segunda-feira, 29 de maio de 2006

Post nº 100: Topónimos Terminados em "-ães"


embora existam em larguissima maioria no território a norte do rio Mondego, este é um conjunto de topónimos carateristicamente portugueses. as formas galegas correspondentes divergem habitualmente para terminações em "-éns", "-ás", "-ans" e "-anes", que também podem existir em Portugal.
estes topónimos têm uma de três caraterísticas:
- são genitivos, em regra de antropónimos germânicos, indicando a pessoa a quem pertenceu a villa ou quinta. equivalem a dizer "propriedade, quinta ou fazenda de...fulano";
- são identificadores do povo em causa (etnónimos). será como dizer "alemães", por exemplo;
- são topónimos ainda mal esclarecidos.

exemplos:

Adães - genitivo do antropónimo germânico "Athals": "quinta ou propriedade de Athals"

Airães - genitivo de um antropónimo germânico, Ário.
Alvarães - genitivo de "Álvaro" (?)
Amiães - etimologia incerta

Ansiães - genitivo de Ansila (antropón. germânico). Ansila é diminutivo (*)

Atães - o mesmo que Adães
Bagães - etimologia incerta
Balugães - etimologia incerta
Barbadães de Baixo - etimologia incerta. na Galiza existe Barbadáns
Barbadáns (Gz.)

Belães - genitivo de Berila, diminutivo de Bera ("urso"), antropónimo germânico

Bisalhães - etimologia desconhecida
Boivães
Brandinhães - etimologia incerta
Bravães - etimologia incerta
Brirães - etimologia incerta
Bugalhães - etimologia incerta
Burgães - genitivo de Burgala (nome feminino?)
Caçurrães - pré-romano. significado desconhecido
Calvães - etimologia incerta
Cavernães - aqui o sufixo poderá ser étnico
Cepães - possível sufixo étnico: "de Cêpos"?

Cervães - genitivos "Servianis", "Servandici", ou sufixo étnico de "Cerva"?

Chavães - sufixo étnico "de Chaves"?
Chaviães - genitivo de Flavius (?)
Cidrães - está por "Cidrais", ou é plural de "Cidrão"?
Cinfães - etimologia desconhecida
Covelães - será sufixo étnico de "Covelo" (Pt e Gz)? de "Covela" (Pt e Gz)?
Covilhães - etimologia incerta. estará por "gente oriunda da Covilhã"?
Crastovães - de "castro" + genitivo desconhecido
Cucujães - etimologia desconhecida

Delães (pronúncia "Dèlães") - estará por "D' Elães", uma espécie de duplo genitivo? nesse caso, virá de "Elo" ou "Ella"

Enxofães - de "em Suffenes". provável origem germânica
Estrufães - genitivo de Astrulf (germânico)

Fafiães - genitivo de Fafila (germãnico). aparece em Portugal e também na Galiza sob a forma "Fafiás". Fafila é diminutivo (*)

Faldijães - etimologia desconhecida
Fandinhães - genitivo de Fandila (germânico). Fandila é diminutivo (*)
Faquiães - genitivo de Faquila (germânico). Faquila é diminutivo (*)
Farelães - etimologia desconhecida

Fermentães - de gente dedicada à montaria ou caça real: foro de montanos ou monteiros

Fiães - na Galiza: Feanes e Feáns. etimologia incerta
Forjães - etimologia incerta
Friães - na Galiza: Freanes e Frianes. é genitivo de Froila (germânico)
Galiães - etimologia incerta
Galifães - etimologia incerta
Goães - genitivo "Gundilanes", de Gundila (germânico)? Gundila é diminutivo (*)
Golães - será o mesmo que Goães?
Gomarães - será o mesmo que Guimarães e Voimarães
Gominhães - genitivo de Gumila (germânico). Gumila é diminutivo (*)
Gueifães -

Guimarães - patronímico ou genitivo de Vímara (antropónimo medieval, de origem germânica). na Galiza: Guimaranes, Guimarens, Guimarás

Lamaçães -
Magalhães - etimologia desconhecida. será um etnónimo (celta)?
Miomães - genitivo do antropónimo Meoma
Nozilhães - etimologia incerta
Palhagães - etimologia incerta
Pedaçães - antiga Padazanes. etimologia desconhecida. genitivo de Pitacia ou Patacia?
Pinhães - etimologia incerta
Qinchães - etimologia incerta. talvez seja a mesma de "Quintiães"
Quintiães - genitivo de Quintila (germânico). Quintila é diminutivo (*)

Ramirães - não tenho conhecimento de que exista este topónimo em Portugal, mas a sua possibilidade está indicada pela existência de "Ramirás" (Gz.). genitivo de Ranimir, Ramir (germânico)

Recardães - genitivo de Recaredo.

