sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Da Gardunha à Corunha

tenho evitado falar da Corunha, tantas e tão desencontradas são as hipóteses etimológicas para a capital provincial galega cujo nome é, seguramente, o mais antigo das quatro. e tamém não será desta vez que trato do assunto como deve de ser. mas, numa nova visita à Cova da Beira, vim cos ouvidos de dentro a ressoar -unha", "-unha", "Gardunha", "Corunha". que é que querem? uma cousa alembra a outra...
dizem, certamente com razão, que por ali houve uma cidade romana de nome celta, Brigantia, ou Flavium Brigantium (Ballester, 1997). mas como de Brigância não há herdância (1), é preciso descobrir de onde apareceu a Corunha, que é nome mais velho.
antes do mais, o artigo definido (A) que precede o nome (Corunha): indica, como nos outros casos, que a palavra "Corunha é um substantivo comum. este costume de grafar o artigo, infelizmente perdido em Portugal e no Brasil, ajudaria a resolver tanto disparate que por aí se escreve e forneceria pistas preciosas aos estudiosos da Toponímia. e como há várias "Coruña" no norte da Península, é de supor que o substantivo fosse bastante conhecido do povo.
a terminação ou sufixo "unha" (ou "uña", se quiserem - pra mim é igual) é muito rara na Toponímia galego-portuguesa e tem o condão de parecer acentuar a altitude do lugar. é pré-indo-europeia, talvez da família do actual euskera - ver "Iruña".
quer dizer que estaríamos na presença de dois orotopónimos, em que "Cor-","Cr-" apontaria para a presença de um núcleo populacional amuralhado no alto de um monte (é o caso d'A Corunha, ou d' A Crunha) e "Gard-" apontaria para a ideia de "Vigia", "Vela", "Aveleira" (é o caso da Gardunha).
certo é que Corunha é, linguisticamente, palavra mais recuada que Brigantia ou Brigantium, pelo que tenho de admitir que o núcleo mais antigo perviveu sobre a destruição do mais recente e a dispersão dos respectivos habitantes.

Capeloso (ver Comentº) fez o favor de juntar Visunha ao pequeno rol dos topónimos terminados em "-unha". a propósito disso, duvido da filiação do sufixo em "-onia", pois que habitualmente gera a terminação "-onha" (Bretonha, Bergonha,...), não "-unha".

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(1) é claro que há Bergantiños, Cabana de Bergantiños e Malpica de Bergantiños, mas não ficam na Corunha-cidade. indicam que os respectivos habitantes são originários de uma "Bergança" ou Brigantia que desapareceu do mapa

4 comentários:

Capeloso disse...

Olá novamente, mais um nome:
Visunha.
Visunha é umha aldeia do Courel, metida num val fundo de só três caminhos, dous deles complicados. Um refúgio rodeado de altos.
Houvo um mosteiro, e dizem que ali foi educado um rei-menino.
Viso-onia?
Guarda-onia?
Cor-onia?

o viajante disse...

olá,
tenho andado um pouco por aqui e por ali. só agora vi o comentário. é uma excelente achega.

O disse...

Mais outras dúvidas:
Os subfixos -onha/-onho e -unha/-unho?

O Viso, Visunha, Vizonho, Visonho: Lugares desde onde se divisa, e quando é muito o divisado vai o subfixo, pejorativo ou aumentativo?

Em Tras os Montes e nalgumhas zonas da Galiza: CARUNHA é frequente. Infelizmente na zona ártabra é mais comum "carambunha, carabunha ou cagunha" para o osso da froita.

Estas palavras estám mui próximas a carronha, caronha, do latim caro, carne, com proximidades de carnaça, carcasa, é com família no francês, italiano e inclusive inglês,(onde crone, bruxa, viria de carogne, carronha).

Topónimos como Carinho poderiam andar-lhe próximos. Há um Carinho na entrada da Ria de Ferrol, perto do grande porto exterior, além do Carinho do Norte na Ria de Ortigueira. Areais e esteiros que fazilmente dam cheiro forte "puzzolente".

Darredor da Corunha:
Ledonho
Vionho
Centronha
Carantonha
Doronha.

A Corunha foi ilha, unida á terra por vezes, inclusive o seu velho nome inglês "The Groyne" fai referência a contruçom de madeiras que impedia que as ondas do Orçam e Riaçor comessem o itsmo de area.

Talvez de Carunha a Corunha haja moita distância.
Mas bem seguro, que feder, fedia quando se cruzava o esteiro lamacento.

O disse...

Sobre Visunha dizer que em documentos medievais Visonia é o seu nome.