terça-feira, 4 de abril de 2017

Alfafar

o topónimo "Alfafar" existe em Portugal, na freguesia de Podentes, concelho de Penela, e no sul de Espanha, num município de Valência.
a sua origem é árabe e significa "olaria".

Lenteiro


a palavra "lenteiro" refere-se a um terreno húmido e pantanoso, o mesmo que lameiro, pântano.

conheço alguns  topónimos portugueses:
Lenteiro (Baião)
Lenteiro (Barcelos) - em "Citânia de Lenteiro".
Lenteiro do Rio (São Pedro do Sul) 
Rua do Lenteiro (Santa Maria da Feira)

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Almaraz (Pt.)

não se trata da Almaraz na bacia do rio Tejo espanhol, na província de Cáceres, junto à fronteira da Beira Baixa, nem de Almaraz de La Mota, perto de Valhadolid. trata-se da Quinta de Almaraz, em Almada, local arqueológico de relevo.
de acordo com Fernando Branco Correia (2016), o topónimo relaciona-se com a eventual presença de uma torre de vigia.

sábado, 22 de outubro de 2016

lugares onde se atravessava os rios a pé

os lugares que contenham os termos "Barca", "Barco" e variantes, "Couço" e variantes,  "Pessegueiro" e "Vau" são geralmente lugares de travessia de rios.

exemplos:

Barca
Barca d'Alva
Barco
Barquinha
Barcouço (pleonasmo: Barco+Couço)
Coiço
Couce
Couço
Pessegueiro
Pessegueiro do Vouga
Vau
Vila Nova da Barquinha

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Páramo, Paramos, Paraimo, Parâmio

"Páramo" e derivados (Paraimo, Parâmio, Páramos) é um vocábulo derivado do latim "paramus", que se refere a una superfície plana, pouco fértil ou desértica; charneca. também designa sítios que não oferecem proteção ou abrigo.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Misarela ou Mijarela

lendo o terceiro volume de "Investigação da Etymologia ou Proveniência dos Nomes das Nossas Povoações", de Pedro Augusto Ferreira, "bacharel formado Teologia, continuador de Portugal Antigo e Moderno, e abbade de Miragaia aposentado", de 1915, vejo, a propósito de Misarela:
"todas as nossas Misarellas e Mijarellas são quedas d'agua naturaes — algumas lindissimas, de grande altura e grande força".
nem tudo o que o autor escreve se diz, mas aqui parece-me ter razão. as Misarelas ou Mijarelas relacionam-se com quedas de água. é como se a Natureza mijasse. e, então, a grafia deverá ser "Misarela", com um "s" viseense, e não "Mizarela".
assim, na Serra da Freita, na montante das águas do rio Caima, há uma queda de água de grande altura (60 metros) a que chamam a "Frecha da Mijarela" ou "Frecha da Misarela".
havia até uma cantiga popular que rezava assim:

"a Frecha da Mijarela
tão alta está ela,
deixai-a lá 'star.
q' os fidalgotes do Porto
por ser água boa,
q'riam-na encanar".

domingo, 22 de maio de 2016

Arco do Cego

vou frequentemente a Lisboa e não raramente estaciono no Jardim do "Arco do Cego". sempre me fez espécie tal nome. onde estaria esse arco, que já lá não está, e que cego tão famoso seria esse?
do arco há notícia. não do seu nascimento, mas da sua morte.
em setembro de 1742 foi ali demolido um arco para que pudesse passar a carruagem do rei D. João V, em viagem para as Caldas da Rainha, onde iria curar-se a banhos termais.
o arco foi demolido mas o rei acabou por preferir um bergantim e ir rio acima até Vila Nova da Rainha, no concelho da Azambuja, e daí seguir para as Caldas as 28 milhas restantes..