Requiães - genitivo de Requila (germânico). Requila é diminutivo (*) e deu origem a outros topónimos, como Requião (Pt.), Requiá e Requián (Gz.)

Revilhães - genit. de Rabellus, Revelle ou Rabeelo, nome que deu origem a outros topónimos, como Reveles

Romarigães - de origem germânica, deriva de Romaric - que originou outros topónimos, como "Romarigo" e "Romariz" (Pt. e Gz.)

Ruães - genitivo de Hroda (germânico), antropónimo que será o responsável pela existência do topónimo "Roda" em Portugal e na Holanda

Ruivães - na Galiza: Rubianes e Rubiás. etimologia incerta
Sandiães - variante de Santiães
Santiães -
Segadães -
Sevilhães - gente oriunda de Sevilha

Soalhães - genitivo de Sunila (germânico). Sunila é diminutivo (*). topónimo afim de "Soilán" (Gz.)

Sucçães -

Teivães - parece relacionado com "Tibães". será genitivo de Tevila (germânico), que é diminutivo (*)

Tibães - anteriormente Tibaens. ver "Teivães". na Galiza: "Tivián"

Voimarães - nome de uma quinta na cidade de Coimbra, hoje urbanizada. "Voimarães" reproduz, com ligeira variação fonética, a forma "Vuimarães" que antecedeu "Guimarães"


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(*) não faz muito tempo que no norte de Portugal as pessoas ricas eram tratadas pelo diminutivo


quinta-feira, 11 de maio de 2006

Uma Invasão de Formigas


encontrei por acaso esta belissima fábula argentina, que suponho ser de origem ibérica, intitulada "invasão de formigas", que me trouxe à memória uma série de lendas sobre antigos povoados pré-históricos em lugares altos, abandonados pelos seus habitantes obrigados a descer para as campinas.

a anomalia destas lendas (de "formigas", mas também de "mosquitos") é que uma invasão real desse tipo de bichos provocaria, na terra dos comuns, o movimento inverso, ou seja, de baixo para cima, nunca do alto dos montes para a planície. é, pois, uma realidade do mundo da memória, do sonho, da lenda, feito de bocadinhos do real vivido pelas gerações que já partiram. uma história que deixa sempre o rabo de fora para podermos deduzir onde está o gato.

como é bom de ver, essa fábula, assim como as lendas que me evoca, referem-se a outro tipo de invasões e a outro tipo de insetos arrumadinhos em fila e de passo ordenado, aliás muito em voga nos tempos que correm. de início, os intrusos parecem simpáticos, até benvindos, quem sabe. mas depressa se dá conta que, afinal, não são assim tão bem intencionados nem tão inofensivos. semeiam a desordem e a devastação por onde passam, impõem o que fazem, fazem o que querem e destroem o jardim.
a invasão de que falam as lendas é, sobretudo, a conquista romana. não sei a que se deve o nome de "formigas" dado ao exército romano. pode ser uma alcunha depreciativa ou um nome de código. mas é tentador pensar que, do alto dos povoados em questão, o exército romano em movimento se assemelhasse a um carreiro de formigas-macho. tenho notícia de que em algumas regiões as estradas romanas têm o nome "carreiro da formiga" ou "das formigas".

