sexta-feira, 20 de março de 2015

Colcurinho

este topónimo dá nome a um lugar hoje despovoado e, muito próximo e mais acima, ao cume de um monte da Serra do Açor, com 1242 metros de altitude, onde, de acordo com várias lendas, terá existido um castro, hoje desaparecido ou quase.
no monte do Colcurinho existe a capela da Senhora das Necessidades, ou Senhora do Cabeço, em recinto onde terá existido o castro pré-romano, e onde terá ocorrido a “aparição” da Virgem a uns pastores, no séc. XIV.
a vocação militar do lugar é "atestada" por várias lendas.
uma lenda liga o nome do cume do monte a um general romano e a freguesia onde Colcurinho se situa, a Aldeia das Dez, é conhecida pela sua ligação à ocupação romana, com aparecimento, entre outros vestígios e artefactos, de muitas e variadas moedas do Império.
outra lenda, pelo contrário, diz que Colcurinho teria sido um combatente nas hostes de Viriato.
uma outra lenda, ainda, refere que os “últimos mouros” se refugiaram num castro que tinham no Colcurinho. os de Piódão arranjaram um estratagema para os expulsar: trouxeram todo o gado [ou “muitas cabras cornudas”], enfeitado com mato e velas acesas nos chifres. o chefe dos mouros, quando viu o aparato, disse: - fujamos que a montanha traz fogo e anda como se fosse viva!
“foi a última vez que os mouros foram vistos na região”.

seja como for, parece claro que a memória popular conserva os ecos da guerrilha celto-romana, ou, se quiserem, lusitano-romana.
também diz a lenda que no monte do Colcurinho terá sido construída uma muralha como posto de observação e defesa.

diz-se que no lugar "apareceu" a imagem da Senhora das Preces, hoje venerada num santuário no lugar de Vale Maceira, na mesma freguesia de Aldeia das Dez, concelho de Oliveira do Hospital. no alto do monte do Colcurinho encontra-se um cruzeiro onde está escrito: “apareceu aqui Nª. Sª. das Preces ano de 1371”. Frei Agostinho de Santa Maria relata o aparecimento de uma imagem de Nª. Senhora a uns pastores, que ao encontrarem a imagem a levaram ao padre de Aldeia das Dez, o qual, em acordo com os paroquianos, resolveu levá-la para a igreja paroquial.
mas a Senhora – como é habitual nestes casos – não queria ficar ali, pelo que a imagem desapareceu, indo aparecer novamente no local onde fora achada. visto ser desejo da Virgem estar no cimo do monte, aí lhe edificaram uma capelinha: a da Senhora do Cabeço ou das Necessidades.


sobre o topónimo em si, apesar de uma aparência bem "portuguesa", pouco ou nada se sabe. não há vestígios da sua etimologia. só no romeno “culcus” se encontra semelhança fonética e, provavelmente, semântica. a palavra significa “abrigo”, “refúgio”. e, se calhar, não andará longe da verdade neste caso.
mas também pode tratar-se de uma palavra composta: col'+curinho e neste caso teremos "cole" ("colina", "outeiro") + cur' ("curvo", "corcovado", "redondo"). e aí teríamos, então, "Monte Redondo", "Moncorvo". certo é que Colcurinho é um "monte redondo". e mais não sei.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Paul e Oliveira (Pt., Cv., Gz. e Br.)


do latim "paludem" (charca), Paul é um terreno húmido e pantanoso, muitas vezes com charcas ou lagunas pouco profundas.


ambiente propício para a reprodução e instalação de certas aves, peixes e anfíbios.
é também um ambiente propício a insetos, nomeadamente mosquitos e destes o Anopheles, responsável pela transmissão do Plasmodio causador do paludismo ("doença ou febre dos pântanos").



alguns pauis:

Casal do Paul
Foros do Paul
Pauis (Br.)
Paul (Pt., Cv.)
Paúla
Paul da Praia da Vitória (Aç.)
Paul das Caniceiras
Paul da Serra (Mad.)
Paul das Lavouras
Paul das Salgadas
Paul das Senhoras Rainhas
Paul de Ancas
Paul de Arzila
Paul de Cima (Aç.)
Paul de Gouxa
Paul de Magos
Paul de São Facundo
Paul de Tornada
Paul de Trejoito
Paul do Boquilobo
Paul do Borquinho
Paul do Mar (Mad.)
Paul do Taipal
Paul dos Patudos - o mesmo que Paul de Gouxa
Paulinho
Rua dos Pauis
São Vicente do Paul
Vale do Paul (Cv.)


