terça-feira, 3 de outubro de 2006

As Gafanhas


Ílhavo é um município que confina com o mar. o seu nome, de ressonâncias pré-romanas, parece remeter-nos para as águas: a do mar, a do Vouga e a da ria. a primeira parte do nome, Illi-, encontra-se hoje nos topónimos bascos com o significado de "cidade"; a segunda metade do topónimo, - avu, está na composição de um sem número de hidrónimos portugueses e galegos - ver post.

sendo assim, ter-lhe-ão chamado então o nome que ainda hoje merece: "A Cidade do Rio" ou "A Cidade da Água".

está hoje separada do mar pela Costa Nova - nome que ilustra bem as transformações que o desenho desse litoral vem sofrendo em séculos recentes.




a vizinha cidade de Aveiro, linguística e semanticamente aparentada, usurpou o nome do porto, pois que o porto é pertença do município de Ílhavo; e o da "ria", que, embora tenha por nome "Ria de Aveiro", se expande pelos municípios de Ovar, Estarreja, Murtosa, Aveiro, Ílhavo, Vagos e Mira.






um terceiro município, o de Vagos, ajuda a fazer o cerco da "ria" pelo sul. o seu nome não esconde o parentesco com o hidrónimo Vouga, o rio cujos aluviões transformaram, ao longo dos séculos o desenho da costa. este nome pré-romano Vacus, depois Vagos, pode referir-se ao rio Vouga ou à tribo ou tribos que povoavam a margem esquerda da sua foz.
é como se quisesse dizer "os do Vouga".
hoje afastada da costa pela ria e pelas dunas, Vagos foi, em tempos, um porto de mar - do qual restam vestígios arqueológicos. e o Vouga, que foi mudando de foz com o decorrer dos tempos, tempos houve em que desaguava por aí.

a costa arenosa que a separa do mar tem o nome de Costa Vagueira (pronúncia: "vàgueira") ou simplesmente Vagueira: a costa "de Vagos".




na verdade, a Ria de Aveiro é uma laguna. não é como as verdadeiras Rias galegas, formadas por um braço de mar que penetra terra dentro. é, antes, o resultado de um arrastamento milenar de sedimentos trazidos pelo Vouga e por rios e ribeiros como o Águeda, o Antuã, o Cértoma, o Levira e outros, que vão fazendo com que o mar recue visivelmente de século para século.

do equilíbrio dinâmico entre mar, "ria" e rio Vouga, e do colossal labor dos homens, surgiram as "gafanhas": terras áridas fertilizadas pelo moliço da "Ria".

o moliço é o nome que se dá ao adubo natural feito de plantas subaquáticas que vivem na Ria de Aveiro. constituído sobretudo por erva-do-mar e vários tipos de algas, a sua composição varia consoante o grau de salinidade da água e o tipo de sedimentos. o mais procurado é o moliço da metade norte da Ria.
as plantas que compõem o moliço servem de refúgio e alimento aos peixes jovens, contribuem para a produção de detritos nutritivos, fazem acumular matéria orgânica e energia e estabilizam os sedimentos do fundo. as populações locais aprenderam a ver nele um poderoso fertilizante natural capaz de transformar terrenos arenosos e áridos em terrenos de grande fertilidade: as "gafanhas".


a apanha do moliço faz-se com barcos moliceiros, embora também possa fazer-se com bateiras. mas o moliceiro é o barco por excelência adaptado a essa função, tendo uma capacidade de carga de cerca de 3 toneladas, ou mesmo mais (até 5 ton.), em águas pouco profundas. a forma peculiar do moliceiro tem sido atribuída a uma influência viking (*), tal como a pele branca e sardenta e os cabelos ruivos de alguns tipos populacionais da região.

a recolha e distribuição do moliço constituiam há cem anos atrás uma poderosa actividade económica. as alterações políticas, sociais e económicas, a chegada dos adubos químicos e os condicionalismos da política agrícola da União Europeia levaram ao declíneo desta actividade.
além disso, o impacto ambiental das obras do porto fez com que a produção de moliço baixasse drasticamente no último meio século.