do "cego" é que não há notícia, pelo menos de que eu tenha conhecimento. da última vez que lá estacionei verifiquei uma pequena diferença na designação do parque. em lugar de "Arco do Cego" dizia agora "Arco Cego".
pensei: "é dessas modernidades de tirar os 'des' às palavras compostas, tão do agrado das parangonas de jornais e telejornais.
"nã !" - pensei, depois, melhor. isto até que faz sentido: "arco cego" existe, "arco do cego" é que é mais difícil.
e então o que vem a ser um "arco cego"? é um arco que por necessidade posterior à sua constrção, ou por qualquer outro motivo, foi fechado com pedra ou qualquer outro material de construção, de jeito que já nada se pode ver através dele.
fica também mais compreensível por que houve que o demolir para passar o rei, que, afinal de contas, não passou.
e serve esta estória para compreender as voltas que os nomes dão. sobretudo quando a sua história já não é conhecida das pessoas residentes.
hemos de convir que "Arco do Cego" tem mais poesia, mais magia, sei lá. mas "Arco Cego" é o que faz sentido prático.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Buçaco

Buçaco é uma floresta montanhosa da freguesia do Luso, concelho da Mealhada. no século X, em doação de Gundesindo ao mosteiro de Lorvão, era grafado como "Mons Buzaco" e "monte Buzacco" - "o monte Buçaco". diz-se na doação que o monte era "nuncupato Buzacco", isto é, "oralmente chamado Buçaco".
a sua etimologia tem sido alvo das mais cómicas invenções, que me abstenho de mencionar.
um dia. em passeio pela França do sudoeste, encontrei dois topónimos "Bussac", na Dordogne: Bussac-sur-Charante e Bussac-Forêt. na origem destes topónimos está um termo celta (um povo ou uma pessoa) com a terminação genitiva (Bucci-acum): "terra de..." ou "terra dos...". e, apesar de a etimologia pedir um "ç" ou um "z", também em França, como em Portugal, a grafia nem sempre segue a etimologia.
certo é que Buçaco é um topónimo muito antigo em Portugal, mesmo dos mais antigos.
e não há dúvida de que, se a etimologia for também a de Bucci-acum, a grafia adequada deve ser Buçaco.

sábado, 7 de maio de 2016

Reguenga, Reguengo, Reguengos

Reguenga, Reguengo, é uma terra ou lugar que está diretamente na dependência do rei, que pertence ao rei, propriedade real.
Há inúmeros Reguengos em Portugal:

O Reguengo
Reguenga
Reguengo (Pt. e Gz.)
Reguengo da Parada
Reguengo de Oeiras
Reguengo do Alviela
Reguengo do Fetal - pronuncia-se "Reguengo do Fètal"
Reguengos de Monsaraz
Reguengo Grande
Reguengo Pequeno



Em 1832 Mouzinho da Silveira extinguiu todos os reguengos em Portugal, ficando para sua memória os topónimos.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

"na toponímia, a palavra "Pé" aparece com dois significados: "sopé", "parte de baixo", como em

Pé da Cabeça do Bom Dia,
Pé da Costa - o mesmo que "sopé da encosta"
Pé da Ladeira,
Pé da Serra,
Pé do Cerro,
Vinha do Pé;

e "junto de", "ao pé de", como em

Pé da Cruz,
Pé da Igreja
Pé da Veiga.

há ainda o topónimo "Pé de Cão", em Coimbra e em Torres Novas, o qual, provavelmente, não tendo que ver nem com uma coisa nem com outra, se deve a uma deturpação gráfica: será "Pèdecão"? outro tanto se diga da "Quinta do Pé à Mão". será "Pèàmão"?

sábado, 31 de outubro de 2015

Por Deus

o Dr. Rui Eduardo Dores Jesuíno, deputado da Assembleia Municipal de Évora e deputado da Comunidade Intermunicipal do Alto Alentejo, tendo feito a listagem completa dos topónimos do concelho de Elvas, questiona-me sobre o significado do topónimo "Figueira de Por Deus", que encontrou na zona de Elvas. de facto, no  Alto Alentejo, mais propriamente na região de Elvas, existiu e existe o topónimo "Por Deus", sob a forma de "Figueira de Por Deus", e em Monforte, Portalegre, sob a forma de "Herdade de Por Deus",  sobre Figueira já me pronunciei em postagem anterior.
quanto a "Por Deus", é melhor não levar à risca a grafia oficial e fixar-nos na fonética. nesse caso, teremos "pordeus". a palavra e, se calhar, o topónimo só ganham com isso. em primeiro lugar, encontro o nome Pordeus como nome de família, sobretudo no Nordeste brasileiro, designadamente na Paraíba e no Ceará. nome que é, muito provavelmente, de origem portuguesa, alto-alentejana e de origem toponímica, sendo certo que houve, em tempos idos, movimentos migratórios de cá para lá que o justificam. 

