domingo, 28 de julho de 2013

recordações do tempo dos castros


a toponímia conserva a recordação de lugares antigamente povoados, pertencentes à chamada "cultura castreja". alguns dos nomes fazem referência ao caráter sagrado do lugar (Cabeça Santa, Monsanto), outros ao númen divino que os protegia (Santa Luzia, Santa Tecla, Senhora da Cola, Santo Ovídio, São Miguel), outros à sua dimensão (Castelinho, Castro Maior) e outros ainda à sua antiguidade (Castro Verde).

mais resumidamente, já me referi a este tema numa postagem de 31 de agosto de 2006.


aqui vão alguns topónimos, que irei acrescentando à medida que me ocorram:

Alto da Cividade
Alto do Circo
Cabeça Santa
Cabeço Cercado
Cabeço dos Mouros
Castelejo
Castelinho
Castelo
Castelo de Paiva
Castelo dos Mouros
Castelo Rodrigo
Castêlo
Castêlo da Maia
Castelucho
Castendo
Castragosa
Castralhouço
Castrelo (Pt. e Gz.)
Castrelo do Val (Gz.)
Castrelos
Castrilhão
Castro (Pt. e Gz.)
Castro da Cidá (Gz.)
Castro d' Aire
Castro da Ponte
Castro de Avelãs
Castro de Barrega
Castro de Cabras
Castro de Lagarelhos
Castro de Ourilhe
Castro de Ovil

Castro de São Paio – recordação do númen padroeiro do castro (cristianizado)

Castro do Rei (Gz.)
Castro dos Mouros
Castro Mau
Castro Pedroso
Castro Laboreiro
Castro Maior
Castro Marim
Castromau – variante "Castromao" (Gz.)
Castromil (Pt. e Gz.)
Castroverde (Gz.)
Castro Verde
Cerca dos Mouros
Cidade Velha
Cividade
Círculo
Citânia
Coroa
Coroas
Coronado
Crasto

Crestuma – de "castro do Úmia ou Uima", o ribeiro que lá passa.

Cristelo
Cristelos
Monforte
Monforte de Lemos (Gz.)
Monsanto
Monte Castelo – pronúncia "Monte Castêlo"
Monte Castro
Monte Crasto
Monte da Saia

Monte de São Félix  –  recordação do númen padroeiro do castro (cristianizado)

Monte Mozinho – pronúncia "Monte Mòzinho"
Monte Murado

Os Castros (Pt. e Gz.)
Outeiro Maior
Penalba (Gz.)
Penalva d' Alva
Penalva do Castelo

Pena Mourisca

Santa Luzia  – recordação do númen feminino padroeiro do castro (cristianizado)

Santa Tecla  – recordação do númen feminino padroeiro do castro (cristianizado)

Santo Ovídio – recordação do númen padroeiro do castro (cristianizado)

São Miguel-o-Anjo  – recordação do númen alado padroeiro do castro (cristianizado)

Senhora da Cola – recordação do númen feminino padroeiro do castro

Senhora do Círculo – recordação do númen feminino padroeiro do castro

Senhoras do Monte – recordação de uma trindade feminina que protegia o lugar

Terronha
Terronhas

Trá-lo-Crasto – "lugar que fica por detrás do castro", designação que se infere ter sido dada por povo do lado contrário


nota: aceito contributos para esta lista. obrigado.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

topónimo "Pessegueiro" e derivados: mais uma vez a pseudo-Fitotoponímia

o topónimo "Pessegueiro" é mais um daqueles habitualmente associados à ideia de Fitotoponímia, isto é, à noção de que se referirá ao nome de uma árvore ou às caraterísticas específicas da flora local. há quem se tenha apercebido das dificuldades levantadas por este topónimo, e em especial dos seus derivados e variantes como "Pexegueiro", Pexeiros, Pixeiros", etc., etc., e, acima de tudo, pela sua relação com a água (Ilha do Pessegueiro, Rio Pessegueiro, Rio Pexegueiro). daí que tenha sido associado à ideia de abundância de peixes. e, claro, daí a atribuir-se-lhe uma etimologia em "piscis" vai o passo de um pardal. mas peixes é o que mares e rios têm mais e nada faz crer que os locais chamados "Pessegueiro", ou seus derivados e variantes, tenham uma especial abundância em peixe que seja razão para o nome que têm. mais complicado, ainda, é o facto de estes topónimos terem formas anteriores em "Peshigeiro" e "Pecegueiro". 
assim sendo, teremos que ir por outros caminhos. que, pelo menos, tenham mais lógica e plausibilidade.

outra coisa que os rios têm junto às povoações, para lá da carência ou abundância em peixe, é a maior ou menor possibilidade de serem atravessados a pé, a nado, de barco ou por cima de pontes. o que, em cada caso, merece a respetiva e adequada toponímia (Coiço, Couce, Couço, Vau, Barca, Barco, Ponte, etc.). e aí, indo pelo latim, mas por "pes/pedis (pé) e siccum/sicci (seco) ou ainda "sequor" (dirigir-se para, ir em direção a), sempre a coisa distingue melhor um local ou um rio dos restantes da mesma espécie. 
estou, portanto, em crer que estes topónimos se referem a lugares onde é possível a passagem sobre as águas ou a águas que permitem que lhes passem a pé por cima.

Topónimos "Pessegueiro", derivados e variantes:

Ilha do Pessegueiro
Monte do Pessegueiro
Pessegueira (Gz.)
Pessegueiro (Pt. e Gz.)
Pessegueiro de Baixo - era "Peshigeiro" no séc. XVIII
Pessegueiro de Cima
Pessegueiro do Vouga - já foi "Pecegueiro"
Pexegueiro (Gz.)
Pexegueiros (Gz.)
Pexeiroos (Gz.)
Pexeiros (Gz.)
Pixeiros (Gz.)
Rio Pessegueiro
São João da Pesqueira (?)


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Alavandeira, Lavandeira

os topónimos "Alavandeira" e "Lavandeira" aparecem na Galiza e no Norte e Centro de Portugal, sempre associados à presença de um pequeno ribeiro. são, por conseguinte, hidrónimos. a sua raiz "lav-" é a mesma de "lavar", pressupondo a ideia de "água corrente". 

Pinhel, Espinhel

estes dois topónimos referem-se a localidades situadas em lugar que sobressai por ser mais elevado que os lugares em volta. derivam de "pino", ou "pinho", e "espinho", constituindo diminutivos com pronúncia galego-portuguesa meridional (moçarábica). um pouco mais nortenhos e seriam "pinhelo" ou, mais tarde,  "pinheirinho" e "espinhelo". 

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Cubo

o topónimo "Cubo" é relativamente raro e encontra-se sobretudo na Galiza e no Norte e Centro de Portugal. pode ser uma construção em forma de cubo, habitualmente de pedra, ou uma pequena torre. e a sua função é funerária. representa o túmulo de alguém suficientemente importante na época para justificar o trabalho da sua construção.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

género e toponímia

cada vez é maior a tendência para uma "uniformização" do critério de género na referência aos topónimos. tende-se a tratar como masculino todo o topónimo terminado em "o", independentemente da sua origem, significado e pronúncia ("ó" aberto, "o" átono ou "ô" fechado), e de tratar como feminino todo o topónimo terminado em "a". isto resulta, em primeiro lugar, de um desenraizamento absoluto, de uma falta de contacto com os naturais do lugar, aldeia ou vila, quando não de uma posição de sobranceria em relação a tudo o que seja a pronúncia popular, quase sempre considerada "corrompida" ou incorreta; em segundo lugar, do desconhecimento, por quem assim funciona, da origem etimológica e significado do topónimo.
de um modo geral, pode dizer-se que os topónimos correspondentes a nomes comuns (A Aveleira, A Bola, A Estrada, A Figueira, A Guarda, O Porto) têm género, masculino ou feminino conforme o caso. e que outros topónimos são neutros, seja qual for a sua terminação (Braga, Bragança, Chipre, Coimbra, Lisboa, Lorvão, Marvão, etc.).
na Galiza o costume, que já foi nosso também, de antepor o artigo definido facilita o esclarecimento de eventuais dúvidas (A Bola, A Corunha, A Estrada, A Guarda).
mas há exceções que só a prática da Língua e o seu conhecimento profundo poderão deslindar. o que não se obtém nas grandes cidades, povoadas de gente desenraizada e convencida da sua superioridade "cultural".
voltarei ao assunto.

domingo, 13 de maio de 2012

Ásia

Ásia é uma palavra que para nós, os falantes da Língua Portuguesa, vem do Latim a partir do grego "Ασία". é pelo menos o que dizem alguns linguistas. pois, mas a palavra original também não é grega, e ficamos na mesma. na mitologia grega, Clímene ou Ásia é uma oceânide, filha do Oceano e da ninfa Tétis. mas, para lá de nos dizer que a terra Ásia emergiu do mar, como todas as outras, nada nos esclarece sobre a palavra "Ásia" em si. e, tal como em relação a "Europa", também não há certezas sobre a origem da palavra "Ásia"/"Ασία". 

o termo "Ασία" parece ter origem no acádio "(w)aṣû(m)", ou no fenício "asa", que significam "levantar", "sair, nascer" [o sol], isto é, o Oriente, o Leste. e, a ser verdade (é pelo menos plausível), com isto se percebe como o olhar semita via o mundo, estando no centro dele: de cara a norte, viam à esquerda a Europa ("o Ocidente") e à direita a Ásia ("o Oriente").

terça-feira, 8 de maio de 2012

Europa


não existe qualquer certeza sobre a origem do nome Europa, este subcontinente a oeste das antigas civilizações. o que se sabe é que nos séc. IX e VIII a.C. a palavra designava a parte continental da Grécia e que no séc. VI já abrangia territórios mais a norte.

mas há uma lenda grega que reza mais ou menos assim: havia na cidade de Tiro, na Fenícia, um rei cujo nome era Agenor. Agenor tinha uma filha, Europa, disputada em sonhos por duas grandes terras-fêmeas: a Ásia e a terra de Diante. ambas queriam a princesa, mas era vontade de Zeus que Europa se fizesse ao mar. um dia, a princesa foi passear até à praia e um "touro branco" (*) levou-a de viagem até Creta, onde, apaixonado,  se lhe revela como Zeus e dela teve uma prole, da qual se destaca o rei Minos. 

esta lenda revela a crença numa origem oriental - e por que não fenícia? - do nome Europa. se os gregos tivessem a consciência de terem sido os pais da palavra, esta lenda não faria sentido algum. do outro lado das hipóteses etimológicas, os que veem em "europa" uma "vista larga", de acordo com uma hipotética origem grega (de "eurys", «largo», e ‘ops’, «vista»), devem reparar que mais vistas largas há na Ásia ou mesmo em África, pelo que de "vistas largas" está o mundo cheio.


os fenícios falavam uma língua semita, parente próxima do árabe e do hebraico. e por isso há quem veja a palavra Europa como uma derivada de "eureb"/"erebu", parente do "gharb" árabe, isto é, "o por do sol", "o ocidente". 

esta é a etimologia que faz mais sentido, enquanto não lhe descubram melhor origem. na verdade, não existe nenhum continente tão mentalmente voltado a ocidente, nem tão envolto na ideia de finis terrae.