com significado muito próximo, temos as Ulveiras, Olveiras e Oliveiras, topónimos derivados do latim "ulvaria", que se refere a um terreno alagadiço, pântano, solo pantanoso ou terreno de lameiro, coberto de uma alga palustre - a ulva. este topónimo, nas suas variantes, é a origem de outros tantos sobrenomes: Ulveira, Olveira e Oliveira, que se encontram no diassistema linguístico galego-português.

algumas "ulvarias":

Cerro de Oliveira do Corvo
Oliveira (Pt. e Gz.)
Oliveira de Azeméis
Oliveira de Baixo
Oliveira de Barreiros
Oliveira de Frades
Oliveira do Arda
Oliveira do Bairro - foi chamada São Miguel de Ulveira.
Oliveira do Cerro
Oliveira do Conde

Oliveira do Douro -  foi chamada Ulveira, depois Oliveira de Avintes, Oliveira de Santa Eulália, Oliveira de Cónegos, até se chamar Oliveira do Douro.

Oliveira do Hospital - foi chamada Ulveira do Espital
Oliveira do Mondego
Oliveira dos Brejinhos (Br.)
Oliveira dos Campinhos (Br.)
Oliveira dos Mortos
Oliveirinha
Olveira (Gz.)
Rua do Couto de Ulveira - em Oliveira de Frades
Santa Maria de Oliveira
Ulveira (Gz.)

bom, e estas "Oliveiras" são mais um dos muitos exemplos de convergência fonética para nomes comuns, no caso a árvore "oliveira", engrossando a lista de falsos "Fitotopónimos".


N.B: no caso das "Oliveiras" do Brasil,  a sua origem advém da transposição do culto da Senhora da Oliveira.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Mota

muito anterior à existência de veículos motorizados ou mesmo de bicicletas, o topónimo "Mota" está associado a elevações naturais ou, sobretudo, artificiais. neste último caso, refere-se a mamoas de grande dimensão ou a terraplanagens de origem militar. significa, na sua origem germânica, "monte de terra". encontra-se em França, sob a forma Motte ou Mothe, na Inglaterra e na Escócia sob a mesma designação, na Itália sob a forma Motta e em Espanha com grafia igual à portuguesa. em algumas das "motas" está ou estava localizado um castelo.
também surge sob a forma diminutiva, como "Motilla", em Espanha, ou "Motinha", em Portugal. pelo menos, conheço a "Travessa da Motinha", em Mira d'Aire.
   

algumas das "Motas" constituíam ou constituíam-se em propriedades fundiárias, mais ou menos extensas e importantes, que deram origem aos sobrenomes "Mota", "da Mota" e "de Mota", próprios dos seus terratenentes iniciais ou seus descendentes.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Airão e Pele / Pelhe / Peio

naquela época não havia carreiras de camionetas para todo o lado, nem carros senão os de bois, por isso o caminho fazia-se caminhando. assim, desde pequeno que passava a pé por São João e Santa Maria de Airão, a caminho de São Vicente de Oleiros, terra dos meus avós paternos. 
hoje, as voltas e reviravoltas da política e das finanças fizeram reunir numa União de Freguesias as duas freguesias de Airão mais a freguesia de Vermil. e a própria São Vicente de Oleiros foi reunida na União de Freguesias de Leitões, Oleiros e Figueiredo. nada escapou ao podão e à cola de Miguel Relvas.


sobre a origem do topónimo "Airão", aventam-se duas hipóteses: a primeira, refere-se à possibilidade de ter-se tratado de uma "villa" (propriedade rústica) de um tal Árias ou Árila, de etnia celta ou germânica - hipótese pouco provável, já que o genitivo correspondente não permite a forma "Airão": a segunda - e quanto a mim a mais provável, senão definitiva - refere-se à presença de nascentes, fontes, grutas ou poços naturais profundos.
estas grutas e poços não raramente estão ligados a cultos xamânicos ancestrais, associados ao Paleolítico.