sendo, pois, o topónimo "Pordeus" e não "Por Deus", levanta-se a questão de saber o que significa "Pordeus". 
o topónimo é provavelmente uma variante dialetal de Paradelos/ Par'delos, ou de Paredelos, topónimos que se encontram em vários lugares da Galiza, de Ponte Vedra ao Berço, e no norte de Portugal. as variantes dialetais podem incluir "Pardeos"/ "Pardeus". 
a troca da vogal "a" por "o" pode suceder sobretudo no galego-português meridional, como é o caso, aqui em Coimbra, de "Coselhas" no lugar de "Caselhas". 
assim sendo, o que vêm a ser os "paradelos" ou os "paredelos"?  no primeiro caso, podem ser locais onde era habitual colocar-se certas redes para apanhar peixes em rios - o que impõe a presença desse rio ou ribeiro no local; no segundo caso, tratar-se-ia de lugares já há muito abandonados, onde, quando foram (re)povoados, os novos habitantes neles encontraram paredes ou vestígios delas - o que chamaríamos vestígios arqueológicos.
no caso da passagem gráfica de "Pordeus" a "Por Deus" trata-se claramente da perda do significado original do topónimo e sua substituição por outro mais "compreensível" em época posterior..  

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

gândara e granja (Pt., Gz. e Br.)

por "Gândara" entende-se um terreno baixo, sem cultivo e cheio de matagal; terreno arenoso pouco produtivo; charneca; terra chã encharcadiça. existe também a variante "Gandra" (Pt. e Gz.) e os diminutivos "Gandarela" (Pt. e Gz.) e "Gandarinha" (Pt. e Gz.).

por "Granja" entende-se uma pequena propriedade agrícola; quinta ou fazenda, chácara, rancho; propriedade onde se faz a exploração industrial de aves, sobretudo galinhas (Br.);celeiro. existem também os diminutivos "Granjinha" e "Granjola". há muitíssimas "Gândaras" e "Granjas", seja em Portugal, na Galiza e no Brasil.

exemplos de Gândaras e de Granjas::

A Gândara (Gz.) - graf. altern. "A Gándara"
A Gândara de Guilharei (Gz.) - graf. altern. "A Gándara de Guillarei"
A Granja (Gz.) - graf. altern. "A Granxa"
Amoreira da Gândara
Fonte da Gândara (Gz.) - graf. altern. "Fonte da Gándara"
Gândara (Pt. e Gz.)
Gândara de Budinho (Gz.) - graf. altern. "Gándara de Budiño"
Gândara de Espariz
Gândara de Montedor
Gândara de Olivais (Br.)
Gândara dos Olivais
Gandarela
Gandarela de Basto
Gandarinha (Pt. e Gz.) - graf. altern. "Gandariña"
Gandarinhas (Pt. e Gz.) - graf. altern. "Gandariñas"
Gandra (Pt. e Gz.)
Granda (Pt., Gz. e Ast.)
Grandela (Gz.)
Granja de Ançã
Granja de Meanho (Gz.) - graf. altern. "Granxa de Meaño"
Granja do Gesto (Gz.) - graf. altern. "Granxa do Xesto".
Granja do Ulmeiro
Granjinha
Granjola (Pt. e Gz.)
Moinhos da Gândara
Praia da Granja
Salvador de Gandarela
São Martinho da Gândara (Br.)
São Martinho da Gandra
Serra da Gandarela (Br.)


este post retoma dois anteriores, de 5 e 6 de outubro de 2006, sob os títulos, respetivamente, de "A Gândara" e "A Granja"

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

fitotopónimos verdadeiros


tenho-me ocupado dos falsos fitotopónimos, como "Carvalho", "Castanheira", "Oliveira", Pereira", "Pereiro", "Pessegueiro" ou "Pecegueiro", "Pinheiro", "Sobreira", "Sobreiro" e muitos outros.
aqui interessam-me agora os fitotopónimos autênticos, aqueles que estão realmente relacionados com a presença de alguma vegetação especial.

aqui vão alguns fitotopónimos:

Alfena - lugar onde existe o alfeneiro ou ligustro (árabe al-henna), planta usada em tinturaria artesanal e em tatuagens e cosmética. embora haja quem avance outra etimologia para este topónimo português nortenho, único no país, a existência dos topónimos Alheña e Alhena em Espanha favorece largamente a hipótese fitonímica.

