sexta-feira, 24 de março de 2006

Topónimos Tupi-Guaranis (1)


das quatro bisavós que me couberam em sorte, uma era brasileira. não a conheci nem sei de onde veio, ou se era apenas uma ex-emigrada no Brasil, daquelas de que se ocupou o nosso escritor oitocentista Camilo Castelo Branco. sei que era "Ribeiro". na casa dos meus avós maternos, em S. Torcato, Guimarães, ouvia falar desse tronco "brasileiro" que, aliás, dava motivo de alcunha a esse filão genealógico. falava-se por lá um português muito próximo do galego, ao menos no léxico e em certas particularidades da pronúncia. mas lembro-me que havia palavras de uso comum que tinham vindo do Brasil. uma delas era o "côco", nome que se dava ao caneco de tirar a água do cântaro.
do tempo dessa bisavó e filho do Brasil tamém, tinha lá um papagaio que viu morrer e nascer várias gerações de gente. bem amestrado e bem falante, o papagaio era o garçon da loja. assim que chegava alguém, logo chamava: "- ó António, anda à loja!" e quando o cliente se aprontava para sair coa encomenda, assim o bicho lembrava: "- pagar que não esqueça..."
isto não faz tanto tempo, nem eu sou assim tão velho que tudo se passasse no tempo em que os animais falavam. mas, para o bem e para o mal, Portugal mudou tanto que é já difícil compreender como esses tempos fazem parte do mesmo país.
mas foram esses tempos o suficiente para que fizesse parte de mim a cultura comum galego-portuguesa e brasileira.
até aqui tenho ocupado a grande maior parte do blogue com as raizes comuns galego-portuguesas, visíveis na Toponímia à vista desarmada.
é a vez de falar da toponímia tupi-guarani. parecerá que nada tem que ver com a cultura e a língua de origem ibérica, indo-europeia na sua maior parte. pois não tem. mas tem uma importância fundamental na compreensão de como se forma a Toponímia de um país.
o povo nativo é o que dá o nome aos rios, às serras, às praias, aos campos, à natureza não transformada pelo homem. em grande parte do Brasil, o povo nativo fala(va) o tupi-guarani nos seus diversos dialectos. há, ainda, topónimos que não são europeus nem tupi-guarani. mas formam uma minoria que por agora não interessa.
não existe melhor forma de compreender como nasce um topónimo que a de estudar a toponímia brasileira tupi-guarani, pois que por cima da camada nativa vem apenas e logo o português. as homofonias com o léxico português, que por vezes aparecem, são curiosas. e algumas já nós vimos, como o caso dos topónimos brasileiros em "Boi".

alguns topónimos tupi-guarani (de A a C) e seu significado em português:

Aguapey ou Aguapí - de aguape (nenúfar)+y (água, rio): "rio dos nenúfares". poderia evoluir para "água-pé", formando um falso (e disparatado) topónimo português

Aiba - "matagal", "brenha". na toponímia galego-portuguesa: "Brenha"
Andaray - de andyray (morcego)+y (água, rio): "rio dos morcegos"

Anhangabaú - de anhangá+bá (malefício do diabo)+y (água, rio): "rio do(s malefícios do) diabo"

Anhangay, Anhangaí - de anhangá+y: "rio do diabo"
Apetumbu ou Apetumby - "estrada poeirenta"
Apeturibú, Apottribú - "estrada da fonte"

Apiay - "lugar úmido, alagado" (ocorre em lugares de mineração, de chumbo por exemplo)

Apiteribú, Apoteribu, Poteribú, Potribú - "fonte do meio"

Aporã - "lugar bonito no alto". o mesmo que "Belavista" ou "Boavista" em português (Cf. Belvedere)

Apuã - "monte, colina, môrro arredondado", "cabêço", "cabêça"

Apyra - "ponta, cabo, fim da terra" (Cf. Fisterra - Gz. - e Finisterre - F)

Aracajú - capital de Sergipe: "muito antiga". é um sinónimo de "Cadima"

Araçoyaba - "o que faz sombra". no caso, no Estado de São Paulo: "monte em forma de chapéu", "monte sombreiro"

Arapecum - "restinga, língua de terra"
Araraquara - "o paradeiro das araras"

Araxá - "a vista do mundo". é o mesmo que "Belo Horizonte" em português

Assaré - "o atalho, caminho alternativo". à letra: "caminho diferente"

Atibaia - "lugar saudável". o mesmo que "Belos Ares" em português e "Buenos Aires" em castelhano. o significado inverso, "maus ares", é o nome de uma doença que todos gostaríamos de ver erradicada: a malária
Avaré - "(lugar onde mora) o homem diferente" (padre), "(sítio d)o padre"
Avay ou Abaí - de Abá (homem)+y (água, rio): "rio do homem"
Baeriri, Bariri - "rio com cachoeiras", "cachoeiras do rio"
Baetimbaba - "plantação, horta, roça" (à letra: "lugar que produz muitas coisas")
Baetybeyma - "terra árida, estéril". na toponímia portuguesa de origem árabe: "Safara"
Bambuy ou Bambuí - de bambu (sujo)+y: "rio sujo" (barrento)

Bangú - "monte ou cêrro escuro". na toponímia galego-portuguesa de origem latina: "Monte Negro" ou "Montenegro"

Baruery - o mesmo significado que Baeriri e Bariri

Boquira - de mboquira: "onde a chuva nasce", "lugar de onde vêm as nuvens"

Brocotó - de mborocotó: "terreno cheio de altos e baixos"

Butantã - de mbu (lugar, terra)+ tã-tã (dura-dura, muito dura): "terra muito dura"

Butuquara - de ybytu (vento)+quara (abertura, fenda): "a porta do vento". em Portugal: "Portela do Vento"

Buturuma - de ybyty+una: "monte negro"

Bytury - de ybyty (montanha)+y: "água ou rio da montanha", "ribeira da serra"

Caçapava - "clareira, picada ou passagem na mata". se a clareira foi feita por fogo, diz-se "Caucaia"

Catanduva - e caá (mato)+dyba (duro): "mato duro". é o mesmo que "Mato Grosso" em português.