as Gafanhas começaram a ser povoadas em finais do séc. XVII, com gente de Vagos - município a que estiveram ligadas até 1856. já no séc. XX, deu-se um forte repovoamento com gente oriunda de várias partes do país, constituindo um acervo populacional diferente do que existia na região. isso criou uma certa animosidade e rivalidade mútuas, talvez mais folclórica que real. embora povoadas há cerca de 350 anos - o que é manifestamente muito pouco tempo em termos europeus - , não há certezas sobre a origem da palavra "gafanha". é um termo praticamente exclusivo da região (ver Comentº).

e apesar do esforço bem sucedido de fertilização dos terrenos arenosos, as Gafanhas nem sempre conseguiram assegurar o sustento de seus filhos. ondas migratórias fizeram espalhar gente da sua gente pelo Brasil, Venezuela, Estados Unidos e Canadá.

as Gafanhas:

Gafanha da Boa-Hora (município de Vagos)
Gafanha da Boavista (município de Ílhavo)
Gafanha da Mota (município de Ílhavo)
Gafanha das Fidalgas (município de Ílhavo)
Gafanha da Vagueira (município de Vagos)
Gafanha de Aquém (município de Ílhavo)
Gafanha da Encarnação (município de Ílhavo)
Gafanha da Nazaré (município de Ílhavo)
Gafanha do Areão (município de Vagos)
Gafanha do Carmo (município de Ílhavo)

os habitantes das Gafanhas chamam-se "gafanhões", mas tamém há quem lhes chame "gafanheiros".
o desenvolvimento e a semelhança histórica, cultural, social e económica deste conjunto regional conduziu à proposta de criação do município da Gafanha - o que não se concretizou até agora.


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(*) há quem veja no moliceiro uma reminiscência do drakkar ("dragão") viking:





5 comentários:

D'Noronha disse...

Teria alguma relação entre 'Gafanhas' e o inseto 'gafanhoto'?
Recorri ao google e não encontrei.

o viajante disse...

há quem diga que "gafanha" era uma zona onde se largavam os leprosos, tendo em conta que era sítio inóspito onde não morava ninguém. seria uma palavra irmã de "gafaria". de facto, um pouco mais a sul, na Tocha, Quinta da Fonte Quente, foi fundado um hospital para leprosos - o maior da Europa -, que existiu com essa finalidade até há pouco tempo: o Hospital Rovisco Pais.
criado por decreto de 15 de novembro de 1938, mas só posto no terreno alguns anos mais tarde, por Bissaya-Barreto, não sei por que esse local foi escolhido. sei que em redor desse hospital se desenvolveu rapidamente uma povoação de certa importância.
o problema é que não há provas de que tenha havido leprosos na Gafanha e a Tocha já faz parte da zona geográfica contígua: a Gândara. no entanto, a "Gândara" tem uma história muito parecida com a Gafanha.
não é de excluir que "Gândara" e "Gafanha" sejam sinónimos. na região de Aveiro há palavras e expressões que nem o diabo saberá de onde vieram, como "moliço", "marnoto", "gafanha", "cagaréu",etc.,etc.
um abração.

js disse...

Parabéns! pelo tipo de blog que manténs!... um verdadeiro serviço público...
FORÇ'AÍ!
js de http://politicatsf.blogs.sapo.pt

Gundibaldo disse...

Extremamente interessante este blogue, força!

Contudo, relativamente ao post "Gafanhas" devo alertá-lo para o facto de o navio do brasão de Ílhavo ser uma galera grega, alusiva ao facto (fantasia?) de a povoação ter sido fundada por colonos helénicos (noutras variantes fenícios...).

Por outro lado, J.F. do Amaral e A.F. do Amaral, no seu livro "Povos Antigos em Portugal" (Quetzal, 1997) propõem uma etimologia semelhante para Ílhavo, porém atribuindo-a aos iberos: "ili = cidade, ibero (ver Villar 430) + *abum, ibero?" [pág. 270].
Será esta uma hipótese aceitável?

Saudações atlânticas

o viajante disse...

não disse que Ílhavo não é ibero. e tamém não disse que era. disse que "illi" aparece hoje em topónimos bascos com significado de cidade
quanto à barquinha... é bem bonita
um abraço desde Coimbra