no período celta cultuou-se a divindade Airón / Aironis, ligada aos poços e abismos. 
a presença de pontos de água é quase uma constante. de acordo com Alberto Lorrio, "numa percentagem elevada, este topónimo está relacionado com poços, lagunas, arroios ou fontes [...], outras vezes com grutas ou abismos".
o topónimo é bastante frequente na Península Ibérica, sob a forma Airão, Airón, Lairón, Airones, Eirós (forma plural) e os curiosos pleonasmos Pozo Airón, Pozairón e Cova Eirós (*).

no caso concreto que aqui nos traz, corre por Airão o rio Pele, um pequeno afluente do Ave. curiosamente, um pouco mais a juzante e em paralelo corre outro pequeno afluente do Ave, o rio Pelhe, evidentemente o mesmo hidrónimo, que significará "arroio", "regato" ou "ribeiro". por sua vez, o pequeno rio Peio, do mesmo étimo, corre no concelho de Cabeceiras de Basto e desagua no rio Tâmega, com o nome de "Rio do Ouro" (o mesmo que "douro", palavra de origem celta que significa "água").

é de notar que em França, no Jura, existe o Ruisseau de La Pèle (ribeiro de La Pèle). e Bazois, uma região do leste do Nivernais, é banhada pelo rio Aïron.

(*) nota: na elaboração da parte que liga Airão a pontos de água, poços e abismos servi-me do post de Andregoto Galíndez, em:

http://arqueotoponimia.blogspot.com.es/2014/10/el-chaman-de-cova-eiros.html



quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Cadima

esta freguesia do concelho de Cantanhede já foi grafada Catina, Cadyma, Gadima, Katima e Kadima, aparecendo estabilizada a grafia Cadima a partir de 1140. parece geralmente aceite a etimologia árabe, de Qadimu - "[Aldeia] Velha". e muito velha será ela. porém, dada a forma "Catina" anterior, parece mais uma arabização de vocábulo pré-árabe, cujo significado se desconhece. a possibilidade de "Catina" ter uma relação com a "catina" romena, que se refere a um arbusto dunar, portanto indicando uma relativa proximidade do mar, não será de excluir, embora pareça um nome mais adequado a um local deserto do que a um sítio povoado.  

domingo, 12 de outubro de 2014

Collipo

Collipo foi uma cidade romana (não quer dizer que "collipo" seja uma palavra latina). situava-se nos limites dos atuais concelhos de Leiria e da Batalha, na Quinta de São Sebastião do Freixo, antigo Paço de Randulfo, num outeiro do lugar de Andreus, da freguesia de Barreira. os de Leiria gostam de ligar-se à ideia de Collipo, fazendo-se descendentes da urbe romana. porém, ao que julgo saber, da Collipo propriamente dita os leirienses apenas têm as pedras daquela cidade levadas, entre outros destinos, para a construção do castelo de Leiria. povoada por Túrdulos, etnia pré-romana do extremo sul da Península, a cidade de Collipo dominava uma região abrangendo pelo menos partes dos concelhos de Leiria, Marinha Grande, Batalha, Ourém e Porto de Mós. ao que se diz, "collipo" é uma palavra híbrida, metade latina, metade túrdula, significando "castro do outeiro" ou "outeiro do castro".
que é como quem diz "Monte Castro", "Monte Crasto" ou "Castromonte".


segunda-feira, 16 de junho de 2014

orónimos ou nomes de montanhas

tal como os hidrónimos, os orónimos são topónimos primordiais. a nomeação dos lugares começa pelos elementos básicos da Natureza. e, por isso, têm a marca da língua do povo que primeiro os habitou. sem querer repetir o que já deixei em post anterior,

Açor
Aire
Alvão
Barroso
Bornes
Cabreira
Canda
Candeeeiros
Caramulo
Carvalho
Estrela
Freita
Gerês -  ortografia mais correta: Jerês / Jurês.
Lapa
Larouco
Leomil
Lousã
Malcata
Marão
Marofa
Meira
Monchique
Montefigo
Montejunto
Montemuro
Montesinho
Nogueira
Ossa
Peneda
Queixa
Soajo

