas (como "fagaria", por exemplo) são tão insatisfatórias como a tese da fitotoponímia ("ficaria"). até que cheguei ao latim "figicare", que deu o verbo "ficar". ora "ficar" significa uma série de coisas interessantes, das quais seleciono:

- fixar, fixar-se
- estacionar em algum lugar
- alojar-se
- permanecer
- existir num lugar, estar localizado em
- estabelecer-se

quer dizer, se Figueira e seus derivados provêm não de "ficaria" (a árvore dos figos), mas de "fi[gi]caria" ("a terra onde se fixa, estabelece, aloja, existe ou permanece alguém"), a coisa ganha novo e compreensível sentido: "Figueira" passa a ser "a terra onde alguém se fixou ou ficou a viver" - o que pressupõe que a gente que primeiro a habitou não era de lá, mas sim que foi deslocada para lá por medida de povoamento.
algumas formas arcaicas , como "Fikeiredo", "Fikiredo, "Fikirola", do séc. XI, assentam melhor na ideia de "ficar", "fixar-se", do que na ideia de "figo". e, como que a querer confirmar o acabo de dizer, temos o topónimo "Casas Figueiras", em Vide, concelho de Seia.

e, então, "Figueira" ganha uma equiparação a "Póvoa".
curiosamente, quase por encanto, percebe-se como em certas "Figueiras", ou na sua proximidade, existem lugares chamados "Póvoa"...

Figueiró e Figueiroa passam, então, a ser ou uma "Figueira" mais pequena, ou uma "Figueira" que derivou de outra, por migração de parte da população. e "Figueiredo" passa a ser um grupo de "Figueiras", quer dizer, "Póvoas".

alguns topónimos Figueira e derivados:

Casas Figueiras
Figueira (Pt., Gz. e Br.)
Figueira da Foz
Figueira de Castelo Rodrigo
Figueira de Lorvão
Figueira do Guincho
Figueiras (Pt. e Gz.)
Figueiredo (Pt. e Gz.)
Figueiredo d' Alva
Figueiredo das Donas
Figueirido (Gz.) - contributo de Xosé Barreiro. muito obrigado.
Figueira dos Cavaleiros
Figueirinha
Figueiró (Pt. e Gz.)
Figueiroa - forma evolutivamente anterior a Figueiró
Figueiró dos Vinhos
Figueirós
Figueirosa
Vale de Figueira

terça-feira, 22 de novembro de 2011

procedimentos inaceitáveis

uma vez mais, acabo de descobrir um post deste blogue copiado na íntegra sem menção da fonte.

este tipo de procedimento não será tolerado.

post original:
http://toponimialusitana.blogspot.com/2006/06/nomes-e-apelidos-de-origem-toponmica.html

nota: o post copiado foi retirado do blogue infrator.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

a "ilha" do Brasil.

a chamada "Carta do Achamento do Brasil" termina assim:

"Beijo as mãos de Vossa Alteza.
Desde Porto Seguro, da vossa Ilha da Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500.
Pero Vaz de Caminha".

a expressão "Carta do Achamento" e o uso do nome feminino singular "ilha" faz-me pensar: dada a impossibilidade de a testemunha e seus companheiros de viagem confirmarem, na altura, se o território onde aportaram era uma "ilha" ou não, indica claramente a ideia pré-concebida com que lá aportaram: a da existência de uma "Ilha" naquelas paragens, algo que estava perdido, foi procurado e "achado". e essa constatação conduz-nos, em segundo lugar, às lendas celtas da existência, a oeste do mar Atlântico, de uma Antília (que alguns creem ser corrupção de Atlântida), Ilhas Afortunadas ou Ilha de São Brandão. este São Brandão, um monge irlandês do séc. V e VI, ficou conhecido pelo famoso "Périplo de São Brandão" ou "Navigatio Sancti Brendani", cuja versão escrita é do séc. X / XI. nesse périplo, São Brandão terá percorrido as costas do Continente Ocidental. esta navegação de São Brandão retoma uma lenda celta da existência de "Bre'asil", o mítico território "vermelho" de além do mar Oceano.
tão forte era a tradição que foi de pouca dura a designação de "Vera Cruz". designação esta que, por sua vez, já não era completamente estranha à tradição celta, como refiro noutro ponto deste blogue.

domingo, 18 de setembro de 2011

canários (Mad.)

