terça-feira, 26 de setembro de 2006

Mesquitas e Mesquitelas a norte do rio Douro



é muito estranha a existência de "Mesquitas" e "Mesquitelas" na toponímia galego-portuguesa a norte do rio Douro ou mesmo a norte do Mondego, em lugares onde é quase seguro que não pararam os mouros tempo que chegasse para as construir, quanto mais para as frequentar à sexta-feira - como é de preceito.

e se há no norte de Portugal e na Galiza a possibilidade de seguirmos os templos pagãos e suevo-visigóticos, por que não haveríamos de saber onde ficavam situadas as almasjid?

há topónimos de origem árabe cujo significado é "a mesquita " (islâmica), como "Almoçageme".

e mais: o sobrenome "dá Mesquita" é uma anomalia de peso. parece pedir um "a", antes de "mesquita", ou seja "da Amesquita". é caso único nos sobrenomes de origem toponímica, o que torna praticamente irrefutável a sua origem num topónimo Amesquita (*). e, a ser assim, lá estará, uma vez mais, a escrita traindo a oralidade.

na Galiza, existe uma Mesquita, tamém há quem escreva ou escrevesse A Mezquita e La Mezquita (onde este z dá que pensar) - a qual, pela sua localização tão a norte, dificilmente terá sido alguma vez "o lugar de prostração"(al-masjid) dos muçulmanos. a existência do diminutivo Mesquitela põe-me tamém na retranca.
constato, porém, que os mestres acreditam na tese da mesquita islâmica.

fazendo uma incursão por todo o norte da Península, encontro o topónimo euskera "Amezketa", o mesmo que "azinhal" ou "carrascal", na Província de Guipúzkoa, País Basco.
ainda em Euskadi, encontramos "Amezaga" (Província de Araba ou Alava), de ametz+aga, com significado muito próximo do primeiro.
e "Amezkoa", Alta e Baixa (Província de Nafarroa ou Navarra), em que "-koa" tem carácter genitivo, como se disséssemos "A do Azinho" ou "A da Azinheira".
uma característica curiosa destes locais é a sua tendência para os vales e encostas abruptas.


e pode bem ser que esteja aqui o segredo bem guardado das Mesquitas a norte do rio Douro - ou mesmo a norte do Mondego.


o topónimo guipuscoano "Amezketa" situa-se em terreno abrupto, na encosta de um monte e tem um rio que corre lá embaixo. a palavra resulta de "ametz" (azinho, carrasco) e "k-eta" (sufixo abundancial e colectivo). este padrão paisagístico é comum em várias povoações do norte peninsular e mesmo em regiões das Beiras, em Portugal.

a sul do rio Douro, também há topónimos em "Mesquita", simples e compostos. mas a palavra "Mesquita" pode aqui ter proveniências diferentes, cuja evolução fonética acabou por convergir: "amezketa" (azinhal, carrascal) e "al-masjid" (a casa de oração). distinguir uma origem da outra irá começar pelo aspecto do local e pelo tipo de história da ocupação mourisca.

no Brasil, a "Mesquita" tem uma de duas origens: ou é transposição de toponimo português ou resulta de homenagem a alguém com esse sobrenome. o mesmo se existir "Mesquitela".

quanto à origem do sobrenome Mesquita, é basicamente lendária e brumosa, tal como a dos topónimos correspondentes, tentando casar "al-masjid" com "amezketa". na realidade, consegue-se extrair da lenda alguns elementos com que é possível trabalhar: 1- quatro cidades, Braga, Miranda, Lamego e Viseu - que seguram a mão de "amezketa"; 2-uma actividade militar no norte de África, com passagem por mesquitas - que segura a mão de "almasjid". o casamento é perfeito.
o problema é Mesquitela...

alguns exemplos de "Mesquitas":

A Mezquita (Gz.)

Mesquita (Pt., Gz. e Br.) - nem tudo se resume a almasjid e amezketa. alguns topónimos compostos resultam de um sobrenome, do proprietário por exemplo

Mesquitas - este plural é esquisito. já uma masjid é muito, que fará mais que uma...pode tratar-se, no entanto, do sobrenome de família dos (primeiros) proprietários

Mesquitela - os diminutivos, indicam, em geral, uma povoação derivada de outra. neste caso, seriam derivadas de uma povoação com nome de "Mesquita". ou podem indicar uma povoação que comparada com outra era menor na época em que foi assim chamada. esta hipótese convém a amezketa, mas não a almasjid

San Vitoiro da Mezquita (Gz.)



espero que tenham gostado desta nota. se não servir para mais, já que se trata apenas de uma pista, servirá de tópico a que não se dê importância apenas às componentes exóticas da língua, o latim, o árabe, etc. a componente nativa aborígene ainda se pode reconhecer. é preciso saber procurá-la. o euskera, ou basco, é uma excelente carta de navegação para encontrá-la.

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(*) o caso não é de somenos. em lugar de andarmos à procura de um significado "convincente" para "A Mesquita", seja ele qual for, parece-me mais prometedor caminho procurar o significado de "Amesquita". foi o que fiz.



11 comentários:

D'Noronha disse...

Não é a norte do rio Douro, porém existe um município brasileiro com este nome: Mesquita. Fica no estado do Rio de Janeiro e provém de Jerônimo Mesquita, antiga estação de trens no local.