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Góis

Góis é uma vila do distrito de Coimbra, entre a Lousã e Arganil. há, porém, outras "Góis" na toponímia portuguesa, a maior parte das quais, se não todas, derivadas, referidas ou transpostas deste topónimo beirão. o mesmo se passa com as Góis existentes no Brasil.
o seu nome aponta para uma muito remota antiguidade.
há quem queira ver neste topónimo uma derivação do gótico "gauja": "o habitante de um pagus ou aldeia; aldeão". nesse caso, não se compreende a lógica de chamar a uma aldeia o nome que designa os seus habitantes. seria como querer chamar-lhe "A dos Aldeões", ou "A dos Vizinhos".
mais sentido faz a explicação do topónimo pela sua derivação basca ou ibera, que persiste na toponímia e na onomástica euskera, como em Goikoetxea / Goyeche / Goieche ("casa cimeira"). e nesse caso, ficaria atestada a antiguidade da povoação, que remontaria aos primórdios do povoamento peninsular. "goiko" significa "alto", "superior", "que está em cima".
e esta é uma constante toponímica, que se repete sob diversas formas, origens e evoluções linguísticas, como em Altinho, Cumeira, Outeiro, Pinheiro, Pinho, Sobral, Sobreira, Sobreposta, Susã.






quinta-feira, 14 de novembro de 2013

o Abade nem sempre é padre

por muito estranho que hoje pareça, "Abade" em toponímia é um hidrónimo.
surge na toponímia galego-portuguesa sob as variantes dialetais Ba, Bade e Vade , sendo que o "Vade" português deverá ser uma hipercorreção de origem erudita em lugar de "Bade". pode, porém, haver contributos linguísticos muito diversos para resultados idênticos. no atual euskera "ibai" significa "ribeira". tem origem num anterior "bai", não sei se o mesmo que o "Bad". há quem veja esta raiz nos topónimos "Baião" e "Baiona".
não contente com ser um hidrónimo, cujo significado é o mesmo que "ribeiro" ou "córrego" ou "regueiro", Abade aparece em formas compostas de cariz pleonástico, como Ribeira do Abade, ou associado a palavras que indicam a natureza do "abade", como "Vale de Abade". o hidrónimo pleonástico "Abade de Neiva" é interessante pela presença de duas designações de "ribeiro" em línguas diferentes, sendo "Abade" pré-céltico e "Neiva", o mesmo que "Navia", um vocábulo celta.

exemplos de topónimos com "Abade":

Abad ou Abade (Gz.)
Abade

Abade de Neiva - um pleonasmo, já que "Neiva" é o nome de um ribeiro que quer dizer exatamente "ribeiro, rio" (Inquirições de 1220 e 1250: "Abbade"). 

Abades - um plural que é uma espécie de "gato escondido com o rabo de fora", uma vez que não é comum haver mais que um abade na mesma abadia.

Abadia - como em "Senhora da Abadia". na Senhora da Abadia, Santa Maria de Bouro, Amares, corre o rio Nava (célt.=ribeiro, manancial), penso que esta "abadia" se refere ao ribeiro e não à Abadia de Bouro, pois que esta é posterior ao culto da "Senhora".

Abadias - plural que constitui mais um "gato escondido com o rabo de fora". à letra: "lugar onde correm regueiros ou regatos".

A Braña (ou Branha) da Fonte de Abade (Gz.)
A Devesa de Bade (Gz.)
A do Abade (Gz.)
A Fonte de Abade de Abaixo (Gz.)
A Lama do Abade (Gz.)
Bade (Gz.)
Cachoeira do Abade (Br.)
Campo de Abade
Casal do Abade
Dabades
Fonte do Abade
Ponte do Abade
Portela do Vade
Ribeira de Abade
Ribeira de Abadia
Souto de Abade
Vade
Vale do Abade
Veiga de Abade (Gz.)
Vinha de Abades

nota: em geral, no Brasil, o topónimo "Abade" não tem esta etimologia ancestral. refere-se efetivamente a alguém que fez parte da estrutura eclesiástica, como "São Bento Abade", "São Pedro Abade", "Vila Santo Antônio Abade". já a "Cachoeira do Abade" não sei se não terá um "abade" galego-português.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

120 000 visualizações.

