quarta-feira, 4 de agosto de 2010

matafolhada ou matafojada?

na região do Eo-Navia, da Galiza Exterior, também chamada Irredenta, existe um topónimo que por força dos castelhanizantes era escrita "Matafoyada". o ressurgimento galego, que se tem ocupado de repor a toponímia na nossa Língua e com ortografia portuguesa, corrigiu para Matafolhada. discordo, pois creio que, neste caso, a "versão" castelhana reproduzia melhor a palavra que admito como a original, "Mata Fojada", do que propriamente "Matafolhada" ("Mata Folhada"). além dos segundos sentidos que tem, Mata Folhada não faz sentido nenhum. mas se for Mata Fojada já significa que é uma mata onde há fojos (certas armadilhas para caçar animais).
pode dizer-se, numa abordagem evidentista, que Mata Folhada é uma mata cheia de folhas, mas nesse caso não valeria a pena chamar-lhe uma coisa que é própria de todas as matas... já Mata Fojada, de fojo (foxo), é muito mais distintivo, porque nem todas as matas têm fojos.
de qualquer modo, vale a pena investigar melhor o assunto.

terça-feira, 20 de julho de 2010

malga

este topónimo, cujo primeiro contacto me ocorre aqui perto de Coimbra, evoca-me um outro, aqui próximo também: Almalaguês. tal como este último, Malga, que pode bem ser a forma sincopada de Málaga (Mal'ga), parece referir-se a um povoamento por gente vinda daquela cidade e região do sul da Península.
há também Malga em Cabeceiras de Basto e em Sobral de Monte Agraço.

égua, éguas

já me referi a este(s) hidrónimo(s). por evidente que seja a relação entre eles e a presença de ribeiros, riachos e pequenos cursos de água em geral, ainda se encontra quem defenda que eles se referem à(s) fêmea(s) do(s) cavalo(s). mas, na verdade, a sua origem está nas falas dialetais para a palavra "água" (acqua), curiosamente numa forma muito semelhante a formas encontradas na Provença.
ainda mais curiosa é a sua presença no Brasil, em São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso e Paraná. mas esta curiosidade só pode estranhá-la quem não conhece o caráter conservador do Português do Brasil.
em Portugal, conheço:

Chãs d' Égua
Éguas
Fonte das Éguas (Gz.)
Foz d' Égua
Monte da Égua
Portas d' Égua


sexta-feira, 25 de junho de 2010

bande (Pt. e Gz.), bandoiva (Pt.), bandova (Pt.), banduagem (Pt.)

estes topónimos parecem estar associados às águas serranas e, através delas, à sua divinização sob a forma céltica Band- e suas variantes (Bandi, Bandio, Bandua, Bandoga). a divinização das águas através do teónimo Band- é muito frequente no norte de Portugal e da Galiza, pelo que não admirará que tenha permanecido na toponímia, quer diretamente quer influenciando a inflexão de palavras semelhantes de outra origem. de facto, não é seguro que "Bande" derive diretamente das águas divinizadas dos celtas do noroeste peninsular. pode resultar das tradicionais villae de proprietários rurais com nomes como Vanatus ou Bandus no genitivo. mas a influência do teónimo parece incontornável.
acresce dizer que Bandova é o nome de um ribeiro de montanha afluente do Mondego.
ver também Banduagem (Comentº de Anónimo).

sábado, 10 de abril de 2010

marinha

em países à beira mar é normal que os homens se aglomerassem em torno de lugares ricos em sal, as "marinhas" ou salinas. essas populações dedicavam-se originariamente à extração desse produto, tão essencial à vida humana que foi um dos primeiros determinantes da necessidade de comerciar. o seu valor chegou a ser utilizado como forma de pagamento de serviços, originando o termo e o conceito de "salário", ou seja, a quantidade de sal recebida mensalmente pela prestação de um serviço, habitualmente de natureza militar. a localização atual das "Marinhas", devido à modificação da linha de costa com o decorrer dos séculos, indica que no tempo em que lhe foi dado o nome chegava lá a água do mar, muitas vezes através de esteiros ou rias suficientemente amplos para permitirem a evaporação da água do mar e o depósito do sal.

Marinha (Gz.)
Marinha das Ondas
Marinha Grande
Marinhais
Marinhal
Marinha Pequena
Marinhas (Pt. e Gz.)

mas há Marinhas, Marinhelas, Marinhos e Marinhões que pela sua localização requerem outra origem etimológica.

segunda-feira, 29 de março de 2010

admeus e adpropeixe

desafia-me Rui C. Barbosa para esclarecer a origem dos topónimos Admeus e Adpropeixe, em Vilar da Veiga, Terras de Bouro, região da serra do Gerês. conheço bem a região, mas não encontro caminho andado que me permita chegar seguramente ao significado dos referidos topónimos. posso tentar uma proposta de "decifração". admitamos que Admeus e Adpropeixe estão pela forma "A de Meus" e "A de Propeixe", formas vulgares na toponímia para designar "a [aldeia] de...". nesse caso, resta-nos "decifrar "Meus" e "Propeixe". quanto a "Propeixe", parece admissível a evolução a partir de um antropónimo "Propitius" (Propício) na forma genitiva "propitii". referir-se-ia, assim, a uma aldeia, herdade ou território que teria pertencido a alguém com esse nome, "Propício". teríamos de admitir, no entanto, um duplo genitivo, já que Propitii já quer dizer "[propriedade] de Propitius". mas isso é relativamente comum. significaria, simplesmente que a forma "Propeixe" estava já estabilizada quando lhe foi acrescentado o indicativo "a de".
quanto a "Meus", a interpretação é mais difícil, podendo apenas admitir-se uma relação com a apicultura e a extração de "mel".
que a significação destes lugares se relacione com propriedades rústico-agrícolas em tempos remotos não me parece nada de extraordinário, tanto mais que no século XIII era já essa a vocação atestada daquele território.
mas, seja como for, não passa de uma proposta de decifração. a seu tempo voltarei ao assunto.