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(*) "touro branco": se compararmos com outros povos com um tipo de organização social idêntica, a designação "touro branco" pode referir-se a um chefe guerreiro de uma tribo ou [con]federação de tribos, ou ao animal totémico destas.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

os fitotopónimos e os topónimos "Mação", "Maçãs", "Macedo", "Maceira", "Manzanares" e Cª.

na senda dos pseudo-"fitotopónimos", há um grupo que há muito tempo me desafia. é o grupo Mação, Maçãs, Macedo, Maceira, Macieira, Macinhata, e assim por diante. neste particular, praticamente todos os autores que consultei vão pela tese da árvore das maçãs, chegando alguns a esgrimir o argumento do "óbvio". ora eu não conheço nada que seja menos óbvio que as coisas "óbvias". escusado será dizer que nunca acreditei nessa possibilidade, porque em muitos outros lugares há melhores e mais saborosas maçãs, que lhes poderiam dar com mais propriedade tal nome.
alguns autores, pouquíssimos, nos quais me incluía eu próprio, ainda admitíamos a possibilidade de uma relação com "mansio/ -onis": "morada", "habitação", "residência"; "pousada", "estalagem", "albergue". o busílis da questão era, e é, o "s" de mansio, porque nenhum destes topónimos nas suas variantes passadas, presentes e interlinguísticas admite o "s", mas sempre o "c" e seus equivalentes "z" ou "ç". por exemplo, Macieira da Lixa era, no séc XI, uilla Mazanaria. logo, há que buscar outra origem para esta família tão mal conhecida e tão precipitadamente rotulada.
a tese da árvore das "maçãs" como origem destes topónimos também é largamente dominante nas Espanhas de falas galego-portuguesa, castelhana e catalã, onde encontramos, entre muitos outros, Maçaeda (Gz.), Maçana (Cat.), Maceda (Gz.), Macedo (Gz.), Maceira (Gz.), Maceiras (Gz.), Macian (Cas.), Macieira (Gz.), Macinheira (Gz.), Macinheiras (Gz.), Mancegal (Gz.), Mancinheiras (Gz.), Manzanal (Cas.), Manzanares (Cas.), Manzanas (Cas.), Manzaneda (Cas.), Manzanedo (Cas.), Manzanera (Cas.), Manzaneruela (Cas.),...
curiosa é a "Maçana" catalã, já que em Catalão maçã se diz "poma".
vamos a ver: "Mação" tem por si a ribeira de Mação; "Maçãs de D. Maria" tem por si a ribeira de Maçãs; na Espanha de fala castelhana, mais propriamente em Madrid, há o rio Manzanares. em Macieiras que eu conheço há lugares do Ribeiro e lugares das Veigas.
não há dúvida, são ribeiros, regatos, riachos, arroios e veigas a mais.
diz-se que estes topónimos provêm do latim mattiana, de onde deriva "maçã". mas em latim maçã dizia-se malum/ -i - de onde os nossos ossos malares, que dão forma às "maçãs do rosto".
mas ainda que assim fosse, se estes topónimos derivassem de mattiana, como explicaríamos então as formas Mancegal, Mancinheira, Manzanas, Manzanares, que pressupõem um étimo em MNTi?
já vimos que por estes lugares abundam ribeiros, veigas, mananciais. ora, em latim a coisa diz-se manatio/ -onis (corrimento, corrente de água). e cá está: MNTi.
mais um saltinho às Espanhas: encontro Manantial (Cas.), Manantiales (Cas.), Manantials (Cat.), Manantio (Cas.).

fitotopónimos?

ou serão "lugares onde corre [muita] água"?


Maçã
Mação
Maçãs
Maçãs de D. Maria
Maceda (Pt. e Gz.)
Macedo (Pt. e Gz.)
Macedo de Cavaleiros
Macedo do Mato
Macedo do Peso
Macedos (Pt. e Gz.)
Maceira (Pt. e Gz.)
Maceira do Liz (Mecenaria, Macenaria – sec 13, Maçanaria)
Maceiras 
Maceirinha
Maceiro (no séc XI: Mazanario)
Macieira da Lixa (no séc. XI: uilla Mazanaria)
Macieira de Alcoba
Macieira de Cambra (Maceneyra, séc- XII; Maceeira, séc-XIV)
Macieira de Rates (Mazieira, séc XIII)
Macinhata da Seixa
Macinhata do Vouga
Manção
Mancelos
Manços
Praia das Maçãs
Rego de Manços
Ribeira de Maçãs
Ribeiro de Mação
Rio de Maçãs 
Rio Maceiras (Gz.)
Vale de Manços


quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

os fitotopónimos e o topónimo Figueira e derivados

tenho expressado as minhas fundadas dúvidas sobre aquilo a que a grande maioria dos mestres considera "fitotopónimos", ou seja, aqueles topónimos derivados de nomes de árvores ou de certos tipos de vegetação. um deles é "Carvalho", designação que, por estranho desígnio, é dada a algumas serras. só aqui à volta de Coimbra há várias serras do Carvalho. isso leva a pensar que são carvalhos a mais para designar a mesma coisa (serra) e que também são carvalhos a menos, pois que cada uma destas serras só teria um carvalho. já falei sobre o assunto, pelo que não vou repetir-me. para mim, "Carvalho" é um orónimo e não um fitotopónimo. ponto. também "Sobreiro" e "Sobreira" nada têm que ver com a árvore de que se extrai a cortiça, pois que se trata de adjetivos (derivados de super ou supra) e não de nomes ou substantivos (derivados de suber, -eris): significam "o lugar ou a aldeia que estão num ponto superior, acima de, sobre". o mesmo se passa com "Oliveira", um topónimo que na Galiza conhece também as variantes Olveira e Ulveira, e cuja origem se associa à existência de um pântano ("ulvaria") antes ou no momento da sua fundação, e não à presença de árvores cujo fruto é a azeitona. o mesmo com "Pereira", cuja designação se refere à existência de pedras (pedreira) e não de árvores de fruto que dão peras. e "Castanheira", que se refere a "Costanheira" (terra que fica na encosta de um monte) e não à árvore que dá as castanhas. ou, ainda, "Pinheiro", que se refere a "lugar que fica no pino" (no alto) e não a uma árvore que dê pinhas e, através delas, pinhões.
em toponímia as convergências e assimilações vão-se estabelecendo ao longo dos séculos, acabando em homonímias que toldam a verdadeira origem dos topónimos.
hoje trago outro "fitotopónimo" do qual tenho as mais que suficientes dúvidas para não acreditar na sua natureza fitotoponímica. trata-se de "Figueira" e alguns dos seus derivados, como "Figueiró" e "Figueiroa", que são seus diminutivos, e "Figueiredo", que aponta para um conjunto de "Figueiras". tal como os seus derivados, "Figueira" não designa arbitrariamente um local qualquer. é sempre nome de lugar habitado. e nesse lugar habitado raramente ou nunca existiu figueira que lhe justificasse tal nome. e, ao contrário, nunca vi terra de figos que se chamasse Figueira.
tenho procurado outras explicações conhecidas e publicadas, mas todas elas (como "fagaria", por exemplo) são tão insatisfatórias como a tese da fitotoponímia ("ficaria"). até que cheguei ao latim "figicare", que deu o verbo "ficar". ora "ficar" significa uma série de coisas interessantes, das quais seleciono:

- fixar, fixar-se
- estacionar em algum lugar
- alojar-se
- permanecer
- existir num lugar, estar localizado em
- estabelecer-se

quer dizer, se Figueira e seus derivados provêm não de "ficaria" (a árvore dos figos), mas de "fi[gi]caria" ("a terra onde se fixa, estabelece, aloja, existe ou permanece alguém"), a coisa ganha novo e compreensível sentido: "Figueira" passa a ser "a terra onde alguém se fixou ou ficou a viver" - o que pressupõe que a gente que primeiro a habitou não era de lá, mas sim que foi deslocada para lá por medida de povoamento.
algumas formas arcaicas , como "Fikeiredo", "Fikiredo, "Fikirola", do séc. XI, assentam melhor na ideia de "ficar", "fixar-se", do que na ideia de "figo". e, como que a querer confirmar o acabo de dizer, temos o topónimo "Casas Figueiras", em Vide, concelho de Seia.

e, então, "Figueira" ganha uma equiparação a "Póvoa".
curiosamente, quase por encanto, percebe-se como em certas "Figueiras", ou na sua proximidade, existem lugares chamados "Póvoa"...

Figueiró e Figueiroa passam, então, a ser ou uma "Figueira" mais pequena, ou uma "Figueira" que derivou de outra, por migração de parte da população. e "Figueiredo" passa a ser um grupo de "Figueiras", quer dizer, "Póvoas".

alguns topónimos Figueira e derivados:

Casas Figueiras
Figueira (Pt., Gz. e Br.)
Figueira da Foz
Figueira de Castelo Rodrigo
Figueira de Lorvão
Figueira do Guincho
Figueiras (Pt. e Gz.)
Figueiredo (Pt. e Gz.)
Figueiredo d' Alva
Figueiredo das Donas
Figueirido (Gz.) - contributo de Xosé Barreiro. muito obrigado.
Figueira dos Cavaleiros
Figueirinha
Figueiró (Pt. e Gz.)
Figueiroa - forma evolutivamente anterior a Figueiró
Figueiró dos Vinhos
Figueirós
Figueirosa
Vale de Figueira

terça-feira, 22 de novembro de 2011

procedimentos inaceitáveis

uma vez mais, acabo de descobrir um post deste blogue copiado na íntegra sem menção da fonte.

este tipo de procedimento não será tolerado.

post original:
http://toponimialusitana.blogspot.com/2006/06/nomes-e-apelidos-de-origem-toponmica.html

nota: o post copiado foi retirado do blogue infrator.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

a "ilha" do Brasil.

a chamada "Carta do Achamento do Brasil" termina assim:

"Beijo as mãos de Vossa Alteza.
Desde Porto Seguro, da vossa Ilha da Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500.
Pero Vaz de Caminha".

a expressão "Carta do Achamento" e o uso do nome feminino singular "ilha" faz-me pensar: dada a impossibilidade de a testemunha e seus companheiros de viagem confirmarem, na altura, se o território onde aportaram era uma "ilha" ou não, indica claramente a ideia pré-concebida com que lá aportaram: a da existência de uma "Ilha" naquelas paragens, algo que estava perdido, foi procurado e "achado". e essa constatação conduz-nos, em segundo lugar, às lendas celtas da existência, a oeste do mar Atlântico, de uma Antília (que alguns creem ser corrupção de Atlântida), Ilhas Afortunadas ou Ilha de São Brandão. este São Brandão, um monge irlandês do séc. V e VI, ficou conhecido pelo famoso "Périplo de São Brandão" ou "Navigatio Sancti Brendani", cuja versão escrita é do séc. X / XI. nesse périplo, São Brandão terá percorrido as costas do Continente Ocidental. esta navegação de São Brandão retoma uma lenda celta da existência de "Bre'asil", o mítico território "vermelho" de além do mar Oceano.
tão forte era a tradição que foi de pouca dura a designação de "Vera Cruz". designação esta que, por sua vez, já não era completamente estranha à tradição celta, como refiro noutro ponto deste blogue.

domingo, 18 de setembro de 2011

canários (Mad.)