hoje o Toponímia Galego-Portuguesa e Brasileira atingiu as 120 000 visualizações. isto apesar de o ritmo de publicação ter abrandado. é sem dúvida um estímulo a que continue e se aprofunde. obrigado a todos.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Picha

os habitantes desta aldeia do concelho de Pedrógão Grande, distrito de Leiria, divertem-se com o sentido brejeiro que pode ter a palavra que dá nome à sua terra. e, tanto quanto sei, já perderam a memória do seu significado original, o qual, assim o julgo, é claro como água.
de acordo com o Dicionário Estraviz, que nos é comum a portugueses e galegos, significa "órgão genital masculino" (fam.), é certo, mas também "fonte pequena que deita água". de facto, é possível que o nome da terra derive do segundo significado. a palavra "picha" tem, nesta aceção, as paralelas "picho" e "pichel", ambas associadas à ideia de água ou dispositivos que a recolham ou por onde ela escorre. ainda desta família, existe o "picheleiro", palavra do Norte de Portugal e da Galiza que designa aquele que faz recipientes de lata ou de estanho para água ou vinho. existe ainda a "picheira", que será o mesmo que "pichel", vasilha para tirar vinho das pipas ou caneca ou infusa de onde se bebe ou se tira o vinho para os copos.
fica também claro que "picha", no sentido brejeiro da palavra, está mais associada à ideia de órgão por onde sai a urina (a "água") do que, propriamente, ao sentido de órgão sexual.
Deste modo não se estranhe que as duas conotações se juntem frequentemente. é o caso do Manneken Pis, em Bruxelas.
em Lisboa há o "Jardim das Pichas Murchas", cujo significado é, agora, óbvio: "jardim das bicas (ou fontes) secas".

domingo, 28 de julho de 2013

recordações do tempo dos castros


a toponímia conserva a recordação de lugares antigamente povoados, pertencentes à chamada "cultura castreja". alguns dos nomes fazem referência ao caráter sagrado do lugar (Cabeça Santa, Monsanto), outros ao númen divino que os protegia (Santa Luzia, Santa Tecla, Senhora da Cola, Santo Ovídio, São Miguel), outros à sua dimensão (Castelinho, Castro Maior) e outros ainda à sua antiguidade (Castro Verde).

mais resumidamente, já me referi a este tema numa postagem de 31 de agosto de 2006.


aqui vão alguns topónimos, que irei acrescentando à medida que me ocorram:

Alto da Cividade
Alto do Circo
Cabeça Santa
Cabeço Cercado
Cabeço dos Mouros
Castelejo
Castelinho
Castelo
Castelo de Paiva
Castelo dos Mouros
Castelo Rodrigo
Castêlo
Castêlo da Maia
Castelucho
Castendo
Castragosa
Castralhouço
Castrelo (Pt. e Gz.)
Castrelo do Val (Gz.)
Castrelos
Castrilhão
Castro (Pt. e Gz.)
Castro da Cidá (Gz.)
Castro d' Aire
Castro da Ponte
Castro de Avelãs
Castro de Barrega
Castro de Cabras
Castro de Lagarelhos
Castro de Ourilhe
Castro de Ovil

Castro de São Paio – recordação do númen padroeiro do castro (cristianizado)

Castro do Rei (Gz.)
Castro dos Mouros
Castro Mau
Castro Pedroso
Castro Laboreiro
Castro Maior
Castro Marim
Castromau – variante "Castromao" (Gz.)
Castromil (Pt. e Gz.)
Castroverde (Gz.)
Castro Verde
Cerca dos Mouros
Cidade Velha
Cividade
Círculo
Citânia
Coroa
Coroas
Coronado
Crasto

Crestuma – de "castro do Úmia ou Uima", o ribeiro que lá passa.

Cristelo
Cristelos
Monforte
Monforte de Lemos (Gz.)
Monsanto
Monte Castelo – pronúncia "Monte Castêlo"
Monte Castro
Monte Crasto
Monte da Saia

Monte de São Félix  –  recordação do númen padroeiro do castro (cristianizado)

Monte Mozinho – pronúncia "Monte Mòzinho"
Monte Murado

Os Castros (Pt. e Gz.)
Outeiro Maior
Penalba (Gz.)
Penalva d' Alva
Penalva do Castelo

Pena Mourisca

Santa Luzia  – recordação do númen feminino padroeiro do castro (cristianizado)

Santa Tecla  – recordação do númen feminino padroeiro do castro (cristianizado)

Santo Ovídio – recordação do númen padroeiro do castro (cristianizado)

São Miguel-o-Anjo  – recordação do númen alado padroeiro do castro (cristianizado)