Amial - lugar onde abunda o amieiro
Amieira -
A Seiceira - ver Asseiceira
Asseiceira - lugar de salgueiros (de "salix" - salgueiro)
Azinhal - lugar onde abunda a azinheira ou azinho
Azinhal de Martim Longo -
Caminho das Piteiras - ver Monte das Pitas
Caminho do Carqueijal (Gz.) - graf. altern. "Camiño do Carqueixal"
Carqueijais -
Carqueijal - lugar onde abunda a carqueija ou carqueja
Casal da Seiceira -
Castinçal - lugar onde abundam castanheiros bravos
Choupal - lugar plantado com choupos
Faial - lugar onde abundam as faias
Feiteira - lugar onde abundam fetos
Felgueira - lugar ode abundam fetos
Felgueiras - ver Felgueira
Filgueira (Gz.) - ver Felgueira
Fenteira (Gz.) - lugar onde abundam fetos
Fetal - pronúnc. Fètal. lugar onde abundam fetos
Feteira - pronúnc. Fèteira. lugar onde abundam fetos
Fonte da Asseiceira -
Granja do Ulmeiro - ver Ulmeiro
Lentisqueira - lugar onde abunda o lentisco ou pistácio (também pistacho)

Linhaceira - terrenos onde se cultiva o linho, sobretudo para obtenção da semente ("linhaça")

Linhares (Pt., Gz. e Br.) - terrenos onde se cultiva o linho. graf. altern. "Liñares".
no Brasil e em algumas regiões fora do espaço continental português (exº Açores), o topónimo "Linhares" pode estar relacionado ou com uma transposição de um "Linhares" metropolitano ou com a atribuição do apelido de família de um senhor da região.


Linhares da Beira -
Linhares de Cima -
Linhares do Monte -
Madeira - de "mateira", lugar de muito mato, matagal.
Monte das Pitas - pita é o mesmo que piteira.
Monte do Azinhal -
Murta -
Murtal - lugar onde abunda a murta

Murtede - ver Murtal
Murteira -
Murteirinha -
Murtinheira -
Murtosa - ver Murtal

O Rosal (Gz.) -

Pampilhosa - lugar onde abundam os pampilhos, plantas da família das Asteraceae, como a marcela e o girassol

Pampilhosa do Botão -
Pampilhosa da Serra -
Parral -
Parreiral -
Piteira (Pt. e Gz.) -
Quinta do Rosal -
Rego da Murta -
Reguengo do Fetal -
Rosal (Pt. e Gz.) -
Rosmaninhal - lugar onde abunda o rosmaninho
Rua das Piteiras - ver Monte das Pitas
Salgueiros - ver Asseiceira
São João da Madeira - ver Madeira
Sazes - lugar de salgueiros. ver Asseiceira
Sazes da Beira -
Sazes de Lorvão -
Seiçal - ver Asseiceira
Seiceira -lugar de salgueiros. ver Asseiceira
Seixal - variante de Seiçal
Soito - o mesmo que Souto
Soutelo - forma diminutiva de Souto
Souto - lugar onde há muitos castanheiros enxertados (castanheiros mansos)
Soutocico - forma diminutiva de Souto
Telheiras - lugar com bosques de tílias
Ulmeiro - lugar onde cresce o ou um olmo
Vale de Linhares -
Vale do Rosal -
Vimeiro - lugar onde abunda o vime
Vimieiro - ver Vimeiro
Vimioso - ver Vimeiro

