sábado, 31 de outubro de 2015

Por Deus

o Dr. Rui Eduardo Dores Jesuíno, deputado da Assembleia Municipal de Évora e deputado da Comunidade Intermunicipal do Alto Alentejo, tendo feito a listagem completa dos topónimos do concelho de Elvas, questiona-me sobre o significado do topónimo "Figueira de Por Deus", que encontrou na zona de Elvas. de facto, no  Alto Alentejo, mais propriamente na região de Elvas, existiu e existe o topónimo "Por Deus", sob a forma de "Figueira de Por Deus", e em Monforte, Portalegre, sob a forma de "Herdade de Por Deus",  sobre Figueira já me pronunciei em postagem anterior.
quanto a "Por Deus", é melhor não levar à risca a grafia oficial e fixar-nos na fonética. nesse caso, teremos "pordeus". a palavra e, se calhar, o topónimo só ganham com isso. em primeiro lugar, encontro o nome Pordeus como nome de família, sobretudo no Nordeste brasileiro, designadamente na Paraíba e no Ceará. nome que é, muito provavelmente, de origem portuguesa, alto-alentejana e de origem toponímica, sendo certo que houve, em tempos idos, movimentos migratórios de cá para lá que o justificam. 

sendo, pois, o topónimo "Pordeus" e não "Por Deus", levanta-se a questão de saber o que significa "Pordeus". 
o topónimo é provavelmente uma variante dialetal de Paradelos/ Par'delos, ou de Paredelos, topónimos que se encontram em vários lugares da Galiza, de Ponte Vedra ao Berço, e no norte de Portugal. as variantes dialetais podem incluir "Pardeos"/ "Pardeus". 
a troca da vogal "a" por "o" pode suceder sobretudo no galego-português meridional, como é o caso, aqui em Coimbra, de "Coselhas" no lugar de "Caselhas". 
assim sendo, o que vêm a ser os "paradelos" ou os "paredelos"?  no primeiro caso, podem ser locais onde era habitual colocar-se certas redes para apanhar peixes em rios - o que impõe a presença desse rio ou ribeiro no local; no segundo caso, tratar-se-ia de lugares já há muito abandonados, onde, quando foram (re)povoados, os novos habitantes neles encontraram paredes ou vestígios delas - o que chamaríamos vestígios arqueológicos.
no caso da passagem gráfica de "Pordeus" a "Por Deus" trata-se claramente da perda do significado original do topónimo e sua substituição por outro mais "compreensível" em época posterior..  

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