Senhora da Cola – recordação do númen feminino padroeiro do castro

Senhora do Círculo – recordação do númen feminino padroeiro do castro

Senhoras do Monte – recordação de uma trindade feminina que protegia o lugar

Terronha
Terronhas

Trá-lo-Crasto – "lugar que fica por detrás do castro", designação que se infere ter sido dada por povo do lado contrário


nota: aceito contributos para esta lista. obrigado.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

topónimo "Pessegueiro" e derivados: mais uma vez a pseudo-Fitotoponímia

o topónimo "Pessegueiro" é mais um daqueles habitualmente associados à ideia de Fitotoponímia, isto é, à noção de que se referirá ao nome de uma árvore ou às caraterísticas específicas da flora local. há quem se tenha apercebido das dificuldades levantadas por este topónimo, e em especial dos seus derivados e variantes como "Pexegueiro", Pexeiros, Pixeiros", etc., etc., e, acima de tudo, pela sua relação com a água (Ilha do Pessegueiro, Rio Pessegueiro, Rio Pexegueiro). daí que tenha sido associado à ideia de abundância de peixes. e, claro, daí a atribuir-se-lhe uma etimologia em "piscis" vai o passo de um pardal. mas peixes é o que mares e rios têm mais e nada faz crer que os locais chamados "Pessegueiro", ou seus derivados e variantes, tenham uma especial abundância em peixe que seja razão para o nome que têm. mais complicado, ainda, é o facto de estes topónimos terem formas anteriores em "Peshigeiro" e "Pecegueiro". 
assim sendo, teremos que ir por outros caminhos. que, pelo menos, tenham mais lógica e plausibilidade.

outra coisa que os rios têm junto às povoações, para lá da carência ou abundância em peixe, é a maior ou menor possibilidade de serem atravessados a pé, a nado, de barco ou por cima de pontes. o que, em cada caso, merece a respetiva e adequada toponímia (Coiço, Couce, Couço, Vau, Barca, Barco, Ponte, etc.). e aí, indo pelo latim, mas por "pes/pedis (pé) e siccum/sicci (seco) ou ainda "sequor" (dirigir-se para, ir em direção a), sempre a coisa distingue melhor um local ou um rio dos restantes da mesma espécie. 
estou, portanto, em crer que estes topónimos se referem a lugares onde é possível a passagem sobre as águas ou a águas que permitem que lhes passem a pé por cima.

Topónimos "Pessegueiro", derivados e variantes:

Ilha do Pessegueiro
Monte do Pessegueiro
Pessegueira (Gz.)
Pessegueiro (Pt. e Gz.)
Pessegueiro de Baixo - era "Peshigeiro" no séc. XVIII
Pessegueiro de Cima
Pessegueiro do Vouga - já foi "Pecegueiro"
Pexegueiro (Gz.)
Pexegueiros (Gz.)
Pexeiroos (Gz.)
Pexeiros (Gz.)
Pixeiros (Gz.)
Rio Pessegueiro
São João da Pesqueira (?)


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Alavandeira, Lavandeira

os topónimos "Alavandeira" e "Lavandeira" aparecem na Galiza e no Norte e Centro de Portugal, sempre associados à presença de um pequeno ribeiro. são, por conseguinte, hidrónimos. a sua raiz "lav-" é a mesma de "lavar", pressupondo a ideia de "água corrente". 

Pinhel, Espinhel

estes dois topónimos referem-se a localidades situadas em lugar que sobressai por ser mais elevado que os lugares em volta. derivam de "pino", ou "pinho", e "espinho", constituindo diminutivos com pronúncia galego-portuguesa meridional (moçarábica). um pouco mais nortenhos e seriam "pinhelo" ou, mais tarde,  "pinheirinho" e "espinhelo". 

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Cubo

o topónimo "Cubo" é relativamente raro e encontra-se sobretudo na Galiza e no Norte e Centro de Portugal. pode ser uma construção em forma de cubo, habitualmente de pedra, ou uma pequena torre. e a sua função é funerária. representa o túmulo de alguém suficientemente importante na época para justificar o trabalho da sua construção.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