sábado, 16 de janeiro de 2010

calheta

tal como "angra", "calheta" é um topónimo que os portugueses espalharam pelas costas oceânicas e que também é praticamente inexistente em Portugal Continental. apenas conheço uma "rua da Calheta", na freguesia da Luz, Praia da Luz, concelho de Lagos, Algarve. o topónimo encontra-se sobretudo nos Açores, na Madeira e em Cabo Verde. tem, pois, que admitir-se que faria parte do léxico próprio dos marinheiros dos séculos xiv a xvi, o que nos remete para contributos exteriores, nomeadamente da náutica catalã.
"calheta" é uma pequena angra, portinho ou praia que permite a arribação de barcos em costas de mar bravo ou de recifes. do catalão "cala". de notar que existe o topónimo "Cala" na ilha do Pico, Açores. e "cala" é uma enseada estreita entre margens alcantiladas e rochosas que tem condições para servir de abrigo às embarcações.
o elemento "cala" é de origem celta ou pré céltica e está muito difundido nas costas europeias atlânticas e mediterrânicas, como em "Calábria", "Calais", "Cale" (Portucale) e nas incontáveis "Cala" das costas de fala catalã.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

âncora, ancoradouro

"âncora" parece, aqui, uma forma arcaica de "angra". entra em topónimos junto ao mar, em lugares que são ou já foram propícios à aportagem de embarcações; o mesmo que "abrigo", "refúgio". Vila Praia de Âncora, na região de Entre Douro e Minho, é uma povoação de pescadores. os derivados são naturais, como "ancoradoiro" / "ancoradouro".

Âncora (*)
Ancoradoiro
Ancoradouro
Porto do Ancoradoiro (Gz.)
Praia do Ancoradoiro (Gz.)
Riba d' Âncora
Vila Praia d' Âncora (*)

por uma daquelas coincidências vulgares na toponímia, em Vila Praia de Âncora desagua o rio Âncora, que nasce 19 km antes na serra d'Arga. a etimologia do hidrónimo contém a raiz "ank-"/"ant-", frequente em hidrónimos como Ançã, Anços, Antuã...

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

angra

o topónimo Angra, que os portugueses espalharam pelas costas oceânicas, é praticamente inexistente em Portugal Continental. apenas conheço duas "Angrinhas", no Algarve. as "Angras" são frequentes nos Açores e no Brasil. há um rio Angra, na costa africana ocidental, o que prova que o seu nome foi dado "de fora para dentro", isto é, de quem chegou a terra ido do mar. aliás, todos os topónimos "Angra" foram criados por quem entra em terra ido do mar.
"angra", que parece provir do lat. ancora, é uma reentrância do mar entre duas pontas de terra, mais adentrada que porto e menos que baía; o mesmo que "calheta", "pequena enseada"; ancoradouro".
em latim, ancora/ae, tanto significa "âncora" como "refúgio", "amparo".
o facto de este topónimo praticamente não existir em Portugal Continental faz pensar que terá entrado para a Língua através de um léxico marinheiro importado. é sabido que muitos dos marinheiros das descobertas portuguesas eram de outras proveniências, como a Galiza, o País Basco, a Catalunha, Veneza, Florença e Génova.

angra dos reis

uma das mais antigas cidades do Brasil, Angra dos Reis, e seu atual município, foi descoberta por Gonçalo Coelho, em 06 de janeiro de 1502, dia de Reis, dois anos após o "achamento" do Brasil. no entanto, a região já era habitada pela tribo Goionás. em 1556 chegaram os primeiros colonizadores europeus, que se fixaram junto a uma enseada, de onde surgiria a povoação que se viria a tornar vila em 1608, com o nome de "Vila dos Reis Magos da Ilha Grande". em 1853, Angra dos Reis foi elevada a cidade.
ao largo de Angra há 365 ilhas, das quais se destacam, pelo interesse que despertam nos turistas, a ilha dos Porcos, as ilhas Botinas, a ilha de Itanhangá e a ilha Grande.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

irivo

Irivo é um dos muitos topónimos da região do vale do Sousa cuja origem se perde na mais remota antiguidade. Machado (2003, v. 2) regista-o com a grafia "Erivo", embora se conheça registada a forma "Eriva". documento do séc.18 refere que "esta freguezia de São Vicente de Eriva fica na província de Entre Douro e Minho pertence ao Bispado do Porto, he da comarca de Penafiel, termo da mesma cidade[...] Passa pelo meyo desta freguezia o rio chamado Sousa cujo nascimento tem para as partes de Basto perto da Lixa, que daqui dista quatro legoas, e meya pouco mais ou menos". o topónimo tem uma sonoridade pré indo-europeia, o que na linguística hispânica pode significar uma afinidade com o euskera.