"canário", seja gente seja pássaro, refere-se às ilhas Canárias, cujo nome deriva de cão: "ilhas dos cães", ou "canárias". gente destas ilhas, fossem aborígenes guanches feitos escravos, fossem gente forra e até de linhagem, fez parte do contributo étnico do arquipélago da Madeira. dessas raízes étnicas reza memória na toponímia, como é o caso do Lugar do Canário (Ponta do Sol, atual Lugar de Baixo), do Pico do Canário e da Vereda dos Canários. de facto, estes lugares não têm o nome da ave canora de penas doiradas, mas de gente oriunda do arquipélago vizinho.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

trás os montes

ao contrário do que se possa pensar, a designação "Trás os Montes" não se refere a um território situado "para lá" dos montes de Entre Douro e Minho (Marão, Alvão, Barroso, Cabreira, Larouco), visto do lado minho-duriense, mas sim a um território que fica "para lá dos montes" leoneses, visto do lado do antigo reino de Leão. o seu antigo nome, de origem claramente leonesa, "Tra llos Montes", associado à existência de mais que um topónimo "Tramonte" na região fronteiriça galega e galego-leonesa atestam isso mesmo.
além do mais, a palavra pode ter uma interpretação inesperada, tendo em conta que "trasmonte" é o "por do sol", como ainda hoje se pode constatar no italiano "tramonto". na linguagem popular nortenha, a ideia de "tra[s]monte" como ponto cardeal subsiste na expressão "perder a tra[s]montana", ou seja, perder a capacidade de se "orientar" - neste caso, "ocidentar". o mesmo que "perder o juízo".
e, sendo assim, o nome da província portuguesa adquire um significado que se entende bem: as "terras do por do sol", o "ocidente". o que não será novidade nenhuma nesta "ocidental praia"...

é curioso o subtítulo que Théophile Gauthier deu ao seu livro "Voyage en Espagne", publicado em Paris, em 1890. nem mais nem menos: "tra los montes". Espanha (Península Ibérica), o Ocidente do Mundo Antigo, a Separad dos Judeus, o Al-Gharb dos Árabes. Ocidente, sempre. "Far West", como dirá um camone.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

topónimos galego-portugueses terminados em "-e"

quase todos genitivos alatinados do nome de possuidores de terras maioritariamente germânicos, estes topónimos, como muitos outros com origem no nome de proprietários, contribuem para a memória dos nomes de pessoas usados na época da sua criação. de notar que todos os antropónimos originais são formas alatinadas, não latinas.

os topónimos abaixo significam "propriedade de...F.../terras de...F..."