género e toponímia

cada vez é maior a tendência para uma "uniformização" do critério de género na referência aos topónimos. tende-se a tratar como masculino todo o topónimo terminado em "o", independentemente da sua origem, significado e pronúncia ("ó" aberto, "o" átono ou "ô" fechado), e de tratar como feminino todo o topónimo terminado em "a". isto resulta, em primeiro lugar, de um desenraizamento absoluto, de uma falta de contacto com os naturais do lugar, aldeia ou vila, quando não de uma posição de sobranceria em relação a tudo o que seja a pronúncia popular, quase sempre considerada "corrompida" ou incorreta; em segundo lugar, do desconhecimento, por quem assim funciona, da origem etimológica e significado do topónimo.
de um modo geral, pode dizer-se que os topónimos correspondentes a nomes comuns (A Aveleira, A Bola, A Estrada, A Figueira, A Guarda, O Porto) têm género, masculino ou feminino conforme o caso. e que outros topónimos são neutros, seja qual for a sua terminação (Braga, Bragança, Chipre, Coimbra, Lisboa, Lorvão, Marvão, etc.).
na Galiza o costume, que já foi nosso também, de antepor o artigo definido facilita o esclarecimento de eventuais dúvidas (A Bola, A Corunha, A Estrada, A Guarda).
mas há exceções que só a prática da Língua e o seu conhecimento profundo poderão deslindar. o que não se obtém nas grandes cidades, povoadas de gente desenraizada e convencida da sua superioridade "cultural".
voltarei ao assunto.

domingo, 13 de maio de 2012

Ásia

Ásia é uma palavra que para nós, os falantes da Língua Portuguesa, vem do Latim a partir do grego "Ασία". é pelo menos o que dizem alguns linguistas. pois, mas a palavra original também não é grega, e ficamos na mesma. na mitologia grega, Clímene ou Ásia é uma oceânide, filha do Oceano e da ninfa Tétis. mas, para lá de nos dizer que a terra Ásia emergiu do mar, como todas as outras, nada nos esclarece sobre a palavra "Ásia" em si. e, tal como em relação a "Europa", também não há certezas sobre a origem da palavra "Ásia"/"Ασία". 

o termo "Ασία" parece ter origem no acádio "(w)aṣû(m)", ou no fenício "asa", que significam "levantar", "sair, nascer" [o sol], isto é, o Oriente, o Leste. e, a ser verdade (é pelo menos plausível), com isto se percebe como o olhar semita via o mundo, estando no centro dele: de cara a norte, viam à esquerda a Europa ("o Ocidente") e à direita a Ásia ("o Oriente").

terça-feira, 8 de maio de 2012

Europa


não existe qualquer certeza sobre a origem do nome Europa, este subcontinente a oeste das antigas civilizações. o que se sabe é que nos séc. IX e VIII a.C. a palavra designava a parte continental da Grécia e que no séc. VI já abrangia territórios mais a norte.

mas há uma lenda grega que reza mais ou menos assim: havia na cidade de Tiro, na Fenícia, um rei cujo nome era Agenor. Agenor tinha uma filha, Europa, disputada em sonhos por duas grandes terras-fêmeas: a Ásia e a terra de Diante. ambas queriam a princesa, mas era vontade de Zeus que Europa se fizesse ao mar. um dia, a princesa foi passear até à praia e um "touro branco" (*) levou-a de viagem até Creta, onde, apaixonado,  se lhe revela como Zeus e dela teve uma prole, da qual se destaca o rei Minos. 

esta lenda revela a crença numa origem oriental - e por que não fenícia? - do nome Europa. se os gregos tivessem a consciência de terem sido os pais da palavra, esta lenda não faria sentido algum. do outro lado das hipóteses etimológicas, os que veem em "europa" uma "vista larga", de acordo com uma hipotética origem grega (de "eurys", «largo», e ‘ops’, «vista»), devem reparar que mais vistas largas há na Ásia ou mesmo em África, pelo que de "vistas largas" está o mundo cheio.


os fenícios falavam uma língua semita, parente próxima do árabe e do hebraico. e por isso há quem veja a palavra Europa como uma derivada de "eureb"/"erebu", parente do "gharb" árabe, isto é, "o por do sol", "o ocidente". 

esta é a etimologia que faz mais sentido, enquanto não lhe descubram melhor origem. na verdade, não existe nenhum continente tão mentalmente voltado a ocidente, nem tão envolto na ideia de finis terrae.