"canário", seja gente seja pássaro, refere-se às ilhas Canárias, cujo nome deriva de cão: "ilhas dos cães", ou "canárias". gente destas ilhas, fossem aborígenes guanches feitos escravos, fossem gente forra e até de linhagem, fez parte do contributo étnico do arquipélago da Madeira. dessas raízes étnicas reza memória na toponímia, como é o caso do Lugar do Canário (Ponta do Sol, atual Lugar de Baixo), do Pico do Canário e da Vereda dos Canários. de facto, estes lugares não têm o nome da ave canora de penas doiradas, mas de gente oriunda do arquipélago vizinho.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

trás os montes

ao contrário do que se possa pensar, a designação "Trás os Montes" não se refere a um território situado "para lá" dos montes de Entre Douro e Minho (Marão, Alvão, Barroso, Cabreira, Larouco), visto do lado minho-duriense, mas sim a um território que fica "para lá dos montes" leoneses, visto do lado do antigo reino de Leão. o seu antigo nome, de origem claramente leonesa, "Tra llos Montes", associado à existência de mais que um topónimo "Tramonte" na região fronteiriça galega e galego-leonesa atestam isso mesmo.
além do mais, a palavra pode ter uma interpretação inesperada, tendo em conta que "trasmonte" é o "por do sol", como ainda hoje se pode constatar no italiano "tramonto". na linguagem popular nortenha, a ideia de "tra[s]monte" como ponto cardeal subsiste na expressão "perder a tra[s]montana", ou seja, perder a capacidade de se "orientar" - neste caso, "ocidentar". o mesmo que "perder o juízo".
e, sendo assim, o nome da província portuguesa adquire um significado que se entende bem: as "terras do por do sol", o "ocidente". o que não será novidade nenhuma nesta "ocidental praia"...

é curioso o subtítulo que Théophile Gauthier deu ao seu livro "Voyage en Espagne", publicado em Paris, em 1890. nem mais nem menos: "tra los montes". Espanha (Península Ibérica), o Ocidente do Mundo Antigo, a Separad dos Judeus, o Al-Gharb dos Árabes. Ocidente, sempre. "Far West", como dirá um camone.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

topónimos galego-portugueses terminados em "-e"

quase todos genitivos alatinados do nome de possuidores de terras maioritariamente germânicos, estes topónimos, como muitos outros com origem no nome de proprietários, contribuem para a memória dos nomes de pessoas usados na época da sua criação. de notar que todos os antropónimos originais são formas alatinadas, não latinas.

os topónimos abaixo significam "propriedade de...F.../terras de...F..."

Adaúfe - genitivo de "Athaulfus" (Adolfo)
Afife - genitivo de antropónimo ainda não estabelecido. uma possível etimologia arábica é pouco provável, dada a localização nortenha do topónimo
Alte - genitivo de "Altus"
Amarante - origem controversa. há quem veja no topónimo um genitivo de um presumível proprietário germânico com um suposto nome de "Amaranthus". porém, o género do topónimo na linguagem local e das redondezas é feminino ("A Amarante"), o que parece incompatível com a tese do genitivo de antropónimo. e, desse modo, há que admitir uma origem pré-romana, céltica, onde está presente o "Marão", a serra de que Amarante é a porta de entrada.
Andrade - genitivo de "Antriatus"
Anelhe - genitivo de "Anelius"?
Ardesende - genitivo de "Ardesindus"
Bagunte - genitivo de "Baguntus"
Bande - genitivo de "Bandus"
Beade - genitivo de "Beatus". também aparece sob a forma Veade
Bente - forma evolutiva do genitivo de "Benedictus"
Boelhe - genitivo de "Boelius"/"Bonelius"?
Boente - genitivo de "Volentius"
Boliqueime - palavra árabe composta de "birr"/"bur"/"bul" (poço) e o genitivo de "Hakeim" (nome do seu proprietário). veja-se a curiosa redundância do topónimo "Poço de Boliqueime" ("poço do poço de Hakeim")
Bousende - genitivo de "Baudisindus"
Cadilhe - genitivo de "Cadilius"
Caíde - genitivo de "Caítus"/"Kaídus"
Calvelhe - genitivo de "Calvellus"
Cête - supõe-se que seja genitivo de um tal "Cetus"
Chorence - genitivo de "Florentius" (Florêncio)
Chorente - genitivo de "Florentius"
Combe - genitivo de "Columbus" (Colombo, Pombo)
Dume - genitivo de "Dumio"
Fafe - genitivo de "Fafus"
Fagilde - genitivo de antropónimo ainda não estabelecido
Garfe - genitivo de "Garff"/"Warff"
Lobelhe - genitivo de antropónimo ainda não estabelecido
Melide - genitivo de antropónimo ainda não estabelecido ("Bellitus"? "Mellitus"?)
Minde - genitivo de "Mindus"
Mogege - genitivo de "Mazegius" (etimologia desconhecida)
Nande - genitivo de antropónimo ainda desconhecido ("Nandus"?)
Nine - genitivo de "Ninus"
Novelhe - genitivo de "Novelius"
Nune - genitivo de "Nunus" (Nuno)
Paderne - genitivo de "Paternus"
Pidre - genitivo de "Petrus" (Pedro)
Punhe - genitivo de "Punius" ?
Rande - genitivo de "Raandus" /"Randus"
Recarei - genitivo de "Recaredus"
Reimonde - genitivo de "Raimundus" (Raimundo)
Resende - genitivo de "Redisindus"
Ronfe - genitivo de "Ranulfus"
Ruílhe - genitivo de "Rodellus"/"Rotellus"
Sande - genitivo de "Sandus"
Segade - genitivo de "Segatus"
Seide - origem controversa. a sua grafia antiga aponta para origem arábica, apesar de se tratar de topónimos nortenhos (norte de Portugal e Galiza).
Sende - genitivo de "Sindus"
Sesulfe - genitivo de um antropónimo germânico latinizado ainda não estabelecido.
Sezulfe - ver Sesulfe
Sinde - genitivo de "Sindus"
Tagilde - genitivo de "Atanagildus"
Veade - ver Beade
Vide - genitivo de "Vitus"

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Gelfa (Xerfa), Gelfas (Jalfas, Jarfas, Xalfas, Xarfas)

estes topónimos têm a caraterística de se situarem junto de água, rios, lagunas, lagoas ou mar, em terrenos de tipo dunar de vegetação bravia: relva, pastos nascediços em terrenos maninhos, lugar de pastagem. a etimologia é desconhecida, embora haja quem lhes descubra uma origem arábica, muito pouco provável - o topónimo predomina na região costeira nortenha, de Aveiro à Corunha. a sua presença no Ribatejo pode dever-se à migração de falantes do norte.
Gelfa aparece em Portugal na Torreira, em Ovar, em Vila Praia de Âncora e em Abrantes. Gelfas existe em Castanheira do Ribatejo. houve em tempos o topónimo "Gelfamar", correspondente a uma mata no termo de Faria (v. José Pedro Machado, Dicionário Onomástico Etimológico).

conta-se que na Lagoa das Jalfas ou Jarfas (Xalfas, Xarfas), em Muros (Gz.), houve em tempos uma cidade. mas um dia, por volta da meia noite, quando todos dormiam, o mar subiu, galgou as dunas e engoliu a cidade e todos os que nela viviam (ecos de uma lenda atlante? explicação fantasiada da formação da lagoa?).ainda hoje, no dia de são João, se ouvem os gemidos da gente e dos animais que ali morreram afogados. os sinos da igreja repenicam, e até há quem veja uma moça vaidosa a pentear-se ao espelho (cf. Galicia Encantada, Enciclopedia de Fantasia Popular de Galicia).

quarta-feira, 13 de julho de 2011

má partilha

este curioso nome de lugar, um microtopónimo, parece verter algum azedume por um testamento mal aceite ou uma herança mal resolvida, transparecendo um sentimento de injustiça tão forte que mereceu ficar petrificado na toponímia, como vingança perene. conheço dois lugares com este nome: um, o Sítio da Má Partilha, em Alvor, concelho de Portimão - onde se construiu uma dessas urbanizações dos dias de hoje; outro, a Quinta da Má Partilha, no concelho de Azeitão - onde se produz um excelente vinho merlot.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

covas, covinhas e covões

a toponímia regista os acidentes topográficos como fatores suficientemente distintivos para distinguir pelo nome lugares que, provavelmente e de início, nada mais tinham que os distinguisse dos outros.


As Covas (Gz.) - particularismo desaconselhável. está por "Covas"

Cobelo (Gz.) - particularismo desaconselhável. está por "Covelo". ou será "Cubelo" (pequena torre de fortificação)?

Cova (Pt., Gz. e Br.) – gruta?
Cova da Beira -
Cova da Iria –
Cova da Lapa -
Cova da Loba -
Cova da Moura –
Cova da Piedade -
Cova da Raposa -
Cova de Alvito -
Cova de Dominique – por “Cova Dominica”? cf. “Covadonga”
Cova de Lobos (Gz.) -
Covada -
Covadela -
Covadinhas –
Cova do Barro –
Cova do Bicho -
Cova do Inferno -
Cova do Ouro -
Cova do Pico (Md.)-
Cova do Vapor -
Cova do Viriato -
Cova-Gala -
Covais -
Coval (Pt. e Gz.)-
Covalhão -
Coval Quente –
Covanca (Pt. e Br.) -
Covão –
Covão do Lobo –
Covas (Pt., Gz. e Br.)–
Covas da Raposa –
Covas do Rio –
Covela (Pt. e Gz.)
Covelas – diminut. de “Covas”
Covelha -
Covelho - ver "Covelo"
Covelinha (Pt. e Gz.) - duplo diminutivo de "Cova"
Covelinhas – duplo diminutivo de “Covas”
Covelinho - ver "Covelo"
Covelo (Pt. e Gz.) – ver "Cobelo"
Covelo do Gerês –
Covelos (Pt. e Gz.) –
Covetas -
Covetinhas -
Covide –
Covilhã – cf. “Convilhana”
Covinha (Pt. e Gz.) -
Covinhas (Pt. e Br.) -
Covita -
Covões -
Cubelo (Gz.) - ver "Cobelo"
Eira Cova -
Eira de Vilacoba ou Eira de Vila Cova (Gz.)-
Lagoa Cova -
Penacova -
San Paio de Vilacoba ou São Paio de Vila Cova (Gz.)-
São Pedro da Cova -
Vila Cova (Pt. e Gz.)-
Vila Cova a Coelheira -
Vila Cova da Lixa -
Vila Cova de Carros -
Vila Cova de Cima -
Vila Cova de Perrinho -
Vila Cova de Tavares -
Vila Cova do Alva -