(o caso da "invasão de mosquitos" evoca uma movimentação mais desordenada, mais incómoda, mas, talvez, mais superficial)

a invasão romana não terá sido a primeira que ficou registada em lenda. no fundo dessa memória coalhada há quem veja a invasão das tribos celtas.

a política dos romanos foi a de forçar as populações que viviam nos castros a descer para campo aberto, a fim de melhor as controlar.

a mesma estratégia foi depois seguida pelas autoridades eclesiásticas em relação aos cultos pagãos que persistiam nos montes já despovoados. essa política saldou-se, em muitos casos, por um curioso "empate": uma capela no alto, um templo cá em baixo. e, nas festas, uma procissão inaugural de cima para baixo e uma procissão de encerramento, de baixo para cima, com o retorno da Santa à sua capela. ou vice-versa, consoante o costume.

o êxito total dessas políticas só está sendo conseguido nos tempos que correm, com o abandono acelerado das últimas aldeias serranas.
outras "formigas", a mesma política.
mas a verdade é que a melhor defesa contra a praga das formigas é mesmo morar num ponto alto.


a invasão de formigas:

Castelo Novo (Fundão) - existiria uma povoação com o nome de «Alpreada», de onde o povo que lá morava teve de sair, por causa de uma «invasão de formigas» (o exército romano).

Cerdedelo (Gz) - terá existido um castro em Fondo de Vila, de onde a população se mudou para Cerdedelo por causa de uma "invasão de formigas".

Chã das Formigas (Gz.) - graf. altern. "Chan das Formigas". é um recinto megalítico.

Fernão Joanes (Guarda) - a primeira aldeia teria nascido numa quinta, num lugar chamado A Comichão. Em virtude de uma «invasão de formigas», a população mudou-se para o lugar da actual, Fernão Joanes.

Galafura (Peso da Régua) - o «cemitério dos mouros» indica a presença de um velho povoado. diz-se que nesse monte os antigos habitantes tiveram que sair por causa de uma «invasão de formigas» (os romanos que, lá em baixo, na estrada militar, pareciam formigas).

Pêro Viseu (Covilhã) - na cabeço da Arremexa (ou S. Marcos) existiu um povoado, de que restam vestígios arquelógicos e religiosos. diz-se que os habitantes deste povoado se viram obrigados a retirar para o Cabeço da Malha por causa de uma invasão de formigas. a partir deste local desenvolveu-se "Pêro Viseu", cujo nome nos remete para "pedras" (pêro: penedo) e uma função militar (viseu: guarda, vigia, atalaia)

Piódão - a lenda aqui contém uma anomalia, que como todas as anomalias tem um significado reforçado. diz-se que o povoado original era Piódão Velho, localizado bem perto mas a uma menor altitude. aqui, a "invasão de formigas" fez com que os habitantes fossem mais para cima, o que constitui uma exceção. representa a fuga dos habitantes para lugar mais inacessível

Póvoa de Agrações (Chaves) - no monte de S. Pedrinho existiu um povoado ou castro de um povo pré-histórico, que se viu obrigado a «descer» para a Ribeira de Oura, em virtude de uma «invasão de formigas». Neste caso, há o pormenor curioso de serem formigas-macho, "que não fazem nada", isto é, ...soldados!

S. Vicente do Gerês (Montalegre) - consoante as versões, o povoado foi abandonada em virtude de uma peste, uma fome ou uma «invasão de formigas» (romanos).

Telhado (Fundão) - : povoação antiga, foi o seu primitivo assento o vale da Carantonha, com a denominação de Nossa Senhora da Carantonha. os seus habitantes viram-se obrigados a abandonar o local por causa de uma invasão de formigas, que os perseguiam e lhes causavam grave dano às sementeiras.

Torre de Moncorvo - diz a lenda popular que Torre de Moncorvo resulta da fuga das gentes de Santa Cruz de Vilariça face a uma "invasão de formigas" e a uma "praga de mosquitos". esta lenda parece conter dois tempos ou épocas: a invasão romana (as "formigas") e uma invasão posterior, talvez germânica, talvez árabe (os "mosquitos").

Velho Airão (Parque Nacional do Jaú - Amazonas, BR) - esta é uma cidade abandonada na selva, dizem que por causa de uma invasão de formigas. neste caso, "formiga" é mesmo formiga?


segunda-feira, 8 de maio de 2006

A Toponímia da Região de Aveiro


a região de Aveiro é o lugar de convivência com a água, e com o mundo através da água. "Aveiro", "Avanca", são topónimos que nos remetem para a água. outros, como "Ovar", lembram-nos a presença de um porto desde longa data.
a filiação linguística dos topónimos parece acompanhar a filiação genética das populações: há um ramo que se pode chamar de "litoral", com visível presença de gente ruiva e loira, e um ramo "rural" com muito menos características "nórdicas".
em Aveiro e nas aldeias e vilas em redor, é muito notória a presença do Brasil, em primeiro lugar, e da Venezuela - por força de ligações bilaterais criadas por emigrantes. a toponímia urbana e o nome de lojas, restaurantes e cafés registam abundantemente esse facto. Aveiro, e seus arredores, é, sem exagero, a cidade mais brasileira de Portugal. está geminada com Belém do Pará para celebrar essa ligação contínua de há muitos anos


