é muito estranha a existência de "Mesquitas" e "Mesquitelas" na toponímia galego-portuguesa a norte do rio Douro ou mesmo a norte do Mondego, em lugares onde é quase seguro que não pararam os mouros tempo que chegasse para as construir, quanto mais para as frequentar à sexta-feira - como é de preceito.
e se há no norte de Portugal e na Galiza a possibilidade de seguirmos os templos pagãos e suevo-visigóticos, por que não haveríamos de saber onde ficavam situadas as almasjid?
há topónimos de origem árabe cujo significado é "a mesquita " (islâmica), como "Almoçageme".
e mais: o sobrenome "dá Mesquita" é uma anomalia de peso. parece pedir um "a", antes de "mesquita", ou seja "da Amesquita". é caso único nos sobrenomes de origem toponímica, o que torna praticamente irrefutável a sua origem num topónimo
Amesquita (*). e, a ser assim, lá estará, uma vez mais, a escrita traindo a oralidade.
na Galiza, existe uma Mesquita, tamém há quem escreva ou escrevesse A Mezquita e La Mezquita (onde este
z dá que pensar) - a qual, pela sua localização tão a norte, dificilmente terá sido alguma vez "o lugar de prostração"(al-masjid) dos muçulmanos. a existência do diminutivo Mesquitela põe-me tamém na retranca.
constato, porém, que os mestres acreditam na tese da mesquita islâmica.
fazendo uma incursão por todo o norte da Península, encontro o topónimo euskera "Amezketa", o mesmo que "azinhal" ou "carrascal", na Província de Guipúzkoa, País Basco.
ainda em Euskadi, encontramos "Amezaga" (Província de Araba ou Alava), de ametz+aga, com significado muito próximo do primeiro.
e "Amezkoa", Alta e Baixa (Província de Nafarroa ou Navarra), em que "-koa" tem carácter genitivo, como se disséssemos "A do Azinho" ou "A da Azinheira".
uma característica curiosa destes locais é a sua tendência para os vales e encostas abruptas.

e pode bem ser que esteja aqui o segredo bem guardado das Mesquitas a norte do rio Douro - ou mesmo a norte do Mondego.
o topónimo guipuscoano "Amezketa" situa-se em terreno abrupto, na encosta de um monte e tem um rio que corre lá embaixo. a palavra resulta de "ametz" (azinho, carrasco) e "k-eta" (sufixo abundancial e colectivo). este padrão paisagístico é comum em várias povoações do norte peninsular e mesmo em regiões das Beiras, em Portugal.
a sul do rio Douro, também há topónimos em "Mesquita", simples e compostos. mas a palavra "Mesquita" pode aqui ter proveniências diferentes, cuja evolução fonética acabou por convergir: "amezketa" (azinhal, carrascal) e "al-masjid" (a casa de oração). distinguir uma origem da outra irá começar pelo aspecto do local e pelo tipo de história da ocupação mourisca.
no Brasil, a "Mesquita" tem uma de duas origens: ou é transposição de toponimo português ou resulta de homenagem a alguém com esse sobrenome. o mesmo se existir "Mesquitela".
quanto à origem do sobrenome
Mesquita, é basicamente lendária e brumosa, tal como a dos topónimos correspondentes, tentando casar "al-masjid" com "amezketa". na realidade, consegue-se extrair da lenda alguns elementos com que é possível trabalhar: 1- quatro cidades, Braga, Miranda, Lamego e Viseu - que seguram a mão de "amezketa"; 2-uma actividade militar no norte de África, com passagem por mesquitas - que segura a mão de "almasjid". o casamento é perfeito.
o problema é Mesquitela...
alguns exemplos de "Mesquitas":
A Mezquita (Gz.)
Mesquita (Pt., Gz. e Br.) - nem tudo se resume a almasjid e amezketa. alguns topónimos compostos resultam de um sobrenome, do proprietário por exemplo
Mesquitas - este plural é esquisito. já uma masjid é muito, que fará mais que uma...pode tratar-se, no entanto, do sobrenome de família dos (primeiros) proprietários
Mesquitela - os diminutivos, indicam, em geral, uma povoação derivada de outra. neste caso, seriam derivadas de uma povoação com nome de "Mesquita". ou podem indicar uma povoação que comparada com outra era menor na época em que foi assim chamada. esta hipótese convém a amezketa, mas não a almasjid
San Vitoiro da Mezquita (Gz.)
espero que tenham gostado desta nota. se não servir para mais, já que se trata apenas de uma pista, servirá de tópico a que não se dê importância apenas às componentes exóticas da língua, o latim, o árabe, etc. a componente nativa aborígene ainda se pode reconhecer. é preciso saber procurá-la. o euskera, ou basco, é uma excelente carta de navegação para encontrá-la.
.............................................(*) o caso não é de somenos. em lugar de andarmos à procura de um significado "convincente" para "A Mesquita", seja ele qual for, parece-me mais prometedor caminho procurar o significado de "Amesquita". foi o que fiz.