Vila Cova do Covelo - uma curiosa redundância, ou Covelo está por "Cubelo"?

domingo, 30 de janeiro de 2011

chousa e derivados

chousa é uma porção de monte cerrado e acoutado; herdade ou horto fechado, que se destina a diversos cultivos e onde também existem árvores; tapada, terreno cercado ou murado, grande área com bosques, campos e água corrente, murada em toda a volta e destinada à criação e preservação da caça para gozo de particulares; conjunto cercado de leiras pertencentes a um mesmo dono.

já pouco usada no português de Portugal, a palavra "chousa" e suas derivadas estão presentes na toponímia galego-portuguesa de inspiração rural:

Choso
Chousa
Chousais
Chousal
Chousalinho
Chousa Nova
Chousas
Chousa Velha
Chousela
Chouselas
Chouselinha - duplo diminutivo de Chousa
Chousinha
Chouso
Chousos
Souselas

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

topónimos híbridos românico-arábicos

os topónimos híbridos românico-arábicos testemunham a presença de populações de fala romance (neste caso dialetos galaico-portugueses), sob domínio arábico. o fenómeno de hibridação ocorre sempre que a língua autótone está sob domínio estranho, como no caso da toponímia africana, americana e asiática que tenha sofrido hibridação com línguas europeias, designadamente o português.
a hibridação românico-arábica traduziu-se, em geral, na aposição do artigo "al" a topónimos que traduzissem substantivos e num certo grau de alteração da fonética original.


exemplos de topónimos híbridos românico-arábicos:

Alapraia - de al- A Praia
Albandeira - de al-Bandeira
Albarquel - de al-Barquel
Albogas - de al-Bogas
Alboritel - de al-Portel (?)
Alcabideche - de al-caput acqua
Alcabideque - o mesmo que Alcabideche
Alcabrichel - de al-Caprichel
Alcamim - de al-Caminho
Alcanede - de al-Canetu
Alcanena - ver Alcanede
Alcaraboiça - de al-Caraboiça
Alcarapinha - de al-Carapinha
Alcava - de al-Cava
Alcolombal - de al-Colombal
Alcongosta - de al-Congosta
Alcôrrego - de al-Côrrego (córrego, corgo) (hidrónimo)
Alcoruchel - de al-Coruchel (cf. Coruche=cruze, cruz, cruzamento)
Alenquer - de al-Enquer (hidrónimo) - do grupo "ank-"

Alfarelos - do árab al-fakhkhar + sufixo diminut. românico -elos. neste caso, não parece um topónimo moçarábico mas antes mudéjar.

Alfeite - de al-Feite (feto)
Alfeiteira - de al-Feiteira
Alfontes - de al-Fontes
Alfornelos - de al-Fornelos ("pequenos fornos")
Almalaguês - de al-Malaguês (?)
Almendra - arabização de amindula (amêndoa)

Almoçageme - "os [mouros] estrangeirados". referir-se-ia a mouros cristianizados, logo, mudéjars. totalmente arábico, não é um topónimo híbrido. é, a título de curiosidade, uma designação que denota como os mouros de território mourisco viam os mouros de território cristão ou cristianizados.

Almonda - de al-Monda (hidrónimo)
Almoster - de al-Monasteriu
Almourol - de al-Mourol
Almortão - de al-Motão
Alpalhão - de al-Palhão (o mesmo que Paleão / Palião?)
Alpedrede - al-Pedrede
Alpedreira - de al-Pedreira
Alpedrinha - de al-Pedrinha
Alpendorada - de al-Pendorada (relação com pendor?)
Alpedriz - de al-Pedriz
Alpiarça - de al-Peaça
Alpoim - de al-Podium
Alviela - de al-Veela (veio de água) (hidrónimo)

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

matafolhada ou matafojada?

na região do Eo-Navia, da Galiza Exterior, também chamada Irredenta, existe um topónimo que por força dos castelhanizantes era escrita "Matafoyada". o ressurgimento galego, que se tem ocupado de repor a toponímia na nossa Língua e com ortografia portuguesa, corrigiu para Matafolhada. discordo, pois creio que, neste caso, a "versão" castelhana reproduzia melhor a palavra que admito como a original, "Mata Fojada", do que propriamente "Matafolhada" ("Mata Folhada"). além dos segundos sentidos que tem, Mata Folhada não faz sentido nenhum. mas se for Mata Fojada já significa que é uma mata onde há fojos (certas armadilhas para caçar animais).
pode dizer-se, numa abordagem evidentista, que Mata Folhada é uma mata cheia de folhas, mas nesse caso não valeria a pena chamar-lhe uma coisa que é própria de todas as matas... já Mata Fojada, de fojo (foxo), é muito mais distintivo, porque nem todas as matas têm fojos.
de qualquer modo, vale a pena investigar melhor o assunto.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Malga (Pt., Gz. e E.)

este topónimo, cujo primeiro contacto me ocorre aqui perto de Coimbra, evoca-me um outro, aqui próximo também: Almalaguês. tal como este último, Malga, que é a forma sincopada de Málaga (Mal'ga), refere-se a um povoamento por gente vinda daquela cidade e região do sul da Península.
há também Malga em Cabeceiras de Basto e em Sobral de Monte Agraço.
o topónimo ocorre em Espanha e, designadamente, na Galiza.

égua, éguas

já me referi a este(s) hidrónimo(s). por evidente que seja a relação entre eles e a presença de ribeiros, riachos e pequenos cursos de água em geral, ainda se encontra quem defenda que eles se referem à(s) fêmea(s) do(s) cavalo(s). mas, na verdade, a sua origem está nas falas dialetais para a palavra "água" (acqua), curiosamente numa forma muito semelhante a formas encontradas na Provença.
ainda mais curiosa é a sua presença no Brasil, em São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso e Paraná. mas esta curiosidade só pode estranhá-la quem não conhece o caráter conservador do Português do Brasil.
em Portugal, conheço:

Chãs d' Égua
Éguas
Fonte das Éguas (Gz.)
Foz d' Égua
Monte da Égua
Portas d' Égua
Vale de Água


sexta-feira, 25 de junho de 2010

bande (Pt. e Gz.), bandoiva (Pt.), bandova (Pt.), banduagem (Pt.)

estes topónimos parecem estar associados às águas serranas e, através delas, à sua divinização sob a forma céltica Band- e suas variantes (Bandi, Bandio, Bandua, Bandoga). a divinização das águas através do teónimo Band- é muito frequente no norte de Portugal e da Galiza, pelo que não admirará que tenha permanecido na toponímia, quer diretamente quer influenciando a inflexão de palavras semelhantes de outra origem. de facto, não é seguro que "Bande" derive diretamente das águas divinizadas dos celtas do noroeste peninsular. pode resultar das tradicionais villae de proprietários rurais com nomes como Vanatus ou Bandus no genitivo. mas a influência do teónimo parece incontornável.
acresce dizer que Bandova é o nome de um ribeiro de montanha afluente do Mondego.
ver também Banduagem (Comentº de Anónimo).

sábado, 10 de abril de 2010

marinha

em países à beira mar é normal que os homens se aglomerassem em torno de lugares ricos em sal, as "marinhas" ou salinas. essas populações dedicavam-se originariamente à extração desse produto, tão essencial à vida humana que foi um dos primeiros determinantes da necessidade de comerciar. o seu valor chegou a ser utilizado como forma de pagamento de serviços, originando o termo e o conceito de "salário", ou seja, a quantidade de sal recebida mensalmente pela prestação de um serviço, habitualmente de natureza militar. a localização atual das "Marinhas", devido à modificação da linha de costa com o decorrer dos séculos, indica que no tempo em que lhe foi dado o nome chegava lá a água do mar, muitas vezes através de esteiros ou rias suficientemente amplos para permitirem a evaporação da água do mar e o depósito do sal.

Marinha (Gz.)
Marinha das Ondas
Marinha Grande
Marinhais
Marinhal
Marinha Pequena
Marinhas (Pt. e Gz.)

mas há Marinhas, Marinhelas, Marinhos e Marinhões que pela sua localização requerem outra origem etimológica.

segunda-feira, 29 de março de 2010

admeus e adpropeixe

desafia-me Rui C. Barbosa para esclarecer a origem dos topónimos Admeus e Adpropeixe, em Vilar da Veiga, Terras de Bouro, região da serra do Gerês. conheço bem a região, mas não encontro caminho andado que me permita chegar seguramente ao significado dos referidos topónimos. posso tentar uma proposta de "decifração". admitamos que Admeus e Adpropeixe estão pela forma "A de Meus" e "A de Propeixe", formas vulgares na toponímia para designar "a [aldeia] de...". nesse caso, resta-nos "decifrar "Meus" e "Propeixe". quanto a "Propeixe", parece admissível a evolução a partir de um antropónimo "Propitius" (Propício) na forma genitiva "propitii". referir-se-ia, assim, a uma aldeia, herdade ou território que teria pertencido a alguém com esse nome, "Propício". teríamos de admitir, no entanto, um duplo genitivo, já que Propitii já quer dizer "[propriedade] de Propitius". mas isso é relativamente comum. significaria, simplesmente que a forma "Propeixe" estava já estabilizada quando lhe foi acrescentado o indicativo "a de".
quanto a "Meus", a interpretação é mais difícil, podendo apenas admitir-se uma relação com a apicultura e a extração de "mel".
que a significação destes lugares se relacione com propriedades rústico-agrícolas em tempos remotos não me parece nada de extraordinário, tanto mais que no século XIII era já essa a vocação atestada daquele território.
mas, seja como for, não passa de uma proposta de decifração. a seu tempo voltarei ao assunto.

sábado, 16 de janeiro de 2010

calheta

tal como "angra", "calheta" é um topónimo que os portugueses espalharam pelas costas oceânicas e que também é praticamente inexistente em Portugal Continental. apenas conheço uma "rua da Calheta", na freguesia da Luz, Praia da Luz, concelho de Lagos, Algarve. o topónimo encontra-se sobretudo nos Açores, na Madeira e em Cabo Verde. tem, pois, que admitir-se que faria parte do léxico próprio dos marinheiros dos séculos xiv a xvi, o que nos remete para contributos exteriores, nomeadamente da náutica catalã.
"calheta" é uma pequena angra, portinho ou praia que permite a arribação de barcos em costas de mar bravo ou de recifes. do catalão "cala". de notar que existe o topónimo "Cala" na ilha do Pico, Açores. e "cala" é uma enseada estreita entre margens alcantiladas e rochosas que tem condições para servir de abrigo às embarcações.
o elemento "cala" é de origem celta ou pré céltica e está muito difundido nas costas europeias atlânticas e mediterrânicas, como em "Calábria", "Calais", "Cale" (Portucale) e nas incontáveis "Cala" das costas de fala catalã.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

âncora, ancoradouro

"âncora" parece, aqui, uma forma arcaica de "angra". entra em topónimos junto ao mar, em lugares que são ou já foram propícios à aportagem de embarcações; o mesmo que "abrigo", "refúgio". Vila Praia de Âncora, na região de Entre Douro e Minho, é uma povoação de pescadores. os derivados são naturais, como "ancoradoiro" / "ancoradouro".

