sexta-feira, 31 de julho de 2020

Senhor Roubado

o "Senhor Roubado" é um local e um monumento situado na antiga estrada real que ligava Loures a Lisboa, numa bifurcação "em que a via esquerda ligava à Póvoa de Santo Adrião, Mealhada, Loures e Torres Vedras, enquanto a via da direita, atual Rua do Senhor Roubado, ligava à vizinha povoação de Odivelas".  nessa bifurcação situa-se um monumento interessante de planta trapezoidal, onde se ergue um padrão.
"vários autores encaram o monumento do Senhor Roubado (construído em 1744) como uma consequência natural e linear de um roubo cometido em 1671".
"na manhã do dia 11 de maio de 1671 o pároco da Igreja Matriz de Odivelas deparou-se com a sua igreja roubada e profanada. o sacrário, local mais importante da igreja, havia sido violado bem como roubadas as hóstias consagradas, consideradas corpo e sangue de Jesus.
além deste crime, o ladrão mostrara o mais perfeito desrespeito para com as imagens, principalmente para com a Virgem e o Menino Jesus, já que as despiu. este ato de desrespeito originou um grande sentimento de revolta (...). os roubos às igrejas eram  frequentes,  mas os ladrões ficavam-se apenas pelas esmolas e pelos candelabros e outras peças de ourivesaria sem grande importância religiosa".

o culpado confesso terá sido "António Ferreira, um trabalhador agrícola, que foi apanhado a roubar galinhas no Convento de Odivelas. encontraram no bolso uma cruz que logo os padres da Paroquial e uns ourives declaram ser de um dos vasos furtados. sob tortura confessou o crime e declarou que não havia mais cúmplices para além dele, ilibando desta forma os judeus (que até aí eram apontados como os verdadeiros autores). confessou também onde tinha escondido o remanescente do furto que foi de imediato resgatado".

Padrão do Senhor Roubado | CM Odivelas


(o texto baseia-se na obra "O Monumento do Senhor Roubado em Odivelas, de João Miguel Simões, 2000, in: https://www.academia.edu/1785295/O_Monumento_do_Senhor_Roubado_em_Odivelas?email_work_card=view-paper).

(a foto é da Câmara Municipal de Odivelas).

sábado, 11 de julho de 2020

Nogueira e os pseudo-fitotopónimos.

"Nogueira" é um orónimo, associado a elevações de maior ou menor importância. embora a sua origem resida em Nugaria, não é crível que tenha que ver com nozes nem com a árvore que as produz.
na verdade, todas as "Nogueiras" que eu conheço e seus diminutivos (como Nogueiró) se localizam em pontos de elevação relativa, a começar pela Serra de Nogueira, no distrito de Bragança.
há "Nogueiras" em Portugal e na Galiza (exemplo: Nogueira de Ramuim ou Ramuín).

segunda-feira, 30 de março de 2020

Neiva, Abade, Ribeira

estes topónimos são hidrónimos e significam exatamente a mesma coisa: ribeira, pequeno rio.
curiosamente, surgem muitas vezes emparelhados, formando redundâncias ou pleonasmos, como Ribeira de Abade e Abade de Neiva.
isto permite-nos seriar os termos por ordem cronológica de aparecimento linguístico. assim, creio não me enganar muito se disser que "Neiva" é a palavra mais antiga, "Abade" a intermédia e "Ribeira" a mais recente.
a ordem de formação destes hidrónimos redundantes ou pleonásticos é colocar em primeiro lugar o termo mais recente e em último lugar o termo mais antigo, como em Rio Guadiana: Rio - Guadi - Ana.

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Coruche

Coruche é uma vila e concelho do distrito de Santarém. a sua origem etimológica é muito controversa e tem sido alvo das mais díspares (e disparatadas) hipóteses. sabe-se que as primeiras referências escritas designam Coruche como "Culuchi" e "Coluchi", já num período de disputas e alternâncias entre o domínio arábico e romãnico-medieval, o que significa que foi transposto de uma pronúncia moçarábica.
não vou aqui referir as hipóteses e perplexidades com que autores diversos trataram este topónimo. desde ponto alto até algo relativo a corujas e mesmo a um antropónimo Cruch ou Cruz, tudo foi aventado.
ora, Coruche é o quê? é, em primeiro lugar, um antigo e importante cruzamento de vias ancestrais. será portanto, um "Cruze" ou "Cruce", "Cruz" (cruzeiro ou cruzamento), pronunciado de acordo com o falar dos seus naturais quando lhe deram o nome. e se assim for fica muito bem.