Catujy - de catu (bom)+yi (água, rio): "rio bom"

Catumbi - de caá+tumbu: "à beira da mata", "no (so)pé do monte". na toponímia portuguesa: "Pé da Serra" (Cf. "Piemonte", Itália)

Curityba, Curitiba - "pinheiral", "pinhal"


10 comentários:

Anônimo disse...

Olá José, meu nome é Luiz Paulo, sou professor de Geografia, na cidade de Guarujá, litoral do Estado de São Paulo, Brasil, e fiquei muito feliz em ler algumas partes de seus artigos sobre toponímia.
Na minha graduação desenvolvi um trabalho sobe a toponímia do litoral paulista.
Atualmente estou desenvolvendo minha dissertação de mestrado, também sobre toponímia e por isso estou te pedindo alguma colaboração.
Se lhe for possível, peço a gentileza que me envie, por e-mail, algum artigo de sua autoria sobre topomínia.
Desde já agradeço sua atenção.

luizpaulo.nevesnunes@gmail.com

o viajante disse...

só hoje (2-08-2006)vi o seu comentário. realmente ficou um pouco longe dos posts mais recentes...
vou mandar por e-mail referências bibliográficas que, aliás, fazem parte de um post que está em "rascunho".
aquele abraço.

Anônimo disse...

Prof. José :
Meu nome é Roberto Jorge , e estou envolvido atualmente com uma pesquisa sobre topônimos de origem tupi-guarani, aqui no meu Estado do Rio de Janeiro,Brasil.
Tenho especial interesse no topônimo IGUABA (yguaba)que está dicionarizado in Lemos Barbosa, Tibiriçá e Moacir dos Santos como " bebedouro ". Gostaria de obter a sua opinião sobre esse topônimo, cuja cidade que o recebe situa-se à margens da Laguna de Araruama, a maior laguna hipersalina do mundo, em frente à uma perfeita enseada (iguá), e historicamente nunca teve água potável em quantidade e qualidade, conforme relatos dos viajantes do Século XIX que por aqui passaram . Penso na possibilidade do significado ser " lugar da enseada" ou " bebedouro da enseada(do mar)" , ou corruptela da palavra "iecoaba" (riacho de águas salgadas).
Aguardo uma opinião;.
Um abraçoi
Roberto Jorge
e-mail rjorgiguaba@uol.com.br

Marcio disse...

Araraquara não seria "Lugar daquele que sabe o tempo". Dê uma olhada no site http://site.araraquara.com.br/index.php?id=849

ponto40 disse...

Bôa noite ó pá!

Estava eu procurando a palavra peixe em Tupi-Guarani e acabei batendo no seu Blog.Como você tem uma Bisavó Brasileira, eu tenho uma Índia. Conheço muitas palavras indígenas, mas não lembrava de "peixe". E olha que eu adoro um Pirão!!!
Minha Bisa deve tá me xingando de lá do paraíso!

Seu Blog é muito legal!


Bôa sorte! (não a cobra)

Marcos Manocchi, Policial, São Paulo, Brasil

Joyce disse...

oi tudo bom?!
meu nome eh joyce e sou aluna de um colegio em belo horizonte,esrou realizando um trabalho sobre toponimia das ruas de um bairro de bh. eu estou precisando de um artigo de algem que fez alguma tese sobre esse assunto. se voce puder me ajudar, mande por favor alguma referencia de alguem me avise. mto obrigado pela atencao.
meu contato
joyce.mtv@gmail.com

Aline da Cruz disse...

Olá José,
Gostei do seu texto sobre Toponímia de origem Tupi-Guarani. É leve e gostoso de ser lido, por isso gostaria de usá-lo em minhas aulas. Por isso, peço sua autorização.
Desde já agradeço,
Aline.
aline.cruz@uol.com.br

o viajante disse...

Concerteza que sim.
Pode usar.
Fazendo saber que eu existo, OK?

Lucia Pinheiro disse...

Amei seu texto sobre toponímia indígena, embora seja professora de Matemática, curto muito o assunto informalmente.
E como a maioria dos brasileiros devo ter alguns "índios" na genealogia pois como nosso amigo aí em cima tb adoro "pirão".
Meu nome é Lúcia, sou de Guarulhos (Olha os índios aí de novo!)

Babel disse...

É realmente muito interessante ler um texto de um português que se interesse pela língua tupi-guarani, que nos envolve por todos os lados aqui no Brasil. Ao contrário de você, sou brasileira, filha de portuguesa de Trás-0s-Montes (Vilares e Vilariças). Sou arquiteta, mas me interesso muito em ler sobre origens. No meu caso, são muitas desde a brasileira, portuguesa e italiana (meu pai é da Itália). Gostaria de ler mais textos seus, se for possível, passe-me algum link.
Obrigada
Rebeca Constance Perrella
rebeca.perrella@gmail.com