Adaúfe - genitivo de "Athaulfus" (Adolfo)
Afife - genitivo de antropónimo ainda não estabelecido. uma possível etimologia arábica é pouco provável, dada a localização nortenha do topónimo
Alte - genitivo de "Altus"
Amarante - origem controversa. há quem veja no topónimo um genitivo de um presumível proprietário germânico com um suposto nome de "Amaranthus". porém, o género do topónimo na linguagem local e das redondezas é feminino ("A Amarante"), o que parece incompatível com a tese do genitivo de antropónimo. e, desse modo, há que admitir uma origem pré-romana, céltica, onde está presente o "Marão", a serra de que Amarante é a porta de entrada.
Andrade - genitivo de "Antriatus"
Anelhe - genitivo de "Anelius"?
Ardesende - genitivo de "Ardesindus"
Bagunte - genitivo de "Baguntus"
Bande - genitivo de "Bandus"
Beade - genitivo de "Beatus". também aparece sob a forma Veade
Bente - forma evolutiva do genitivo de "Benedictus"
Boelhe - genitivo de "Boelius"/"Bonelius"?
Boente - genitivo de "Volentius"
Boliqueime - palavra árabe composta de "birr"/"bur"/"bul" (poço) e o genitivo de "Hakeim" (nome do seu proprietário). veja-se a curiosa redundância do topónimo "Poço de Boliqueime" ("poço do poço de Hakeim")
Bousende - genitivo de "Baudisindus"
Cadilhe - genitivo de "Cadilius"
Caíde - genitivo de "Caítus"/"Kaídus"
Calvelhe - genitivo de "Calvellus"
Cête - supõe-se que seja genitivo de um tal "Cetus"
Chorence - genitivo de "Florentius" (Florêncio)
Chorente - genitivo de "Florentius"
Combe - genitivo de "Columbus" (Colombo, Pombo)
Dume - genitivo de "Dumio"
Fafe - genitivo de "Fafus"
Fagilde - genitivo de antropónimo ainda não estabelecido
Garfe - genitivo de "Garff"/"Warff"
Lobelhe - genitivo de antropónimo ainda não estabelecido
Melide - genitivo de antropónimo ainda não estabelecido ("Bellitus"? "Mellitus"?)
Minde - genitivo de "Mindus"
Mogege - genitivo de "Mazegius" (etimologia desconhecida)
Nande - genitivo de antropónimo ainda desconhecido ("Nandus"?)
Nine - genitivo de "Ninus"
Novelhe - genitivo de "Novelius"
Nune - genitivo de "Nunus" (Nuno)
Paderne - genitivo de "Paternus"
Pidre - genitivo de "Petrus" (Pedro)
Punhe - genitivo de "Punius" ?
Rande - genitivo de "Raandus" /"Randus"
Recarei - genitivo de "Recaredus"
Reimonde - genitivo de "Raimundus" (Raimundo)
Resende - genitivo de "Redisindus"
Ronfe - genitivo de "Ranulfus"
Ruílhe - genitivo de "Rodellus"/"Rotellus"
Sande - genitivo de "Sandus"
Segade - genitivo de "Segatus"
Seide - origem controversa. a sua grafia antiga aponta para origem arábica, apesar de se tratar de topónimos nortenhos (norte de Portugal e Galiza).
Sende - genitivo de "Sindus"
Sesulfe - genitivo de um antropónimo germânico latinizado ainda não estabelecido.
Sezulfe - ver Sesulfe
Sinde - genitivo de "Sindus"
Tagilde - genitivo de "Atanagildus"
Veade - ver Beade
Vide - genitivo de "Vitus"

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Gelfa (Xerfa), Gelfas (Jalfas, Jarfas, Xalfas, Xarfas)

estes topónimos têm a caraterística de se situarem junto de água, rios, lagunas, lagoas ou mar, em terrenos de tipo dunar de vegetação bravia: relva, pastos nascediços em terrenos maninhos, lugar de pastagem. a etimologia é desconhecida, embora haja quem lhes descubra uma origem arábica, muito pouco provável - o topónimo predomina na região costeira nortenha, de Aveiro à Corunha. a sua presença no Ribatejo pode dever-se à migração de falantes do norte.
Gelfa aparece em Portugal na Torreira, em Ovar, em Vila Praia de Âncora e em Abrantes. Gelfas existe em Castanheira do Ribatejo. houve em tempos o topónimo "Gelfamar", correspondente a uma mata no termo de Faria (v. José Pedro Machado, Dicionário Onomástico Etimológico).

conta-se que na Lagoa das Jalfas ou Jarfas (Xalfas, Xarfas), em Muros (Gz.), houve em tempos uma cidade. mas um dia, por volta da meia noite, quando todos dormiam, o mar subiu, galgou as dunas e engoliu a cidade e todos os que nela viviam (ecos de uma lenda atlante? explicação fantasiada da formação da lagoa?).ainda hoje, no dia de são João, se ouvem os gemidos da gente e dos animais que ali morreram afogados. os sinos da igreja repenicam, e até há quem veja uma moça vaidosa a pentear-se ao espelho (cf. Galicia Encantada, Enciclopedia de Fantasia Popular de Galicia).

quarta-feira, 13 de julho de 2011

má partilha

este curioso nome de lugar, um microtopónimo, parece verter algum azedume por um testamento mal aceite ou uma herança mal resolvida, transparecendo um sentimento de injustiça tão forte que mereceu ficar petrificado na toponímia, como vingança perene. conheço dois lugares com este nome: um, o Sítio da Má Partilha, em Alvor, concelho de Portimão - onde se construiu uma dessas urbanizações dos dias de hoje; outro, a Quinta da Má Partilha, no concelho de Azeitão - onde se produz um excelente vinho merlot.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

covas, covinhas e covões

a toponímia regista os acidentes topográficos como fatores suficientemente distintivos para distinguir pelo nome lugares que, provavelmente e de início, nada mais tinham que os distinguisse dos outros.