domingo, 29 de dezembro de 2019

Gibraltar

Gibraltar vem do árabe Djebel al Tárik: "o Rochedo de Tárik", pelo que a pronúncia correta é "Gibraltár" e nunca "Gibráltar", é um lugar da freguesia de Ponte do Rol, no município de Torres Vedras.
depois de muito procurar, continuo a desconhecer a origem histórica do nome deste lugar, cuja ligação ao outro Gibraltar é evidente (eu digo sempre que nada é evidente), mas não me admiraria que resultasse da deslocação de algum ou alguns gibraltinos para esta região saloia.
em www.pontedorol.pt pode  ler-se este pequeno dislate: "bem perto da zona marítima, naquela que era então a foz do Rio Sizandro, os romanos fizeram crescer uma vila de certa importância económica a que chamaram de Gibraltar". ora como Tárik viveu entre 670 e 720, e já não havia romanos há muito, esta explicação é realmente difícil...
sabe-se que em Gibraltar (de Ponte do Rol) existe um poço mourisco, o que pode ajudar a decifrar a origem deste topónimo.

sábado, 28 de dezembro de 2019

Malga

há mais que um topónimo "Malga". conheço um deles, bem perto de Coimbra, na freguesia de Sernache. o seu nome não oferece dúvida quanto à origem e significado: alguém da região de Málaga veio povoar o lugar e dar-lhe nome.
outros dois topónimos "Malga" situam-se um em Sobral de Monte Agraço, outro em Cabeceiras de Basto





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consulta:
pág. 123
e
http://cvc.instituto-camoes.pt/hlp/biblioteca/mocarabismo.pdf
pág.6






Casconha

como muitos topónimos terminados em "onha", como "Bretonha", "Bergonha", "Borgonha" ou "Vergonha", "Casconha" é um lugar que foi povoado por gente oriunda de outras terras. no caso, Casconha refere-se ao País Basco. a sua forma mais antiga era Gasconie, coisa que não deixa grandes dúvidas sobre a origem dos povoadores que deram nome ao lugar.
há pelo menos, em Portugal, duas Casconhas, uma em Sernache (Coimbra), outra em Sobreira (Paredes).



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consulta:
http://www.patrimoniocultural.gov.pt/static/data/publicacoes/ta/trag_arqueologia_38visitacaodoslugaresarrumadosporfolhasdacartamilitardeportugal.pdf 
pág. 123

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Fermelã

freguesia que faz atualmente parte da União de Freguesias de Canelas e Fermelã, do concelho de Estarreja, distrito de Aveiro.
o seu nome remete-nos para Fermelana, "aldeia de gente oriunda de Fermelo".
o nome de Fermelana ou Fermelane já existe registado desde o século XI, anterior, portanto, às arremetidas de Afonso Henriques, e, mais ainda, anterior ao Tratado de Alcanizes (ou Alcañices), de 1297, com o qual Dom Dinis estabeleceu com Fernando IV de Leão e Castela, os limites  de fronteira leste entre os dois reinos. no que aqui nos importa, trata-se da atribuição a Portugal das terras de além Côa, ou seja, Almeida, Alfaiates, Castelo Bom, Castelo Melhor, Castelo Rodrigo, Monforte, Sabugal e Vilar Maior. 
ora, Vilar Maior é uma das circunscrições religiosas medievais que, embora pertencentes a Portugal pelo Tratado de Alcanizes de 1297, continuavam sob a hégide da Sé de Cidade Rodrigo, e continha as seguintes freguesias: São Pedro e Santa Maria de Vilar Maior, São João de Malhada Sorda, Santa Maria de Besmula, São Bartolomeu de Nave de Haver e São João de Fermelo.
Deste Fermelo, em época de transições ou estabelecimento de soberanias, podem ter migrado populações  que deram origem a Fermelã, uma vez que é o que Fermelã quer dizer.
Quanto à etimologia de Fermelo, essa é outra questão. há quem a relacione com o francês "ferme", fazenda, granja, aceção próxima do inglês farm. será ou não. e sendo, nesse caso, "Fermelo" seria um diminutivo, uma pequena "ferme".
não encontrei outro Fermelo senão esse.


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Consulta bibliográfica: História Religiosa de Portugal, Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa, Vol. 1, Direção de Carlos Moreira Azevedo, Formação e limites da cristandade, Coorden. de Ana Maria C. M. Jorge e Ana Maria S. A. Rodrigues, Círculo de Leitores, 2000.