Âncora (*)
Ancoradoiro
Ancoradouro
Porto do Ancoradoiro (Gz.)
Praia do Ancoradoiro (Gz.)
Riba d' Âncora
Vila Praia d' Âncora (*)

por uma daquelas coincidências vulgares na toponímia, em Vila Praia de Âncora desagua o rio Âncora, que nasce 19 km antes na serra d'Arga. a etimologia do hidrónimo contém a raiz "ank-"/"ant-", frequente em hidrónimos como Ançã, Anços, Antuã...

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

angra

o topónimo Angra, que os portugueses espalharam pelas costas oceânicas, é praticamente inexistente em Portugal Continental. apenas conheço duas "Angrinhas", no Algarve. as "Angras" são frequentes nos Açores e no Brasil. há um rio Angra, na costa africana ocidental, o que prova que o seu nome foi dado "de fora para dentro", isto é, de quem chegou a terra ido do mar. aliás, todos os topónimos "Angra" foram criados por quem entra em terra ido do mar.
"angra", que parece provir do lat. ancora, é uma reentrância do mar entre duas pontas de terra, mais adentrada que porto e menos que baía; o mesmo que "calheta", "pequena enseada"; ancoradouro".
em latim, ancora/ae, tanto significa "âncora" como "refúgio", "amparo".
o facto de este topónimo praticamente não existir em Portugal Continental faz pensar que terá entrado para a Língua através de um léxico marinheiro importado. é sabido que muitos dos marinheiros das descobertas portuguesas eram de outras proveniências, como a Galiza, o País Basco, a Catalunha, Veneza, Florença e Génova.

angra dos reis

uma das mais antigas cidades do Brasil, Angra dos Reis, e seu atual município, foi descoberta por Gonçalo Coelho, em 06 de janeiro de 1502, dia de Reis, dois anos após o "achamento" do Brasil. no entanto, a região já era habitada pela tribo Goionás. em 1556 chegaram os primeiros colonizadores europeus, que se fixaram junto a uma enseada, de onde surgiria a povoação que se viria a tornar vila em 1608, com o nome de "Vila dos Reis Magos da Ilha Grande". em 1853, Angra dos Reis foi elevada a cidade.
ao largo de Angra há 365 ilhas, das quais se destacam, pelo interesse que despertam nos turistas, a ilha dos Porcos, as ilhas Botinas, a ilha de Itanhangá e a ilha Grande.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

irivo

Irivo é um dos muitos topónimos da região do vale do Sousa cuja origem se perde na mais remota antiguidade. Machado (2003, v. 2) regista-o com a grafia "Erivo", embora se conheça registada a forma "Eriva". documento do séc.18 refere que "esta freguezia de São Vicente de Eriva fica na província de Entre Douro e Minho pertence ao Bispado do Porto, he da comarca de Penafiel, termo da mesma cidade[...] Passa pelo meyo desta freguezia o rio chamado Sousa cujo nascimento tem para as partes de Basto perto da Lixa, que daqui dista quatro legoas, e meya pouco mais ou menos". o topónimo tem uma sonoridade pré indo-europeia, o que na linguística hispânica pode significar uma afinidade com o euskera.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

baracha

por "baracha" entende-se cada uma das covas ou caldeiras de uma marinha de sal. também designa cada um dos taludes de terra batida ou travessões de lama que separam as divisões numa marinha de sal. por isso, estes topónimos indicam a presença atual ou remota de uma atividade salineira.

em Portugal:
Herdade da Baracha

sábado, 5 de setembro de 2009

suevos

povo originário do norte da Europa, das margens do Báltico, ou Mare Suevorum, os Suevos estabeleceram-se no Noroeste Peninsular, no séc V, fundando um reino sobre o tradicional território da Galécia, ou seja, das Astúrias até (quase) ao rio Tejo. ao todo os suevos nom ultrapassavam 30 000 almas. espalharam-se pelo reino, entre senhores e labregos, deixando memória toponímica, de uns de outros. sobre os nomes de proprietários suevos que deixaram marca toponímica já deixei registo anterior.
outro legado suevo terá sido a posterior divisão da Galécia em duas partes, separadas polo baixo Minho, pois por aí se dividiram as duas tribos: os Quados e os Marcomanos.
cabe agora falar das aldeias cujo povoamento se deve a colonos suevos. há vários povoados na Galiza com esse topónimo: "Suevos". e tamém "Sueve", à letra: "do suevo", sem outra designação.

domingo, 7 de junho de 2009

arrabalde (Pt. e Gz. e Br.)

"arrabalde" era a parte da cidade árabe que ficava extra-muros, ou seja, "de fora" (como "S. Vicente de Fora, Lisboa).
tal como as "medinas" ou "almedinas", que constituíam a parte intra-muros da cidade, a sua localização está hoje meio escondida, neste caso sob o nome de uma rua, de uma fonte, de uma casa, de uma quinta ou de uma ponte. curiosamente, a sua difusão geográfica é superior à das "medinas", estendendo-se a norte até Chaves e Vinhais (em Portugal), à província de Ourense (na Galiza), e até Zamora e Oviedo. porém, nem todos os "arrabaldes" são de origem árabe. há casos em que "arrabalde" pode ser o genitivo de Ravaldu, indicando uma propriedade ou villa Ravaldi. a sua localização ajuda a diferenciá-los, bem como a ausência do artigo definido "o", dizendo-se "arrabalde" em lugar de "o arrabalde".
na toponímia brasileira, "arrabalde" ficou com a sentido moderno de "arredores", "cercanias", "redondezas".

alguns Arrabaldes:

Arrabal (Águeda) - forma apocopada de "arrabalde"
Arrabal (Leiria)
Arrabal (Porto de Mós)
Arrabal (Seia)
Arrabalde (Barcelos)
Arrabalde (Cela Nova)
Arrabalde (Marco de Canaveses)
Arrabalde da Ponte (Leiria)
Arrabalde d'Aquém (Leiria)
Arrabalde de Baixo (Vila Real)

Arrabalde de São João (Br.) - topónimo de Porto Alegre, hoje extinto, deu origem ao atual Bairro de São João

Arrabaldes (Lamego)
Arrabaldo (Ourense)

Beco do Arrabalde de S. João de Fora (Ponte de lima) – curiosa redundância

Casa de Arrabalde (Ponte de Lima)
Largo do Arrabalde (Chaves)

Novo Arrabalde (Br.) - topónimo hoje extinto, substituído por Bairro da Praia do Canto, em Vitória, ES

Quinta de Arrabalde (Marco de Canaveses)
Rua do Arrabalde (Oliveira do Hospital)
Rua do Arrabalde (Palmela)
Rua do Arrabalde (Tabuaço)
Rua da Muralha do Arrabalde (Alfaiates)


almedina (Pt.)

ainda no ciclo dos topónimos da região moçárabe, aparece "Almedina", que significa "a cidade". refere-se à cidade dentro das muralhas, sendo "arrabalde" a parte da cidade que fica de fora da cerca.


após séculos de evolução histórica, já não há muitos lugares com este nome. mas a cidadela árabe ou moçárabe está lá escondida sob o nome de uma rua, de uma fonte, de um arco, etc.

a freguesia urbana de Almedina, em Coimbra, engloba terrenos que faziam parte do arrabalde árabe.



imagem: junta de freguesia de Almedina

sábado, 6 de junho de 2009

almagreira (Pt.)

de Almagro, cidade espanhola da província de Ciudad Real, comunidade autónoma de Castilla-La Mancha. diz-se que "Almagreira", freguesia do concelho de Pombal, foi fundada por agricultores-livres "almagreiros", ou seja, colonos oriundos do termo de Almagro, que vieram sem sujeição a nenhum feudo ou senhorio.

por sua vez, "Almagro", do Árabe al-magr, significa "ocre", um tipo de argila de cor avermelhada, utilizada na indústria, em pinturas rústicas, em pinturas rupestres, nos adornos corporais rituais ditos "primitivos" e na arte sagrada em geral desde a mais remota antiguidade.
nem só do Árabe surgiram topónimos referentes à abundância desta argila. em França e na Itália há, respetivamente, Saint-Martin-sur-Ocre (na Borgonha) e San Martino d'Ocre (nos Abruzos). a ligação a S. Martinho não é casual. refere-se à presença de cultos e crenças seculares, quase sempre megalíticos, cristianizados por Martinho de Tours ou seus seguidores.
"almagreira", "almagreiro" e "almagro" tamém podem estar presentes na Toponímia não para apontar uma colonização por almagrenhos, mas para exprimir a abundância de ocre. e aí surgem sobretudo como orónimos e hidrónimos.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

bendafé (Pt.)

a mais pequena freguesia do concelho de Condeixa, está em risco de extinção.
topónimo de origem árabe, a sua pronúncia tem dado azo às grafias mais delirantes.
costuma ser escrito "Bem da Fé", sem qualquer sustento etimológico.
é, quase seguramente, um antropónimo do proprietário que lhe deu o nome, um tal Ambi ben Dafer, a crer na grafia do século XII.
bem entendido, essa grafia reproduz distorções dialetais do nome em árabe escorreito.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

tunes (Pt.)


freguesia do concelho de Silves, Algarve, o seu nome resulta da transposição do topónimo Tunis do norte de África, na atual Tunísia, de onde vieram os seus povoadores.

arzila (Pt.), arzila (Mar.)

freguesia moçárabe do concelho de Coimbra, deve o nome à cidade marroquina de Arzila ou Asilah, de cujo termo terão vindo os seus povoadores. as primeiras notícias escritas datam do séc. XII, mas isso apenas significa que não houve nenhum facto antes que justificasse a menção de Arzila em testamentos ou contratos de notário.

por não ter senhor donatário, por exemplo.

no séc. XII passou a tê-lo, nas pessoas do conde de Óbidos e seus descendentes.
a sua principal notoriedade passa pela Reserva Natural do Paul, protegida pelo dec. lei nº 219/88, de 27 de junho.

a Arzila marroquina tem tido uma História entrecruzada com a banda de cá do mar. diz-se que no tempo dos romanos a sua população original foi expulsa, tendo sido substituída por povoadores ibéricos. e posteriormente foi alvo da conquista portuguesa no tempo de D. Afonso V.