As Covas (Gz.) - particularismo desaconselhável. está por "Covas"

Cobelo (Gz.) - particularismo desaconselhável. está por "Covelo". ou será "Cubelo" (pequena torre de fortificação)?

Cova (Pt., Gz. e Br.) – gruta?
Cova da Beira -
Cova da Iria –
Cova da Lapa -
Cova da Loba -
Cova da Moura –
Cova da Piedade -
Cova da Raposa -
Cova de Alvito -
Cova de Dominique – por “Cova Dominica”? cf. “Covadonga”
Cova de Lobos (Gz.) -
Covada -
Covadela -
Covadinhas –
Cova do Barro –
Cova do Bicho -
Cova do Inferno -
Cova do Ouro -
Cova do Pico (Md.)-
Cova do Vapor -
Cova do Viriato -
Cova-Gala -
Covais -
Coval (Pt. e Gz.)-
Covalhão -
Coval Quente –
Covanca (Pt. e Br.) -
Covão –
Covão do Lobo –
Covas (Pt., Gz. e Br.)–
Covas da Raposa –
Covas do Rio –
Covela (Pt. e Gz.)
Covelas – diminut. de “Covas”
Covelha -
Covelho - ver "Covelo"
Covelinha (Pt. e Gz.) - duplo diminutivo de "Cova"
Covelinhas – duplo diminutivo de “Covas”
Covelinho - ver "Covelo"
Covelo (Pt. e Gz.) – ver "Cobelo"
Covelo do Gerês –
Covelos (Pt. e Gz.) –
Covetas -
Covetinhas -
Covide –
Covilhã – cf. “Convilhana”
Covinha (Pt. e Gz.) -
Covinhas (Pt. e Br.) -
Covita -
Covões -
Cubelo (Gz.) - ver "Cobelo"
Eira Cova -
Eira de Vilacoba ou Eira de Vila Cova (Gz.)-
Lagoa Cova -
Penacova -
San Paio de Vilacoba ou São Paio de Vila Cova (Gz.)-
São Pedro da Cova -
Vila Cova (Pt. e Gz.)-
Vila Cova a Coelheira -
Vila Cova da Lixa -
Vila Cova de Carros -
Vila Cova de Cima -
Vila Cova de Perrinho -
Vila Cova de Tavares -
Vila Cova do Alva -

Vila Cova do Covelo - uma curiosa redundância, ou Covelo está por "Cubelo"?

domingo, 30 de janeiro de 2011

chousa e derivados

chousa é uma porção de monte cerrado e acoutado; herdade ou horto fechado, que se destina a diversos cultivos e onde também existem árvores; tapada, terreno cercado ou murado, grande área com bosques, campos e água corrente, murada em toda a volta e destinada à criação e preservação da caça para gozo de particulares; conjunto cercado de leiras pertencentes a um mesmo dono.

já pouco usada no português de Portugal, a palavra "chousa" e suas derivadas estão presentes na toponímia galego-portuguesa de inspiração rural:

Choso
Chousa
Chousais
Chousal
Chousalinho
Chousa Nova
Chousas
Chousa Velha
Chousela
Chouselas
Chouselinha - duplo diminutivo de Chousa
Chousinha
Chouso
Chousos
Souselas

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

topónimos híbridos românico-arábicos

os topónimos híbridos românico-arábicos testemunham a presença de populações de fala romance (neste caso dialetos galaico-portugueses), sob domínio arábico. o fenómeno de hibridação ocorre sempre que a língua autótone está sob domínio estranho, como no caso da toponímia africana, americana e asiática que tenha sofrido hibridação com línguas europeias, designadamente o português.
a hibridação românico-arábica traduziu-se, em geral, na aposição do artigo "al" a topónimos que traduzissem substantivos e num certo grau de alteração da fonética original.