Arada -

Assilhó - diminut. de "Ossela" (Osselola - Assilhó)

Avanca - parece ter a noção de "água" duas vezes: "Av...-"+"Anc...-". ver "Hidrónimos ou Nomes de Rios"

Aveiro - tal como Avanca, parece conter duas vezes a noção de "água": "Av...-"+"Ar-...". ver "Hidrónimos ou Nomes de Rios"

Azurva -
Beduído -

Belasaima - é também hidrónimo. este facto e a semelhança fonética fazem pensar na divindade celta Belisama

Belazaima - o mesmo que "Belasaima"

Cesar - (pronunc. "Cesár")
Eirol -
Esmoriz -
Espairo -

Estarreja - topónimo de ressonências euskera, como "Biarritz" (F)

Gafanha - os habitantes das Gafanhas não se chamam "gafanhotos", são "gafanhões" e "gafanhoas"

Gafanha da Encarnação -
Gafanha da Nazaré -
Gafanha de Aquém -
Gelfa -

Gonde - é hidrónimo. é o nome de um pequeno regato que passa na Quinta que foi do Professor Egas Moniz, Prémio Nobel da Medicina

Ílhavo - é um topónimo seguramente pré-romano, celta ou mesmo basco.na sua composição entra o elemento "ili" (cidade?) e "abo"/"avo" (comum a "Aveiro" e "Avanca", e que significa "água")

Loure -

Macinhata - topónimo viário? pode derivar de "mansionata", referindo-se à existência de uma pousada ou mansão ("mansio").

Madaíl -
Mamodeiro -

Monsarros - ver "Vila Nova de Monsarros"

Oiã -

Óis da Ribeira - "Óis" é um topónimo muito raro e muito antigo, seguramente pré-romano. existe em Portugal e na Galiza. a sua presença em Navarra ("Oiz") e na Catalunha ("Oix") parece indicar uma origem euskera ou proto-euskera

Óis do Bairro - ver "Óis da Ribeira"

Ossela -
Ovar -

Pardilhó - ver "topónimos terminados em -ó"

Requeixo -
Salreu -
Samel -
Sangalhos -

Torreira - topónimo presente noutras zonas de Portugal e na Galiza. no caso da região de Aveiro parece querer referir-se a "costa da... torre(?)"

Ul - ver esse post. o seu significado é "ribeiro", "regato".

Vagos - é possível que se trate de um etnónimo, do nome de uma tribo anterior ao domínio romano. essa tribo teria um nome relacionado com o rio "Vouga" ("vaccua"). a variação do leito final deste rio ao longo dos séculos permite estabelecer a relação entre "Vagos" e "Vouga"

Vagueira - pronúncia: "Vàgueira". refere-se a "costa de vagos"

Verdemilho - a forma anterior de "Verdemilho" foi "Vila de Milho". ver post

Vila Nova de Monsarros - algum parentesco linguístico com "Monsaraz"? assim parece