Malga (Pt., Gz. e E.)

dos microtopónimos não costuma rezar a História. porém, um topónimo não é micro ou macro em função do seu merecimento linguístico, mas por meros circunstancialismos mutáveis com o tempo e a fortuna.


encontrámos esta "malga" sob a forma de uma aldeia ou lugar da freguesia de Sernache, concelho de Coimbra. Malga essa que, tal como Almalaguês, nos testemunha a imigração de naturais do termo de Málaga para esta região moçárabe.
e temos, mais longe daqui, em Évora, o Bairro da Malagueira.
também há várias "Malga" em Espanha e, designadamente, na Galiza.

terça-feira, 2 de junho de 2009

alcarraques (Pt.)

ainda no roteiro moçárabe, aparece-nos Alcarraques, aldeia da freguesia de Trouxemil, concelho de Coimbra. o antropónimo refere-se à família dos "Alcarracs", alcunha que significa "os fabricantes de alpergatas" ou "alpergateiros". destes, conhecemos:
em 1094: João Pires, tamém conhecido por Galib Alcarrac, e seu irmão homónimo João Pires, conhecido por Soleima ou Salomão Alcarrac. em 1127: Salvador Alcarrac. em 1162: Omar Alcarrac.
é possível que a alcunha fosse herdada de um antepassado comum e já se não referisse a qualquer actividade profissional.
ao que parece, os proprietários "Alcarraques" eram de etnia mourisca, mas cristãos de confissão religiosa.

imagem: verbaudet

segunda-feira, 1 de junho de 2009

alcabideche e alcabideque (Pt.)

o contacto de duas línguas tem destas coisas. tal como no Brasil, ao contacto do Tupi-Guarani com o Português, surgiram inúmeros topónimos "híbridos", como Itabela, por exemplo, que significa "pedra bela", tamém aqui temos dois topónimos irmãos que são híbridos: "al-cabideche" e "al-cabideque".

"cabideche" e "cabideque" são apenas duas pronúncias diferentes, dialetais, da expressão latina caput acquae: "mãe d'água", "manancial", "nascente" ou, simplesmente, "fonte". assim, traduzindo completamente Alcabideche e Alcabideque, temos "A Fonte".
conheço muito melhor "Alcabideque", uma aldeia ou lugar da freguesia e concelho de Condeixa-a-Nova.
para abastecer de água a cidade conhecida por Conímbriga, os romanos serviram-se da mãe d'água de Alcabideque, construindo ali uma torre de captação e elevação, tamém chamada castellum, e um tanque coletor, de onde levavam a água, em aqueduto de três quilómetros, até à cidade imperial. e pelo caminho, através de um sistema de canais irrigação, fertilizavam os terrenos adjacentes.
caída a cidade às mãos dos suevos em 464, e dos visigodos mais tarde, "a fonte" continuou a ser a causa da fertilidade dos terrenos agrícolas. chegados os árabes, já se tinha perdido o nome da cidade ou al-medina. mas a caput acquae permanecia lá. em território moçarábico, levou um pequeno verniz de língua árabe e ficou "alcabideque" até aos nossos dias.

domingo, 31 de maio de 2009

botão (Pt.)

freguesia do concelho de Coimbra, teve estatuto de concelho, confirmado por foral de D. Manuel I, de 1514.
a villa rústica de Botão é muito antiga. o seu nome é pré-romano. provém do indo-europeu bhodh, palavra relacionada com a água, servindo para designar água corrente, caneiro.
assim, é de crer que a ribeira de Botão esteja na origem do nome do povoado e não o contrário. a aldeia de Botão aparece registada já em 934, na escritura de partilhas entre os filhos herdeiros de Guterre Mendes Árias e Ilduara Eriz, tendo cabido em sorte a Rosendo, que seria canonizado santo. em 942, S. Rosendo faz doação da villa ao mosteiro de Celanova (Gz.). a ligação de Botão a Celanova perde-se em 987, com a reconquista árabe de Coimbra.
Em 1510, D. Catarina, da linhagem de Eça (Gz.), abadessa de Lorvão, mandaria fazer à sua custa o Paço de Botão, tamém chamado "mosteiro", por se destinar a residência abacial.
hoje, a freguesia de Botão parece talhada para acolher as instalações da nova cadeia de Coimbra.

topónimos relacionados:

Marmeleira do Botão
Pampilhosa do Botão

alcalamouque (Pt.)

topónimo do filão moçárabe das proximidades de Coimbra, "alcalamouque", de al-qal'â e al-moka, significa, em árabe, "castelo ou castro [em terreno planáltico] junto a uma escarpa". é o que acontece com esta aldeia da freguesia de Alvorge, concelho de Ansião, que aparece referenciada em 1142 e 1182, a propósito de doações de propriedades feitas ao Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra.
pela sua localização, constitui um belo miradouro sobre o lugar de Pombalinho, os montes de Vez, Ateanha, Juromelo e Rabaçal. ao fundo da escarpa, nos olhos d'água, nasce a ribeira do mesmo nome.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

almalaguês (Pt.)

este é outro topónimo da região de Coimbra que se reporta ao período moçárabe.
está relacionado com a cidade andaluza de Málaga, de onde houve várias importações de povoadores ou colonos, como agora se diz.

porém, aqui não é certa a etimologia direta:
será um antropónimo, proveniente de um tal Suleiman al-Malaquí, traduzível por Salomão de Málaga, ou Salomão-o-malaguês;
ou será um topónimo de origem geográfica, referindo-se, pois, a um povo ou povoado de gente oriunda de Málaga, de que o senhor Salomão seria apenas um dos muitos "malaquís" ou "malagueses"?

e quanto a uma origem antroponímica:
-não tenho visto traduzir "malaqui" por "malaguês", mas não vejo como se possa traduzir de outro modo, se "malaqui" for palavra oxítona ("malaquí");
- é mais frequente que o topónimo registe o nome próprio, em vez do apelido. logo, de Suleiman não poderia resultar Almalaguês.

brasfemes (Pt.)


convivendo paredes-meias com topónimos nativos, celtas, latinos e germânicos, a toponímia de origem árabe é muito frequente na região de Coimbra. dos séc. IX a XII predominou aqui uma forma de integração política, linguística, cultural e religiosa a que chamamos moçarabismo.


uma das mais curiosas consequências do moçarabismo é a canonização popular do Profeta Muhammad, sob a forma de "São Mamede".
de entre os múltimos topónimos de origem árabe, ressalto hoje a villa abrahemi, ou seja, a propriedade ou quinta ou herdade de um tal "Abraão".
a evolução linguística do topónimo não é francamente regular, desde logo pela interposição do "s" e pela terminação tamém em "s". talvez tenha ocorrido uma "contaminação" por outros topónimos ou por analogias com outras palavras.

terça-feira, 26 de maio de 2009

fajoses (Pt.)

o concelho de Vila do Conde (Pt.) é típico do que poderíamos chamar um concelho litoral galaico-duriense, onde a agricultura namora com a vida do mar, mas não se ajunta co ela.
o verde dos campos vai até onde chega o borrifo das ondas. e antes da chegada dos parques industriais, da indústria de laticínios, dos centros comerciais e das fábricas têxteis e de confeções ainda era mais assim do que que ainda é hoje.
a toponímia de vila do Conde é muito maioritariamente rural e só esporadicamente marítima. para cada "caxinas" ou "árvore" há dezenas de "vilares", "vilas", "aveledas", "outeiros" e "rios maus", além dos infalíveis nomes de proprietários germânicos medievais.
e assim chegamos a "Fajoses". acredito que chegámos a "Fajoses" e não a "Fajozes". porque "Fajoses" será um plural redundante de "Fajós", que já de si é plural de "Fajó". penso que assim, redundando-se a noção de plural, se dá uma ideia de compartimentação em pequenas parcelas. não por vontade dos homens mas por caprichos da natureza local.
não creio que "fajó" tenha que ver com feijões, embora não seja proibido semear feijões numa fajó.
antes creio que "fajó" é o diminutivo de "fajã". e aqui a coisa compõe-se: porque "fajã" é uma "pequena parcela de terreno plano, propício à agricultura, habitualmente situada junto ao mar".
nos Açores, na Madeira e em Cabo Verde, para onde levamos o jeito de dizer as coisas, abundam as "fajãs" - com caraterísticas muito próprias, por via da sua natureza vulcânica.

domingo, 24 de maio de 2009

lorvão (Pt.)


"Lorvão", pequena vila do concelho de Penacova, é um dos topónimos mais antigos da região de Coimbra. a sua origem linguística e, consequentemente, o seu significado, permanecem uma arreliadora incógnita.
tem registadas as formas anteriores Lurbine e Laurbanum.
os primeiros documentos escritos que se referem a Lorvão (Lurbine) remontam aos finais do séc. VI, sendo o seu conteúdo e motivação de natureza religiosa.
de facto, é quase impossível pensar em Lorvão sem vir à mente o seu mosteiro. daí que as tentativas de interpretação do topónimo tenham sido feitas a partir de uma paróquia sueva e, depois, a partir do mosteiro. assim, em busca de um pressuposto fundador, encontrou-se em Lurbino ou Laurbanum um hipotético antropónimo de origem latina, derivado de "louro" ou "loureiro". é uma teoria muito incómoda porque tamém muito arrevesada.
comecemos pelo princípio: o que existia primeiro: o local, a paróquia ou o mosteiro? como a resposta é óbvia, vejamos o local: é um sítio fundo, tranquilo, bem servido de águas e recolhido, propício à busca de meditação e retiro.
primeiro o lugar, depois a sua função.
sendo topónimo muito antigo, é pouco provável que a sua origem seja latina ou mesmo celta.
mais para trás teremos que recorrer à língua basca. e por este caminho chegamos a "lur" (terra) e "be" (em baixo): "terra baixa", "lugar fundeiro". com paralelos em "Lorbé" (Corunha, Galiza) e Lurbe (Béarn, País Basco Francês). o que, sem dúvida, convém mais a "Lorvão" do que todas as teorias conhecidas.

topónimos relacionados:

Figueira de Lorvão
Sazes de Lorvão

em Lorvão, no lugar onde outrora foi mosteiro, houve um hospital psiquiátrico, recentemente desqualificado e transformado em asilo de mentes e dementes, que, finalmente, encerrou de vez.

lordemão (Pt.)

lugar da freguesia de São Paulo de Frades, concelho de Coimbra, o seu nome deriva de "nordman", que significa "homem ou povo do norte [da Europa]", forma latinizada para "nordemanum" ou "lordemanum". o mesmo que "normando".
aponta, pois, para um povoamento viking.

a "gente do norte" viajava por mar, nos seus famosos barcos - os "drakkar" ou "dragões".
nos séculos IX e X a navegabilidade do Baixo Mondego era muito diferente da atual, de que são testemunho os topónimos que se espalham da Figueira da Foz a Coimbra com o significado de "porto". pelo que não era difícil chegar de barco até bem perto da atual Lordemão.


sexta-feira, 22 de maio de 2009

modivas (Pt.)

