sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006

Açude, Engenho, Levada, Nora, Presa, Represa


quando alguns homens foram colocados em lugares da terra onde a caça, a pesca ou a simples colheita de frutos e raizes não era suficiente para os alimentar, tiveram que reproduzir, no local onde passaram a viver, as condições ecológicas, animais e vegetais propícias à vida humana. de certo modo, abandonar um mundo de caça, pesca e colheita ao estender da mão, sem outro cuidado nem canseira, para um mundo onde tudo tem de ser feito e criado de raiz e pelo esforço e inteligência do homem, constituíu uma alteração quase tão drástica, senão mais, como aquela que hoje estamos preparando com a possibilidade de alguns seres humanos habitarem temporária ou definitivamente um outro planeta. não sei se a preparação do homem para a aventura agrícola não terá sido alvo de iguais delongas e preparativos. há quem diga que foi a "evolução", sem nos explicar o que isso significa. será o mesmo que dizer que o homem foi à lua ou vai a marte por via da evolução. ficamos na mesma.
houve a necessidade de criar um vestuário. naquelas condições, passar da nudez natural para andar vestido é o mesmo que passar de andar vestido para o uso do escafandro espacial. já nem falo da técnica que foi preciso desenvolver para transformar a lã ou o linho em coisa que se vista.
e a criação de condições ecológicas não se ficou por aí. de simples abrigos naturais ou de pouco esforço de imaginação e confecção foi necessário construir uma cápsula de materias diversos a que se convencionou chamar de "casa". casa essa a que não bastaria ser "casa", pois que teve que ser aquecida ou refrigerada, munida de cozinha, de sítio onde comer e onde dormir, onde alojar o núcleo social mínimo, onde criar os filhos, sei lá.
foi preciso mudar as regras de vida, já que viver em meio hostil não é o mesmo que viver no paraíso.
e houve que mudar o próprio eco-sistema. transplantar animais e plantas do seu mundo livre (selvagem) para um espaço controlado pelo homem (domesticado). tornar fértil o que é árido, tornar familiar o que é bravio. dominar terras, rios, ribeiros e fontes.
a água não nasce onde queremos, não chega onde precisamos dela, não tem sempre o mesmo caudal e a mesma quantidade. é preciso represá-la, guardá-la, distribuí-la, fazer com que o elemento úmido chegue aonde, quando e como for preciso.
foi, sem dúvida, uma grande e contínua revolução tecnológica, mental, cultural, e religiosa tamém. os espíritos cederam o seu lugar aos deuses e depois aos santos.
esta saída do mundo natural para um mundo feito pelo homem haveria, no fim de contas, que multiplicar a raça humana para além do que seria imaginável, levá-la aos lugares mais inóspitos do mundo. tornar o homem o senhor da natureza.
e assim nasceram da imaginação do homem os poços, as cisternas, os fontanários, os açudes, presas ou represas, os caneiros, as levadas, sei lá que mais. quem conhece a ilha da Madeira sabe o esforço que foi necessário para levar para a vertente árida do sul a água que sobrava na vertente norte. foi o mesmo que criar de novo a ilha da Madeira.
evidentemente, uma criação dessa natureza haveria que dar identidade e nome aos lugares. e por isso a toponímia os regista mesmo onde eventualmente já lá não estão.

alguns exemplos:

Açude - palavra de origem árabe (aç-çudd : "represa"), aparece onde chegou a influência deste império. em Portugal, vê-se no centro e no sul. no Norte e na Galiza aparece "Represa" com igual significado.
Azenha - palavra de origem árabe (aç-çania): moinho de roda movido a água
Águas Levadas
Azenha do Pisão
Azenha do Rio
Azenhas do Mar
Caneiro - tem um significado próximo de "levada"
Engenho (no Brasil refere-se habitualmente ao aparelho do açúcar)
Fontão
Fonte
Fontela (Pt. e Gz.) - diminut. de "Fonte". do lat. "fontanela"
Fontenla (Gz.) - o mesmo que Fontela. representa um estadio anterior da passagem do lat. "fontanela" a "fontela"
Lagar
Lagar de Pessegueiro
Lagar de Vara
Lagares da Beira
Levada (Pt., Pt.-Md., Gz.)
Levadinha
Moinho
Moinho d'Água
Moinho de Vento
Moinhos
Muiños (Gz.) (grafia muito discutível)
Nora (os árabes trouxeram do Egito este complexo engenho. o nome, como não podia deixar de ser, é de origem egípcia veiculado pelo árabe. no Norte de Portugal e na Galiza prefere-se o termo Engenho)
Noras
Pisão (ver Post "Pisão, Pisóm, Pisões")
Ponte do Açude
Presa (Pt. e Gz.) - reservatório ou poça onde se retém e guarda a água para rega. o termo árabe correspondente é "albufeira"
Rega
Regadas Novas
Represa - o termo de origem latina para "açude". corresponde ao holandês Dam, como em Amsterdam e Rotterdam.
Sítio da Nora do Velho

nota: sobre "águas de rega" podem consultar esse sítio. sobre as "levadas" da Madeira vejam esse aí







2 comentários:

sperone disse...

Muy interessante

o viajante disse...

gracias. un saludo muy cordial