sexta-feira, 5 de maio de 2006

De Maringá pra Vila de Rei

Portugal sofre de, pelo menos, dois grandes flagelos demográficos: uma drástica diminuição da natalidade, com um substancial aumento da esperança média de vida, e a desertificação humana do interior. isso faz com que zonas inteiras da faixa leste do país estejam reduzidas a dúzias de velhos solitários, artificialmente arrebanhados em Lares da Terceira Idade, a que se dá, por vezes, nomes que seriam cómicos se não fossem cruéis. a uma dessas casas botaram o nome de "Última Morada", a outra "Eterno Paraíso", e outras ainda afinam pela mesma espécie de bom-gosto. juntando a tudo isso, vem o verão todos os anos levar o que sobra de uma antiga floresta nacional, alargando os horizontes num sem-fim de milhares e milhares de figuras esguias e ressequidas de árvores queimadas. não é um problema especificamente português. o que será especificamente português é essa divisão do país em Litoral e Interior, essa desertificação que assola a zona mais próxima dos centros de decisão da União Europeia, a região que poderia, teoricamente, atrair população, quadros, dinheiro, investimento, a faixa do território que mais poderia beneficiar da integração de Portugal na União. mas não é assim. quanto mais longe de Bruxelas, de Estrasburgo ou de Paris, melhor é Portugal - ou pelo menos assim julgamos nós. é um Estado-Membro ao contrário. é como se na América as regiões de um Estado fossem tão mais desenvolvidas quanto mais afastadas de Washington ou de Nova Iorque. Portugal olha para a Europa, a que pertence, às curvas, através do mar e do ar. por terra, o histórico peso da Meseta impede os portugueses de ver e de entender a União em linha reta. tudo o que tenha de passar pela Meseta faz tremer o peito.
vem isto a propósito de um fenómeno singular que está atraindo as atenções para Vila de Rei.
aquela vilinha pequena do distrito de Castelo Branco, na chamada zona d' "O Pinhal", tem a particularidade de ser a povoação que fica no centro geográfico de Portugal, bem perto do Alto de Milriça - o centro geodésico do país. e padece do outro mal que desertifica o interior: a emigração, que leva os poucos jovens que a terra inda produz. vêm à ideia os versos de Rosalia:

"iste parte e aquel parte
e todos todos se ván,
Galiza sen homes quedas
que te poidan traballar"...

pois teve o município de Vila de Rei uma ideia original: chamar gente do Brasil para repovoar o concelho.
chegaram as primeiras quatro famílias inteirinhas, de Maringá, Estado do Paraná, oito adultos e seis crianças.
Portugal tem 500 000 imigrantes, na sua maioria eslavos ou africanos, que, aliás, preferem os grandes centros litorais. mas chamar gente do Brasil, e para o interior, tem um gostinho especial e refresca a língua. inverte os caminhos da História e, quem sabe, um dia refrescará também a toponímia

(...veja o que acontece......quatro meses depois...)

quarta-feira, 3 de maio de 2006

triste sina, a nossa

uma língua é um espaço de comunicabilidade. tem uma estrutura, uma organização interna, um conjunto léxico comum, uma pronúncia individual, sotaques diferentes, variantes, dialetos, mas é um espaço de parentesco e de semelhança não partilhado com mais nenhum código linguístico. de imediato percebemos se alguém usa o código linguístico português ou castelhano, inglês ou neerlandês, polaco ou russo. mesmo que a pronúncia ou variantes do léxico nos digam que, afinal, o inglês é da América ou da Austrália, o neerlandês da Bélgica ou da Holanda, o francês da França, da Bélgica ou do Quebeque, o castelhano de Espanha, de Cuba ou da Argentina, o russo da Rússia ou da Ucrânia. quanto ao sotaque, bem, o sotaque só é detetado por quem ouve, não por quem fala. e a compreensibilidade da pronúncia é, simplesmente, uma questão de tempo, de integração. mesmo o português de Portugal pode criar dificuldades a um português, se a pessoa que fala for de certas zonas da Beira Baixa ou da Ilha de S. Miguel, ou de certos lugares da Madeira. isso não faz com que a pessoa que fala fale beira-baixês, micaelense ou madeirense.
é impossível falar uma língua regular, uniforme, imutável e "sem sotaque". mesmo uma língua morta, na sua uniformidade e regularidade de defunta, é mutável e tem o sotaque e a pronúncia individual de quem a usa.
a língua não é de ninguém, sob pena de só existir na boca de quem a fala.
vem isto a propósito de um incidente ocorrido quando da visita de Saramago ao Brasil. falando num português de Portugal, o nosso escritor causou estranheza aos falantes brasileiros, pouco habituados a quem fala depressa, complicado e ainda por cima fechado. alguém lhe fez notar a dificuldade, apontando-lhe o problema do "sotaque".
ofendido - suponho - , o nobelado respondeu: "a língua é minha, o sotaque é seu"...
mas...que diabo deu a Saramago, para falar uma língua dele - e ainda por cima sem "sotaque"?