aparentemente estranho, este topónimo tinha no séc. XI a forma "Mola de Olibas". sendo "mola" a forma anterior de "mó", "moinho", e supondo-se "olibas" o mesmo que "olivas" (azeitonas), o nome desta villa rústica [ou parte dela] do concelho de Vila do Conde poderá traduzir-se por "lagar de azeite".

formas intermédias: "moa d'oívas", "moodoyvas".
pronúncia: "mòdivas".

terça-feira, 21 de abril de 2009

as pedras na toponímia galego-portuguesa e brasileira

os topónimos que se referem às pedras são inúmeros e provêm de muitas linhagens linguísticas. não é raro que se multipliquem topónimos com idêntico significado na vizinhança uns dos outros, mas de origem linguística diferente. a tarefa de os reunir é imensa. ainda assim, aqui vão alguns exemplos:

A Carra (Gz.)
A Fraga da Vela (Gz.)
A Pedreira (Gz.)
A Peroxa (Gz.)
Almourol
Amarante
Amarela - orónimo
Amareleja
Amora
Arga - orónimo
Arganil
Baião
Baiona (Gz.)
Boiaca
Boial
Boialvo - ver post boi morto boi posto"
Boi de Canto (Gz.) - um curioso pleonasmo
Boimonte
Boimorto (Gz.) - outro pleonasmo
Bois de Gures (Gz.)
Cabo Carvoeiro
Cabo da Roca
Cabral - ver post cabras e cabreiras
Cabrão - hidrónimo
Cabreira (Pt. e Gz.) - orónimo
Cacabelos (Gz., Le.)
Cachopo
Caminho do Calhau
Canda (Gz.)- orónimo
Candal
Candeeiros - orónimo
Candosa
Candoso
Cantanhede
Cantareira
Cântaro
Caralho - hidrónimo
Caramos
Caramulo - orónimo
Carantonha - ?
Carapinha
Carapinheira
Carbalho (Gz.)
Carcavelos
Carenque
Carinho (Gz.) - graf altern: Cariño
Carneiro
Carnide
Carnota (Pt. e Gz.)
Cárquere
Carragal (Gz.)
Carral (Gz.)
Carrapatelo
Carrapichana
Carrapito
Carrara (It.) - famosa pela sua pedra... de mármore
Carrazeda
Carrazeda de Ansiães
Carreço
Carregal
Carragal do Sal
Carregaleira
Carregosa
Carregosela
Carriço
Carritos
Carvalheira
Carvalho
Carvalhos
Carvalhosa
Carvide
Carvoeira
Carvoeiro
Cascalhal
Cascalheira (Br.)
Cascalheiro (Br.)
Cascalho (Br.)
Cascalho Rico (Br.)
Casconha - ?
Castanheira de Pera
Castro de Boi
Corcubióm (Gz.)
Corme (Gz.)
Corrubedo (Gz.)
Cruz da Pedra
Eira Pedrinha
Encosta do Calhau
Estaca de Bares (Gz.)
Falperra
Fragosela
Fragoso
Itá... (Br.) - sobre topónimos tupi-guaranis para "pedra" ver aqui

Itabela (Br.) - topónimo híbrido tupi-português, significando "pedra bela"

Lage (Pt. e Gz.) - graf. altern: Laxe. tamém graf. Laje
Lageosa do Dão
Lageosa do Mondego
Laje
Laje da Raza (Br.)
Lajedo (Pt., Br.)
Lajedo do Tabocal (Br.)
Lajes
Lajes da Cevada
Lajes da Freiria
Lajes da Marambaia (Br.)
Lajes das Flores
Lajes do Pico
Lapa
Lapa dos Esteios - dupla referência a pedras
Lapedo
Lapela
Lapinha
Lavadores (Pt. e Gz.)
Leixões
Lena - hidrónimo
Marão - orónimo
Marco dos Pereiros
Moledo
Mora
Mora
Moroiços
Morouços
Mós
Moura
Mora da Serra
Mourais
Moura Morta - pleonasmo
Mouro
Mouronho
Mouros
Mu
O Seixal (Gz.)
Pederneira
Padrela - orónimo
Pedra Bela
Pedra do Sino
Pedra Escusa
Pedra Figueira (Gz.) - graf- altern: Pedrafigueira
Pedra Furada
Pedralva
Pedra Maria - pleonasmo
Pedra Regadas
Pedras Ásperas
Pedras Salgadas
Pedrecas
Pedregais
Pedregal
Pedreira
Pedrigueira
Pedrógão
Pedrógão Grande
Pedrógão Pequeno
Pedrosa - ver post pedra, pedrinha, pedrosa
Pedroso
Pedrouços (Pt. e Gz.) - graf. altern: Pedrouzos
Pedrulha
Peneda - orónimo
Penedo
Penedo da Meditação
Penedo da Saudade
Peniche
Pera - hidrónimo
Perafita
Pereira
Pereira do Campo
Pereiro
Pereiró - diminut. de Pereira
Perelhal
Perosinho
Ponta do Calhau
Porto do Mós
Praia da Fragosa
Praia da Rocha
Praia de Pedrógão
Quinta da Pedriga
Ribeirão Cascalheiro (Br.)
Rocha - orónimo
Rocha Nova
Rocha Velha
São Bento das Peras
São Martinho de... - associado a vestígios megalíticos
São Martinho de Candoso
São Pedro de...
São Pedro de Lourosa

São Pedro de Moel - um dos muitos pleonasmos ou redundâncias de que a toponímia é feita

Seixal
Seixas (Pt. e Gz.)
Seixo (Pt. e Gz.)
Seixo Branco (Gz.)
Seixo da Beira
Seixos Alvos
Senhor da Pedra
Vale da Pedra
Vale de Cântaro
Vale de Pedras
Vilar de Mouros

Vilar de Perdizes (aqui há a coincidência de existirem no local esculturas pré-históricas que lembram perdizes)

carnota (Pt. e Gz.)

o topónimo Carnota é aparentado a topónimos das ilhas britânicas que contenhem o tema precelta karn/kern/korn, que significa "pedra, lugar abundante em pedras, pedregal".
as pedras (1) (2) são, de longe, o motivo mais frequente dos topónimos. não é raro que a mesma paisagem dê origem a topónimos vizinhos provenientes de línguas diferentes, mas com igual significado. e com isso sabemos a antiguidade relativa de cada um deles e, até, a gente que os batizou.

Carnota (Gz.) - concelho de Carnota (Sam Mamede de Carnota)
Carnota (Pt.) - concelho de Alenquer (Sant'Ana da Carnota)
Quinta da Carnota de Baixo (Pt.) - concelho de Vila Franca de Xira

segunda-feira, 16 de março de 2009

sabugal, sabugo, sabugosa, sabugueiro

estes fitotopónimos referem-se à presença do arbusto "sabugueiro" (lat. sambucus), são comuns em Portugal, na Galiza, nas Astúrias e em León.

Sabugal (Pt.)
Sabugo (Pt., Le. e As.)
Sabugos (Gz.)
Sabugosa (Pt.)
Sabugueira (Gz.)
Sabugueiras (Gz.)
Sabugueiro (Pt. e Gz.)
Sabugueiros (Gz.)
Sabugueses (Pt.) - aldeia de gente oriunda de Sabugo (As.?)

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

rossio

por "rossio" entende-se: um espaço aberto, fora da cerca urbana, onde há feiras e eventos especiais, servindo como ponto de reunião de moradores e forasteiros; um terreiro ou praça fruído em comum pelo povo (em contraste, por exemplo, com o Terreiro do Paço).

Casal do Rossio
Cerro do Rossio
O Rossio (Gz.) - graf. altern: O Rosío. ver Comentº de Anónimo
Quinta do Rossio
Rossio
Rossio ao Sul do Tejo
Rossio da Sé
Rossio da Trindade
Rossio de Santa Clara
Rossio de São Brás
Rossio do Carmo
Rossio dos Olivais
Rossio Grande (Br.) - no Rio de Janeiro. atual Praça Tiradentes
Rossio Pequeno (Br.) - no Rio de Janeiro. atual Praça Onze

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

restelo e restinga

no século XV, à falta de uma infraestrutura portuária em Lisboa, usava-se acostar no Restelo, já então "lugar de ancoragem antiga", no dizer de João de Barros. mas o que significa "restelo"?

o Boletim Municipal da Câmara Municipal da Amadora, edição especial de 15 de agosto de 2003, usa a palavra "restelo" como equivalente de "pilar".
os dicionários portugueses, brasileiros e galegos dão como significados de "restelo": subst. m.: pente de ferro que serve para restelar o linho; o mesmo que restolho; (alent.) azeitona que cai das oliveiras antes de varejadas; azeitonas espalhadas pelo chão, por descuido dos trabalhadores; (gz.) castanha que ao amadurecer cai espontaneamente do ouriço.
segundo outros, “restelo” viria de "restar", ou "ficar". a acreditar neles, os barcos, antes de chegar ao cais, abandonavam no "restelo" os doentes graves que eventualmente transportassem.
parece assim, pois, que estamos longe do significado que terá dado origem ao topónimo, já que nenhum dos conhecidos e mencionados é plausível.

porém, a semelhança de "restelo" com "restinga", que é palavra de origem castelhana, e a conformação geográfica do local, parecem conduzir-nos por um caminho mais viável. é possível que "restelo" seja uma variante ou regionalismo local bastante antigo contendo a ideia de "restinga".
e "restinga" (subst. fem.) é "um baixio de areia ou de pedra que se prolonga da costa pelo mar dentro"; "cabedelo"; "pequeno matagal à margem de um rio ou em terreno fértil". esta última acepção assenta que nem uma luva naquilo que era antigamente o "restelo" lisboeta.
assim, parece que ao topónimo "Restelo" se associa um tipo específico de terreno com determinadas caraterísticas de vegetação.
"restinga do Restelo" não é nada que não tenha já lido e ouvido.

na toponímia brasileira e africana abundam as "Restinga":

alguns exemplos:

Bairro da Restinga (Br.)
Ponta da Restinga (Ang.)
Restinga da Marambaia (Br.)
Restinga de Jurubatiba (Br.)
Restinga de Maricá (Br.)
Restinga de Massambaba (Br.)
Restinga de Ofir (Pt.)
Restinga do Lobito (Ang.)
Restinga Sêca (Br.)
Restinga Verde (Br.)
Vila Flor da Restinga (Br.)
Vila Restinga Nova (Br.)
Vila Restinga Velha (Br.)

exemplos de "Restelo":

Restelo (Pt.)
Restelo (Gz.) - em Vilabol de Lamas, Província de Lugo.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

leiras e leirados

"leira", do lat. glarea, é uma jeira ou courela em tabuleiro ou plataforma, podendo formar socalcos quando se sucedem umas às outras no declive de um monte; porção de terra cultivada, herdade, lavradio. é a terra que nos pertence e que lavramos.
a tradição galego-portuguesa de uma ancestral ruralidade espelha-se na abundância de topónimos em "leira" e derivados:

As Leirinhas (Gz.) - graf. altern: As Leiriñas
Leira (Pt. e Gz.)
Leirada
Leiradas
Leira de Arriba da Balsa (Gz.)
Leiradela
Leiradelo
Leirado (Gz.)
Leirados
Leira Longa (Pt. e Gz.)
Leirão
Leira Pequena
Leiras (Pt. e Gz.)
Leiras de Abaixo (Gz.)
Leiras de Arriba (Gz.)
Leiras de Costeira
Leiras de Trás
Leiras Novas
Leirinha (Pt. e Gz.) - graf. altern: Leiriña
Leirinhas (Pt. e Gz.) - graf. altern: Leiriñas
Leiró - diminut. de Leira
Leiroinha - duplo dimint. de Leira: Leira-Leiró-Leiroinha
Leirós - diminut. de Leiras
Leirosa
Póvoa das Leiras
Praia da Leirosa
Rego da Leirosa

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

légua

estes topónimos referem-se a uma antiga medida itinerária, de diferente valor consoante os usos e costumes, oscilando entre os 4 e os 7 km. são topónimos viários, já que não há légua sem caminho que valha a pena percorrer e medir. colocam estes topónimos uma questão: a "légua" é contada a partir de onde? muitas vezes, o ponto de referência parece ter desaparecido na voragem do tempo e do esquecimento. outras vezes está lá mesmo, no local, como em "Marco de Légua".