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Belazaima e Belazeima

conheço duas Belazaima (ou melhor, Belasaima), no concelho de Águeda (Belazaima-a -Velha e Belazaima do Chão) e uma Belazeima (ou melhor, Belaseima), no contíguo concelho de Tondela, todas ligadas, direta ou indiretamente, ao rio Águeda.
o topónimo é, pois, muito restrito do ponto de vista geográfico e está ligado à água. trata-se de um topónimo muito antigo, diz-se que "anterior à nacionalidade" - o que em si mesmo pouco diz.
é difícil não o associar à deusa celta Belisama ou Belesama ("A Muito Brilhante"), equivalente da grega Atena e da romana Minerva.
era esposa ou companheira de Belenos, deus solar celta, responsável por topónimos portugueses como "Belém".
Belisama ou Belesama estava afeta aos lagos e rios, bem como ao fogo e à luz. o seu culto estava sobretudo desenvolvido na Gália e na Bretanha. 
dito isto, é difícil não considerar este topónimo um nome celta de lugar, dedicado à "Muito Brilhante" deusa - a "Senhora da Luz", na terminologia cristã.
quaisquer outras hipóteses etimológicas são demasiado rebuscadas, umas, e fantasiosas, outras. e não se adaptam tão bem à geografia do local.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Colcurinho

este topónimo dá nome a um lugar hoje despovoado e, muito próximo e mais acima, ao cume de um monte da Serra do Açor, com 1242 metros de altitude, onde, de acordo com várias lendas, terá existido um castro, hoje desaparecido ou quase.
no monte do Colcurinho existe a capela da Senhora das Necessidades, ou Senhora do Cabeço, em recinto onde terá existido o castro pré-romano, e onde terá ocorrido a “aparição” da Virgem a uns pastores, no séc. XIV.
a vocação militar do lugar é "atestada" por várias lendas.
uma lenda liga o nome do cume do monte a um general romano e a freguesia onde Colcurinho se situa, a Aldeia das Dez, é conhecida pela sua ligação à ocupação romana, com aparecimento, entre outros vestígios e artefactos, de muitas e variadas moedas do Império.
outra lenda, pelo contrário, diz que Colcurinho teria sido um combatente nas hostes de Viriato.
uma outra lenda, ainda, refere que os “últimos mouros” se refugiaram num castro que tinham no Colcurinho. os de Piódão arranjaram um estratagema para os expulsar: trouxeram todo o gado [ou “muitas cabras cornudas”], enfeitado com mato e velas acesas nos chifres. o chefe dos mouros, quando viu o aparato, disse: - fujamos que a montanha traz fogo e anda como se fosse viva!
“foi a última vez que os mouros foram vistos na região”.

seja como for, parece claro que a memória popular conserva os ecos da guerrilha celto-romana, ou, se quiserem, lusitano-romana.
também diz a lenda que no monte do Colcurinho terá sido construída uma muralha como posto de observação e defesa.

diz-se que no lugar "apareceu" a imagem da Senhora das Preces, hoje venerada num santuário no lugar de Vale Maceira, na mesma freguesia de Aldeia das Dez, concelho de Oliveira do Hospital. no alto do monte do Colcurinho encontra-se um cruzeiro onde está escrito: “apareceu aqui Nª. Sª. das Preces ano de 1371”. Frei Agostinho de Santa Maria relata o aparecimento de uma imagem de Nª. Senhora a uns pastores, que ao encontrarem a imagem a levaram ao padre de Aldeia das Dez, o qual, em acordo com os paroquianos, resolveu levá-la para a igreja paroquial.
mas a Senhora – como é habitual nestes casos – não queria ficar ali, pelo que a imagem desapareceu, indo aparecer novamente no local onde fora achada. visto ser desejo da Virgem estar no cimo do monte, aí lhe edificaram uma capelinha: a da Senhora do Cabeço ou das Necessidades.


sobre o topónimo em si, apesar de uma aparência bem "portuguesa", pouco ou nada se sabe. não há vestígios da sua etimologia. só no romeno “culcus” se encontra semelhança fonética e, provavelmente, semântica. a palavra significa “abrigo”, “refúgio”. e, se calhar, não andará longe da verdade neste caso.
mas também pode tratar-se de uma palavra composta: col'+curinho e neste caso teremos "cole" ("colina", "outeiro") + cur' ("curvo", "corcovado", "redondo"). e aí teríamos, então, "Monte Redondo", "Moncorvo". certo é que Colcurinho é um "monte redondo". e mais não sei.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Paul e Oliveira (Pt., Cv., Gz. e Br.)