Abraços.

o viajante disse...

obrigado. é mais um dado sobre Mesquitas.

a sul do rio Douro também há Mesquitas, mas algumas delas são mesmo locais de antigas masjid.
fica para outra postada. vai ser interessante deslindar quais são masjid e quais são amezketa

um grande abraço

Jofre Alves disse...

Já cá passei certa vez e fiquei agradado com a página: coloquei-a nos meus favoritos. Mas nunca comentei. Hoje regresso e deixo umas nótulas. Não creio que o topónimo Mesquita – pelo menos no Noroeste peninsular – tenha algo a ver com a mesquita islâmica, nem tão-pouco com a perseverança dessa memória vinda do fundo da História. Alias, a presença de Z nalguns topónimos galegos, é favorável a outra explicação, a partir da raiz mas, vinda do latim matt, a significar pedra. São algumas achegas. De qualquer modo, aprecio imenso está pagina.

Jo Lorib disse...

Há alguns anos vi uma polêmica sobre Mesquita (na verdade sobre o antropónimo, por causa de Júlio de Mesquita, famoso jornalista daqui, mas como era derivado de nome de localidade na Peninsúla Ibérica, dá na mesma) onde se citavam a casa de orações, mosquito e moscado (como de noz moscada) e muitas outras coisas. mas acho que sua colocação de uma origem euskera é a mais plausível, a que mais me satisfaz. Depois do post completo, vamos mandar uma cópia ao jornal, ver se o amigo ganha uma assinatura grátis d'O Estado de S.Paulo. Abraços.

Anônimo disse...

Olá,

suponho que já conheces o tira-dúvidas do portal galego da língua. Nesta ligação analisa-se o tema: http://www.agal-gz.org/modules.php?name=FAQ2004&myfaq=yes&id_cat=1&categories=Onom%E1stica+e+Topon%EDmia#135
Eu talvez inclinaria-me pola origem relacionada com a planta MESQUITA, que eu normalmente chamo gilbarbeira, (Ruscus aculeatus), que não é tão infrequente no âmbito subatlântico de Ourense (onde estão as três Mesquitas (Mezquitas) da Galiza, como opina Joan Coromines, segundo citam no tira-dúvidas.
Na página Chuza! http://chuza.org/historia/a-orixe-do-toponimo-a-mezquita-arabe-ou-euscaro-2/
o Gerardinho vai tentar localizar a opinião do Henrique Hardinguey sobre o tema. No que diz respeito aos lugares de oração muçulmanos, não tenho ideia de se os houve alô durante o tempo,não mui prolongado mas sem dúvida de decénios, de domínio árabe de partes da Galiza. Porém, tenho escuitado a relação dos "São Mamede" da Galiza com Maomé, uma expécie de São Ma(fo)mede medieval. Sobre a relação co'a azinhera atravês do basco, ainda que eu não tenho muita ideia destes temas, parece-me um tanto aventurada. Nas Mesquitas dos concelhos da Merca e de Alhariz não há azinheiras, ainda que um fitotopónimo (de ser real) tão antigo poderia fazer referência a qualquer outra espécie do género Quercus, coma os carvalhos. Curiosamente, as falsas folhas (expansões do caule na realizade) da mesquita, da gilbarbeira, são bastante semelhantes às folhas da azinheira.

Miguel Serrano disse...

Olá de novo,

vejo que os endereços web aparecem cortados. Cópio-chos de novo.

http://www.agal-gz.org/
modules.php?name=FAQ2004&myfaq=
yes&id_cat=1&categories=Onom%E1stica
+e+Topon%EDmia#189

Chuza!
http://chuza.org/historia/
a-orixe-do-toponimo-a-mezquita-
arabe-ou-euscaro-2/


Saudinos!

o viajante disse...

obrigado por teres passado os teus comentários para aqui. sobre a questão:
1- vários dados apontam para que a grafia correcta seria "amesquita" e não "a mesquita".
2- o topónimo mais parecido e mais antigo é o euskera "amezketa" e seus derivados e parentes.
3 - a tradução de "amez" para castelhano é "quejigo", que pode significar "azinho" e "carrasco". este "carrasco" é bastante frequente em Trás-os-Montes
4- a tradução galego-portuguesa desse topónimo será "carrascal"
5- o topónimo "Carrascal" e seus derivados ocorre em Portugal e na Galiza
6- com o decurso do tempo, a razão de ser do topónimo pode ter desaparecido, mantendo-se apenas a sua memória. é o caso de Zambujal e outros.
um abraço

Calidonia disse...

Acho irá encontrar esta nova interessante.

Cumprimentos

o viajante disse...

sem dúvida que é interessante. obrigado.
aquele abraço.

Jinuzinha disse...

Boa noite!

Se o faz mais feliz saiba que existem pessoas da familia Dá Mesquita em Lisboa e pelo que sei em Santarém! Eu sou uma das pessoas que vive em Lisboa! Infelizmente não tenho muito com que o ajudar, quanto muito tenho o brazão da familia e a genealogia!

Anônimo disse...

A Familia Dá Mesquita existe a Norte do rio Douro, aliás penso que é essa a sua origem.

Mesk