segunda-feira, 1 de maio de 2006

A Estranha Toponímia da Região de Coimbra



Coimbra, cidade de encontro entre o Norte e o Sul, o Ocidente e o Oriente, manifesta na Toponímia esse encontro secular de civilizações, línguas e etnias. são muitos os topónimos "estranhos", alguns deles sem paralelo no resto de Portugal e da Península.
Coimbra foi uma cidade "moçárabe", o que significa uma espécie de mestiçagem entre um fundo de língua e religião cristãs e um domínio político, cultural e administrativo árabe. mas o fenómeno da mestiçagem norte-sul e leste-oeste, em Coimbra, remonta a épocas muito mais antigas.
tantas são as raridades num raio de 40 km em volta desta cidade, que a todo o momento nos deparamos com a nossa incerteza e ignorância, mas também curiosidade, a respeito de Toponímia


Adémia - ao que parece, é um topónimo de meio rural e significará "uma terra que fica entre monte e várzea", "terreno cultivado", "terra de qualquer cultura". há vários locais que mereceriam esse nome, mas só conheço esta "Adémia"

Alcabideque - palavra híbrida do árabe al- e do latim caput: "a cabeça de água", "a fonte". é a nascente que abastecia de água a cidade romana de Condeixa-a-Velha, identificada como Conímbriga. mais a sul, na região saloia, existe a variante "Alcabideche" com o mesmo sentido

Alcarraques - seria uma povoação especializada no fabrico de alpergatas ou sapatos de lona, uma vez que al-qarraq, em árabe, é "o que faz alpergatas"

Almalaguês - palavra híbrida, al-malaguês, este topónimo há-de ter relação com "Málaga", ou com pessoa ou pessoas de lá

Almas de Freire - significa "as alminhas (cruzamento com "alminhas") de Freire". o problema é este "Freire"

Almegue - do árabe: "porto", "vau", "lugar de onde se atravessa (o rio)". existe em vários concelhos entre o Mondego e o Tejo

Anaguéis -

Andorinha - será um topónimo muito antigo, provavelmente de origem (proto-) euskera

Antanhol -
Antuzede -
Ardazubre  -
Arregaça
Arzila 

Assafarge - esta grafia não será a mais correta. a sua origem arábica impõe que se escreva "Açafarge". no entanto, mesmo de origem árabe, o topónimo pode ter diferentes significados, embora todos relacionados com o mundo rural

Bencanta  topónimo de possível origem árabe
Bendafé
Bom Velho de Baixo
Bom Velho de Cima
Bordalo
Brasfemes 
Buarcos - origem desconhecida.

Cadima  do árabe, significa "a velha", querendo exprimir a antiguidade da povoação para quem lhe deu esse nome. se aqui se falasse tupi-guarani, o nome seria "Aracajú"

Calhabé  nos fins do séc. XIX houve uma figura típica de Coimbra, das muitas que a cidade produziu, que tinha por alcunha "o Calhabé", célebre pela sua devoção ao divino licor de Baco. O nome é provavelmente arbitrário, criação de estudantes boémios. o pequeno lugar de subúrbio, onde havia uma taberna, é hoje uma zona nobre da cidade

Casconha  gente importante diz que "Casconha" virá de "casca". duvido. a terminação -onha,, como em "Bretonha" e "Bergonha", é uma referência étnica. pode estar por "Gasconha" ou "Vascónia": "terra de bascos"

Cioga do Campo - há quem diga que seria "Sioga", de "Sinagoga". outros dizem que é um vocábulo pré-romano, o que parece mais sensato

Cioga do Monte - se "Cioga" fosse "sinagoga", haveria uma no campo e outra no monte, o que me parece forçado e um tanto fora de sítio. ver esse post

Coiço -
Conraria -

Corujeira - este topónimo repete-se em Portugal e na Galiza (onde também aparece sob a grafia "Coruxeira"). muitos há que defendem que resulta da abundância de corujas. o certo é que há mais corujas noutros lugares que não levam esse nome, e há "Corujeiras" onde a coruja nunca piou. penso que, tal como em "Coruche", a origem estará em "cruze": "cruzamento". ver esse post

Coselhas - em documentos medievais aparecem as grafias: Cosilias, Cozelias, Cuzelias, Cozilias e Cuzelas. será variante dialetal de "Casilhas"?