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(*) "touro branco": se compararmos com outros povos com um tipo de organização social idêntica, a designação "touro branco" pode referir-se a um chefe guerreiro de uma tribo ou [con]federação de tribos, ou ao animal totémico destas.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

os fitotopónimos e os topónimos "Mação", "Maçãs", "Macedo", "Maceira", "Manzanares" e Cª.

na senda dos pseudo-"fitotopónimos", há um grupo que há muito tempo me desafia. é o grupo Mação, Maçãs, Macedo, Maceira, Macieira, Macinhata, e assim por diante. neste particular, praticamente todos os autores que consultei vão pela tese da árvore das maçãs, chegando alguns a esgrimir o argumento do "óbvio". ora eu não conheço nada que seja menos óbvio que as coisas "óbvias". escusado será dizer que nunca acreditei nessa possibilidade, porque em muitos outros lugares há melhores e mais saborosas maçãs, que lhes poderiam dar com mais propriedade tal nome.
alguns autores, pouquíssimos, nos quais me incluía eu próprio, ainda admitíamos a possibilidade de uma relação com "mansio/ -onis": "morada", "habitação", "residência"; "pousada", "estalagem", "albergue". o busílis da questão era, e é, o "s" de mansio, porque nenhum destes topónimos nas suas variantes passadas, presentes e interlinguísticas admite o "s", mas sempre o "c" e seus equivalentes "z" ou "ç". por exemplo, Macieira da Lixa era, no séc XI, uilla Mazanaria. logo, há que buscar outra origem para esta família tão mal conhecida e tão precipitadamente rotulada.
a tese da árvore das "maçãs" como origem destes topónimos também é largamente dominante nas Espanhas de falas galego-portuguesa, castelhana e catalã, onde encontramos, entre muitos outros, Maçaeda (Gz.), Maçana (Cat.), Maceda (Gz.), Macedo (Gz.), Maceira (Gz.), Maceiras (Gz.), Macian (Cas.), Macieira (Gz.), Macinheira (Gz.), Macinheiras (Gz.), Mancegal (Gz.), Mancinheiras (Gz.), Manzanal (Cas.), Manzanares (Cas.), Manzanas (Cas.), Manzaneda (Cas.), Manzanedo (Cas.), Manzanera (Cas.), Manzaneruela (Cas.),...
curiosa é a "Maçana" catalã, já que em Catalão maçã se diz "poma".
vamos a ver: "Mação" tem por si a ribeira de Mação; "Maçãs de D. Maria" tem por si a ribeira de Maçãs; na Espanha de fala castelhana, mais propriamente em Madrid, há o rio Manzanares. em Macieiras que eu conheço há lugares do Ribeiro e lugares das Veigas.
não há dúvida, são ribeiros, regatos, riachos, arroios e veigas a mais.
diz-se que estes topónimos provêm do latim mattiana, de onde deriva "maçã". mas em latim maçã dizia-se malum/ -i - de onde os nossos ossos malares, que dão forma às "maçãs do rosto".
mas ainda que assim fosse, se estes topónimos derivassem de mattiana, como explicaríamos então as formas Mancegal, Mancinheira, Manzanas, Manzanares, que pressupõem um étimo em MNTi?
já vimos que por estes lugares abundam ribeiros, veigas, mananciais. ora, em latim a coisa diz-se manatio/ -onis (corrimento, corrente de água). e cá está: MNTi.
mais um saltinho às Espanhas: encontro Manantial (Cas.), Manantiales (Cas.), Manantials (Cat.), Manantio (Cas.).

fitotopónimos?

ou serão "lugares onde corre [muita] água"?


Maçã
Mação
Maçãs
Maçãs de D. Maria
Maceda (Pt. e Gz.)
Macedo (Pt. e Gz.)
Macedo de Cavaleiros
Macedo do Mato
Macedo do Peso
Macedos (Pt. e Gz.)
Maceira (Pt. e Gz.)
Maceira do Liz (Mecenaria, Macenaria – sec 13, Maçanaria)
Maceiras 
Maceirinha
Maceiro (no séc XI: Mazanario)
Macieira da Lixa (no séc. XI: uilla Mazanaria)
Macieira de Alcoba
Macieira de Cambra (Maceneyra, séc- XII; Maceeira, séc-XIV)
Macieira de Rates (Mazieira, séc XIII)
Macinhata da Seixa
Macinhata do Vouga
Manção
Mancelos
Manços
Praia das Maçãs
Rego de Manços
Ribeira de Maçãs
Ribeiro de Mação
Rio de Maçãs 
Rio Maceiras (Gz.)
Vale de Manços