exemplos de topónimos híbridos românico-arábicos:

Alapraia - de al- A Praia
Albandeira - de al-Bandeira
Albarquel - de al-Barquel
Albogas - de al-Bogas
Alboritel - de al-Portel (?)
Alcabideche - de al-caput acqua
Alcabideque - o mesmo que Alcabideche
Alcabrichel - de al-Caprichel
Alcamim - de al-Caminho
Alcanede - de al-Canetu
Alcanena - ver Alcanede
Alcaraboiça - de al-Caraboiça
Alcarapinha - de al-Carapinha
Alcava - de al-Cava
Alcolombal - de al-Colombal
Alcongosta - de al-Congosta
Alcôrrego - de al-Côrrego (córrego, corgo) (hidrónimo)
Alcoruchel - de al-Coruchel (cf. Coruche=cruze, cruz, cruzamento)
Alenquer - de al-Enquer (hidrónimo) - do grupo "ank-"

Alfarelos - do árab al-fakhkhar + sufixo diminut. românico -elos. neste caso, não parece um topónimo moçarábico mas antes mudéjar.

Alfeite - de al-Feite (feto)
Alfeiteira - de al-Feiteira
Alfontes - de al-Fontes
Alfornelos - de al-Fornelos ("pequenos fornos")
Almalaguês - de al-Malaguês (?)
Almendra - arabização de amindula (amêndoa)

Almoçageme - "os [mouros] estrangeirados". referir-se-ia a mouros cristianizados, logo, mudéjars. totalmente arábico, não é um topónimo híbrido. é, a título de curiosidade, uma designação que denota como os mouros de território mourisco viam os mouros de território cristão ou cristianizados.

Almonda - de al-Monda (hidrónimo)
Almoster - de al-Monasteriu
Almourol - de al-Mourol
Almortão - de al-Motão
Alpalhão - de al-Palhão (o mesmo que Paleão / Palião?)
Alpedrede - al-Pedrede
Alpedreira - de al-Pedreira
Alpedrinha - de al-Pedrinha
Alpendorada - de al-Pendorada (relação com pendor?)
Alpedriz - de al-Pedriz
Alpiarça - de al-Peaça
Alpoim - de al-Podium
Alviela - de al-Veela (veio de água) (hidrónimo)

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

matafolhada ou matafojada?

na região do Eo-Navia, da Galiza Exterior, também chamada Irredenta, existe um topónimo que por força dos castelhanizantes era escrita "Matafoyada". o ressurgimento galego, que se tem ocupado de repor a toponímia na nossa Língua e com ortografia portuguesa, corrigiu para Matafolhada. discordo, pois creio que, neste caso, a "versão" castelhana reproduzia melhor a palavra que admito como a original, "Mata Fojada", do que propriamente "Matafolhada" ("Mata Folhada"). além dos segundos sentidos que tem, Mata Folhada não faz sentido nenhum. mas se for Mata Fojada já significa que é uma mata onde há fojos (certas armadilhas para caçar animais).
pode dizer-se, numa abordagem evidentista, que Mata Folhada é uma mata cheia de folhas, mas nesse caso não valeria a pena chamar-lhe uma coisa que é própria de todas as matas... já Mata Fojada, de fojo (foxo), é muito mais distintivo, porque nem todas as matas têm fojos.
de qualquer modo, vale a pena investigar melhor o assunto.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Malga (Pt., Gz. e E.)

este topónimo, cujo primeiro contacto me ocorre aqui perto de Coimbra, evoca-me um outro, aqui próximo também: Almalaguês. tal como este último, Malga, que é a forma sincopada de Málaga (Mal'ga), refere-se a um povoamento por gente vinda daquela cidade e região do sul da Península.
há também Malga em Cabeceiras de Basto e em Sobral de Monte Agraço.
o topónimo ocorre em Espanha e, designadamente, na Galiza.