do latim "paludem" (charca), Paul é um terreno húmido e pantanoso, muitas vezes com charcas ou lagunas pouco profundas.


ambiente propício para a reprodução e instalação de certas aves, peixes e anfíbios.
é também um ambiente propício a insetos, nomeadamente mosquitos e destes o Anopheles, responsável pela transmissão do Plasmodio causador do paludismo ("doença ou febre dos pântanos").



alguns pauis:

Casal do Paul
Foros do Paul
Pauis (Br.)
Paul (Pt., Cv.)
Paúla
Paul da Praia da Vitória (Aç.)
Paul das Caniceiras
Paul da Serra (Mad.)
Paul das Lavouras
Paul das Salgadas
Paul das Senhoras Rainhas
Paul de Ancas
Paul de Arzila
Paul de Cima (Aç.)
Paul de Gouxa
Paul de Magos
Paul de São Facundo
Paul de Tornada
Paul de Trejoito
Paul do Boquilobo
Paul do Borquinho
Paul do Mar (Mad.)
Paul do Taipal
Paul dos Patudos - o mesmo que Paul de Gouxa
Paulinho
Rua dos Pauis
São Vicente do Paul
Vale do Paul (Cv.)


com significado muito próximo, temos as Ulveiras, Olveiras e Oliveiras, topónimos derivados do latim "ulvaria", que se refere a um terreno alagadiço, pântano, solo pantanoso ou terreno de lameiro, coberto de uma alga palustre - a ulva. este topónimo, nas suas variantes, é a origem de outros tantos sobrenomes: Ulveira, Olveira e Oliveira, que se encontram no diassistema linguístico galego-português.

algumas "ulvarias":

Cerro de Oliveira do Corvo
Oliveira (Pt. e Gz.)
Oliveira de Azeméis
Oliveira de Baixo
Oliveira de Barreiros
Oliveira de Frades
Oliveira do Arda
Oliveira do Bairro - foi chamada São Miguel de Ulveira.
Oliveira do Cerro
Oliveira do Conde

Oliveira do Douro -  foi chamada Ulveira, depois Oliveira de Avintes, Oliveira de Santa Eulália, Oliveira de Cónegos, até se chamar Oliveira do Douro.

Oliveira do Hospital - foi chamada Ulveira do Espital
Oliveira do Mondego
Oliveira dos Brejinhos (Br.)
Oliveira dos Campinhos (Br.)
Oliveira dos Mortos
Oliveirinha
Olveira (Gz.)
Rua do Couto de Ulveira - em Oliveira de Frades
Santa Maria de Oliveira
Ulveira (Gz.)

bom, e estas "Oliveiras" são mais um dos muitos exemplos de convergência fonética para nomes comuns, no caso a árvore "oliveira", engrossando a lista de falsos "Fitotopónimos".


N.B: no caso das "Oliveiras" do Brasil,  a sua origem advém da transposição do culto da Senhora da Oliveira.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Mota

muito anterior à existência de veículos motorizados ou mesmo de bicicletas, o topónimo "Mota" está associado a elevações naturais ou, sobretudo, artificiais. neste último caso, refere-se a mamoas de grande dimensão ou a terraplanagens de origem militar. significa, na sua origem germânica, "monte de terra". encontra-se em França, sob a forma Motte ou Mothe, na Inglaterra e na Escócia sob a mesma designação, na Itália sob a forma Motta e em Espanha com grafia igual à portuguesa. em algumas das "motas" está ou estava localizado um castelo.
também surge sob a forma diminutiva, como "Motilla", em Espanha, ou "Motinha", em Portugal. pelo menos, conheço a "Travessa da Motinha", em Mira d'Aire.
   

algumas das "Motas" constituíam ou constituíam-se em propriedades fundiárias, mais ou menos extensas e importantes, que deram origem aos sobrenomes "Mota", "da Mota" e "de Mota", próprios dos seus terratenentes iniciais ou seus descendentes.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Airão e Pele / Pelhe / Peio

naquela época não havia carreiras de camionetas para todo o lado, nem carros senão os de bois, por isso o caminho fazia-se caminhando. assim, desde pequeno que passava a pé por São João e Santa Maria de Airão, a caminho de São Vicente de Oleiros, terra dos meus avós paternos. 
hoje, as voltas e reviravoltas da política e das finanças fizeram reunir numa União de Freguesias as duas freguesias de Airão mais a freguesia de Vermil. e a própria São Vicente de Oleiros foi reunida na União de Freguesias de Leitões, Oleiros e Figueiredo. nada escapou ao podão e à cola de Miguel Relvas.