Cunhedo - lugar onde há (muitos) "cunhos" ou "conhos", isto é, penedos. este lugar fica numa zona onde o Rio Mondego corre num leito escarpado e pedregoso, propício à construção de barragens

Degracias -
Ega - topónimo antigo, ainda indecifrado

Ereira - há quem diga que vem do latim, de agraria. tem um porém: fora do leito do Rio Mondego existem terras bem melhores para merecer esse nome

Fala - topónimo ainda indecifrado

Formoselha - só aparentemente é de origem latina. por isso, não creio que deva alguma coisa a "formosura". mais provável é uma origem germânica, que contenha "fruma" (primeiro) e "sindus" (caminho): "estrada principal"? é um topónimo aparentado de muitos outros em "Formose...", "Fermose...", "Fremose...", tanto em Portugal como na Galiza e em León, independentemente da beleza da paisagem

Ingote -
Liceia - este topónimo pode ter origem euskera ou celta, com óbvia diferença de significado consoante a origem. se a origem é celta, pode ser aparentado a "Leixões" e significar "rochedo". se a origem é basca, terá uma raiz "leku" que significa "lugar" (+ ...)

Lôgo de Deus -

Lordemão - de "nordman" (viking)? os vikings foram conhecidos por nordmanni, lormanes e leodomanni . ver aqui.

Orelhudo -

Porto da Raiva - último ponto até onde o Rio Mondego era navegável, antes das obras de regularização do caudal do rio e de irrigação da Região do Baixo Mondego. daí partiam e aí chegavam as barcas serranas e a apreciada lampreia, que marcou a gastronomia da região. correm várias opiniões sobre a origem do topónimo "Raiva". a origem latina, de "rapida" (fortes declives do leito do rio), peca por ser a partir da "Raiva" que deixa de haver esses declives. ouvi, em tempos, uma explicação curiosa: seria "Porto de Arraiva" e não "Porto da Raiva", e quereria dizer "porto até onde se pode chegar" (arribar), "porto de chegada". mas nem tudo o que faz sentido é necessariamente verdade. creio, aliás, tratar-se de um termo pré-romano, euskera ou proto-euskera, pois que "rabia" existe em zonas ibéricas de toponímia basca onde não houve influência do latim. exº: "Fuenterrabia", uma castelhanização de Hondarribia, que em euskera significa "Vau do Areeiro" ou "Vau do Areal"

Poutena - não sei nem encontrei quem saiba o que significa "Poutena", nem a sua origem linguística. sei que no Grego Moderno "poutenà" significa "lugar nenhum", "nenhures". mas isso é em Grego Moderno, e a pronúncia é diferente

Quiaios - tal como "Quimbres" e "Quinhendros", "Quiaios" é uma povoação junto da água, neste caso do mar, enquanto "Quimbres" e "Quinhendros" ficam junto do rio Mondego. é preciso notar que o Baixo Mondego sofreu grandes mudanças ao longo dos séculos e que há dois ou três mil anos teria um aspecto muito diferente do actual, talvez uma grande ria. a primeira parte da palavra, "Qui-", "Quin-" tem uma forte probabilidade de significar "Porto", tanto mais que outras povoações ribeirinhas do Mondego e com características idênticas se chamam "Porto da Raiva", "Porto de Meãs", "Porto Godinho", "Portunhos". (ver "Almegue"). a segunda parte da palavra qualificaria o porto. este trio, talvez pela dificuldade que apresenta, tem sido pouco estudado. será fenícia a origem? de certo sabe-se que existiu uma feitoria fenícia em Santa Ovaia, Montemor-o-Velho. "Quiaios" é uma aldeia de pescadores. a sua população tem, além disso, uma característica genética oriental: é uma zona endémica da "Doença dos Pèzinhos", "PAF" ou, agora que mandam os americanos, "Doença de Machado Joseph"

Quimbres - ver "Quiaios"
Quinhendros - ver "Quiaios"
Raiva - ver "Porto da Raiva"
Reveles -

Souselas - topónimo de difícil interpretação. ver post

Tentúgal - topónimo pré-latino. a terminação -gal sugere uma origem celta

Trevim -

Trouxemil - será topónimo de origem germânica (sueva). Coimbra, e a sua Região, fez parte da Galiza Sueva

Verride - provável origem pré-romana
Zorro -

Zouparria - topónimo intraduzível, de momento, embora a terminação -ia pareça árabe

Zouparria do Monte -

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