As Léguas (Gz.) - ver Comentº de Calidonia
Cachoeira da Meia Légua (Br.)
Casal da Légua
Cruz da Légua
Légua

Légua da Póvoa - entre a Póvoa de Varzim e Laúndos. na realidade, esta é uma "légua velha", aproximadamente légua e meia atual. pela sua extensão, "uma légua da Póvoa" passou para a linguagem popular da região como significando uma distância acima da conta, um caminho bem comprido.

Légua Dreita (Gz.) - ver Comentº de Gabs

Marco de Légua - este tipo de monumento indicava o ponto onde terminava uma légua e começava a seguinte. um deles passou a topónimo por se ter reunido uma população ao seu redor. em Portugal, os marcos de légua mais conhecidos são do séc. XVIII, da Rainha D. Maria I.

Meia Légua
Padrão da Légua
Praia da Légua
Terreiro da Légoa


domingo, 28 de dezembro de 2008

topónimos terminados em -imbra

como os anteriores, estes topónimos referem-se tamém à terminação pré-latina briga, significando "monte fortificado", "monforte". tal como os terminados em -obra, não são muitos.

Coimbra (Pt.)
Oimbra (Gz.)
Sesimbra (Pt.)

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

topónimos terminados em -obra

estes topónimos representam uma variação da terminação celta -briga, como os terminados em -obre. não conheço muitos. aí vão estes:

Anobra (Pt.)
Biobra (Gz.) - ver Comentº de Pablo
Boidobra (Pt.)

domingo, 14 de dezembro de 2008

topónimos terminados em -obre

são topónimos pré-latinos cuja terminação, pelo menos, é celta. indica que o local foi um castro ou povoado fortificado (-briga).
no território da Fala, os topónimos em -obre são praticamente exclusivos da Galiza, sobretudo da área das Rias de Betanços, Ares e Ferrol, onde se falou um mesmo dialeto comum de uma língua celta. assim se explica a concentração da terminação -obre numa área geográfica relativamente pequena, entre uma série de alternativas em -abre, -bra, -bre, -ebre, -ibre, -obra, -ubre e formas metatésicas, que ocorrem em toda a área peninsular da Fala.


Alcolobre - ver "Calhobre". híbrido: árab. "Al"+ célt. "Colobre".

Ançobre (Gz.) - graf. altern: Anzobre. significa "Castro ou Monte da Curva(tura)", "Castro Curvo", "Moncorvo" (?)

Anhobre (Gz.) - graf. altern: Añobre
Baiobre (Gz.) - ver Comentº de Pablo
Banhobre (Gz.) - graf. altern: Bañobre

Baralhobre (Gz.) - graf. altern: Barallobre. significa "Castro ou Monte da Paliçada"

Caiobre (Gz.) -
Calhobre (Gz.) - graf. altern: Callobre

Cançobre (Gz.) - graf. altern: Canzobre. significa "Castro das Cem [casas?]"

Cezobre (Gz.) - significa "Castro do Bosque"
Cilhobre (Gz.) - graf. altern: Cillobre. ver Comentº de Pablo
Ciobre (Gz.) - ver Comentº de Pablo. significa "Castro Bom"
Fiobre (Gz,) - significa "Castro do Mato"
Ijobre (Gz.) - graf. altern: Ixobre.
Ilhobre (Gz.) - graf. altern: Illobre
Inhobre (Gz.) - graf. altern: Iñobre. ver Comentº de Pablo
Jobre (Gz.) - graf. altern: O Xobre.
Lajobre (Gz.) - graf. altern: Laxobre. ver Comentº de Pablo. "castro das lajes"?
Landobre (Gz.) -
Maiobre (Gz.) - significa "Castro Mor" ou "Montemor"
Pantinhobre (Gz.) - graf. altern: Pantiñobre. ver Comentº de Pablo
Peçobre (Gz.) - graf. altern: Pezobre
Ranhobre (Gz.) - graf. altern: Rañobre. significa "Monte Calvo"
Sansobre (Gz.) -
Silhobre (Gz.) - graf. altern: Sillobre. significa "Castro do [rio] Sil"
Talhobre (Gz.) - graf. altern: Tallobre. ver Comentº de Pablo

há quem veja nestes topónimos uma etimologia linguística do ramo etrusco, em que a terminação teria um significado idêntico: "monte". pelo que, seja como for, é de "monte" que se trata.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

topónimos terminados em -inho

são diminutivos de outros topónimos, umas vezes por proximidade, outras vezes por derivação populacional.

Adinho - de Adão (hidrónimo)
Agrinho (Pt, e Gz.) - graf. altern: Agriño. de Agro
Algarinho (Pt.) - de Algar. ver Comentº de SM
Almarginho - de Almargem
Alvarinho - de ... Alvar? Álvaro?
Avinho (Gz.) - graf. altern: Aviño. ver Comentº de Calidonia
Azinhalinho - de Azinhal
Bastavalinhos (Gz.) - graf. altern: Bastavaliños. de Bastavales
Brejinho - de Brejo
Carbalhinho (Gz.) - graf. altern: Carballiño. de Carbalho ou Carballo
Carçãozinho - de Carção
Carvalhinho - de Carvalho
Casalinho (Pt. e Gz.) - graf. altern: Casaliño. de Casal
Castelinho - de Castelo
Charquinho - de Charco
Chelinho - de Chelo
Currinho (Gz.) - graf. altern: Curriño. de Curro
Escarabotinho (Gz.) - graf. altern: Escarabotiño. de Escarabote
Fabarrelinho - duplo diminutivo (de Fabarro?)
Folgosinho - de Folgoso
Gosendinho - de Gosende
Lameirinho - de Lameiro
Laminho (Gz.) - graf. altern: Lamiño. ?
Malaqueijinho - de Malaqueijo
Marouquinho - ?
Matinho - de Mato
Monfortinho - de Monforte
Moninho - ?
Montinho - de Monte
O Agrinho (Gz.) - graf. altern: O Agriño. ver Agrinho
O Assadinho (Gz.) - graf. altern: O Asadiño
O Cantinho (Gz.) - graf. altern: O Cantiño. de Canto
O Carbalhinho (Gz.) - ver Carbalhinho
O Cotinho (Gz.) - graf. altern: O Cotiño. de Coto. ou de Couto?
O Curraínho (Gz.) - graf. altern: O Curraíño. de Curral?
O Furinho (Gz.) - graf. altern: O Furiño. de Furo
O Lourinho (Gz.) - graf. altern: O Louriño. de Louro
O Matinho (Gz.) - graf. altern: O Matiño. ver Matinho
O Montinho (Gz.) - graf. altern: O Montiño. ver Montinho
O Petaínho (Gz.) - graf. altern: O Petaíño
O Porrinho (Gz.) - graf. altern: O Porriño. de Porro?
O Portinho (Gz.) - graf. altern: O Portiño. ver Portinho
Ortonhinho (Gz.) - graf. altern: Ortoñiño. de Ortonho
O Tojinho (Gz.) - graf. altern: O Toxiño. ?
Outeirinho - graf. altern: Outeiriño. de Outeiro
O Valinho (Gz.) - graf. altern: O Valiño. ver Valinho
Pacinho (Gz.) - graf. altern: Paciño. de Paço
Palvarinho - ?
Perosinho - ?
Perrinho - de Perre
Pinheirinho - de Pinheiro
Pombalinho - de Pombal
Pocinho - de Poço
Portelinho - de Portelo, diminut. de Porto
Portinho (Pt. e Gz.) - graf. altern: Portiño. de Porto
Povoínho - de Povo (povoado)
Pumarinho (Gz.) - graf. altern: Pumariño. de Pumar ou Pomar
Rodinho Grande (Gz.) -graf. altern: Rodiño Grande. de Rodo?
Rodinho Pequeno (Gz.) - graf. altern: Rodiño Pequeno. ver Rodinho Grande

Sam Miguelinho (Gz.) - graf. altern: San Migueliño. de São Miguel ou Sam Miguel

Silveirinho - de Silveiro
Sobralinho (Pt.) - de Sobral
Soitinho - de Soito
Soutinho - de Souto
Tibaldinho - de Tibalde
Valinho (Pt. e Gz.) - graf. altern; Valiño. de Vale
Vilarinho (Pt. e Gz.) - graf. altern: Vilariño. de Vilar
Zambujinho -



não são deste grupo, não são diminutivos:

Andorinho
Belinho - ?
Caminho
Carinho (Gz.) - graf. altern: Cariño. ?
Casacaminho (Gz.) - graf. altern: Casacamiño

Chamosinho (Pt. e Gz.) - graf. altern: Chamosiño. de Chamoso ou de Chamosa(Gz.). o mais provável é que se refira a alguém ou a um povo oriundo de Chamoso ou de Chamosa(Gz.).

Espinho
Larinho (Pt. e Gz.) - graf. altern: Lariño
Marinho
Minho (Pt. e Gz.)
Moinho ou Muinho
Montezinho - ?
O Brinho (Gz,) - graf. altern: O Briño. ?
O Passarinho (Gz.) - graf. altern: O Paxariño. ?
Paramuinho - ?
Remoinho (Gz.) - graf. altern: Remuíño
Sobrecaminho (Gz.) - graf. altern: Sobrecamiño.
Tominho (Gz.) - graf. altern: Tomiño. ver Comentº de Calidonia

Valdovinho (Gz.) - graf. altern: Valdoviño. ver Comentº de Calidonia. a possibilidade erudita de Valdovinho ter origem em Baldovinu (Balduino) esbarra em Balduvino não ser um genitivo. se a razão do topónimo fosse "terra ou propriedade de Balduino", a forma seria Valdovin ou Valdovim. vou por Calidonia