sobre a origem do topónimo "Airão", aventam-se duas hipóteses: a primeira, refere-se à possibilidade de ter-se tratado de uma "villa" (propriedade rústica) de um tal Árias ou Árila, de etnia celta ou germânica - hipótese pouco provável, já que o genitivo correspondente não permite a forma "Airão": a segunda - e quanto a mim a mais provável, senão definitiva - refere-se à presença de nascentes, fontes, grutas ou poços naturais profundos.
estas grutas e poços não raramente estão ligados a cultos xamânicos ancestrais, associados ao Paleolítico.

no período celta cultuou-se a divindade Airón / Aironis, ligada aos poços e abismos. 
a presença de pontos de água é quase uma constante. de acordo com Alberto Lorrio, "numa percentagem elevada, este topónimo está relacionado com poços, lagunas, arroios ou fontes [...], outras vezes com grutas ou abismos".
o topónimo é bastante frequente na Península Ibérica, sob a forma Airão, Airón, Lairón, Airones, Eirós (forma plural) e os curiosos pleonasmos Pozo Airón, Pozairón e Cova Eirós (*).

no caso concreto que aqui nos traz, corre por Airão o rio Pele, um pequeno afluente do Ave. curiosamente, um pouco mais a juzante e em paralelo corre outro pequeno afluente do Ave, o rio Pelhe, evidentemente o mesmo hidrónimo, que significará "arroio", "regato" ou "ribeiro". por sua vez, o pequeno rio Peio, do mesmo étimo, corre no concelho de Cabeceiras de Basto e desagua no rio Tâmega, com o nome de "Rio do Ouro" (o mesmo que "douro", palavra de origem celta que significa "água").

é de notar que em França, no Jura, existe o Ruisseau de La Pèle (ribeiro de La Pèle). e Bazois, uma região do leste do Nivernais, é banhada pelo rio Aïron.

(*) nota: na elaboração da parte que liga Airão a pontos de água, poços e abismos servi-me do post de Andregoto Galíndez, em:

http://arqueotoponimia.blogspot.com.es/2014/10/el-chaman-de-cova-eiros.html



quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Cadima

esta freguesia do concelho de Cantanhede já foi grafada Catina, Cadyma, Gadima, Katima e Kadima, aparecendo estabilizada a grafia Cadima a partir de 1140. parece geralmente aceite a etimologia árabe, de Qadimu - "[Aldeia] Velha". e muito velha será ela. porém, dada a forma "Catina" anterior, parece mais uma arabização de vocábulo pré-árabe, cujo significado se desconhece. a possibilidade de "Catina" ter uma relação com a "catina" romena, que se refere a um arbusto dunar, portanto indicando uma relativa proximidade do mar, não será de excluir, embora pareça um nome mais adequado a um local deserto do que a um sítio povoado.  

domingo, 12 de outubro de 2014

Collipo

Collipo foi uma cidade romana (não quer dizer que "collipo" seja uma palavra latina). situava-se nos limites dos atuais concelhos de Leiria e da Batalha, na Quinta de São Sebastião do Freixo, antigo Paço de Randulfo, num outeiro do lugar de Andreus, da freguesia de Barreira. os de Leiria gostam de ligar-se à ideia de Collipo, fazendo-se descendentes da urbe romana. porém, ao que julgo saber, da Collipo propriamente dita os leirienses apenas têm as pedras daquela cidade levadas, entre outros destinos, para a construção do castelo de Leiria. povoada por Túrdulos, etnia pré-romana do extremo sul da Península, a cidade de Collipo dominava uma região abrangendo pelo menos partes dos concelhos de Leiria, Marinha Grande, Batalha, Ourém e Porto de Mós. ao que se diz, "collipo" é uma palavra híbrida, metade latina, metade túrdula, significando "castro do outeiro" ou "outeiro do castro".
que é como quem diz "Monte Castro", "Monte Crasto" ou "Castromonte".