égua, éguas

já me referi a este(s) hidrónimo(s). por evidente que seja a relação entre eles e a presença de ribeiros, riachos e pequenos cursos de água em geral, ainda se encontra quem defenda que eles se referem à(s) fêmea(s) do(s) cavalo(s). mas, na verdade, a sua origem está nas falas dialetais para a palavra "água" (acqua), curiosamente numa forma muito semelhante a formas encontradas na Provença.
ainda mais curiosa é a sua presença no Brasil, em São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso e Paraná. mas esta curiosidade só pode estranhá-la quem não conhece o caráter conservador do Português do Brasil.
em Portugal, conheço:

Chãs d' Égua
Éguas
Fonte das Éguas (Gz.)
Foz d' Égua
Monte da Égua
Portas d' Égua
Vale de Água


sexta-feira, 25 de junho de 2010

bande (Pt. e Gz.), bandoiva (Pt.), bandova (Pt.), banduagem (Pt.)

estes topónimos parecem estar associados às águas serranas e, através delas, à sua divinização sob a forma céltica Band- e suas variantes (Bandi, Bandio, Bandua, Bandoga). a divinização das águas através do teónimo Band- é muito frequente no norte de Portugal e da Galiza, pelo que não admirará que tenha permanecido na toponímia, quer diretamente quer influenciando a inflexão de palavras semelhantes de outra origem. de facto, não é seguro que "Bande" derive diretamente das águas divinizadas dos celtas do noroeste peninsular. pode resultar das tradicionais villae de proprietários rurais com nomes como Vanatus ou Bandus no genitivo. mas a influência do teónimo parece incontornável.
acresce dizer que Bandova é o nome de um ribeiro de montanha afluente do Mondego.
ver também Banduagem (Comentº de Anónimo).

sábado, 10 de abril de 2010

marinha

em países à beira mar é normal que os homens se aglomerassem em torno de lugares ricos em sal, as "marinhas" ou salinas. essas populações dedicavam-se originariamente à extração desse produto, tão essencial à vida humana que foi um dos primeiros determinantes da necessidade de comerciar. o seu valor chegou a ser utilizado como forma de pagamento de serviços, originando o termo e o conceito de "salário", ou seja, a quantidade de sal recebida mensalmente pela prestação de um serviço, habitualmente de natureza militar. a localização atual das "Marinhas", devido à modificação da linha de costa com o decorrer dos séculos, indica que no tempo em que lhe foi dado o nome chegava lá a água do mar, muitas vezes através de esteiros ou rias suficientemente amplos para permitirem a evaporação da água do mar e o depósito do sal.

Marinha (Gz.)
Marinha das Ondas
Marinha Grande
Marinhais
Marinhal
Marinha Pequena
Marinhas (Pt. e Gz.)

mas há Marinhas, Marinhelas, Marinhos e Marinhões que pela sua localização requerem outra origem etimológica.

segunda-feira, 29 de março de 2010

admeus e adpropeixe

desafia-me Rui C. Barbosa para esclarecer a origem dos topónimos Admeus e Adpropeixe, em Vilar da Veiga, Terras de Bouro, região da serra do Gerês. conheço bem a região, mas não encontro caminho andado que me permita chegar seguramente ao significado dos referidos topónimos. posso tentar uma proposta de "decifração". admitamos que Admeus e Adpropeixe estão pela forma "A de Meus" e "A de Propeixe", formas vulgares na toponímia para designar "a [aldeia] de...". nesse caso, resta-nos "decifrar "Meus" e "Propeixe". quanto a "Propeixe", parece admissível a evolução a partir de um antropónimo "Propitius" (Propício) na forma genitiva "propitii". referir-se-ia, assim, a uma aldeia, herdade ou território que teria pertencido a alguém com esse nome, "Propício". teríamos de admitir, no entanto, um duplo genitivo, já que Propitii já quer dizer "[propriedade] de Propitius". mas isso é relativamente comum. significaria, simplesmente que a forma "Propeixe" estava já estabilizada quando lhe foi acrescentado o indicativo "a de".
quanto a "Meus", a interpretação é mais difícil, podendo apenas admitir-se uma relação com a apicultura e a extração de "mel".
que a significação destes lugares se relacione com propriedades rústico-agrícolas em tempos remotos não me parece nada de extraordinário, tanto mais que no século XIII era já essa a vocação atestada daquele território.
mas, seja como for, não passa de uma proposta de decifração. a seu tempo voltarei ao assunto.